É curioso - ou talvez trágico - que vivamos num mundo onde uns morrem de fome e outros de apetite!



Despertei com a sensação - não, com a certeza quase insolente - de que o dia não se limitaria a acontecer. Ele conspiraria. Traria mais do que emoções; traria revelações, dessas que se insinuam primeiro na pele antes de ousarem tocar o pensamento.

Monaco-Ville, empoleirada no seu rochedo como uma velha aristocrata que já viu demasiado para se impressionar com pouco, recebeu-me com aquele charme indecorosamente perfeito. Ruas estreitas, fachadas em tons pastel, varandas rendilhadas de flores - tudo parecia ter sido cuidadosamente ensaiado para seduzir visitantes com uma versão higienizada do passado. Um conto de fadas… mas daqueles em que ninguém menciona o preço do bilhete.

Depois do ritual matinal - aquele conjunto de gestos mecânicos que nos dão a ilusão de controlo - lancei a mochila às costas, recolhi algumas dicas na receção e avancei, sapatilhas no terreno, como quem entra numa história sem saber ainda se será protagonista ou vítima.

E então senti. Aquela estranheza subtil, quase erótica, de estar num lugar que não pertence ao mundo comum. Um mundo onde tudo parece melhor… mas onde o “melhor” tem um cheiro levemente artificial, como perfume caro aplicado para esconder algo mais profundo.

Mónaco não é apenas rico. É uma ideia de riqueza levada ao extremo, refinada até se tornar quase uma abstração. Um lugar onde a pobreza não existe - não porque tenha sido resolvida, mas porque foi elegantemente excluída do enquadramento. Como uma fotografia perfeita onde se recortam os elementos inconvenientes. Zero pobreza oficial. Que conceito fascinante. Quase poético. Quase perverso.

Caminhava pelas ruelas enquanto pensava nisso, observando turistas encantados, residentes impecavelmente vestidos, e uma quantidade absurda de agentes policiais que tornariam qualquer criminoso num romântico nostálgico de outros tempos. Segurança absoluta. Limpeza absoluta. Ordem absoluta. E, no entanto… algo ali me inquietava. Talvez fosse o silêncio entre os sons. A ausência de falhas. A perfeição excessiva, que não deixa espaço para o acaso - e sem acaso, onde se esconde a vida?


Cerca de um em cada três residentes é milionário. Um em cada três. Tentei imaginar essa proporção noutro lugar qualquer e quase me ri. Aqui, a riqueza não é exceção - é requisito de entrada. Um filtro invisível, mas implacável. O metro quadrado atinge valores que fariam corar até os sonhos mais ambiciosos. Depósitos bancários mínimos, provas de alojamento, critérios que transformam o ato de viver numa espécie de candidatura a um clube exclusivo. Um clube onde, curiosamente, poucos trabalham.

Porque quem trabalha… não vive aqui. Quarenta mil pessoas entram diariamente, vindas de França e Itália, como figurantes disciplinados de um espetáculo de luxo. Chegam, desempenham o seu papel, e depois regressam às suas vidas reais, longe do brilho que ajudaram a sustentar. Uma coreografia impecável: de dia, servem o glamour; à noite, desaparecem para não o contaminar.

Há algo de profundamente honesto nessa desonestidade. E foi aí que a fome perdeu o apetite. Optei por uma sandes e uma cerveja gelada num bar de praia - um pequeno gesto de rebeldia económica, talvez. O sabor era simples, quase vulgar, e por isso mesmo reconfortante. Como se, naquele instante, eu tivesse escapado ligeiramente à encenação.

Sentei-me num banco de pedra - gratuito, milagre dos tempos modernos - e deixei os pensamentos fluírem, finalmente despidos da sedução inicial. Comecei a ver o lugar não como ele se apresenta, mas como ele funciona. Mónaco não elimina a pobreza. Apenas a mantém à distância segura. Não resolve desigualdades; gere-as com elegância. É um palco onde a riqueza se exibe sem culpa, porque o que poderia gerar desconforto simplesmente não entra em cena.

E, ainda assim… não consegui odiar o lugar. Havia beleza, sim. Havia encanto. Havia até uma espécie de magnetismo perigoso, como aquele que sentimos por pessoas que sabemos que não nos fariam bem - mas que, ainda assim, nos atraem. Talvez porque, no fundo, Mónaco não seja apenas um lugar. É uma pergunta. Até que ponto a perfeição vale o preço da exclusão?

E, mais perturbador ainda… se pudéssemos, quantos de nós aceitaríamos pagar esse preço? Sorri, com aquele humor meio amargo que surge quando percebemos algo que preferíamos ignorar. No fim, talvez a verdadeira pobreza ali não seja material. Talvez seja a ausência de imperfeição. De caos. De humanidade crua.


Há uma diferença cruel - quase indecente - entre aquilo que falta ao corpo e aquilo que falta à alma. E, no entanto, insistimos em chamar tudo pelo mesmo nome: pobreza. Como se o vazio de um prato e o vazio de um espírito coubessem na mesma palavra. Não cabem. Nunca couberam.

A pobreza real tem cheiro. Cheira a roupa húmida que nunca seca totalmente, a pão duro guardado para amanhã, a noites mal dormidas porque o estômago protesta mais alto do que os pensamentos. É concreta, mensurável, quase palpável - pesa nos ossos, curva as costas, rouba anos à vida. Não tem poesia, apesar de tantos insistirem em romantizá-la de longe, confortavelmente sentados, com uma chávena quente entre as mãos. A pobreza real não é bonita. É urgente.

Mas depois há a outra - a mais discreta, mais bem vestida, mais socialmente aceite: a pobreza de espírito. Essa não se denuncia com fome, mas com excesso. Excesso de ego, de ruído, de certezas. É uma fome que não dói no estômago, mas devora silenciosamente qualquer possibilidade de empatia. E aqui começa o abismo.

Entre humildade e ego existe uma fenda funda, quase tectónica. A humildade é silenciosa, observa, aprende, dobra-se sem se quebrar. Já o ego… o ego precisa de palco, de aplauso, de espelhos infinitos onde possa admirar a própria imagem distorcida. Curiosamente, quanto mais inflado, mais vazio. É um balão cheio de nada - impressiona à distância, mas basta um toque mais honesto e… puf. Nada resta.

A humildade nasce muitas vezes da escassez - não por virtude automática, mas por necessidade de ver o outro, de reconhecer limites. Já o ego cresce melhor em terrenos férteis de excesso, onde nunca foi preciso partilhar. E assim se cava o abismo: de um lado, quem sabe que não tem tudo; do outro, quem acredita que é tudo.

E depois há a diferença entre fome e apetite - outro abismo, igualmente brutal. A fome é primitiva, essencial, quase sagrada. Não escolhe, não exige, não negocia. A fome aceita. O apetite, pelo contrário, é caprichoso, sofisticado, muitas vezes entediado. O apetite rejeita, seleciona, descarta. A fome agradece; o apetite critica.


É curioso - ou talvez trágico - que vivamos num mundo onde uns morrem de fome e outros de apetite. Uns lutam por sobreviver, outros por sentir alguma coisa que se pareça com vida. E, ironicamente, nem sempre sabemos quem está pior. Porque a pobreza de espírito é perigosa precisamente por não parecer urgente. Não há campanhas, não há estatísticas gritantes, não há rostos esqueléticos para chocar consciências. Mas ela infiltra-se nas relações, nas decisões, nas estruturas sociais. É ela que permite que a pobreza real continue a existir - não por falta de recursos, mas por falta de humanidade.

E aqui entra o sarcasmo inevitável: talvez o verdadeiro luxo não seja nunca mais ter fome, mas nunca ter perdido a capacidade de sentir a fome do outro. Isso, sim, é raro. Isso, sim, é riqueza. Vivemos rodeados de paradoxos. Pessoas com pouco que oferecem tudo. Pessoas com tudo que não oferecem nada. E no meio, um mundo a tentar equilibrar-se entre o necessário e o supérfluo, entre o essencial e o ego.

Talvez a grande questão não seja eliminar a pobreza - embora isso fosse, evidentemente, o mínimo exigível - mas compreender que existem duas batalhas diferentes. Uma exige pão. A outra exige consciência. E nenhuma delas se resolve com indiferença.

Porque no fim, o verdadeiro abismo não está entre ricos e pobres, mas entre aqueles que sentem e aqueles que já não conseguem sentir nada. E isso… isso é a forma mais assustadora de pobreza que existe.

Levantei-me devagar, sacudindo as migalhas da sandes como quem encerra uma pequena epifania, e segui caminho. Porque, afinal, o dia ainda prometia revelações - e eu já tinha começado a desconfiar que nem todas seriam confortáveis.

Há dias assim: começam com o sabor simples de pão e silêncio e acabam a desfiar as certezas como fios soltos de um casaco antigo. O sol, nesse momento, parecia cúmplice - não brilhava, insinuava. Como se dissesse: olha melhor, há mais do que parece.


Aproveitei a tarde para visitar o Palácio do Príncipe. Há lugares onde a História não repousa - respira. Senti isso ali, nas pedras que acumulam séculos com uma elegância quase insolente. A residência dos Grimaldi não se limita a existir: observa. E, confesso, por um instante tive a absurda sensação de estar a ser avaliado, como se as paredes soubessem mais de mim do que eu próprio ousava admitir.

Segui para o Museu Oceanográfico. O mar ali dentro não é apenas água - é memória líquida. Cada aquário parecia conter um segredo, cada criatura um enigma que não precisava de ser resolvido. Há uma estranha sensualidade naquilo que não compreendemos completamente. Talvez seja isso que nos prende - o mistério, não a resposta.

Na Catedral de São Nicolau, o tempo abrandou. Não por respeito - por inevitabilidade. Os túmulos não são apenas finais, são perguntas em pedra. Ali, entre o silêncio e a reverência, pensei no absurdo da permanência: nomes que sobrevivem ao corpo, histórias que resistem ao esquecimento… e nós, sempre tão apressados, tão provisórios.

Depois, os Jardins de Saint-Martin. Caminhos sinuosos, como pensamentos que recusam linha reta. A brisa carregava um perfume mediterrânico - quente, salgado, vagamente íntimo. Sentei-me por um momento, observando o mar, esse velho conspirador. Há algo de perigosamente sedutor na forma como ele promete tudo e não entrega nada. Ou talvez entregue - mas nunca o que esperamos.

A cidade velha recebeu-me como um sussurro antigo. Ruas estreitas, lojas que vendem lembranças que ninguém precisa, cafés onde o tempo parece deliberadamente atrasado. Ali, tudo tinha uma espécie de charme imperfeito - como uma pessoa interessante demais para ser previsível. E eu gosto disso. Sempre gostei.

Quando cheguei ao hotel, a minha energia já dava sinais claros de falência. Sentei-me no bar, com aquele cansaço que não é apenas físico - é também existencial, ligeiramente irónico. Pedi ao barman algo leve, mas que substituísse um jantar. Ele sorriu, como quem entende mais do que diz, e inclinou-se ligeiramente: “Deixa comigo.” E deixei.


Minutos depois, surgiu diante de mim um prato que parecia simples, mas não era: uma tosta rústica de pão ligeiramente torrado, coberta com fatias finas de presunto curado, queijo derretido no ponto exato da indecência, um toque de figo caramelizado e rúcula fresca a cortar o excesso com elegância. Ao lado, uma pequena salada com nozes e vinagrete suave - como um comentário ácido numa conversa agradável. E a cerveja - gelada, quase insolente - veio como um alívio líquido, direto, honesto. Comi devagar. Não por etiqueta, mas por necessidade. Há sabores que pedem tempo - e aquele era um deles.

Depois recebi uma mensagem de uma amiga que não estava nos melhores dias: “Coração em pedaços, sem saber como juntar.  Noites frias em que o chão foi o meu lugar.  Promessas quebradas, silêncio a gritar.   Perdi-te de mim, só queria parar. És a minha âncora, o conselheiro, o meu amigo que nunca largou a minha mão.

Subi ao quarto com a sensação estranha de ter vivido mais do que um dia comporta. Abandonei a roupa como quem se despe de versões de si próprio, coloquei os fones e deixei que a música me encontrasse.

https://www.youtube.com/watch?v=C4xZyKEAElQ&list=RDC4xZyKEAElQ&start_radio=1

Era daquelas músicas que não se escutam — atravessam. Um som que se instala entre o pensamento e o corpo. Fechei os olhos. E foi aí que aconteceu. Não adormeci. Ou melhor - o corpo adormeceu, mas algo em mim permaneceu acordado.

Vi-me novamente nos jardins, depois no museu, depois na catedral… mas havia alguém comigo. Uma presença difusa, quase familiar. Não falava, mas compreendia. Não tocava, mas sentia-se. E, no instante em que tentei reconhecê-la, percebi: Não era alguém. Era tudo aquilo que eu tinha evitado enfrentar. O cansaço. O desejo. A dúvida. A vontade de mudar - e o medo de o fazer.

A música terminou. Abri os olhos. O quarto estava igual - e completamente diferente. Na mesa de cabeceira, onde antes não havia nada, estava um pequeno papel dobrado. Não me lembrava de o ter deixado ali. Abri-o. Dizia apenas: "Amanhã não vais poder fingir que não sabes." E, pela primeira vez naquele dia, percebi que talvez as revelações não fossem o problema. O problema era o que eu faria com elas.

 

Diário de uma viagem – 135 dia 

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