Este é o colapso neuroafetivo do nosso tempo! Se o mercado lucra com incêndios, não basta distribuir baldes; é preciso rever quem vende fósforos.
Acordei. Abri os olhos e fechei-os de novo. Há um instante ridículo, todas as manhãs, em que a consciência chega antes da geografia. E, para quem já acordou em camas demais, em cidades demais, com cortinas diferentes e tetos desconhecidos, esse instante tem sempre qualquer coisa de julgamento: onde estou, afinal, e quem fui ontem para merecer este teto hoje? Fiquei imóvel por uns segundos, a negociar com a luz filtrada pelas cortinas, com o lençol desalinhado, com a preguiça morna de um corpo que ainda não decidira se pertencia ao sono ou ao mundo. Há um luxo secreto em acordar devagar. Um erotismo discreto, quase indecente, em adiar o primeiro gesto do dia. O corpo ainda é mistério, a alma ainda não vestiu a compostura, e por breves segundos somos apenas matéria vulnerável e sincera. Foi então que bateram à porta. E eu, ainda meio náufrago do sono, pensei com a gratidão ingénua dos homens simples: que maravilha, hoje o hotel traz o pequeno-almoço ao quarto. Abri a porta, meio ensonado...