O útero onde nascemos é talvez a maior lotaria da existência humana!
Despertei em Londres com uma ausência. Não era apenas a ausência de Penélope - embora o seu lado vazio tivesse o peso exato de um inverno - era uma ausência mais funda, quase mineral, como se a cidade inteira tivesse perdido uma cor durante a noite. Londres acordara cinzenta, suspensa numa névoa húmida que se colava às fachadas vitorianas e aos táxis negros. O céu parecia um lençol mal lavado por deuses cansados. E eu, estranhamente, parecia parte daquela paisagem.
Levantei-me
sem a euforia habitual. O corpo movia-se por hábito, não por vontade. Tomei um
banho demorado, deixando a água escorrer sobre mim como se pudesse dissolver
pensamentos. Há dias em que um homem não se lava; apenas tenta apagar-se um
pouco.
Quando
saí do vapor do quarto de banho, o telemóvel iluminou-se com uma mensagem de
Penélope. Cheguei bem a Atenas. Hoje o dia vai ser pesado. Já tenho saudades
tuas. Dormiste? Alimenta-te. Havia mais algumas palavras, dessas que ficam no
silencio.
Desci
para a sala dos pequenos-almoços e procurei conforto no ritual. Café forte.
Negro. O pão ainda quente, estaladiço, com a manteiga a derreter lentamente
como neve sobre pedra vulcânica.
Antes
de partir fui despedir-me do Daniel, o jovem português que trabalhava no bar do
hotel. Na noite anterior fora o meu conforto involuntário. Há pessoas que não
resolvem nada, mas sabem ouvir de uma forma tão limpa que nos deixam menos
pesados. Isso já é uma espécie de milagre.
“Então,
campeão, sobrevives-te à filosofia barata e ao whisky inglês? - perguntou ele
com um sorriso. “Mal. Acho que ambos me envelheceram sete anos. Riu-se.
Apertámos as mãos com aquela cumplicidade silenciosa que só os portugueses
conseguem fabricar longe de casa. Uma fraternidade feita de saudade genética e
humor defensivo.
Em
cima de uma mesa estava um exemplar do The Guardian. Peguei nele sem grande
intenção, apenas para ocupar as mãos. A manchete falava dos novos negócios da
geopolítica mundial, dos homens que vendem alianças como quem vende seguros
automóveis. Países inteiros transformados em fichas de casino. O mundo continua
a ser governado por homens que confundem estratégia com ego e fronteiras com
cicatrizes. Pensei que a História é apenas uma sucessão elegante de ganâncias
mal disfarçadas. Fechei o jornal.
Depois,
malas no carro e rumo a Norwich. Londres foi ficando para trás através do
espelho retrovisor, dissolvendo-se lentamente na distância como uma amante
orgulhosa que não acena na despedida. A estrada abriu-se diante de mim húmida e
infinita, ladeada por campos ingleses de um verde impossível, daquela
tonalidade que só existe em países onde chove mais do que as pessoas admitem
suportar.
Conduzir
em Inglaterra tem qualquer coisa de literário. As árvores inclinam-se sobre as
estradas como velhas aristocratas curiosas. Pequenas aldeias surgem de repente,
com casas de pedra e telhados inclinados, jardins impecáveis e pubs onde
provavelmente se discutem há séculos os mesmos temas: o tempo, futebol e a
desilusão inevitável com os governos.
À
medida que me afastava da capital, o céu começou a abrir ligeiramente. Uma luz
tímida atravessava as nuvens e espalhava-se pelos campos como ouro diluído. Vi
rebanhos dispersos nas colinas, cavalos imóveis junto a cercas antigas e rios
estreitos que cortavam a paisagem com a delicadeza de uma assinatura.
A
estrada até Cambridge tinha uma beleza serena. Não precisava impressionar
ninguém. E talvez por isso Cambridge apareça de repente com essa autoridade
tranquila dos lugares que sabem exatamente quem são.
A
cidade combina uma herança académica de oitocentos anos com uma vida urbana vibrante.
Conhecida como a “Veneza de Inglaterra”, ergue-se entre o Rio Cam, pontes
delicadas e as suas trinta e uma faculdades independentes, como se o
conhecimento ali tivesse escolhido uma geografia própria.
Foi
ali, em Parker’s Piece, que em 1848 se redigiram as primeiras regras do futebol
moderno. Mas como todas as regras, também aquelas vieram com buracos
suficientes para alimentar polémicas eternas. O futebol continua a ser a única
religião onde milhões acreditam cegamente e, ainda assim, passam o tempo
inteiro a discutir os mandamentos.
Mas
muito mais importante do que isso aconteceu no famoso pub The Eagle. Em 1953,
Francis Crick e James Watson anunciaram ali ao mundo a descoberta da estrutura
em dupla hélice do DNA. Imagino o momento. Dois homens ligeiramente embriagados
pela descoberta - e talvez pela cerveja - a perceberem que tinham encontrado a
gramática secreta da vida.
Por
aquelas ruas passaram mentes como Isaac Newton, Charles Darwin e Stephen
Hawking. No Trinity College pode ver-se um clone da famosa macieira de Newton.
Gosto da ideia de clonarem árvores históricas. A humanidade destrói florestas inteiras,
mas preserva maçãs célebres. Somos incoerentes com um requinte quase artístico.
E
depois há o Corpus Clock. Inaugurado por Stephen Hawking em 2008, aquele
relógio parece saído de um pesadelo steampunk. Não tem ponteiros. A engrenagem
dourada move-se lentamente enquanto um inseto mecânico, grotesco e fascinante,
devora os segundos. Chamam-lhe o “Devorador do Tempo”.
Achei
apropriado. Porque o tempo continua exatamente assim: uma criatura invisível a
alimentar-se distraidamente das nossas vidas enquanto fingimos que temos
controlo. E os mais distraídos só percebem isso tarde demais - normalmente numa
fotografia antiga ou num silêncio inesperado.
Com
esses pensamentos vagueando dentro de mim, deixei-me conduzir até um pequeno
restaurante junto ao Rio Cam. Era simples. Nada ali tentava impressionar
turistas. Isso tornou-o imediatamente autêntico. Sentei-me perto da janela, de
onde podia ver os barcos estreitos deslizando lentamente pelo rio. Os
estudantes passavam em bicicletas apressadas, cachecóis ao vento, carregando
livros como se ainda acreditassem que o futuro pode ser organizado em páginas.
E
ali, naquele restaurante discreto junto ao Cam, comecei a costurar mentalmente
a manchete do Guardian. Os negócios da geopolítica. As alianças estratégicas.
Os mercados energéticos. As guerras silenciosas. Tudo aquilo me pareceu
subitamente semelhante às relações humanas. Países fazem exatamente o que as
pessoas fazem: aproximam-se por interesse, afastam-se por medo, traem por
conveniência e depois inventam discursos nobres para justificar os danos.
Há
uma ironia cruel na arquitetura do mundo: passamos a vida inteira a construir
muros, castelos, fronteiras, cofres, títulos, bandeiras, religiões, impérios
financeiros e identidades frágeis… para no fim sermos todos reduzidos à mesma
matéria silenciosa. A morte - essa velha democrata implacável - nunca pergunta
quantos zeros havia na conta bancária, quantas propriedades foram compradas ou
quantos empregados baixavam os olhos perante um nome importante. Ela chega. E
leva tudo. Sem cerimónia. Sem reverência. Sem distinção.
No
meio de tanta desigualdade, só uma coisa nos une verdadeiramente: a morte. E talvez
seja precisamente isso que torna a existência humana tão absurda, tão
misteriosa e, ao mesmo tempo, tão fascinante. Porque existe, de facto, um fosso
entre seres humanos. Um abismo invisível, mas perfeitamente palpável. Há
crianças que nascem em lençóis de seda, com futuros desenhados antes mesmo do
primeiro choro. Herdam apelidos, patrimónios, contactos, escolas privadas,
passaportes poderosos e uma espécie de almofada invisível que amortece todas as
quedas da vida. Outras nascem já condenadas a lutar. Não contra sonhos
grandiosos - mas contra a fome, contra o frio, contra a violência, contra
sistemas feitos precisamente para nunca as deixar subir.
Uns
nascem num paraíso climatizado. Outros chegam ao mundo já com o inferno a
ferver debaixo dos pés. E então surge a pergunta mais antiga e mais
desconfortável da humanidade: o que nos divide realmente? A cor da pele? A
raça? O país onde nascemos? A religião? O dinheiro? A sorte? Ou será algo ainda
mais perturbador… a consciência de que nunca começámos todos na mesma linha de
partida?
O
ser humano gosta de fingir que vive numa meritocracia moral. Que “quem quer
consegue”. Uma frase deliciosamente confortável para quem nunca teve de
escolher entre jantar ou pagar renda. A verdade é muito menos poética: o acaso
decide quase tudo. O útero onde nascemos é talvez a maior lotaria da
existência. Um simples ponto no mapa pode definir se alguém crescerá a beber
champanhe numa varanda em Mónaco ou a procurar água contaminada num bairro
esquecido do mundo.
E
mesmo assim… mesmo sabendo disto tudo… continuamos a competir uns com os outros
como ratos aflitos dentro de um laboratório cósmico. O mais intrigante é
observar o comportamento humano à medida que envelhece. Era suposto a
proximidade da morte tornar-nos mais sábios, mais compassivos, mais leves. Mas
muitas vezes acontece precisamente o contrário. Alguns tornam-se mais duros.
Mais intolerantes. Mais possessivos. Mais egoístas. Como se o envelhecimento
não lhes revelasse a fragilidade da vida, mas sim um pânico animalesco de
perder aquilo que acumularam.
Há
multimilionários com dinheiro suficiente para alimentar países inteiros…, mas
continuam obcecados por mais. Mais lucros. Mais controlo. Mais influência. Mais
poder. Como dragões antigos sentados em cima de montanhas de ouro que nunca
conseguirão gastar antes de morrer.
E
aqui entra uma pergunta quase filosófica, quase clínica, quase assustadora: O
que move estas pessoas? Porque continua alguém a roubar, manipular, destruir ou
matar quando já possui muito mais do que aquilo que alguma vez conseguirá
viver?
A
resposta psicológica talvez esteja escondida numa verdade desconfortável: o ser
humano raramente procura dinheiro pelo dinheiro. Procura poder. E o poder é uma
tentativa desesperada de iludir a morte. Quem controla sente-se eterno. Quem
acumula acredita, inconscientemente, que está a construir uma muralha contra o
vazio. Quem domina tenta convencer-se de que nunca será reduzido à
insignificância.
Mas
será. Todos serão. O magnata. O político. O criminoso. O santo. O génio. O
mendigo. O influencer motivacional que acorda às cinco da manhã para vender cursos
sobre “mindset quântico”. Todos.
E
talvez seja exatamente essa consciência subterrânea da morte que enlouquece
tantas pessoas. A mente humana não consegue lidar bem com a ideia do fim
absoluto. Então inventa distrações: consumo, status, guerras, fanatismos,
competições ridículas, egos gigantescos. Alguns colecionam carros. Outros
colecionam corpos. Outros colecionam poder. Tudo para não ouvirem o relógio invisível
que está sempre a contar. Tac. Tac. Tac.
A
psicologia chama a isto “terror da mortalidade”. Muitas atitudes humanas nascem
do medo inconsciente da própria finitude. Quando alguém sente que a vida lhe
escapa, pode reagir de duas formas: tornar-se mais humano… ou tornar-se mais
desesperadamente egoísta.
E
é aí que surgem os comportamentos mais sombrios. O corrupto que já tem milhões,
mas continua a roubar. O homem poderoso que humilha os outros para se sentir
superior. A pessoa amarga que descarrega frustrações no mundo inteiro. O fanático
que mata em nome de ideias. Todos eles, no fundo, parecem tentar preencher um
buraco interno que nunca será preenchido. Porque o vazio existencial não
desaparece com dinheiro. Nem com fama. Nem com poder. Aliás, às vezes cresce.
Talvez
por isso haja tantos ricos profundamente infelizes. Descobriram tarde demais
que o topo da montanha não elimina o abismo interior. Apenas oferece uma vista
melhor sobre ele. E no meio deste teatro humano há algo quase cómico - tragicomicamente
cómico. As pessoas passam décadas a odiar-se por fronteiras inventadas. Cores
de pele. Religiões. Clubes políticos. Nacionalidades. Como crianças zangadas a
discutir lugares num navio que já começou a afundar.
A
morte observa tudo em silêncio. Com uma paciência elegante. Quase sarcástica. Porque
ela sabe aquilo que nós fingimos esquecer: ninguém leva nada. Nem ouro. Nem
títulos. Nem fama. Nem razão.
Talvez
o verdadeiro problema da humanidade seja este: sabemos que vamos morrer, mas
vivemos como se os outros nunca fossem morrer connosco. Perdemos a capacidade
de reconhecer humanidade no outro. E quando alguém deixa de ver humanidade nos
outros, qualquer atrocidade passa a parecer justificável.
Há
uma engrenagem invisível a mover o mundo. Uma máquina colossal, fria,
sofisticada, construída com notas de dinheiro, petróleo, influência, sangue e
silêncio. Uma máquina que nunca dorme. Enquanto milhões tentam sobreviver, ela
calcula. Enquanto mães choram filhos mortos em guerras, ela negocia contratos.
Enquanto famílias inteiras vivem esmagadas pelo preço da comida, da renda e da
dignidade, alguém, numa sala luxuosa com vista panorâmica sobre uma cidade
iluminada, sorri discretamente porque os mercados reagiram “positivamente”.
O
mundo moderno transformou quase tudo num negócio. Até a morte. Até o
sofrimento. Até a fome. Até a guerra. E talvez essa seja a maior tragédia moral
da civilização contemporânea: já não se governa para pessoas. Governa-se para
interesses. O ser humano tornou-se um número estatístico perdido entre bolsas
de valores, gráficos económicos e discursos cuidadosamente escritos por
assessores sem alma.
Os
ricos vivem para fazer negócios. Os políticos também. Uns nasceram ricos e
aprenderam desde cedo que o poder compra silêncio, influência e impunidade.
Outros descobriram na política um elevador social disfarçado de missão pública.
Entram com discursos idealistas, sorrisos treinados e promessas inflamadas… e
pouco a pouco vão sendo engolidos pela engrenagem. Aprendem rápido que a
política moderna raramente recompensa honestidade; recompensa lealdades
estratégicas, favores obscuros e capacidade de manipulação.
A
geopolítica tornou-se o tabuleiro sagrado onde os poderosos jogam xadrez com
vidas humanas. E que jogo monstruoso é esse. Países inteiros são transformados
em peças descartáveis. Povos tornam-se danos colaterais. Crianças tornam-se
estatísticas. E os líderes mundiais discutem “equilíbrios estratégicos”
enquanto cidades são reduzidas a cinzas.
As
guerras modernas já nem escondem o cheiro do negócio. Há demasiado dinheiro na
destruição para que a paz seja realmente interessante. Fabricam-se armas em massa
enquanto hospitais colapsam. Investem-se biliões em tecnologia militar enquanto
milhões passam fome. Criam-se drones sofisticados capazes de matar à
distância…, mas continuam a existir crianças sem acesso a água potável.
A
ironia é tão brutal que quase parece ficção distópica. O dinheiro gasto num
único dia de guerra poderia alimentar populações inteiras durante anos. Mas
alimentar pobres não gera os mesmos lucros que fabricar mísseis. A paz raramente
enriquece milionários. A guerra, sim. E então os discursos aparecem: “defesa
nacional”, “segurança estratégica”, “intervenção necessária”, “proteção dos
interesses internacionais”.
Palavras
elegantes para esconder uma verdade muitas vezes obscena: há pessoas a
enriquecer violentamente com o sofrimento humano. Empresas de armamento sobem
nas bolsas enquanto corpos descem para valas comuns. Mercados celebram
contratos militares como quem celebra vitórias desportivas. A morte tornou-se
economicamente rentável.
E
o povo? O povo observa. Observa os políticos passarem em carros blindados. Observa
campanhas eleitorais milionárias financiadas pelos mesmos grupos económicos que
depois influenciam decisões. Observa promessas evaporarem-se poucos dias após
as eleições. Observa debates políticos que parecem espetáculos televisivos
escritos para entreter e dividir.
E
continua à espera. Sempre à espera. À espera que um salário chegue. À espera
que a saúde funcione. À espera que a justiça exista. À espera que o mundo mude.
Mas
o sistema foi desenhado precisamente para manter essa esperança viva sem nunca
a concretizar totalmente. Porque um povo completamente revoltado é perigoso…,
mas um povo eternamente esperançoso continua controlável.
Dão-lhes
distrações. Futebol. Escândalos. Redes sociais. Guerras culturais. Discussões
superficiais. Polarização constante. Enquanto isso, nos bastidores, os verdadeiros
negócios continuam. A população discute ideologias. Os poderosos discutem
lucros.
E
talvez o mais perverso seja perceber que muitos líderes já nem tentam esconder
o vazio moral. Falam de sacrifícios enquanto vivem rodeados de luxo. Pedem
paciência a quem já vive sem dignidade há décadas. Falam em “crise” enquanto
aumentam patrimónios pessoais. Dizem ao povo para apertar o cinto… quando
alguns já nem têm calças.
Há
algo profundamente cruel num sistema onde quem trabalha honestamente vive
exausto e inseguro, enquanto quem manipula sistemas financeiros pode acumular
fortunas inimagináveis sem nunca produzir algo verdadeiramente humano.
O
trabalhador acorda cedo, destrói lentamente o corpo, vive em ansiedade
permanente… e mesmo assim mal consegue sobreviver. Já o especulador financeiro
pode ganhar milhões carregando num botão. Que civilização é esta? Uma
civilização onde a dignidade humana perdeu valor perante indicadores
económicos. Onde o mercado parece mais importante do que vidas. Onde um banco
pode ser salvo em horas, mas uma família pobre pode esperar anos por ajuda.
E
no entanto, apesar de tudo isto, o povo continua a votar. Continua a acreditar.
Continua a levantar-se cedo. Continua a trabalhar. Continua a sonhar. Talvez
porque o ser humano tenha uma capacidade quase sobrenatural de resistir mesmo
quando tudo parece apodrecido.
Mas
há um cansaço crescente no ar. Um desencanto silencioso. As pessoas começam a
perceber que muitas democracias modernas funcionam como teatros sofisticados:
mudam-se os atores, mas o guião económico permanece quase intacto.
O
povo escolhe rostos. O sistema mantém donos. E enquanto isso, a desigualdade
cresce de forma obscena. Uns escolhem entre caviar e vinho raro. Outros
escolhem entre comer ou aquecer a casa. Uns preocupam-se com paraísos fiscais. Outros
preocupam-se com o preço do pão.
O
mais assustador é que isto já nem revolta tanta gente como deveria. A injustiça
tornou-se tão normalizada que milhões aprenderam a sobreviver dentro dela como
quem aprende a respirar ar contaminado. E no centro desta escuridão moderna
permanece a grande ironia que os poderosos fingem esquecer: nem o dinheiro
compra mais tempo. Nem os impérios financeiros sobrevivem à morte. Nem os
políticos levam os discursos para o túmulo. Nem os senhores da guerra escapam
ao silêncio final. No fim, o multimilionário e o sem-abrigo regressam ao mesmo
destino biológico. Pó. Silêncio. Ausência.
E
talvez seja exatamente isso que torna esta corrida ao poder tão trágica, tão
absurda e quase patética. Passam a vida inteira a esmagar outros seres humanos
para acumular coisas que inevitavelmente terão de abandonar. Como crianças
arrogantes a construir castelos de areia diante de um oceano que já está a
avançar. A morte continua ali. Paciente. Imóvel. Quase irónica. À espera de
todos os reis deste mundo.
A
história inteira da civilização é, em parte, a história dessa desumanização. Mas
há também algo belo no meio deste caos. Porque precisamente por sermos finitos,
tudo ganha valor. Um abraço. Uma conversa. Uma gargalhada inesperada. O cheiro
da chuva. O toque de alguém amado. O silêncio da madrugada. O mar. A música. A
memória.
Talvez
a grande sabedoria não esteja em acumular mais, mas em perceber quando já
chega. E talvez os verdadeiramente ricos sejam aqueles que conseguem dormir sem
precisar de esmagar ninguém para existir.
O
almoço demorou mais tempo do que eu estava a prever. Talvez porque certos lugares
nos prendem, como se o tempo, ali, se recusasse a obedecer à lógica apressada
das horas. Ainda fui visitar St John's College, onde a célebre Ponte dos
Suspiros paira sobre o rio com uma elegância quase irreal, inspirada na famosa
ponte de Veneza. Há qualquer coisa de profundamente inquietante naquela travessia
suspensa entre margens - como se cada pedra guardasse murmúrios de estudantes
desaparecidos na névoa do conhecimento, amores calados, promessas nunca
cumpridas. Fiquei alguns minutos imóvel a observá-la, tentando perceber porque
certos lugares nos despertam memórias de vidas que nunca vivemos.
Depois
segui viagem. A estrada até Norwich parecia desenhada por uma mão paciente. Os
campos estendiam-se em silêncio, tingidos pelos últimos dourados do entardecer,
enquanto pequenas aldeias surgiam e desapareciam como aparições discretas. As
árvores inclinavam-se sobre a estrada como guardiãs antigas, e o céu,
lentamente, transformava-se num vasto oceano azul-escuro salpicado pelas
primeiras estrelas. Havia beleza naquela simplicidade inglesa - sem
exuberâncias, sem excessos - apenas a harmonia tranquila de um mundo que
aprendeu a envelhecer com dignidade.
Conduzir
sozinho ao cair da noite tem sempre qualquer coisa de misterioso. O carro
transforma-se num pequeno universo isolado, onde os pensamentos ganham eco e as
emoções se tornam mais nítidas. A solidão da viagem não pesa; revela.
Obriga-nos a escutar aquilo que normalmente abafamos com ruído.
Quando
cheguei a Norwich, a cidade já estava iluminada. As luzes refletiam-se
suavemente nas águas do rio, criando a ilusão de que a cidade flutuava entre
dois mundos - um real, outro sonhado. O meu hotel, junto ao rio, foi uma
agradável surpresa.
Quando
viajamos sozinhos, o hotel deixa de ser apenas um abrigo e transforma-se num
refúgio. Há uma vulnerabilidade silenciosa em quem chega sem companhia,
trazendo apenas uma mala, algum cansaço e demasiados pensamentos. Os bons
hotéis reconhecem isso sem palavras. Transformam a hospitalidade num escudo
invisível. O acolhimento substitui a formalidade. A proteção ocupa o lugar da
distância. E, por breves instantes, aquele espaço estranho torna-se uma espécie
de lar provisório para almas em trânsito.
Este
hotel não fugiu à regra. Ao entrar no lobby, a rececionista notou o silêncio
dos meus passos antes mesmo de levantar os olhos do computador. Ofereceu-me um
sorriso mais caloroso do que protocolar, como se intuísse o peso discreto que
certas viagens carregam. Isabella - era assim que estava escrito no crachá -
antecipou as minhas necessidades antes de eu as verbalizar. Explicou-me a
cidade em detalhe, desenhando no mapa pequenas rotas secretas que não aparecem
nos guias turísticos, recomendando ruas, horários e lugares como quem entrega
fragmentos de um tesouro escondido.
Havia
na atenção dela uma proteção invisível. Uma delicadeza rara que não vinha da
obrigação profissional, mas de uma humanidade quase esquecida nos dias de hoje.
Garantiu-me que o meu quarto seria um santuário de paz. E era.
Quando
entrei, encontrei sobre a mesa um pequeno bilhete de boas-vindas escrito à mão.
Simples. Genuíno. Mas naquele instante valeu mais do que muitos discursos.
Porque transmitia uma mensagem silenciosa: embora esteja sozinho no mapa, não
estou sozinho no mundo.
Há
gestos assim que nos desmontam sem violência. Abandonei as malas, tomei um
banho refrescante e saí para descobrir a cidade à noite. Norwich possui uma
estranha capacidade de unir tempos diferentes sem conflito. O seu charme
medieval convive naturalmente com a energia vibrante de uma cidade
universitária. As ruas estreitas parecem guardar fantasmas antigos, enquanto os
pubs transbordam de vozes, música e juventude. O Norwich Castle e a Norwich
Cathedral destacavam-se na noite através de uma iluminação cénica quase
teatral, como monumentos suspensos entre a História e o sonho.
Mas
no meio daquela beleza iluminada comecei a sentir algo inesperado: talvez
tivesse perdido o hábito de viajar sozinho. Não o medo. Nem a insegurança.
Apenas aquela estranha consciência de que a solidão muda connosco ao longo da
vida. Quando somos mais novos, viajar sozinho parece liberdade absoluta. Mais
tarde, torna-se um espelho. E nem sempre estamos preparados para aquilo que ele
devolve.
Por
isso resolvi jantar no bar do hotel. Algo simples. Sem grandes cerimónias. Um
prato discreto, bem preparado, acompanhado por um vinho português do Douro que
trazia consigo o sabor da distância e da memória. O primeiro gole teve qualquer
coisa de casa. Como se o rio lá fora, por um instante, desaguasse secretamente
em Portugal.
O
cansaço começava lentamente a apoderar-se de mim. Sentia-o nos ombros, no
olhar, na forma como o corpo já procurava repouso antes mesmo de regressar ao
quarto. E no dia seguinte queria acordar cedo para descobrir Norwich com calma,
sem pressa, deixando que a cidade se revelasse ao seu próprio ritmo.
Antes
de me deitar, recebi uma chamada de Penélope. Queria saber pormenores da
viagem. Pequenos detalhes. Como era o hotel. Como era a cidade. Se tinha
jantado bem. Se estava cansado. A voz dela atravessou a distância com uma
proximidade desarmante. Enquanto falávamos, tive a estranha sensação de que ela
ainda viajava comigo. Como se ocupasse silenciosamente o banco vazio ao meu
lado durante toda a estrada.
Quando
desliguei, aproximei-me da janela. Lá fora, o rio deslizava lentamente sob as
luzes da cidade, carregando reflexos dourados que pareciam fragmentos de
estrelas perdidas. Durante alguns segundos tive a impressão de que Norwich não
era apenas uma cidade, mas uma fronteira invisível entre aquilo que somos e
aquilo em que nos podemos tornar quando nos afastamos da rotina e escutamos o
silêncio.
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E
talvez seja essa a verdadeira magia das viagens solitárias: não nos levam
apenas a lugares novos. Levam-nos, discretamente, até partes de nós que
julgávamos adormecidas.
Diário de uma viagem – 150 dia








