“Será que esta pessoa encaixa na minha vida?” ou “que vida posso construir com esta pessoa?” Parece subtil, mas muda tudo.
Despertar
em Lyon com o mesmo sentimento com que adormeci é uma espécie de milagre discreto
- como se a noite não tivesse ousado tocar naquilo que ficou suspenso entre mim
e o mundo. Há cidades que nos marcam. E há pessoas que fazem essas marcas doer
um pouco mais quando partimos. Lyon ficou-me na pele, mas Catherine… Catherine
ficou-me num lugar menos anatómico e mais perigoso.
Eram
seis da manhã. O sol ainda não tinha despertado e eu já estava de pé, fiel ao
ritual que me impede de me perder completamente: café forte, quase indecente, a
invadir o ar com aquele aroma escuro que parece prometer redenção, e pão
quente, estaladiço, a ceder à manteiga como se fosse feito para aquele exato
instante. Há prazeres tão simples que parecem insultar a complexidade das
emoções humanas - e, no entanto, salvam-nos.
Depois,
o abraço. O abraço da Catherine não era apenas um gesto; era uma pausa no
tempo, uma espécie de acordo silencioso entre dois corpos que sabiam mais do
que as palavras permitiam confessar. Convidei-a para visitar Portugal, o Gerês,
claro, como quem atira uma garrafa ao mar sem saber se deseja realmente que
alguém a encontre. Ela sorriu - aquele sorriso perigoso, meio promessa, meio
despedida - e aproximou-se mais. O segundo abraço demorou mais do que seria
socialmente aceitável. Talvez tenha havido um beijo. Ou talvez tenha sido
apenas um daqueles quase-beijos que são ainda mais cruéis, porque vivem para
sempre no território da dúvida. Há registos que permanecem, não no fundo da
memória, mas numa superfície invisível, onde ninguém os vê - nem nós próprios,
até ao momento em que algo os rasga de novo para fora.
Saí
de Lyon com essa sensação estranha de continuidade interrompida. A estrada até
ao Mónaco-Ville era longa, mas havia em mim uma urgência tranquila, como se
cada quilómetro fosse uma tentativa de compreender o que deixava para trás.
A
caminho de Grenoble, a paisagem começou a transformar-se como uma pintura que
alguém vai retocando à medida que avançamos. O cinzento urbano dissolveu-se em
verdes profundos, daqueles que não se descrevem, apenas se absorvem. As árvores
alinhavam-se como cúmplices silenciosas, e as montanhas, ainda com vestígios de
neve, erguiam-se com uma arrogância tranquila.
A
luz da manhã, finalmente desperta, espalhava-se pelas encostas com uma
delicadeza quase indecente, tocando cada folha, cada pedra, como se estivesse a
redescobrir o mundo. Havia momentos em que a estrada serpenteava de tal forma
que parecia convidar-me a perder-me - e confesso que considerei aceitar.
No
carro, a música fazia o resto. Canções românticas, daquelas que nos fazem
acreditar em versões ligeiramente melhores de nós próprios. A voz suave de um cantor
qualquer - provavelmente demasiado apaixonado para ser feliz - acompanhava-me
enquanto os meus pensamentos se soltavam, livres, perigosamente livres.
E
foi então que me lembrei do casal na receção do hotel, naquela manhã cedo
demais para conflitos conjugais, mas aparentemente perfeita para eles. Estavam
ali, lado a lado, mas separados por um silêncio espesso, quase palpável. Ele,
com um ar resignado, como quem já desistiu de vencer discussões. Ela, com
aquele olhar afiado que diz “não acabou”, mesmo quando tudo já acabou há anos.
Talvez
tivesse sido uma noite mal dormida. Ou talvez tenha sido uma relação de
pequenas frustrações acumuladas, a transbordar num quarto de hotel demasiado neutro
para suportar emoções tão específicas. Pensei neles enquanto conduzia, e não
consegui evitar um sorriso sarcástico.
O
problema não é a falta de amor. É o excesso de forma! Há uma idade em que o
amor deixa de ser promessa e passa a ser inventário. Aos 50, não se entra numa
relação - negocia-se uma fronteira. O “Eu”, sólido como vidro temperado, já não
se molda com o calor de um olhar. E o “Nós”, essa palavra que na juventude
parecia um milagre espontâneo, transforma-se numa construção civil: exige planta,
orçamento, licenças emocionais e, inevitavelmente, algum ruído de obras.
Claro
que não há regras sem exceção. O problema não é a falta de amor. É o excesso de
forma. Há décadas que cada gesto foi afinado: a maneira como se dobra a toalha,
o silêncio depois de uma discussão, o vício pequeno que já não é negociável
porque é identidade disfarçada. O outro chega - não como uma página em branco,
mas como um livro já sublinhado, com margens ocupadas e capítulos que ninguém
quer reescrever. E então começa o embate subtil: não entre duas pessoas, mas
entre dois sistemas fechados.
Curiosamente,
já não se procura vertigem. As “borboletas no estômago” deram lugar a algo mais
pragmático: um porto de abrigo. Só que ninguém avisa que dois portos, quando se
encontram, podem transformar-se num engarrafamento de barcos ancorados, cada um
a defender o seu espaço de mar.
As
mulheres, muitas vezes, chegam cansadas de amar em modo prestação de serviços.
Foram cuidadoras, gestoras invisíveis, arquitetas emocionais de famílias
inteiras. Não procuram um projeto - procuram presença. Querem ser vistas, não
apenas úteis. Há nelas um cansaço elegante, quase silencioso, que pede colo,
mas não aceita mais tarefas disfarçadas de amor.
Os
homens, por sua vez, chegam com uma espécie de pragmatismo afetivo que roça o
utilitário. Procuram estabilidade, alguém que ajude a organizar o caos que
nunca admitiram ter. Querem companhia, sim - mas também logística emocional,
manutenção da saúde, uma certa ordem que nunca aprenderam a criar sozinhos.
Amor, aqui, mistura-se perigosamente com conforto funcional.
E
no meio disso tudo, entra o dinheiro. Ah, o romance dos extratos bancários…
poucas coisas matam mais rapidamente a poesia do que a suspeita de um
desequilíbrio financeiro. Não é apenas sobre ter ou não ter - é sobre risco.
Ninguém quer perder o que levou uma vida inteira a construir, nem herdar
dívidas que não contraiu. O amor passa a ser acompanhado por uma folha de
cálculo invisível. E, sejamos honestos, o Excel raramente escreve poemas.
Mas
há algo ainda mais complexo: o passado que não passa. Os filhos - adultos,
independentes, mas emocionalmente omnipresentes - não são figurantes. São
forças ativas. Lealdades invisíveis puxam em direções opostas. O novo parceiro
não compete apenas com memórias; compete com vínculos de sangue, com histórias
partilhadas, com culpas antigas e afetos que não se renegociam.
E
depois há os divórcios mal resolvidos, essas espécies de fantasmas
administrativos e emocionais que continuam a assinar documentos na vida
presente. Não é raro que uma ex-relação ocupe mais espaço psicológico do que a
atual. Não por amor, mas por inércia.
Então,
o que é afinal o amor de segunda viagem? É menos épico, mas mais honesto. Menos
impulsivo, mas mais consciente. Só que essa consciência traz um problema:
expectativa programada. Já não se entra num relacionamento para descobrir -
entra-se para validar hipóteses. “Será que esta pessoa encaixa na minha vida?”
em vez de “que vida posso construir com esta pessoa?” Parece subtil, mas muda
tudo. E aqui nasce o risco silencioso: relações que falham não por falta de
sentimento, mas por excesso de critérios.
Há
quem procure o sonho que ficou por viver - uma espécie de juventude atrasada,
com direito a paixão cinematográfica e finais redentores. Outros procuram
apenas paz, alguém com quem dividir o silêncio sem desconforto. O problema
começa quando um quer fogo e o outro quer lareira. Ambos são calor - mas não
aquecem da mesma forma.
E
sim, há falsas expectativas. Muitas. Porque aos 50 já se sabe o que se quer -
mas raramente se aceita o que isso implica. Quer-se companhia, mas sem invasão.
Intimidade, mas com território. Amor, mas sem abdicação. É como querer dançar
um tango sozinho e culpar a música.
O
mais irónico? Ainda é possível amar profundamente nesta fase. Talvez até mais -
porque já não há ilusões sobre eternidades. Mas esse amor exige algo que poucos
estão dispostos a oferecer: flexibilidade tardia. Não aquela que vem da
ingenuidade, mas a que nasce da escolha consciente de ceder.
E
ceder, aos 50, não é fraqueza. É quase um ato revolucionário. No fundo, o
verdadeiro embate não é entre o “Eu” e o “Nós”. É entre o “Eu que fui” e o “Eu
que ainda posso ser”. O outro apenas revela essa tensão. E talvez o amor de
segunda viagem não seja sobre encontrar alguém perfeito - mas sobre aceitar que
a imperfeição, quando partilhada sem teatro, pode ser a forma mais crua e bela
de equilíbrio.
Ou,
dito com menos poesia e mais sarcasmo: amar depois dos 50 não é para
principiantes - é para quem já sobreviveu a si próprio… e ainda assim decide,
meio desconfiado, tentar outra vez.
Parei
em Grenoble para almoçar. A cidade recebeu-me com aquela elegância discreta de
quem não precisa de impressionar. Sentei-me numa esplanada, pedi algo simples -
porque há dias em que a comida deve acompanhar, não competir - e observei. As
pessoas passavam com as suas vidas organizadas, previsíveis, talvez até
felizes. Ou talvez não. Nunca se sabe. Ninguém anda com legendas.
Enquanto
comia, dei por mim a tocar nos lábios, quase involuntariamente, como se
procurasse confirmar algo que a memória insistia em tornar ambíguo. Ri-me
sozinho. A verdade é que não importa se houve beijo ou não. O que importa é que
senti como se tivesse havido. E isso, para alguém como eu, já é perigosamente
suficiente.
Depois
levantei-me e fui espreitar um pouco da cidade. Grenoble, conhecida como a
“Capital dos Alpes”, parecia respirar um equilíbrio quase impossível entre a
memória e o futuro. Havia algo de inquietante na forma como as montanhas a
abraçavam - não como um refúgio, mas como um lembrete constante de que tudo ali
era transitório, até a própria grandeza. As ruas fervilhavam com a energia de
estudantes, ideias, bicicletas que deslizavam como pensamentos apressados. Senti
que a cidade não se limitava a existir - ela argumentava, questionava,
reinventava-se a cada esquina.
Mas
o tempo, esse tirano elegante, não me deixou espreitar mais. Ainda tinha muitos
quilómetros para percorrer até Monaco-Ville. Voltei à estrada. E que estrada. O
asfalto desenrolava-se à minha frente, serpenteando por vales e encostas com
uma precisão quase poética. Havia um silêncio cúmplice entre mim e o horizonte,
interrompido apenas pelo ronronar constante do motor e pelo sussurro do vento
que entrava pela janela entreaberta. As pequenas povoações surgiam como
segredos partilhados - casas de pedra com janelas floridas, cafés onde o tempo
parecia ter desistido de correr, velhos sentados à sombra com olhares que
carregavam mais histórias do que qualquer livro ousaria conter.
A
natureza, essa artista sem vaidade, abusava das cores: verdes profundos que
quase doíam de tão vivos, amarelos tímidos que se escondiam entre campos
ondulantes, e um céu que oscilava entre o azul confiante e tons mais melancólicos,
como se pressentisse a chegada da noite. Houve momentos em que tive vontade de
parar - não por cansaço, mas por respeito. Certas paisagens exigem
contemplação, não passagem.
Mas
continuei. Mónaco recebeu-me já com o céu carregado, as estrelas escondidas por
nuvens densas. Havia algo de teatral naquela chegada - como se a cidade tivesse
decidido não se revelar por completo logo de início.
Quando
cheguei ao hotel, mesmo em frente à praia do Larvotto, fui surpreendido por uma
sensação inesperada de pertença. Não era apenas luxo - era cuidado. Um charme
discreto, quase íntimo. A receção acolheu-me com uma simpatia que roçava o
exagero, mas de forma tão genuína que me fez sorrir. Fui tratado como um
príncipe - não pelo protocolo, mas pelo olhar atento, pela forma como
antecipavam gestos, como se já me conhecessem de outras vidas.
O
quarto era um refúgio. Suave, silencioso, com janelas abertas sobre o mar que
respirava lentamente na escuridão. Havia uma sensualidade subtil naquele espaço
- não provocadora, mas envolvente. Como um abraço que não pede permissão.
Depois
de pousar as malas, deixei que a água do banho me levasse o peso do dia. Cada
gota parecia dissolver não só o cansaço, mas também os pensamentos excessivos -
e isso, confesso, é um luxo ainda maior do que qualquer hotel pode oferecer.
Saí
para petiscar qualquer coisa antes que o corpo reclamasse descanso definitivo. A
pequena petisqueira junto à praia tinha uma luz quente e imperfeita, dessas que
fazem tudo parecer mais honesto. O cheiro do mar misturava-se com o aroma de
comida simples, bem-feita, sem pretensões. Sentei-me perto da areia, ouvindo o
ritmo das ondas enquanto saboreava cada pedaço com uma atenção quase
cerimonial. Havia vida ali - risos, conversas cruzadas, olhares que se encontravam
e se perdiam. E, no meio disso tudo, uma sensação tranquila de anonimato.
Ninguém me conhecia. Ninguém esperava nada de mim. E isso era, estranhamente,
libertador.
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Quando
regressei ao quarto, o cansaço já não era um inimigo - era um convite. Despejei
a roupa, coloquei os fones, e deixei-me cair na cama com a leveza de quem sabe
que cumpriu o dia.
Adormeci
com uma promessa silenciosa: a de que o dia seguinte traria mais do que
paisagens - traria revelações. E, pela primeira vez em muito tempo, essa
promessa não me pareceu uma ilusão. Pareceu-me inevitável.
Diário de uma viagem – 134 dia





