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A mostrar mensagens de maio, 2026

Este é o colapso neuroafetivo do nosso tempo! Se o mercado lucra com incêndios, não basta distribuir baldes; é preciso rever quem vende fósforos.

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Acordei. Abri os olhos e fechei-os de novo. Há um instante ridículo, todas as manhãs, em que a consciência chega antes da geografia. E, para quem já acordou em camas demais, em cidades demais, com cortinas diferentes e tetos desconhecidos, esse instante tem sempre qualquer coisa de julgamento: onde estou, afinal, e quem fui ontem para merecer este teto hoje? Fiquei imóvel por uns segundos, a negociar com a luz filtrada pelas cortinas, com o lençol desalinhado, com a preguiça morna de um corpo que ainda não decidira se pertencia ao sono ou ao mundo. Há um luxo secreto em acordar devagar. Um erotismo discreto, quase indecente, em adiar o primeiro gesto do dia. O corpo ainda é mistério, a alma ainda não vestiu a compostura, e por breves segundos somos apenas matéria vulnerável e sincera. Foi então que bateram à porta. E eu, ainda meio náufrago do sono, pensei com a gratidão ingénua dos homens simples: que maravilha, hoje o hotel traz o pequeno-almoço ao quarto. Abri a porta, meio ensonado...

O que aconteceria ao homem no dia em que deixasse de ser o único espelho consciente do universo?

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Despertei rejuvenescido de um sono tranquilo, desses raros, sem fissuras, em que o corpo se entrega à noite como quem regressa a um ventre antigo e seguro. A manhã recebeu-me com a delicadeza das coisas simples e indispensáveis: em poucos segundos estava debaixo de um duche reconfortante, a água quente a escorrer-me pela pele como uma promessa discreta, dissolvendo o último vestígio de cansaço, acordando-me por dentro.  Minutos depois, estava diante de uma grande chávena de café forte, aromático e escuro. O aroma subia em espirais e invadia-me a alma, enquanto à minha frente o pão acabado de cozer se desfazia ao toque da manteiga, derretida e dourada, numa rendição indecente e perfeita. Aquele pequeno almoço era simples, mas como tantas coisas verdadeiramente memoráveis, tocava o sublime sem fazer alarde. Depois chegou Penélope. Entrou como entram certas mulheres no imaginário dos homens cansados: sem pressa, mas com a secreta arrogância de quem sabe que altera a temperatura de...

Onde há excesso de escolha, há escassez de compromisso!

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  Acordei com uma estranha euforia - dessas que não pedem licença, apenas entram, sentam-se à beira da cama e acendem a manhã por dentro. Durante demasiado tempo viajei na solidão, esse hábito austero de conversar comigo mesmo como quem se resigna a um espelho educado. E, no entanto, sem aviso, descobri o luxo imprevisível de ter alguém ao lado. Não falo do luxo banal das coisas caras, que brilham muito e dizem pouco; falo desse outro, raro e quase insolente: o privilégio de uma presença. O milagre discreto de dividir o silêncio sem o tornar pesado. A inesperada opulência de não ser apenas um corpo a atravessar o mundo, mas dois vultos a desenhá-lo em paralelo. O pequeno-almoço já não foi o monólogo de sempre, esse ritual disciplinado de café e pensamentos mastigados em surdina. Havia agora partilha - de ideias, de olhares, de pequenas ironias matinais que fazem da intimidade uma forma sofisticada de sobrevivência. O café parecia mais denso, mais honesto, como se o amargor tivesse ...