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Viagens à volta de um mundo misterioso, romântico, sensual, enigmático.

Estamos a beber o futuro!

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Quando despertámos, o sol já entrava pelas cortinas com a delicadeza de um intruso apaixonado, derramando ouro velho pelas paredes do quarto e desenhando sombras líquidas sobre os lençóis desalinhados. Havia naquele instante uma paz rara, dessas que só existem entre duas pessoas que já atravessaram o território da imaginação e agora repousam na fronteira silenciosa da cumplicidade. O quarto cheirava ao perfume indecifrável de Penélope - uma mistura de sabedoria com tempestade iminente. Não vou repetir a cena de uma mulher a preparar-se para um novo dia. Além de ser um ritual demorado, possui sempre a mesma arquitetura secreta: gavetas abertas, escovas desaparecidas, tecidos trocados à última hora e aquela eterna pergunta que nunca procura resposta - “achas que isto serve?”. Mas gostei da dança de Penélope enrolada na toalha de banho. Gostei profundamente. Havia nela qualquer coisa entre sacerdotisa distraída e atriz consciente do próprio corpo. Caminhava descalça pelo quarto como se ...

Há algo de profundamente revelador num simples gesto!

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Quando despertei, o quarto tinha um perfume diferente. Não era apenas o aroma delicado de sabonete caro misturado com lençóis aquecidos pela madrugada; era qualquer coisa mais funda, quase emocional, como se a própria noite tivesse decidido arrumar os seus segredos antes de partir. O silêncio parecia mais limpo. Até a luz, tímida e dourada, pousava nos móveis com uma elegância suspeita, como se aquele quarto tivesse sido cuidadosamente preparado por mãos invisíveis enquanto eu dormia. Durante alguns segundos, fiquei imóvel, meio perdido entre o sonho e a realidade. A memória ainda tropeçava nas imagens desconexas da noite anterior. O coração, esse traidor antigo, acelerou sem razão lógica. Talvez porque os lugares desconhecidos têm esse poder: acordamos sem saber exatamente quem somos durante os primeiros instantes. Como se o sono nos desmontasse peça por peça e o despertar fosse um lento trabalho de reconstrução. Depois ouvi. A água do duche. Uma música suave a escapar do banheiro...

O discurso é sempre grandioso: “transparência”, “ética”, “rigor”, “mudança”. Palavras bonitas. Lustrosas. Embaladas para televisão.

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Acordei rejuvenescido. Não era apenas descanso. Era outra coisa. Como se a noite me tivesse desmontado peça por peça e voltado a montar com menos ruído por dentro. O dia ainda não tinha nascido e, naquele intervalo raro entre a escuridão e a primeira claridade, o mundo parecia menos mentiroso. Tomei um banho rápido. A água fria expulsou os últimos fantasmas do sono e devolveu-me à consciência com uma violência elegante. Vesti-me depressa, quase sem pensar, como quem se prepara para fugir ou para amar - às vezes são a mesma coisa. Antes de sair, espreitei os jornais portugueses no telemóvel. Corrupção. Outra vez. Ministros indignados com indignações anteriores. Empresários inocentes até prova em contrário. Comentadores profissionais a vender moralidade em prestações mensais. A democracia transformada numa série longa, mal escrita e já sem personagens credíveis. Ri-me sozinho. Portugal tem este talento melancólico de sobreviver aos próprios escândalos como um velho aristocrata arruin...