Este é o colapso neuroafetivo do nosso tempo! Se o mercado lucra com incêndios, não basta distribuir baldes; é preciso rever quem vende fósforos.
Acordei.
Abri os olhos e fechei-os de novo. Há um instante ridículo, todas as manhãs, em
que a consciência chega antes da geografia. E, para quem já acordou em camas
demais, em cidades demais, com cortinas diferentes e tetos desconhecidos, esse
instante tem sempre qualquer coisa de julgamento: onde estou, afinal, e quem
fui ontem para merecer este teto hoje?
Fiquei
imóvel por uns segundos, a negociar com a luz filtrada pelas cortinas, com o
lençol desalinhado, com a preguiça morna de um corpo que ainda não decidira se
pertencia ao sono ou ao mundo. Há um luxo secreto em acordar devagar. Um
erotismo discreto, quase indecente, em adiar o primeiro gesto do dia. O corpo
ainda é mistério, a alma ainda não vestiu a compostura, e por breves segundos
somos apenas matéria vulnerável e sincera.
Foi
então que bateram à porta. E eu, ainda meio náufrago do sono, pensei com a
gratidão ingénua dos homens simples: que maravilha, hoje o hotel traz o
pequeno-almoço ao quarto. Abri a porta, meio ensonado, meio descomposto,
inteiro desarmado. Do outro lado estava Penélope.
Rejuvenescida
- como se a noite, em vez de lhe ter passado por cima, lhe tivesse pedido
licença. Radiante. O sorriso largo, quase insolente, o olhar vivo de quem já
acordou há muito e já venceu o dia antes de ele começar. Trazia aquela espécie de
beleza perigosa, leve, luminosa, deliciosamente cruel.
“Estou
pronta e com fome. Despacha-te… ou precisas que te ajude?” Sorri, ainda
encostado à porta, vencido por aquele género de aparição que faz um homem
reconsiderar todas as suas convicções matinais. “A vestires-me?” Ela ergueu uma
sobrancelha com a elegância afiada de quem sabe exatamente o efeito que tem. “Não.
A pôr-te os cremes.” Ri-me. Da resposta. Do tom. Da intimidade absurda que só
existe quando duas pessoas já aprenderam a tropeçar uma na outra sem cerimónia.
Depois
foi tudo rápido. Ridiculamente rápido. Penélope tinha aquela energia feroz das
manhãs decididas - uma espécie de Speedy Gonzales em versão escandalosamente
elegante. Em poucos minutos eu estava domesticado, vestido, penteado com
dignidade suficiente para ser aceite em público, e sentado à mesa a fazer-lhe
companhia.
Ela
comia com apetite e graça, essa combinação rara que devia ser ilegal. Eu
observava-a com o prazer clandestino de quem finge atenção ao café, mas estuda
secretamente o movimento das mãos, a curva da boca, o modo como uma mulher
segura uma chávena e, sem esforço, transforma um gesto banal numa teoria
estética.
Depois
entreguei-me ao meu ritual silencioso, aquele momento zen que salva todas as
manhãs do crime de serem apenas manhãs. O primeiro café bebido sem pressa. O
segundo gole já com alma. O mundo ainda ao longe, respeitosamente distante. O
rumor discreto da rua. A promessa da estrada. O privilégio raro de não ter de
correr para lado nenhum, embora tivéssemos quilómetros suficientes pela frente
para justificar uma pequena epopeia.
Malas
no carro. Música escolhida por Penélope - o que significava, inevitavelmente,
bom gosto, charme e alguma manipulação emocional em forma de playlist. E
partimos em direção a La Rochelle. A estrada abriu-se diante de nós como um
convite antigo. Há viagens que começam no mapa e há viagens que começam no
corpo. Esta começou nos dois. O asfalto desenrolava-se com a paciência de quem
sabe que o prazer não está no destino, mas na arte subtil de adiá-lo.
Conduzimos
alternadamente, trocando de lugar como quem troca de papel numa peça
improvisada. Ora ela conduzia com aquela segurança elegante de quem parece
seduzir o volante, ora eu retomava o comando enquanto ela reclinava o banco,
deixava o cabelo render-se ao acaso e os olhos entregarem-se à paisagem.
A
manhã foi escorrendo em campos largos, pequenas aldeias de pedra dourada,
árvores imóveis sob o sol limpo e postos de combustível com o romantismo
deprimente de todos os postos de combustível da Europa. Há uma poesia
específica nas autoestradas: não é bela, mas é honesta. Não promete
transcendência. Dá-nos faixas, direção e a ilusão civilizada de controlo.
Falámos
pouco durante alguns troços, e isso era um luxo. O silêncio entre duas pessoas
só é desconfortável quando lhes falta intimidade. O nosso silêncio tinha
textura. Respirava. Pensava connosco. Era interrompido por comentários soltos,
observações absurdas, teorias improvisadas sobre a vida alheia vista em carros
vizinhos. Penélope tinha um talento raro para construir biografias inteiras a
partir de um condutor e duas malas no banco de trás. Em cinco segundos,
transformava um casal anónimo numa tragédia conjugal ou numa comédia fiscal.
Rimo-nos
mais do que seria expectável para duas pessoas a atravessar centenas de
quilómetros. E talvez esse seja um dos sinais mais fiáveis de afinidade: não a
profundidade das confissões, mas a qualidade do riso.
Chegámos
a Bordéus já com a fome afinada pela estrada. Bordéus surgiu-nos com aquela
elegância quase ofensiva das cidades que envelhecem bem. Há lugares que
impressionam; Bordéus seduz. Tem o charme insolente de quem sabe exatamente o
que vale e não precisa de o repetir. A “Bela Adormecida”, chamam-lhe. Nome
bonito. Injusto, talvez. Bordéus não dorme - observa. Espera. E julga
discretamente.
Almoçámos
sem cerimónia nem demora, como convinha ao plano. Uma refeição leve, precisa,
sem o sentimentalismo glutão dos almoços que se transformam em deserção
logística. Qualquer coisa simples e impecável: pão bom, queijo sério, uma
salada honesta, talvez peixe, talvez uma taça de vinho apenas para não insultar
a geografia. O suficiente para alimentar o corpo sem distrair a viagem.
O
restaurante estava cheio. Não de ruído, mas daquela densidade humana feita de
talheres, copos, conversas suspensas e olhares desviados. Grande parte da sala
tinha a atenção sequestrada por uma televisão ao fundo, onde o presidente dos
Estados Unidos discursava naquele tom imperial e hostil que certos homens
confundem com autoridade. A retórica musculada de sempre. A coreografia do
poder. A velha liturgia da ameaça embalada como segurança.
Havia
qualquer coisa de grotesco naquele cenário: gente a mastigar em silêncio
enquanto, do outro lado do ecrã, um homem bem penteado vendia conflito como se fosse
inevitabilidade histórica. O apetite humano é uma coisa espantosa. Conseguimos
digerir sopa e belicismo com a mesma compostura.
Terminámos
sem demora. Pagámos. Saímos com a discrição quase cúmplice de quem abandona uma
sala onde se confunde demasiadas vezes informação com intoxicação.
A
estrada retomou-nos. E foi já no caminho para La Rochelle, com a tarde a ganhar
aquela luz oblíqua que torna tudo ligeiramente mais belo e ligeiramente mais
falso, que Penélope baixou o volume da música. Trazia um vestido leve, os pés
descalços pousados sobre o tablier numa provocação doméstica ao bom senso e ao
código da estrada. O vento entrava-lhe pelos cabelos, e havia nela qualquer
coisa de perigosamente serena - como se soubesse que certas perguntas só devem
ser feitas quando já não há para onde fugir.
Virou-se
ligeiramente para mim, a voz baixa, morna, sedutora. “Agrada-te estar a almoçar
a escutar notícias de conflitos?” Fiquei em silêncio por um momento. Não por
falta de resposta. Mas porque há perguntas que merecem o respeito de um
intervalo. Olhei a estrada. O traço contínuo. A sucessão dócil dos quilómetros.
O conforto quase indecente de estarmos ali - saciados, livres, móveis -
enquanto algures alguém aprendia o som exacto de perder tudo.
“Não”
- disse por fim. – “Não me agrada. Inquieta-me essa facilidade obscena com que
o horror se tornou ruído de fundo. Como se a guerra tivesse sido rebaixada à
condição de meteorologia. Está a acontecer ali, dizem-nos. Com possibilidade de
agravamento. E nós passamos o sal.” E
há qualquer coisa de profundamente doente numa civilização que aprende a
mastigar enquanto assiste à ruína alheia.
Penélope
não respondeu de imediato. Ficou a olhar em frente, mas sorriu daquele modo
subtil que não é alegria - é reconhecimento. E eu continuei, porque certas
ideias, uma vez abertas, recusam voltar a ser gaveta. Penélope cruzou os
braços, pensativa.
Houve
um tempo - e não, não foi uma lenda contada por velhos cínicos à porta de cafés
moribundos - em que a palavra tinha peso. Não o peso burocrático dos decretos,
nem o peso pomposo dos discursos empoados de retórica, mas o peso raro e
sensual de quem sabia que falar era tocar. A palavra era pele antes de ser
arma. Era ponte antes de trincheira. Havia desacordo, claro. Havia fricção, esse
erotismo civilizacional do pensamento quando duas ideias se encontram e não se
beijam, mas também não se degolam. Discordar era, então, uma forma sofisticada
de intimidade: eu não penso como tu, mas reconheço em ti a dignidade de existir
inteiro.
Hoje,
porém, a palavra sofre de erosão. Não uma erosão natural, dessas que o tempo
esculpe com elegância, como o mar trabalha a falésia até lhe arrancar beleza da
ruína. Não. Esta é uma erosão bruta, apressada, industrial. A palavra foi
desgastada pelo atrito do grito, pela repetição do insulto, pela pornografia da
opinião instantânea. Tornou-se uma moeda suja, atirada sobre a mesa do debate
como se pensar fosse um ringue e não uma arte. Já não se discute: ataca-se. Já
não se responde: fere-se. Já não se argumenta: rosna-se.
E
há qualquer coisa de tragicomicamente obsceno nisto. Passámos de uma sociedade
capaz de desacordo saudável para um teatro histérico de polarização afetiva,
onde a diferença de opinião deixou de ser uma divergência intelectual para se tornar
uma ameaça emocional. Já não se escuta o que o outro diz; mede-se o grau de
perigo que ele representa para a nossa identidade. E quando a identidade se
sente ameaçada, o cérebro não convoca filosofia - convoca defesa. O sistema
nervoso, esse dramaturgo primitivo, não distingue bem entre um argumento
contrário e um predador à espreita. O desacordo ativa o alarme. O alarme pede
combate. E assim, com uma eficiência quase pornográfica, a discordância
transforma-se em hostilidade.
É
aqui que a rua virtual entra, de saltos altos e faca na liga, como a grande
amante tóxica do nosso tempo. As redes sociais não são apenas palco; são
laboratório. Não amplificam o pior por acidente, mas por arquitetura. Os
algoritmos, esses cupidos sociopatas da atenção, descobriram cedo que a ternura
não retém audiência, mas a raiva sim. O escândalo cola. O insulto circula. A
indignação fideliza. O conteúdo hostil é premiado porque mantém os corpos
alerta, os dedos ativos, os olhos fixos. É neuroeconomia com gosto a sangue.
Cada comentário agressivo é uma pequena descarga elétrica. Cada humilhação
pública, um espetáculo. Cada linchamento moral, um circo romano com Wi-Fi.
E
o mais sedutor - porque o horror, quando bem vestido, seduz - é que o insulto
ganhou estatuto. Tornou-se capital simbólico. No debate político, então, virou
moeda forte. A cortesia foi rebaixada a fraqueza. A elegância intelectual
passou a cheirar a tibieza. O tom de voz elevado, a agressividade performativa,
o punho verbal sobre a mesa passou a valer mais do que a argumentação racional.
Porquê? Porque o grito oferece uma ilusão primitiva de poder. Porque a razão exige
demora, nuance, paciência - e nada disso rende aplauso rápido. A agressividade
é mais fotogénica. A complexidade não viraliza; o murro sim. Um argumento exige
pensamento; um insulto exige apenas saliva.
E
a multidão, ah, a multidão… sempre tão moral quando está em bando. Há uma
embriaguez particular no coro. O indivíduo hesita; a massa absolve-se. Quando
muitos insultam ao mesmo tempo, cada um sente menos culpa. É assim que a
desumanização se instala: não como monstruosidade explícita, mas como hábito.
Primeiro ridiculariza-se. Depois simplifica-se. Depois caricatura-se. Depois o
outro já não é pessoa - é rótulo, caricatura, inimigo, meme. E quando o outro
deixa de ser humano, a agressão torna-se administrativamente aceitável. Este é
o colapso neuroafetivo do nosso tempo: a falência da capacidade de sentir o
outro como semelhante. Não é apenas uma crise de ideias. É uma falência da
imaginação moral.
O
problema é que a violência verbal nunca fica quieta no domínio do símbolo. A
linguagem não é inocente. O que se normaliza na palavra prepara-se no gesto. O
insulto repetido dessensibiliza. A humilhação pública educa para a crueldade. O
bullying escolar, o assédio laboral, o discurso de ódio quotidiano - tudo isso
são pedagogias da desumanização. Palavras não deixam hematomas visíveis, é
certo, mas deixam uma cartografia de feridas mais difícil de suturar. Há cicatrizes
que não sangram: reconfiguram o sistema nervoso. Uma criança humilhada aprende
medo. Um adulto constantemente degradado aprende silêncio. E uma sociedade que
normaliza a violência verbal aprende, pouco a pouco, a tolerar todas as outras.
A
exposição contínua à violência mediática agrava esta coreografia. Não se trata
de um filme violento transformar alguém, por si só, num agressor de serviço -
seria uma tese preguiçosa. O problema é mais subtil, e por isso mais perigoso.
A exposição repetida à violência dessensibiliza, banaliza, treina o olhar para
aceitar a agressão como linguagem normal do mundo. Jovens e adultos expostos
continuamente a conteúdos violentos - sejam noticiários espetacularizados,
videojogos hiperestimulantes sem mediação crítica, reality shows de humilhação ou
discursos políticos bélicos - tendem a normalizar a hostilidade, a reduzir a
empatia e a interpretar o conflito com maior carga de ameaça. Não é
determinismo; é habituação. E aquilo a que nos habituamos, toleramos. Aquilo que
toleramos, reproduzimos.
Por
isso, a alfabetização mediática deixou de ser luxo pedagógico e tornou-se
urgência civilizacional. Educar para o consumo crítico da informação já não é
uma competência decorativa: é defesa psíquica. Ensinar alguém a perguntar “quem
lucra com a minha indignação?” é hoje tão vital quanto ensinar a ler. Treinar
empatia não é sentimentalismo de cartilha; é infraestrutura democrática.
Fomentar escuta ativa, separar a pessoa da opinião, reaprender a discordar sem
demolir - tudo isto é menos romântico do que parece e mais revolucionário do
que soa.
A
comunicação não violenta, tão frequentemente tratada como perfumaria moral por
quem confunde brutalidade com autenticidade, é uma das poucas tecnologias
éticas ainda subversivas. Não propõe mansidão passiva, como temem os devotos do
berro. Propõe precisão. Ensina a distinguir observação de julgamento, emoção de
acusação, necessidade de ataque. Em vez de “és insuportável”, pergunta: o que
em ti me ameaça, e porquê? Em vez de cancelar, delimita. Em vez de humilhar,
responsabiliza. Em vez de reduzir o outro ao pior recorte da sua opinião,
obriga-nos ao desconforto maduro de reconhecer complexidade. A cultura do
cancelamento prospera onde a justiça se tornou espetáculo e a punição substituiu
a transformação. A comunicação não violenta não absolve; civiliza.
Mas
não nos iludamos com soluções terapêuticas para problemas estruturalmente
lucrativos. Não basta pedir gentileza a indivíduos enquanto plataformas
monetizam ódio em escala industrial. É necessária responsabilização séria das
plataformas, moderação consequente, limites claros à arquitetura da manipulação
emocional. Se o mercado lucra com incêndios, não basta distribuir baldes; é
preciso rever quem vende fósforos.
E
depois há os políticos. Sempre os políticos. Essa aristocracia da performance,
esses atores de gravata com vocação para o coliseu. Escolhemo-los para
administrar o mundo com prudência, e oferecem-nos teatro bélico com efeitos
especiais. O insulto tornou-se estratégia de campanha. A agressividade, prova
de liderança. A guerra, argumento de autoridade. Fala-se de “danos colaterais”
com a serenidade técnica de quem descreve o tempo. Refinámos a maquinaria da
morte com a sofisticação de relojoeiros e perdemos, algures no processo, a
capacidade de corar.
Gastam-se
milhões a aperfeiçoar a engenharia da destruição enquanto milhões morrem por
falta de pão, de antibióticos, de água potável, de uma vaga hospitalar, de um
gesto mínimo de decência política. Há qualquer coisa de obscenamente grotesco
numa civilização que investe mais em mísseis do que em merendas escolares, mais
em drones do que em dignidade, mais em fronteiras do que em futuro. A
tecnologia evolui; a consciência parece ter desistido.
E
a pergunta permanece, nua e incômoda, como todas as perguntas que importam: que
geração queremos ser? A que herdou a linguagem e a transformou em estilhaço? A
que trocou a inteligência pelo ruído, a ironia pela crueldade, a coragem pela
histeria tribal? A que fez do sarcasmo uma estética e da desumanização um
hábito? Ou a geração suficientemente lúcida para perceber que toda civilização
começa a apodrecer quando perde o pudor diante da brutalidade?
Porque
no fim - e isto talvez seja o mais romântico, o mais perigoso e o mais radical
de admitir - salvar o mundo pode começar por uma disciplina quase escandalosa:
reaprender a falar sem querer destruir.
A
musica filtrada de fundo amaciava-nos o pensamento, ocupando o silêncio devagar
até o tornar habitável. A estrada parecia interminável, húmida da noite,
refletindo os faróis num brilho trémulo, enquanto a conversa deslizava entre
memórias, ironias e pequenos segredos que só existem entre duas pessoas que já
aprenderam a não precisar de explicar tudo.
Chegámos
finalmente a La Rochelle. A cidade apareceu-nos como um cenário retirado de um
romance antigo esquecido numa gaveta marítima do mundo. A noite estava fechada,
pesada de nuvens baixas, e isso tornava ainda mais intensas as luzes douradas
espalhadas pelas avenidas, pelo porto, pelas janelas tímidas dos edifícios
antigos. Havia qualquer coisa de misterioso naquele brilho contra o escuro -
como se a cidade escondesse histórias em cada esquina e estivesse apenas à
espera de escolher quem merecia ouvi-las.
O
Atlântico respirava ali ao lado. Sentia-se antes de se ver. O cheiro salgado do
mar misturava-se com o perfume húmido da pedra antiga e com aquele frio
elegante das cidades costeiras francesas, onde até o vento parece vestir um
sobretudo preto.
O
hotel ficava mesmo diante da praia. E surpreendeu-nos. Não
pelo luxo ostensivo, que normalmente serve apenas para esconder a falta de
alma, mas precisamente pelo contrário: pelo cuidado íntimo dos detalhes. Era um
hotel de charme onde tudo parecia pensado para desacelerar o coração. A receção
iluminada por candeeiros baixos, de luz âmbar, fazia lembrar um salão privado
de um navio antigo. O chão de madeira escura rangia suavemente, como se também
ele quisesse participar na conversa. Havia livros espalhados em mesas pequenas,
flores brancas frescas em jarras discretas, velas perfumadas que deixavam no ar
uma mistura subtil de baunilha, cedro e qualquer coisa perigosamente sensual
que não se conseguia identificar.
O
staff movia-se com aquela elegância rara de quem compreende que hospitalidade
não é um trabalho - é quase uma arte invisível. Sorrisos leves, vozes baixas,
gestos sem excesso. Nenhuma simpatia forçada. Nenhuma teatralidade irritante de
hotel moderno onde todos parecem frequentar workshops de felicidade artificial.
Até
o bar parecia conspirar a favor do romantismo. Pequeno, quase secreto, voltado
para o oceano através de enormes janelas embaciadas pela maresia. As garrafas
refletiam luzes douradas e azuis suaves, enquanto um velho jazz francês se
dissolvia ao fundo como fumo lento. Os quartos, descobrimos depois, tinham
aquele perfume delicado e envolvente de lençóis acabados de lavar, madeira
clara e perfume feminino esquecido na memória de alguém. Um aroma impossível de
comprar em frasco porque vinha, talvez, da soma de todas as histórias vividas
ali.
Deixámos
as malas nos quartos e voltámos a descer. A hora já era tardia e a fome tinha
deixado de ser urgência para se tornar cumplicidade. No bar não estava ninguém.
Só nós. Nós e um jovem barman, que tinha aquele tipo de simpatia espontânea, que
apenas existe nas pessoas que ainda não aprenderam a desconfiar completamente
do mundo. Falador sem ser invasivo, divertido sem esforço, como alguém que
sabia perfeitamente que as melhores noites começam sempre sem plano nenhum.
“O
que vos apetece comer?” - perguntou. Olhámos um para o outro e rimo-nos. Nem
nós sabíamos. Pedimos apenas qualquer coisa simples, sem precisar muito o
desejo. Afinal, a vida raramente melhora quando tentamos controlar todos os
detalhes. Às vezes basta sentarmo-nos diante do mar e aceitar o improvável.
Mais
tarde, como uma pequena oferenda da noite, chegaram duas sandes sublimes. Não
dessas sandes pretensiosas que os chefs descrevem durante quinze minutos antes de
servir, mas sandes perfeitas, indecentemente saborosas. Pão ainda morno, queijo
derretido no ponto certo, presunto fumado, molho delicadamente picante, folhas
frescas, qualquer coisa crocante que fazia sentido em cada dentada.
E
cerveja. Gelada. Daquelas que salvam conversas e prolongam noites. Uma cerveja.
Talvez duas. Talvez três para cada um. Já não me recordo. O suficiente para
tornar o mundo ligeiramente mais bonito sem o deformar completamente. O
suficiente para que o mar lá fora parecesse respirar connosco.
Falámos
de tudo e de nada. De viagens impossíveis, de cidades decadentes, de pessoas
absurdas que vivem para impressionar desconhecidos nas redes sociais enquanto
morrem lentamente por dentro. Rimo-nos com sarcasmo dessa necessidade moderna
de transformar cada instante numa montra emocional. Como se amar alguém só
fosse verdadeiro depois de fotografado. Nós ali, pelo contrário, parecíamos
quase clandestinos. E talvez fosse isso que tornava tudo tão raro.
Quando
subimos, o corredor estava silencioso. Apenas o som distante do oceano
atravessava discretamente as paredes. Encontrámos primeiro o quarto da
Penélope. Esperei que abrisse a porta. Ela demorou um pouco, talvez de
propósito. Depois voltou-se para mim com aquele olhar sereno de quem já
abandonou todas as defesas inúteis. Aproximou-se devagar, abraçou-me e encostou
os lábios junto ao meu ouvido.
“Este
momento é doloroso… Parece que me estou a despedir de ti todas as noites. Temos
de reprogramar a nossa contabilidade e deixar de desperdiçar dinheiro com estes
sacrifícios.” Sorri. Porque há frases simples que carregam mais intimidade do
que mil declarações exageradas.
Ali
não existia dramatismo teatral. Não era paixão adolescente nem necessidade
possessiva. Era outra coisa mais rara: duas pessoas que descobriram que a
amizade verdadeira pode ser tão intensa quanto o amor - e, às vezes, ainda mais
perigosa, porque entra devagar e instala-se para sempre.
Olhei
para ela como se aquele corredor fosse, por instantes, o centro exato do mundo.
Depois afastei-me lentamente. “Dorme bem. Amanhã reprogramamos tudo.” E
continuei até ao meu quarto. Mas antes de desaparecer atrás da porta ainda a
ouvi, ao longe, naquela voz meio divertida, meio terna, que parecia sempre
caminhar na fronteira entre o desafio e o carinho. “Agora não adormeças… que
temos muito para descobrir amanhã.”
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E
naquela noite, em La Rochelle, percebi uma coisa estranha: existem pessoas que
entram na nossa vida como tempestades. E existem outras - muito mais raras -
que chegam como o mar à noite. Sem ruído. Sem pressa. Mas impossíveis de
esquecer.
Diário de uma viagem – 140 dia






