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A mostrar mensagens de abril, 2026

E então nasce a ditadura – ou escravatura - da imagem. Uma tirania subtil, silenciosa, onde não há leis escritas, mas há punições claras.

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Despertei em Monaco-Ville com a mesma sensação com que adormeci - um eco persistente, como se a noite não tivesse terminado, apenas mudado de luz. Há algo de estranhamente constante no que julgamos efémero: todos os dias são diferentes, mas todos carregam uma repetição silenciosa, quase irónica, como uma piada interna que o tempo insiste em contar. Basta inclinar o olhar, só um pouco, e lá está - o mundo tingido num cinzento discreto, não deprimente, mas pensativo… como se também ele estivesse a ponderar as suas escolhas. Valeu-me o banho. A água a cair não como rotina, mas como absolvição -  fria o suficiente para acordar o corpo, quente o bastante para convencer a alma a ficar. Valeu-me o café da manhã, esse ritual quase sagrado: o aroma do café acabado de fazer a infiltrar-se nos pensamentos ainda turvos, e o pão quente, estaladiço, a desfazer-se lentamente sob a manteiga, como um romance breve, mas intenso, daqueles que sabemos que não duram… e ainda assim repetimos. E depo...

É curioso - ou talvez trágico - que vivamos num mundo onde uns morrem de fome e outros de apetite!

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Despertei com a sensação - não, com a certeza quase insolente - de que o dia não se limitaria a acontecer. Ele conspiraria. Traria mais do que emoções; traria revelações, dessas que se insinuam primeiro na pele antes de ousarem tocar o pensamento. Monaco-Ville, empoleirada no seu rochedo como uma velha aristocrata que já viu demasiado para se impressionar com pouco, recebeu-me com aquele charme indecorosamente perfeito. Ruas estreitas, fachadas em tons pastel, varandas rendilhadas de flores - tudo parecia ter sido cuidadosamente ensaiado para seduzir visitantes com uma versão higienizada do passado. Um conto de fadas… mas daqueles em que ninguém menciona o preço do bilhete. Depois do ritual matinal - aquele conjunto de gestos mecânicos que nos dão a ilusão de controlo - lancei a mochila às costas, recolhi algumas dicas na receção e avancei, sapatilhas no terreno, como quem entra numa história sem saber ainda se será protagonista ou vítima. E então senti. Aquela estranheza subtil,...

“Será que esta pessoa encaixa na minha vida?” ou “que vida posso construir com esta pessoa?” Parece subtil, mas muda tudo.

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Despertar em Lyon com o mesmo sentimento com que adormeci é uma espécie de milagre discreto - como se a noite não tivesse ousado tocar naquilo que ficou suspenso entre mim e o mundo. Há cidades que nos marcam. E há pessoas que fazem essas marcas doer um pouco mais quando partimos. Lyon ficou-me na pele, mas Catherine… Catherine ficou-me num lugar menos anatómico e mais perigoso. Eram seis da manhã. O sol ainda não tinha despertado e eu já estava de pé, fiel ao ritual que me impede de me perder completamente: café forte, quase indecente, a invadir o ar com aquele aroma escuro que parece prometer redenção, e pão quente, estaladiço, a ceder à manteiga como se fosse feito para aquele exato instante. Há prazeres tão simples que parecem insultar a complexidade das emoções humanas - e, no entanto, salvam-nos. Depois, o abraço. O abraço da Catherine não era apenas um gesto; era uma pausa no tempo, uma espécie de acordo silencioso entre dois corpos que sabiam mais do que as palavras permiti...

Sim, é confuso. É suposto ser. Há uma espécie de magia negra emocional nisso tudo.

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Despertar em Lyon foi mais do que abrir os olhos - foi abrir um território inteiro dentro de mim. Como se cada sentido tivesse passado a noite em vigília, à espera do instante exato em que eu me permitiria sentir de novo. Esfreguei os olhos com a lentidão de quem não quer acordar completamente, não por preguiça, mas por respeito ao silêncio que ainda pairava no quarto. Quando abri a janela, lá estava o Saône, imóvel e cúmplice, como um velho amante que sabe esperar. Não corria - insinuava-se. Havia qualquer coisa naquele rio que não convidava: provocava. Fechei a janela com a estranha sensação de estar a interromper um diálogo. No banho, a água escorria como memórias que ainda não tinham acontecido. Vesti roupa leve, quase despreocupada, como se a cidade exigisse pele disponível. Ao abrir a porta do quarto, fui imediatamente sequestrado por um aroma - café forte, decidido, quase arrogante, misturado com o cheiro quente e estaladiço do pão acabado de sair do forno. Era um mapa invisív...

Há cidades que não são apenas lugares - são declarações de princípios.

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Despertei em Lausanne com o coração ainda morno, como se tivesse passado a noite embrulhado em memórias que respiravam devagar, sem pressa de me deixar acordar completamente. Havia dias assim - raros, quase clandestinos - em que a alma acorda antes do corpo e decide ficar um pouco mais, a contemplar o que foi vivido, como quem folheia um livro que não quer terminar. Mal abri os olhos, deixei que o olhar vagueasse pelo quarto. A decoração não era apenas bonita - era deliberadamente romântica, quase provocadora. Havia uma intenção ali, uma espécie de conspiração silenciosa entre a luz suave, os tecidos escolhidos com cuidado e os pequenos detalhes que denunciavam um coração apaixonado por detrás daquela criação. Sorri sozinho. Quem quer que tivesse desenhado aquele cenário conhecia bem o estado de estar apaixonado - essa doce vertigem que nos torna simultaneamente ridículos e sublimes. Porque, sejamos honestos, o amor é talvez a única loucura socialmente aceite… e até incentivada. Le...