Mensagens

A mostrar mensagens de dezembro, 2025

Please do not disturb!

Imagem
  Adormeci a pensar que há dias que não pedem mais do que isso: um final bonito, uma melodia persistente e a certeza íntima - quase arrogante - de que, por instantes, estivemos exatamente onde devíamos estar. Despertei com o mesmo sentido: sereno, como se a noite tivesse passado a ferro as inquietações. Fui à janela. O Adriático estendia-se diante de mim com aquela calma que só o mar conhece quando já viu tudo. Espreitei-o como quem se despede sem dramatismos, com a elegância discreta de um “até breve” dito em silêncio. O céu não exibia um sol aberto; preferia uma luz filtrada, amena, cúmplice - dessas que não queimam a pele nem os pensamentos. Rejuvenesci num banho refrescante, quase ritualístico, como se a água lavasse não só o corpo, mas também as camadas de ontem. Depois, a sala de pequenos-almoços recebeu-me com promessas simples e eficazes: café forte, pão com manteiga, fruta fresca… e, contra todas as probabilidades do meu histórico pessoal, ovos escalfados. Confesso: se...

Há uma solidão profunda em ser pobre num lugar desenhado para o prazer!

Imagem
  A noite foi um sonho sonhado - redundância necessária, porque havia sonhos que sonham o sonhador. Uma experiência vívida, dessas que se infiltram na pele e ficam, como sal depois do mar. Era fantasia e desejo profundo, mas também preocupação: um ensaio torto da realidade, um laboratório do inconsciente onde medos e vontades ensaiavam passos que eu não soube interpretar. Talvez nunca se saiba. Talvez o mistério seja a única interpretação honesta. Abri a janela. E lá estava ele. O mar Adriático sussurrava promessas de um romance intemporal, desses que não precisam de nomes nem finais felizes. A sua beleza não era apenas visual - era uma sinfonia sensorial, um acordo secreto entre luz, som e cheiro. Fiquei em silêncio, como quem respeita um templo, e continuei a sonhar acordado: caminhávamos de mãos dadas, eu e a mulher da concha, ao longo da praia, enquanto a água azul-turquesa, cristalina e quase indecente de tão perfeita, beijava a areia com a delicadeza de quem sabe seduzir. A...

Troquei os olhos com a história da gravata!

Imagem
  Quando me despedi de Sarajevo, fiquei dividido como um mapa rasgado ao meio. Metade de mim partiu pela estrada, obediente ao relógio e ao motor quente; a outra metade ficou ali, suspensa no abraço de Azra, ancorada no calor humano da cidade. Há adeuses que não cabem nas palavras - e aquele foi um deles. Um adeus com peso específico, desses que fazem a garganta fechar e os olhos brilhar de forma traiçoeira. A lágrima que escorreu não sabia se era de felicidade ou de tristeza; talvez fosse de ambas, misturadas numa química perfeita. A ansiedade de partir empurrava-me para a frente, enquanto a dor de deixar um lugar mágico, habitado por pessoas preenchidas de história e alma, me puxava para trás. Sarajevo não se despede: fica a viver dentro de nós, como uma música que não se consegue desligar. Depois parti. A estrada abriu-se como um longo suspiro entre montanhas e vales, uma fita de asfalto costurada por paisagens que pareciam pintadas à mão. A Bósnia e Herzegovina acompanhou-me ...

Aqui em Sarajevo, tudo é intenso…

Imagem
  Sarajevo acorda devagar, como quem já viu demasiado e ainda assim insiste em sonhar. Muitas vezes chamada de Jerusalém da Europa, a cidade esconde entre montanhas cúmplices e ruelas otomanas uma mística que mistura melancolia, resiliência e uma paixão profunda - dessas que não gritam, mas deixam marcas. Quando o sol entrou pela janela, atrevido como um amante sem modos, tocou-me o rosto para me acordar. Abri os olhos nesta cidade enigmática e ela, a mulher da concha, já lá não estava. Dissolveu-se no meu sonho como neblina sobre o Miljacka. Restava o perfume de mar - inexplicável, mas real - a dobra quente dos lençóis e a certeza inquietante de que os nossos encontros existem apenas para nos ensinar a lembrar. Aqui em Sarajevo, tudo é intenso. Diz a lenda que o amor de um homem pela sua casa foi maior do que a vontade do Império Austro-Húngaro. Quando quiseram construir a Câmara Municipal, a Vijecnica, exigiram que ele vendesse a sua casa. Aceitou, mas impôs uma condição: que...

Se o Natal fosse celebrado na rua, deixaríamos de nos sentir perdidos, numa casa que é só nossa, porque a chave do amor não roda na fechadura.

Imagem
  Acordei devagar e feliz, como quem regressa de um sonho bom sem pressa de abrir os olhos ao mundo. A luz da manhã entrava tímida pelo quarto e eu, cúmplice desse instante, espreitei por entre as cortinas a vista soberba sobre o rio Sava, largo, sereno, quase solene. Observei-o como se lhe dissesse adeus - não um adeus triste, mas daqueles que se dizem com gratidão, quando sabemos que algo belo já nos pertenceu por um momento. Dentro de mim fervilhava a ideia da viagem que tinha pela frente até Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina. Era um entusiasmo calmo, maduro, de quem se sente orgulhoso por continuar a descobrir o mundo, mesmo sabendo que o mundo também nos descobre a nós. Um banho fresco devolveu-me a vitalidade. A água escorria pelo corpo como se apagasse os últimos vestígios do sono e acendesse a curiosidade. O resto da energia recuperei na sala de pequenos-almoços, onde o aroma do café forte se misturava com o pão torrado a derreter lentamente a manteiga - uma sinfonia simp...

Quem regressa de uma viagem sem ter dado um pouco de si - volta com os olhos cheios de paisagens, mas com a alma por habitar.

Imagem
  Não posso dizer que despertei em Belgrado naquele quarto com uma vista soberba para o rio Sava, porque só desperta quem dorme - e só dorme verdadeiramente quem encontra repouso na alma. A minha noite fora um intervalo de arrepios. Belgrado estava fria e eu, imprudente, deixara-me ir mal agasalhado, como se o corpo pudesse ignorar o inverno quando o espírito insiste em viajar. A garganta ardia, a cabeça pesava, e havia no corpo aquele cansaço febril que nos faz sentir estrangeiros dentro de nós mesmos. Levantar da cama não era um impulso de coragem, mas uma necessidade silenciosa de sobrevivência. Como se não bastasse, Zora ligou-me cedo. A voz vinha frágil do outro lado da linha - também engripada. Talvez só à tarde pudesse encontrar-me. As viagens não são feitas apenas de postais luminosos; muitas vezes exigem resiliência, improviso, e a humildade de aceitar que, quando estamos sozinhos, somos tudo o que temos. Vesti-me com esforço, cada movimento um pequeno ato de resistência...