Estamos a beber o futuro!
Quando despertámos, o sol já entrava pelas cortinas com a delicadeza de um intruso apaixonado, derramando ouro velho pelas paredes do quarto e desenhando sombras líquidas sobre os lençóis desalinhados. Havia naquele instante uma paz rara, dessas que só existem entre duas pessoas que já atravessaram o território da imaginação e agora repousam na fronteira silenciosa da cumplicidade. O quarto cheirava ao perfume indecifrável de Penélope - uma mistura de sabedoria com tempestade iminente. Não vou repetir a cena de uma mulher a preparar-se para um novo dia. Além de ser um ritual demorado, possui sempre a mesma arquitetura secreta: gavetas abertas, escovas desaparecidas, tecidos trocados à última hora e aquela eterna pergunta que nunca procura resposta - “achas que isto serve?”. Mas gostei da dança de Penélope enrolada na toalha de banho. Gostei profundamente. Havia nela qualquer coisa entre sacerdotisa distraída e atriz consciente do próprio corpo. Caminhava descalça pelo quarto como se ...