O que aconteceria ao homem no dia em que deixasse de ser o único espelho consciente do universo?
Despertei rejuvenescido de um sono tranquilo, desses raros, sem fissuras, em que o corpo se entrega à noite como quem regressa a um ventre antigo e seguro. A manhã recebeu-me com a delicadeza das coisas simples e indispensáveis: em poucos segundos estava debaixo de um duche reconfortante, a água quente a escorrer-me pela pele como uma promessa discreta, dissolvendo o último vestígio de cansaço, acordando-me por dentro.
Minutos
depois, estava diante de uma grande chávena de café forte, aromático e escuro. O
aroma subia em espirais e invadia-me a alma, enquanto à minha frente o pão
acabado de cozer se desfazia ao toque da manteiga, derretida e dourada, numa
rendição indecente e perfeita. Aquele pequeno almoço era simples, mas como
tantas coisas verdadeiramente memoráveis, tocava o sublime sem fazer alarde.
Depois
chegou Penélope. Entrou como entram certas mulheres no imaginário dos homens
cansados: sem pressa, mas com a secreta arrogância de quem sabe que altera a
temperatura de um lugar apenas por existir. Sorridente, divertida, luminosa,
trazia nos olhos o brilho vivo de quem acordou curiosa e pronta para devorar o
mundo. Sentou-se diante de mim com aquela graça espontânea que parecia sempre
ensaiada por deuses ociosos. Mal pousou as mãos sobre a mesa, passou uma delas
pela minha cabeça, num gesto leve, íntimo, perigosamente natural, e disse, com
a voz ainda morna de madrugada: “Esta noite sonhei contigo.” Olhei de lado, sem
lhe dar o luxo de perceber o pequeno abalo que me atravessou. “Hum… queres partilhar?” Fez-se silêncio. Um
silêncio curioso, espesso, desses que não caem: instalam-se. O tilintar dos
talheres na sala pareceu subitamente mais agudo, quase insolente, como se o
mundo inteiro, com o seu ruído pequeno e vulgar, se tivesse aproximado para
escutar o que não lhe dizia respeito. Penélope baixou os olhos por um instante,
desenhou um círculo distraído na borda da chávena e respondeu: “É melhor não.
Depois… quando se proporcionar.” E foi como se alguém tivesse acendido um
fósforo no centro do ar.
Voltámos
ao silêncio, mas já não era o mesmo. O primeiro era circunstancial. Este tinha
pele, pulsação, intenções. De repente, pareceu-me que toda a sala nos observava
- ou talvez fosse apenas a suspeita ridícula, e deliciosamente vaidosa, de que
a tensão entre duas pessoas tem sempre a pretensão teatral de se julgar o
centro do universo. Talvez ninguém nos olhasse. Talvez fosse só o desejo, esse
exibicionista.
Colocámos
as mochilas às costas e saímos à descoberta de Andorra. Andorra é um daqueles
lugares que parecem inventados por alguém sentimental, um país que se aninha
nos Pirenéus com delicadeza. Há nele qualquer coisa de refúgio e de conspiração
romântica. Montanhas imponentes, ar limpo, um silêncio mineral, vilas que
parecem ter sido desenhadas para o amor desacelerar. Não há pressa em Andorra.
Há curvas. Há névoa. Há pedra antiga. Há uma beleza tão serena que chega a
parecer suspeita. Era o cenário ideal para casais que procuram natureza,
recolhimento e a doce ilusão de que o mundo, afinal, ainda pode ser terno.
Penélope
estava decidida a relaxar num spa. Confesso que a ideia me desagradou num
primeiro instante. Não por falta de vontade, mas por imprevidência. Eu não
vinha preparado. E há poucas coisas mais humilhantes do que um homem ser
apanhado desprevenido diante da logística do prazer.
Ela
percebeu-me o desconforto com a rapidez elegante de quem já leu homens piores. Olhou
para mim divertida, e disse: “Não te preocupes. As mulheres pensam em tudo.” Disse-o
sem arrogância, mas com aquela superioridade prática que as mulheres exercem
com a mesma subtileza com que respiram. E eu, como qualquer homem sensato
diante de uma verdade inconveniente, calei-me. Afinal, a história da
civilização pode resumir-se a isso: homens a improvisar e mulheres a salvar
discretamente a experiência.
Antes
do almoço, passámos duas horas no Caldea, um dos maiores centros de termalismo
da Europa. E talvez “passar” seja um verbo insuficiente para o que ali
acontece. Não se passa pelo Caldea. Suspende-se. Dissolve-se. Cede-se.
As
águas termais acolheram-nos com uma voluptuosidade silenciosa. O calor envolvia
o corpo com uma intimidade quase indecente, desfazendo as defesas uma a uma,
soltando os músculos, amolecendo a lucidez. As montanhas erguiam-se diante de
nós, austeras e magníficas, enquanto o vapor subia em véus translúcidos e o
mundo lá fora parecia pertencer a outra espécie de gente - a dos apressados,
dos tensos, dos irrelevantes.
Ali
dentro, o tempo não corria. Derretia. Penélope fechou os olhos e recostou a cabeça.
Havia gotas de água nos ombros dela, pequenas constelações líquidas a
escorrerem-lhe pela pele. O rosto, sem esforço, parecia mais belo naquela
rendição calma. E eu pensei, com uma lucidez perigosamente serena, que há
mulheres que não seduzem por excesso - seduzem por suspensão. Não invadem.
Instalam-se.
Almoçámos
depois num pequeno restaurante simpático e sossegado. À tarde, entregámo-nos à
cidade. Andorra tem uma densidade improvável de igrejas românicas, como Sant
Joan de Caselles, onde a pedra guarda uma espiritualidade antiga e quase
táctil. Caminhámos entre paredes seculares e frescos gastos, envolvidos por
aquele silêncio espesso das coisas que sobreviveram ao tempo. Há uma
sensualidade estranha nos lugares antigos - não a do corpo, mas a da permanência.
A pedra, ao contrário das pessoas, sabe guardar segredos.
Depois
seguimos para o Mirador del Roc del Quer. Suspensa sobre o abismo, a plataforma
abria-se sobre um horizonte brutal e magnífico. A vista era tão vasta que
humilhava. Diante de certas paisagens, o ego encolhe com a elegância de quem
finalmente percebe o seu tamanho real. Penélope aproximou-se do limite, o vento
a puxar-lhe o cabelo, e por um momento pareceu-me uma dessas figuras
mitológicas que enlouqueciam marinheiros apenas por existirem num rochedo.
Mais
tarde, encontrámos La Noblesse du Temps, o relógio derretido de Dalí, esse
monumento delicioso à inutilidade da arrogância humana. O tempo, ali, pendia
mole e irónico sobre a matéria, como se o próprio Dalí nos piscasse o olho e
dissesse: “Vês? Corres tanto para isto.” E havia qualquer coisa de
deliciosamente sarcástico em contemplar um relógio deformado depois de um dia
em que o tempo, de facto, deixara de se comportar com seriedade.
Mas
foi a noite que me desarmou. O jantar esperava-nos num restaurante de montanha,
desses onde a madeira escura, a luz baixa e a música suave conspiram para fazer
da realidade uma coisa mais suportável. Havia velas sobre a mesa, pequenas
chamas vacilantes que douravam o rosto de Penélope com uma ternura quase cruel.
O vinho francês era profundo, a comida irrepreensível, as sobremesas de uma
doçura perigosa. Tudo parecia calibrado para esse raro estado em que o prazer
deixa de ser excesso e passa a ser linguagem.
Foi
um momento zen, sim - mas não daquela paz asséptica e sem pulsação dos folhetos
de bem-estar. Era uma serenidade viva, quente, perfumada. Havia no ar o aroma
do vinho aberto, da madeira aquecida, da cera derretida, da noite limpa, e por
baixo de tudo isso, mais subtil e mais perturbador, o perfume de Penélope, que
aparecia e desaparecia como uma ideia indecente.
Lá
fora, o céu estava limpo e as estrelas brilhavam com uma nitidez quase
insolente. O frio fino da montanha tornava tudo mais nítido, mais táctil, mais
próximo. Por vezes, rasgos de luz atravessavam o céu escuro - breves, oblíquos,
misteriosos - e rimo-nos da possibilidade absurda de estarmos a ser observados
por extraterrestres.
Penélope
riu-se. Aquele riso baixo, morno, perigoso. Depois calou-se. E foi nesse
silêncio, sob o frio delicado da noite e o ouro trémulo das estrelas, que ela
hesitou pela primeira vez. Procurou-me a mão com uma lentidão quase distraída,
como quem não quer parecer que quer. Tocou-me os dedos, recuou ligeiramente,
voltou a entrelaçá-los nos meus. Havia naquele gesto uma ternura inquieta, como
se o corpo dela soubesse antes da coragem.
“Quase
te contei ao pequeno-almoço”, disse, sem me olhar. A voz vinha baixa, como se
pudesse partir-se. Apertei-lhe a mão sem responder. Há momentos em que falar é
só uma forma deselegante de estragar a precisão do instante.
Ela
respirou fundo. Hesitou outra vez. Sorriu de lado, como quem se envergonha de
si própria e se diverte com isso. “Foi um sonho estranho…” - murmurou. Olhou finalmente para mim. Tinha nos olhos
aquela vulnerabilidade rara que só aparece quando o desejo e o medo decidem
sentar-se à mesma mesa.
“Sonhei que nos perdemos”. Fez uma pausa. “Não
daqueles perderes dramáticos e trágicos, não. Perdemo-nos de propósito. Como
quem abandona o mapa para ver se o destino tem imaginação. Respirou fundo e
hesitou novamente. “Não, não vou contar-te agora”
O
vento passou entre nós, leve e frio. Senti o seu desconforto e voltei à
conversa sobre os extraterrestres para aliviar a pressão. “Sabes o que
aconteceria ao homem no dia em que deixasse de ser o único espelho consciente
do universo?
Às
vezes imagino outras civilizações como quem imagina uma amante ainda não
encontrada: não como uma fantasia pueril de luzes verdes e antenas de plástico,
mas como uma presença antiga, silenciosa, algures entre a geometria do cosmos e
o estremecimento da pele. Penso nelas como se pensa no mar à noite - vasto,
sedutor, escuro, irresistível. Umas talvez mais velhas do que a nossa
arrogância; outras, mais frágeis do que o nosso medo. Umas já terão domesticado
estrelas com a elegância com que nós domesticámos o fogo; outras talvez ainda
contem os relâmpagos como deuses e chamem milagre ao que nós chamamos física. E
no meio dessa vertigem, resta-nos esta pergunta deliciosamente inquietante: o que
aconteceria ao homem no dia em que deixasse de ser o único espelho consciente
do universo?
A
resposta curta é brutal: cairíamos. Não no sentido físico - embora conhecendo a
humanidade, haveria certamente alguém a abrir uma garrafa de champanhe enquanto
outro lançava um míssil “preventivo”, porque o Homo sapiens tem essa notável
capacidade de transformar o sublime em protocolo militar. Cairíamos, antes,
metafisicamente. Seria uma queda ontológica, um colapso íntimo, quase erótico,
da imagem que construímos de nós mesmos. O golpe não seria apenas científico;
seria civilizacional. A prova irrefutável de inteligência extraterrestre não
seria apenas uma descoberta. Seria uma humilhação cósmica. Elegante, merecida,
talvez até misericordiosa.
Durante
milénios, sustentámo-nos na convicção enternecedora - e um pouco patética - de
que éramos o centro do drama universal. Primeiro, o centro da criação. Depois,
o centro da razão. Mais tarde, o centro do progresso. Sempre o centro de alguma
coisa, como uma criança mimada que insiste em acreditar que o jantar só começa
quando ela se senta. O antropocentrismo não é apenas uma visão filosófica; é o
nosso romance narcisista com a existência. E como todos os romances
excessivamente apaixonados, também este vive de ilusão, projeção e negação.
A
confirmação de outra inteligência destruiria isso com a delicadeza de um
relâmpago. Deixaríamos de ser os protagonistas. E talvez essa fosse,
ironicamente, a nossa primeira oportunidade de amadurecer. Porque a verdade
mais escandalosa não seria descobrir que não estamos sós. Seria descobrir que
nunca estivemos. Que o universo não nos esperou, não nos privilegiou, não
suspendeu o seu esplendor até ao aparecimento da nossa consciência ansiosa e
das nossas guerras burocraticamente organizadas. Haveria algo de profundamente
libertador nisso. Doloroso, sim. Mas libertador. Como perceber, depois de anos
de vaidade, que o espelho nunca foi uma janela.
E
então começaria a grande reforma. Não política, ainda não. Não tecnológica, ainda
não. Primeiro: espiritual. As religiões não morreriam; metamorfosear-se-iam. As
mais inteligentes fariam o que sempre fizeram quando confrontadas com o abismo:
reinterpretariam. As mais rígidas fariam o que sempre fazem quando o chão
treme: gritariam mais alto. Não seria o fim da fé, mas o fim da sua inocência
geocêntrica. O Génesis deixaria de ser lido como geografia sagrada e passaria a
ser lido como metáfora cósmica. O “façamos o homem à nossa imagem” tornar-se-ia
uma frase infinitamente mais perigosa - e bela. Que imagem? A de um primata
terrestre? Ou a de uma consciência capaz de reconhecer o mistério, seja em
carne, silício, plasma ou matéria que ainda nem sabemos nomear?
E
então a teologia, essa velha senhora vestida de absolutos, seria obrigada a
despir-se. A pergunta deixaria de ser apenas “há vida lá fora?” e tornar-se-ia
mais íntima, mais escandalosa, quase indecente: haverá alma lá fora? Haverá
pecado? Haverá transcendência? Terão eles mitos? Deuses? Liturgias? Terão
inventado a culpa, esse desporto humano? Terão conhecido o amor? Terão escrito
poesia à beira de um oceano violeta? Terão chorado os mortos olhando três luas?
E se sim - que resta da nossa pretensão de exclusividade espiritual?
A
pergunta teológica mais famosa - “Cristo morreu também por eles?” - não é
apenas provocadora; é devastadora. Porque obriga a fé a confrontar o seu maior
escândalo: ou a redenção é cósmica, ou era provincial. E um Deus provincial
seria uma ideia demasiado pequena para um universo tão obscenamente vasto.
Mas
não seria apenas a religião a sangrar beleza e crise. A ciência também perderia
a sua virgindade epistemológica. O impacto seria violento. Quase sensual. Como
tocar, pela primeira vez, uma verdade que nos excede. Toda a nossa física passaria
do estado de majestade para o estado de rascunho. Não deixaria de ser válida -
Newton continua útil mesmo quando Einstein entra na sala -, mas tornar-se-ia
insuficiente. A confirmação de uma civilização capaz de nos visitar seria a
prova empírica de que a “física do impossível” não era impossível; era apenas
provinciana. Curvatura, manipulação gravitacional, engenharia do espaço-tempo,
energia para lá do nosso fetichismo fóssil - de repente, os nossos motores
pareceriam fósforos acesos numa catedral.
As
indústrias ruiriam primeiro em silêncio, depois em pânico. Energia, transporte,
defesa, medicina, telecomunicações - tudo o que hoje sustenta o poder seria
imediatamente contaminado por obsolescência. Não porque teríamos acesso
imediato à tecnologia deles, mas porque a simples prova da sua existência
destruiria o monopólio psicológico do possível. E isso bastaria para incendiar
o mundo. O verdadeiro motor da revolução não seria a nave no céu; seria o
colapso intelectual da palavra impossível.
E
depois viria a biologia, essa disciplina que ainda fala da vida com a
arrogância de quem só conheceu um único exemplar. Toda a nossa compreensão do
vivo repousa num escândalo estatístico: um planeta, uma árvore genética, uma
química. Descobrir outra biologia seria como descobrir uma nova gramática da
existência. ADN? Talvez universal. Talvez apenas uma solução elegante e local,
como o latim da matéria orgânica. Talvez eles usem outro alfabeto molecular.
Talvez curem degeneração como quem afina música. Talvez o cancro, entre eles,
seja uma relíquia primitiva. Talvez a morte seja menos tirânica. Talvez
sejamos, biologicamente, brilhantes amadores. E então a medicina tornar-se-ia
mística pela via da ciência. Curar deixaria de ser apenas reparar; passaria a
ser compreender o que a vida pode ser quando não nasceu aqui.
Politicamente,
a questão é mais cruel. Gostamos de imaginar que a humanidade se uniria sob o
choque do “Outro”. É uma fantasia bonita. Nobre. Quase comovente. E, como
muitas fantasias humanas, apenas parcialmente verdadeira.
Sim,
surgiria uma identidade de espécie. Pela primeira vez, “humano” poderia
sobrepor-se a “francês”, “chinês”, “russo”, “árabe”, “americano”. As
fronteiras, vistas do exterior, tornar-se-iam subitamente tão ridículas quanto
sempre foram. Os nossos conflitos étnicos pareceriam o que são: tribalismos malvestidos
de bandeira. Diante de uma inteligência exterior, a humanidade descobrir-se-ia,
pela primeira vez, como unidade narrativa.
Mas
não imediatamente. Antes da união, haveria convulsão. Negação. Fanatismo.
Mercados em colapso. Estados a mentir. Religiões a fraturar. Cultos a nascer.
Milícias a improvisar apocalipses. Especialistas televisivos a explicar, com
espantosa confiança, aquilo que ninguém compreende - o que, convenhamos, já é a
tradição mais estável da nossa espécie. A primeira resposta humana não seria
sabedoria. Seria ruído. A segunda talvez fosse medo. Só a terceira poderia ser
grandeza.
É
por isso que o cenário mais provável não é nem a utopia da união imediata, nem
o caos terminal. É algo mais humano, portanto mais contraditório: um período de
histeria, negação, instrumentalização política e colapso simbólico, seguido -
lentamente, dolorosamente - por uma reorganização civilizacional.
Primeiro
o pânico. Depois a propaganda. Depois a teologia. Depois a ciência. E só então,
talvez, a maturidade. Não nos uniríamos porque nos tornámos melhores.
Unir-nos-íamos porque, pela primeira vez, a infância da espécie deixaria de ser
sustentável. Esse seria o verdadeiro choque: não descobrir extraterrestres, mas
descobrir que a presença deles nos obrigaria, finalmente, a tornar-nos adultos.
E
talvez esse seja o mistério mais belo de todos: não o de saber se existe
inteligência lá fora, mas o de saber se a revelação da sua existência despertaria,
por fim, alguma inteligência cá dentro.
Depois,
quando já nos preparávamos para levantar - com aquela lentidão cúmplice - recebemos
a visita simpática do gerente. Surgiu como surgem certas personagens que
parecem escritas por um romancista ligeiramente bêbedo e muito inspirado: um
homem alto, moreno, calvo, de bigode avantajado e presença sólida, como se
tivesse sido esculpido na madeira antiga de um balcão de montanha. Tinha o
porte sereno de quem conhece o tempo, e o sorriso de quem aprendeu a rir com
elegância, sem desperdiçar mistério.
Aproximou-se
com a discrição cerimonial de quem percebe que há conversas que não se
interrompem - apenas se atravessam com delicadeza. E nós, que já nos levantávamos
do conforto morno daquela pausa, acabámos por ficar mais um pouco. Afinal, há
geografias que se visitam com os pés e outras que se revelam apenas quando
alguém nos oferece as palavras certas.
Aproveitámos,
então, para lhe pedir mais algumas dicas sobre Andorra. Ele sorriu com um
orgulho discreto - aquele orgulho raro de quem ama a sua terra sem a vender
como postal - e começou a partilhar connosco os segredos do país, como quem
abre uma gaveta antiga onde se guardam mapas, lendas e pequenas verdades que só
a intimidade do lugar conhece.
Disse-nos
que uma das curiosidades que mais seduz os caminhantes - e percebe-se porquê,
porque há prazeres que só pertencem a quem se perde devagar - é a possibilidade
quase indecente de percorrer Andorra sem pisar o asfalto. Um país inteiro que
se deixa atravessar pela pele agreste dos trilhos, pela espinha mineral das
montanhas, pelo silêncio vegetal das encostas. Graças às mais de cem rotas de
montanha, Andorra oferece essa extravagância rara no mundo moderno: a de
caminhar longamente sem que o betão nos recorde, com a sua brutal falta de
poesia, que a pressa inventou cidades e esqueceu o céu.
Falava-nos
do Gran Recorregut de País como quem fala de um velho segredo passado entre
amantes: um percurso que cose o território com passos lentos, paisagens fundas
e respirações mais limpas. Disse-nos também que existem vinte e nove refúgios
de montanha onde se pode passar a noite no coração intacto da natureza - e, por
um instante, imaginei-nos ali, entregues ao frio digno das alturas, ao rumor
dos pinheiros, à nudez essencial de um silêncio partilhado, onde o amor deixa
de precisar de linguagem e passa a respirar apenas pelo corpo.
Talvez
seja por isso - sugeriu ele com um brilho divertido no olhar - que Andorra tem
a quinta maior esperança de vida do mundo. E ali ficámos, presos a essa
hipótese deliciosamente simples e quase ofensiva para o nosso século neurótico:
talvez se viva mais porque se respira melhor. Talvez porque o ar ainda não
aprendeu a mentir. Talvez pela altitude, que obriga o coração a trabalhar com
mais nobreza. Talvez pela natureza, que cura sem anunciar milagres. Talvez pela
gastronomia, essa forma civilizada de amar com sal, fogo e vinho. Ou talvez - e
esta hipótese agradou-me mais - porque em Andorra a vida ainda encontra menos
obstáculos para ser vivida.
Andorra
é, sem dúvida, natureza. Não como slogan turístico, que isso seria uma vulgaridade,
mas como condição ontológica. Mais de noventa por cento do território é
composto por montanhas, florestas, rios, lagos e prados. A natureza, ali, não é
paisagem: é argumento. É estrutura. É espinha dorsal. O homem, em Andorra,
parece ter construído apenas o suficiente para não se sentir intruso. Apenas
cerca de quatro por cento do território está edificado, comprimido no fundo dos
vales, como se a civilização, por uma vez, tivesse tido a decência de não
interromper a beleza.
E
depois há o requinte improvável da cultura. Com uma ironia quase deliciosa,
aquele pequeno país de gigantes minerais tem mais museus por quilómetro
quadrado do que qualquer outro lugar do mundo. Mais de quinze museus em apenas
468 quilómetros quadrados. Só o Vaticano o supera - o que, convenhamos, é quase
batota, porque competir com um Estado que vive rodeado de mármore, ouro e culpa
cristã é jogo desigual.
Ainda
assim, Andorra impõe-se. E impõe-se bem. Esse detalhe diz muito sobre a
inteligência íntima do país: onde a montanha domina, a memória resiste. Museus,
ali, não são ornamentos para turistas entediados; são cofres de identidade.
Guardam a cultura, as lendas, os costumes, os ofícios, as superstições e as
cicatrizes. Porque mil anos de história não se explicam com folhetos brilhantes
e slogans mal traduzidos. Exigem escuta. Exigem tempo. Exigem a humildade de
perceber que um povo não se resume ao que mostra - mas ao que decide preservar.
Foi
então que nos falou do vale de Madriu-Perafita-Claror, esse nome longo e antigo
que já soa a encantamento antes mesmo de se saber o que nomeia. Um vale onde a
beleza não pede licença para ser excessiva: pastos, prados, extensões vastas de
floresta, caminhos antigos, bordes de pedra e vestígios de velhas forjas, como
cicatrizes nobres deixadas pelo engenho humano sobre a pele da montanha. Há
mais de setecentos anos que aquele lugar conserva os sinais da relação entre os
andorranos e a terra - uma relação sem romantismos ingénuos, feita de esforço,
sobrevivência e respeito. É talvez isso o verdadeiro sagrado: não a pureza
intocada, mas a convivência digna entre o homem e o mundo.
Não
surpreende, por isso, que dez por cento do território andorrano tenha sido
declarado Património da Humanidade pela UNESCO. Há países maiores, mais ricos,
mais ruidosos, mais convencidos da sua importância. E depois há Andorra, que
responde com granito, silêncio e permanência.
Mas
Andorra também sabe seduzir pelo excesso branco do inverno. Aqui, disse-nos
ele, pode esquiar-se em mais de trezentos quilómetros de pistas. Grandvalira,
Pal Arinsal, Ordino Arcalís, Naturland - nomes que descem da boca como
promessas geladas. O maior território esquiável do sul da Europa. Pistas
intermináveis, desportos de inverno, neve de dia e de noite, adrenalina,
vertigem, e essa estranha euforia de deslizar sobre o frio como quem desafia a
gravidade e, por algumas horas, a própria mortalidade.
Escutávamo-lo
com aquela atenção rara que só damos ao que nos seduz sem esforço. Havia
qualquer coisa de profundamente belo na forma como ele falava da sua terra: sem
folclore excessivo, sem patriotismo fatigado, sem a teatralidade ridícula dos
que transformam cada colina num milagre. Falava como quem conhece. E quem
conhece não exagera - insinua.
Agradecemos-lhe
a generosidade e, com essa partilha de conhecimento ainda acesa entre nós,
caminhámos lentamente até ao hotel. A noite deslizava sobre as ruas com uma
elegância escura, e havia no ar aquela frescura fina das cidades de montanha,
onde até o silêncio parece lavado.
Hesitámos
diante do bar. Houve um instante - breve, perigoso e deliciosamente
irresponsável - em que o brilho âmbar das garrafas, o rumor baixo das vozes e a
promessa de mais uma hora roubada ao sono nos tentaram com a doçura imprudente
dos prazeres inúteis. Mas o dia seguinte esperava-nos com a severidade pouco
poética das longas viagens. Tínhamos pela frente a estrada até La Rochelle, em
França. E, para satisfazer um sonho de Penélope, fui obrigado a desviar a rota
e a prolongar a viagem.
Naturalmente,
chamei-lhe sacrifício com a dignidade teatral que um homem apaixonado deve
sempre cultivar. Ela sorriu - e nesse sorriso havia já metade da viagem, metade
do destino, metade de tudo o que ainda nos faltava viver.
Porque
a verdade, essa verdade simples e quase cruel, é que nenhum desvio é perda
quando a amizade vai no banco do passageiro. E se prolonguei a estrada, foi
apenas para ter mais tempo de a ver adormecer contra o vidro, mais quilómetros
para lhe roubar silêncios, mais paisagem para merecer o milagre de a levar
comigo.
Na
manhã seguinte partiríamos cedo. Mas nessa noite, antes do sono e antes da
distância, abri o meu computador para ler as noticias de Portugal. Reconheço
que, como Andorra, Portugal ainda é um país seguro, mas pelas noticias que
acabo de ler, já não sei se tenho mais medo dos ladrões ou dos policias.
Despois
coloquei os fones, escutei esta musica suave que o cansaço não me deixou
terminar.








