O que aconteceria ao homem no dia em que deixasse de ser o único espelho consciente do universo?



Despertei rejuvenescido de um sono tranquilo, desses raros, sem fissuras, em que o corpo se entrega à noite como quem regressa a um ventre antigo e seguro. A manhã recebeu-me com a delicadeza das coisas simples e indispensáveis: em poucos segundos estava debaixo de um duche reconfortante, a água quente a escorrer-me pela pele como uma promessa discreta, dissolvendo o último vestígio de cansaço, acordando-me por dentro. 

Minutos depois, estava diante de uma grande chávena de café forte, aromático e escuro. O aroma subia em espirais e invadia-me a alma, enquanto à minha frente o pão acabado de cozer se desfazia ao toque da manteiga, derretida e dourada, numa rendição indecente e perfeita. Aquele pequeno almoço era simples, mas como tantas coisas verdadeiramente memoráveis, tocava o sublime sem fazer alarde.

Depois chegou Penélope. Entrou como entram certas mulheres no imaginário dos homens cansados: sem pressa, mas com a secreta arrogância de quem sabe que altera a temperatura de um lugar apenas por existir. Sorridente, divertida, luminosa, trazia nos olhos o brilho vivo de quem acordou curiosa e pronta para devorar o mundo. Sentou-se diante de mim com aquela graça espontânea que parecia sempre ensaiada por deuses ociosos. Mal pousou as mãos sobre a mesa, passou uma delas pela minha cabeça, num gesto leve, íntimo, perigosamente natural, e disse, com a voz ainda morna de madrugada: “Esta noite sonhei contigo.” Olhei de lado, sem lhe dar o luxo de perceber o pequeno abalo que me atravessou.  “Hum… queres partilhar?” Fez-se silêncio. Um silêncio curioso, espesso, desses que não caem: instalam-se. O tilintar dos talheres na sala pareceu subitamente mais agudo, quase insolente, como se o mundo inteiro, com o seu ruído pequeno e vulgar, se tivesse aproximado para escutar o que não lhe dizia respeito. Penélope baixou os olhos por um instante, desenhou um círculo distraído na borda da chávena e respondeu: “É melhor não. Depois… quando se proporcionar.” E foi como se alguém tivesse acendido um fósforo no centro do ar.

Voltámos ao silêncio, mas já não era o mesmo. O primeiro era circunstancial. Este tinha pele, pulsação, intenções. De repente, pareceu-me que toda a sala nos observava - ou talvez fosse apenas a suspeita ridícula, e deliciosamente vaidosa, de que a tensão entre duas pessoas tem sempre a pretensão teatral de se julgar o centro do universo. Talvez ninguém nos olhasse. Talvez fosse só o desejo, esse exibicionista.

Colocámos as mochilas às costas e saímos à descoberta de Andorra. Andorra é um daqueles lugares que parecem inventados por alguém sentimental, um país que se aninha nos Pirenéus com delicadeza. Há nele qualquer coisa de refúgio e de conspiração romântica. Montanhas imponentes, ar limpo, um silêncio mineral, vilas que parecem ter sido desenhadas para o amor desacelerar. Não há pressa em Andorra. Há curvas. Há névoa. Há pedra antiga. Há uma beleza tão serena que chega a parecer suspeita. Era o cenário ideal para casais que procuram natureza, recolhimento e a doce ilusão de que o mundo, afinal, ainda pode ser terno.


Penélope estava decidida a relaxar num spa. Confesso que a ideia me desagradou num primeiro instante. Não por falta de vontade, mas por imprevidência. Eu não vinha preparado. E há poucas coisas mais humilhantes do que um homem ser apanhado desprevenido diante da logística do prazer.

Ela percebeu-me o desconforto com a rapidez elegante de quem já leu homens piores. Olhou para mim divertida, e disse: “Não te preocupes. As mulheres pensam em tudo.” Disse-o sem arrogância, mas com aquela superioridade prática que as mulheres exercem com a mesma subtileza com que respiram. E eu, como qualquer homem sensato diante de uma verdade inconveniente, calei-me. Afinal, a história da civilização pode resumir-se a isso: homens a improvisar e mulheres a salvar discretamente a experiência.

Antes do almoço, passámos duas horas no Caldea, um dos maiores centros de termalismo da Europa. E talvez “passar” seja um verbo insuficiente para o que ali acontece. Não se passa pelo Caldea. Suspende-se. Dissolve-se. Cede-se.

As águas termais acolheram-nos com uma voluptuosidade silenciosa. O calor envolvia o corpo com uma intimidade quase indecente, desfazendo as defesas uma a uma, soltando os músculos, amolecendo a lucidez. As montanhas erguiam-se diante de nós, austeras e magníficas, enquanto o vapor subia em véus translúcidos e o mundo lá fora parecia pertencer a outra espécie de gente - a dos apressados, dos tensos, dos irrelevantes.

Ali dentro, o tempo não corria. Derretia. Penélope fechou os olhos e recostou a cabeça. Havia gotas de água nos ombros dela, pequenas constelações líquidas a escorrerem-lhe pela pele. O rosto, sem esforço, parecia mais belo naquela rendição calma. E eu pensei, com uma lucidez perigosamente serena, que há mulheres que não seduzem por excesso - seduzem por suspensão. Não invadem. Instalam-se.

Almoçámos depois num pequeno restaurante simpático e sossegado. À tarde, entregámo-nos à cidade. Andorra tem uma densidade improvável de igrejas românicas, como Sant Joan de Caselles, onde a pedra guarda uma espiritualidade antiga e quase táctil. Caminhámos entre paredes seculares e frescos gastos, envolvidos por aquele silêncio espesso das coisas que sobreviveram ao tempo. Há uma sensualidade estranha nos lugares antigos - não a do corpo, mas a da permanência. A pedra, ao contrário das pessoas, sabe guardar segredos.

Depois seguimos para o Mirador del Roc del Quer. Suspensa sobre o abismo, a plataforma abria-se sobre um horizonte brutal e magnífico. A vista era tão vasta que humilhava. Diante de certas paisagens, o ego encolhe com a elegância de quem finalmente percebe o seu tamanho real. Penélope aproximou-se do limite, o vento a puxar-lhe o cabelo, e por um momento pareceu-me uma dessas figuras mitológicas que enlouqueciam marinheiros apenas por existirem num rochedo.


Mais tarde, encontrámos La Noblesse du Temps, o relógio derretido de Dalí, esse monumento delicioso à inutilidade da arrogância humana. O tempo, ali, pendia mole e irónico sobre a matéria, como se o próprio Dalí nos piscasse o olho e dissesse: “Vês? Corres tanto para isto.” E havia qualquer coisa de deliciosamente sarcástico em contemplar um relógio deformado depois de um dia em que o tempo, de facto, deixara de se comportar com seriedade.

Mas foi a noite que me desarmou. O jantar esperava-nos num restaurante de montanha, desses onde a madeira escura, a luz baixa e a música suave conspiram para fazer da realidade uma coisa mais suportável. Havia velas sobre a mesa, pequenas chamas vacilantes que douravam o rosto de Penélope com uma ternura quase cruel. O vinho francês era profundo, a comida irrepreensível, as sobremesas de uma doçura perigosa. Tudo parecia calibrado para esse raro estado em que o prazer deixa de ser excesso e passa a ser linguagem.

Foi um momento zen, sim - mas não daquela paz asséptica e sem pulsação dos folhetos de bem-estar. Era uma serenidade viva, quente, perfumada. Havia no ar o aroma do vinho aberto, da madeira aquecida, da cera derretida, da noite limpa, e por baixo de tudo isso, mais subtil e mais perturbador, o perfume de Penélope, que aparecia e desaparecia como uma ideia indecente.

Lá fora, o céu estava limpo e as estrelas brilhavam com uma nitidez quase insolente. O frio fino da montanha tornava tudo mais nítido, mais táctil, mais próximo. Por vezes, rasgos de luz atravessavam o céu escuro - breves, oblíquos, misteriosos - e rimo-nos da possibilidade absurda de estarmos a ser observados por extraterrestres.

Penélope riu-se. Aquele riso baixo, morno, perigoso. Depois calou-se. E foi nesse silêncio, sob o frio delicado da noite e o ouro trémulo das estrelas, que ela hesitou pela primeira vez. Procurou-me a mão com uma lentidão quase distraída, como quem não quer parecer que quer. Tocou-me os dedos, recuou ligeiramente, voltou a entrelaçá-los nos meus. Havia naquele gesto uma ternura inquieta, como se o corpo dela soubesse antes da coragem.

“Quase te contei ao pequeno-almoço”, disse, sem me olhar. A voz vinha baixa, como se pudesse partir-se. Apertei-lhe a mão sem responder. Há momentos em que falar é só uma forma deselegante de estragar a precisão do instante.

Ela respirou fundo. Hesitou outra vez. Sorriu de lado, como quem se envergonha de si própria e se diverte com isso. “Foi um sonho estranho…” - murmurou.  Olhou finalmente para mim. Tinha nos olhos aquela vulnerabilidade rara que só aparece quando o desejo e o medo decidem sentar-se à mesma mesa.


 “Sonhei que nos perdemos”. Fez uma pausa. “Não daqueles perderes dramáticos e trágicos, não. Perdemo-nos de propósito. Como quem abandona o mapa para ver se o destino tem imaginação. Respirou fundo e hesitou novamente. “Não, não vou contar-te agora”

O vento passou entre nós, leve e frio. Senti o seu desconforto e voltei à conversa sobre os extraterrestres para aliviar a pressão. “Sabes o que aconteceria ao homem no dia em que deixasse de ser o único espelho consciente do universo?

Às vezes imagino outras civilizações como quem imagina uma amante ainda não encontrada: não como uma fantasia pueril de luzes verdes e antenas de plástico, mas como uma presença antiga, silenciosa, algures entre a geometria do cosmos e o estremecimento da pele. Penso nelas como se pensa no mar à noite - vasto, sedutor, escuro, irresistível. Umas talvez mais velhas do que a nossa arrogância; outras, mais frágeis do que o nosso medo. Umas já terão domesticado estrelas com a elegância com que nós domesticámos o fogo; outras talvez ainda contem os relâmpagos como deuses e chamem milagre ao que nós chamamos física. E no meio dessa vertigem, resta-nos esta pergunta deliciosamente inquietante: o que aconteceria ao homem no dia em que deixasse de ser o único espelho consciente do universo?

A resposta curta é brutal: cairíamos. Não no sentido físico - embora conhecendo a humanidade, haveria certamente alguém a abrir uma garrafa de champanhe enquanto outro lançava um míssil “preventivo”, porque o Homo sapiens tem essa notável capacidade de transformar o sublime em protocolo militar. Cairíamos, antes, metafisicamente. Seria uma queda ontológica, um colapso íntimo, quase erótico, da imagem que construímos de nós mesmos. O golpe não seria apenas científico; seria civilizacional. A prova irrefutável de inteligência extraterrestre não seria apenas uma descoberta. Seria uma humilhação cósmica. Elegante, merecida, talvez até misericordiosa.

Durante milénios, sustentámo-nos na convicção enternecedora - e um pouco patética - de que éramos o centro do drama universal. Primeiro, o centro da criação. Depois, o centro da razão. Mais tarde, o centro do progresso. Sempre o centro de alguma coisa, como uma criança mimada que insiste em acreditar que o jantar só começa quando ela se senta. O antropocentrismo não é apenas uma visão filosófica; é o nosso romance narcisista com a existência. E como todos os romances excessivamente apaixonados, também este vive de ilusão, projeção e negação.

A confirmação de outra inteligência destruiria isso com a delicadeza de um relâmpago. Deixaríamos de ser os protagonistas. E talvez essa fosse, ironicamente, a nossa primeira oportunidade de amadurecer. Porque a verdade mais escandalosa não seria descobrir que não estamos sós. Seria descobrir que nunca estivemos. Que o universo não nos esperou, não nos privilegiou, não suspendeu o seu esplendor até ao aparecimento da nossa consciência ansiosa e das nossas guerras burocraticamente organizadas. Haveria algo de profundamente libertador nisso. Doloroso, sim. Mas libertador. Como perceber, depois de anos de vaidade, que o espelho nunca foi uma janela.


E então começaria a grande reforma. Não política, ainda não. Não tecnológica, ainda não. Primeiro: espiritual. As religiões não morreriam; metamorfosear-se-iam. As mais inteligentes fariam o que sempre fizeram quando confrontadas com o abismo: reinterpretariam. As mais rígidas fariam o que sempre fazem quando o chão treme: gritariam mais alto. Não seria o fim da fé, mas o fim da sua inocência geocêntrica. O Génesis deixaria de ser lido como geografia sagrada e passaria a ser lido como metáfora cósmica. O “façamos o homem à nossa imagem” tornar-se-ia uma frase infinitamente mais perigosa - e bela. Que imagem? A de um primata terrestre? Ou a de uma consciência capaz de reconhecer o mistério, seja em carne, silício, plasma ou matéria que ainda nem sabemos nomear?

E então a teologia, essa velha senhora vestida de absolutos, seria obrigada a despir-se. A pergunta deixaria de ser apenas “há vida lá fora?” e tornar-se-ia mais íntima, mais escandalosa, quase indecente: haverá alma lá fora? Haverá pecado? Haverá transcendência? Terão eles mitos? Deuses? Liturgias? Terão inventado a culpa, esse desporto humano? Terão conhecido o amor? Terão escrito poesia à beira de um oceano violeta? Terão chorado os mortos olhando três luas? E se sim - que resta da nossa pretensão de exclusividade espiritual?

A pergunta teológica mais famosa - “Cristo morreu também por eles?” - não é apenas provocadora; é devastadora. Porque obriga a fé a confrontar o seu maior escândalo: ou a redenção é cósmica, ou era provincial. E um Deus provincial seria uma ideia demasiado pequena para um universo tão obscenamente vasto.

Mas não seria apenas a religião a sangrar beleza e crise. A ciência também perderia a sua virgindade epistemológica. O impacto seria violento. Quase sensual. Como tocar, pela primeira vez, uma verdade que nos excede. Toda a nossa física passaria do estado de majestade para o estado de rascunho. Não deixaria de ser válida - Newton continua útil mesmo quando Einstein entra na sala -, mas tornar-se-ia insuficiente. A confirmação de uma civilização capaz de nos visitar seria a prova empírica de que a “física do impossível” não era impossível; era apenas provinciana. Curvatura, manipulação gravitacional, engenharia do espaço-tempo, energia para lá do nosso fetichismo fóssil - de repente, os nossos motores pareceriam fósforos acesos numa catedral.

As indústrias ruiriam primeiro em silêncio, depois em pânico. Energia, transporte, defesa, medicina, telecomunicações - tudo o que hoje sustenta o poder seria imediatamente contaminado por obsolescência. Não porque teríamos acesso imediato à tecnologia deles, mas porque a simples prova da sua existência destruiria o monopólio psicológico do possível. E isso bastaria para incendiar o mundo. O verdadeiro motor da revolução não seria a nave no céu; seria o colapso intelectual da palavra impossível.

E depois viria a biologia, essa disciplina que ainda fala da vida com a arrogância de quem só conheceu um único exemplar. Toda a nossa compreensão do vivo repousa num escândalo estatístico: um planeta, uma árvore genética, uma química. Descobrir outra biologia seria como descobrir uma nova gramática da existência. ADN? Talvez universal. Talvez apenas uma solução elegante e local, como o latim da matéria orgânica. Talvez eles usem outro alfabeto molecular. Talvez curem degeneração como quem afina música. Talvez o cancro, entre eles, seja uma relíquia primitiva. Talvez a morte seja menos tirânica. Talvez sejamos, biologicamente, brilhantes amadores. E então a medicina tornar-se-ia mística pela via da ciência. Curar deixaria de ser apenas reparar; passaria a ser compreender o que a vida pode ser quando não nasceu aqui.


Politicamente, a questão é mais cruel. Gostamos de imaginar que a humanidade se uniria sob o choque do “Outro”. É uma fantasia bonita. Nobre. Quase comovente. E, como muitas fantasias humanas, apenas parcialmente verdadeira.

Sim, surgiria uma identidade de espécie. Pela primeira vez, “humano” poderia sobrepor-se a “francês”, “chinês”, “russo”, “árabe”, “americano”. As fronteiras, vistas do exterior, tornar-se-iam subitamente tão ridículas quanto sempre foram. Os nossos conflitos étnicos pareceriam o que são: tribalismos malvestidos de bandeira. Diante de uma inteligência exterior, a humanidade descobrir-se-ia, pela primeira vez, como unidade narrativa.

Mas não imediatamente. Antes da união, haveria convulsão. Negação. Fanatismo. Mercados em colapso. Estados a mentir. Religiões a fraturar. Cultos a nascer. Milícias a improvisar apocalipses. Especialistas televisivos a explicar, com espantosa confiança, aquilo que ninguém compreende - o que, convenhamos, já é a tradição mais estável da nossa espécie. A primeira resposta humana não seria sabedoria. Seria ruído. A segunda talvez fosse medo. Só a terceira poderia ser grandeza.

É por isso que o cenário mais provável não é nem a utopia da união imediata, nem o caos terminal. É algo mais humano, portanto mais contraditório: um período de histeria, negação, instrumentalização política e colapso simbólico, seguido - lentamente, dolorosamente - por uma reorganização civilizacional.

Primeiro o pânico. Depois a propaganda. Depois a teologia. Depois a ciência. E só então, talvez, a maturidade. Não nos uniríamos porque nos tornámos melhores. Unir-nos-íamos porque, pela primeira vez, a infância da espécie deixaria de ser sustentável. Esse seria o verdadeiro choque: não descobrir extraterrestres, mas descobrir que a presença deles nos obrigaria, finalmente, a tornar-nos adultos.

E talvez esse seja o mistério mais belo de todos: não o de saber se existe inteligência lá fora, mas o de saber se a revelação da sua existência despertaria, por fim, alguma inteligência cá dentro.

Depois, quando já nos preparávamos para levantar - com aquela lentidão cúmplice - recebemos a visita simpática do gerente. Surgiu como surgem certas personagens que parecem escritas por um romancista ligeiramente bêbedo e muito inspirado: um homem alto, moreno, calvo, de bigode avantajado e presença sólida, como se tivesse sido esculpido na madeira antiga de um balcão de montanha. Tinha o porte sereno de quem conhece o tempo, e o sorriso de quem aprendeu a rir com elegância, sem desperdiçar mistério.


Aproximou-se com a discrição cerimonial de quem percebe que há conversas que não se interrompem - apenas se atravessam com delicadeza. E nós, que já nos levantávamos do conforto morno daquela pausa, acabámos por ficar mais um pouco. Afinal, há geografias que se visitam com os pés e outras que se revelam apenas quando alguém nos oferece as palavras certas.

Aproveitámos, então, para lhe pedir mais algumas dicas sobre Andorra. Ele sorriu com um orgulho discreto - aquele orgulho raro de quem ama a sua terra sem a vender como postal - e começou a partilhar connosco os segredos do país, como quem abre uma gaveta antiga onde se guardam mapas, lendas e pequenas verdades que só a intimidade do lugar conhece.

Disse-nos que uma das curiosidades que mais seduz os caminhantes - e percebe-se porquê, porque há prazeres que só pertencem a quem se perde devagar - é a possibilidade quase indecente de percorrer Andorra sem pisar o asfalto. Um país inteiro que se deixa atravessar pela pele agreste dos trilhos, pela espinha mineral das montanhas, pelo silêncio vegetal das encostas. Graças às mais de cem rotas de montanha, Andorra oferece essa extravagância rara no mundo moderno: a de caminhar longamente sem que o betão nos recorde, com a sua brutal falta de poesia, que a pressa inventou cidades e esqueceu o céu.

Falava-nos do Gran Recorregut de País como quem fala de um velho segredo passado entre amantes: um percurso que cose o território com passos lentos, paisagens fundas e respirações mais limpas. Disse-nos também que existem vinte e nove refúgios de montanha onde se pode passar a noite no coração intacto da natureza - e, por um instante, imaginei-nos ali, entregues ao frio digno das alturas, ao rumor dos pinheiros, à nudez essencial de um silêncio partilhado, onde o amor deixa de precisar de linguagem e passa a respirar apenas pelo corpo.

Talvez seja por isso - sugeriu ele com um brilho divertido no olhar - que Andorra tem a quinta maior esperança de vida do mundo. E ali ficámos, presos a essa hipótese deliciosamente simples e quase ofensiva para o nosso século neurótico: talvez se viva mais porque se respira melhor. Talvez porque o ar ainda não aprendeu a mentir. Talvez pela altitude, que obriga o coração a trabalhar com mais nobreza. Talvez pela natureza, que cura sem anunciar milagres. Talvez pela gastronomia, essa forma civilizada de amar com sal, fogo e vinho. Ou talvez - e esta hipótese agradou-me mais - porque em Andorra a vida ainda encontra menos obstáculos para ser vivida.

Andorra é, sem dúvida, natureza. Não como slogan turístico, que isso seria uma vulgaridade, mas como condição ontológica. Mais de noventa por cento do território é composto por montanhas, florestas, rios, lagos e prados. A natureza, ali, não é paisagem: é argumento. É estrutura. É espinha dorsal. O homem, em Andorra, parece ter construído apenas o suficiente para não se sentir intruso. Apenas cerca de quatro por cento do território está edificado, comprimido no fundo dos vales, como se a civilização, por uma vez, tivesse tido a decência de não interromper a beleza.


E depois há o requinte improvável da cultura. Com uma ironia quase deliciosa, aquele pequeno país de gigantes minerais tem mais museus por quilómetro quadrado do que qualquer outro lugar do mundo. Mais de quinze museus em apenas 468 quilómetros quadrados. Só o Vaticano o supera - o que, convenhamos, é quase batota, porque competir com um Estado que vive rodeado de mármore, ouro e culpa cristã é jogo desigual.

Ainda assim, Andorra impõe-se. E impõe-se bem. Esse detalhe diz muito sobre a inteligência íntima do país: onde a montanha domina, a memória resiste. Museus, ali, não são ornamentos para turistas entediados; são cofres de identidade. Guardam a cultura, as lendas, os costumes, os ofícios, as superstições e as cicatrizes. Porque mil anos de história não se explicam com folhetos brilhantes e slogans mal traduzidos. Exigem escuta. Exigem tempo. Exigem a humildade de perceber que um povo não se resume ao que mostra - mas ao que decide preservar.

Foi então que nos falou do vale de Madriu-Perafita-Claror, esse nome longo e antigo que já soa a encantamento antes mesmo de se saber o que nomeia. Um vale onde a beleza não pede licença para ser excessiva: pastos, prados, extensões vastas de floresta, caminhos antigos, bordes de pedra e vestígios de velhas forjas, como cicatrizes nobres deixadas pelo engenho humano sobre a pele da montanha. Há mais de setecentos anos que aquele lugar conserva os sinais da relação entre os andorranos e a terra - uma relação sem romantismos ingénuos, feita de esforço, sobrevivência e respeito. É talvez isso o verdadeiro sagrado: não a pureza intocada, mas a convivência digna entre o homem e o mundo.

Não surpreende, por isso, que dez por cento do território andorrano tenha sido declarado Património da Humanidade pela UNESCO. Há países maiores, mais ricos, mais ruidosos, mais convencidos da sua importância. E depois há Andorra, que responde com granito, silêncio e permanência.

Mas Andorra também sabe seduzir pelo excesso branco do inverno. Aqui, disse-nos ele, pode esquiar-se em mais de trezentos quilómetros de pistas. Grandvalira, Pal Arinsal, Ordino Arcalís, Naturland - nomes que descem da boca como promessas geladas. O maior território esquiável do sul da Europa. Pistas intermináveis, desportos de inverno, neve de dia e de noite, adrenalina, vertigem, e essa estranha euforia de deslizar sobre o frio como quem desafia a gravidade e, por algumas horas, a própria mortalidade.

Escutávamo-lo com aquela atenção rara que só damos ao que nos seduz sem esforço. Havia qualquer coisa de profundamente belo na forma como ele falava da sua terra: sem folclore excessivo, sem patriotismo fatigado, sem a teatralidade ridícula dos que transformam cada colina num milagre. Falava como quem conhece. E quem conhece não exagera - insinua.


Agradecemos-lhe a generosidade e, com essa partilha de conhecimento ainda acesa entre nós, caminhámos lentamente até ao hotel. A noite deslizava sobre as ruas com uma elegância escura, e havia no ar aquela frescura fina das cidades de montanha, onde até o silêncio parece lavado.

Hesitámos diante do bar. Houve um instante - breve, perigoso e deliciosamente irresponsável - em que o brilho âmbar das garrafas, o rumor baixo das vozes e a promessa de mais uma hora roubada ao sono nos tentaram com a doçura imprudente dos prazeres inúteis. Mas o dia seguinte esperava-nos com a severidade pouco poética das longas viagens. Tínhamos pela frente a estrada até La Rochelle, em França. E, para satisfazer um sonho de Penélope, fui obrigado a desviar a rota e a prolongar a viagem.

Naturalmente, chamei-lhe sacrifício com a dignidade teatral que um homem apaixonado deve sempre cultivar. Ela sorriu - e nesse sorriso havia já metade da viagem, metade do destino, metade de tudo o que ainda nos faltava viver.

Porque a verdade, essa verdade simples e quase cruel, é que nenhum desvio é perda quando a amizade vai no banco do passageiro. E se prolonguei a estrada, foi apenas para ter mais tempo de a ver adormecer contra o vidro, mais quilómetros para lhe roubar silêncios, mais paisagem para merecer o milagre de a levar comigo.

Na manhã seguinte partiríamos cedo. Mas nessa noite, antes do sono e antes da distância, abri o meu computador para ler as noticias de Portugal. Reconheço que, como Andorra, Portugal ainda é um país seguro, mas pelas noticias que acabo de ler, já não sei se tenho mais medo dos ladrões ou dos policias.

https://www.youtube.com/watch?v=SUiyYZ_2Rpc&list=RDEM8F0XaWsdd5Omzz7WUqTZIg&start_radio=1&rv=4HoS6NEGwMw

Despois coloquei os fones, escutei esta musica suave que o cansaço não me deixou terminar.

 

Diário de uma viagem – 139 dia

Mensagens populares deste blogue

Como é frágil a esperança humana quando tenta encontrar atalhos para a felicidade!

Descobrir os sentimentos de uma mulher com uma natureza apaixonada, intensa e misteriosa, é o mesmo que resolver o cubo Rubik!

Mas antes de conquistar Budva, eu precisava de ser conquistado…