Sim, é confuso. É suposto ser. Há uma espécie de magia negra emocional nisso tudo.



Despertar em Lyon foi mais do que abrir os olhos - foi abrir um território inteiro dentro de mim. Como se cada sentido tivesse passado a noite em vigília, à espera do instante exato em que eu me permitiria sentir de novo. Esfreguei os olhos com a lentidão de quem não quer acordar completamente, não por preguiça, mas por respeito ao silêncio que ainda pairava no quarto. Quando abri a janela, lá estava o Saône, imóvel e cúmplice, como um velho amante que sabe esperar. Não corria - insinuava-se. Havia qualquer coisa naquele rio que não convidava: provocava.

Fechei a janela com a estranha sensação de estar a interromper um diálogo. No banho, a água escorria como memórias que ainda não tinham acontecido. Vesti roupa leve, quase despreocupada, como se a cidade exigisse pele disponível. Ao abrir a porta do quarto, fui imediatamente sequestrado por um aroma - café forte, decidido, quase arrogante, misturado com o cheiro quente e estaladiço do pão acabado de sair do forno. Era um mapa invisível, mais honesto do que qualquer guia turístico. Segui-o sem hesitar.

A sala de pequenos-almoços parecia saída de um romance que alguém escreveu com fome e desejo. Pequena, íntima, com mesas de madeira clara onde a luz da manhã pousava com delicadeza indecente. Cortinas leves ondulavam ao ritmo de uma brisa tímida, e ao fundo, uma música suave - talvez jazz, talvez um piano que se recusava a ser triste - preenchia os espaços entre as respirações. Havia flores frescas, não exuberantes, mas suficientes para lembrar que a beleza não precisa de exagero para existir.

O buffet era um altar. Croissants dourados que se desfaziam ao toque, baguetes ainda quentes que estalavam como segredos mal guardados, compotas artesanais que pareciam conter verões inteiros em frascos pequenos. Frutas cortadas com precisão quase cirúrgica, queijos de diferentes maturidades - alguns suaves como promessas, outros intensos como despedidas. O café, ah, o café… escuro, profundo, com uma personalidade que dispensava açúcar e julgava quem o usava. Sentei-me. Observei. Saboreei. E por um breve momento, tudo fez sentido - o mundo, a vida, as escolhas erradas e até as certas, que são sempre mais suspeitas.

Depois, mochila às costas, mapa na mão - esse objeto quase romântico numa era de certezas digitais - saí para descobrir Lyon. A cidade não se revela de imediato. Ela testa-te. Faz-te andar. Obriga-te a perder-te com elegância. Há algo de profundamente sedutor numa cidade que sabe que é importante e não precisa de o dizer em voz alta. Lyon é assim. Antiga, mas sem rugas. Moderna, mas com memória. Entre o Rhône e o Saône, como se estivesse permanentemente dividida entre dois amores - ou duas versões de si mesma.

Caminhei pelas suas ruas como quem folheia um livro raro. As traboules surgiam como segredos mal-escondidos, passagens discretas que atravessavam edifícios e tempos. Entrei em algumas. Havia nelas uma sensação quase clandestina, como se estivesse a participar numa conspiração elegante do passado.


Quando dei por mim, estava no topo da colina, diante da Basílica de Fourvière. A vista… não se descreve, absorve-se. A cidade estendia-se abaixo de mim como um corpo adormecido, vulnerável e magnético. Ali, o tempo abranda - ou talvez sejamos nós que finalmente acompanhamos o ritmo certo.

Mais abaixo, o Théâtre Antique lembrava-me que há coisas que resistem ao tempo com uma teimosia admirável. Dois mil anos depois, ainda recebe vozes, ainda ecoa histórias. Talvez seja isso que procuramos todos: não desaparecer completamente.

A fome levou-me a um pequeno restaurante, desses que não aparecem nos guias - e ainda bem. Rua estreita, casas antigas, um outdoor envelhecido pendurado como um aviso ou uma memória mal resolvida. Entrei. O interior era simples, quase austero. Poucas mesas, poucos clientes. Luz amarelada, intimista. O aroma de carne grelhada envolvia tudo como um abraço quente. Sentei-me.

Veio um prato de carne perfeitamente selada, com um exterior firme e um interior que cedia como se tivesse algo a confessar. Acompanhamentos discretos - batatas douradas, legumes salteados com uma honestidade quase rude. E o vinho… um tinto da região de Bordeaux, profundo, com notas de frutos escuros e um toque de madeira.  Cada gole era uma conversa longa, daquelas que não queremos que acabem. A sobremesa foi uma tarte de maçã caramelizada, servida morna, com uma bola de gelado de baunilha que se rendia lentamente. Doce, sim - mas com carácter. Como tudo o que vale a pena.

Enquanto comia, o meu olhar voltava constantemente para o outdoor lá fora. Algo nele incomodava. Ou talvez despertasse. Sim, era confuso. Era suposto ser. Havia uma espécie de magia negra emocional naquele outdoor, meio escondido entre ervas altas e promessas esquecidas, as letras em vermelho desbotado resistiam como uma ferida que se recusa a fechar: “Amor sem custódia.” Não era publicidade - era um aviso. Ou talvez um epitáfio.

Havia algo de profundamente irónico naquela frase. Amor… sem custódia. Como se o amor pudesse alguma vez ser detido, regulamentado, dividido em horários quinzenais e feriados alternados. Como se pudesse caber em atas, carimbos e decisões que chegam tarde - sempre tarde - para quem cresce depressa demais.


O vento passava e fazia ranger a estrutura metálica, quase como um suspiro cansado. E ali, naquele cenário meio abandonado, cabia o retrato de um fenómeno moderno que ninguém quer admitir que domina: o amor que, depois de quebrado, se transforma em estratégia de guerra. Porque o fim de um casal raramente é o fim do conflito. Às vezes, é apenas a sua promoção a um palco maior, mais sofisticado - onde as armas são invisíveis e os danos colaterais têm nome, rosto, e uma mochila demasiado pesada para a idade que têm.

Chamam-lhe alienação parental, mas o nome é quase elegante demais para a brutalidade do que descreve. Na prática, é uma espécie de feitiço lento, onde uma criança aprende, dia após dia, a desaprender o amor por um dos seus próprios pilares. Não por escolha, claro. Mas por sobrevivência emocional.

E aqui entra a tal parentalidade narcisista - esse fenómeno curioso onde o amor pelos filhos não é exatamente amor, mas sim extensão de ego. O filho deixa de ser sujeito e passa a ser argumento. Um argumento que se molda, que se influencia, que se conduz subtilmente para um lado do tabuleiro. Não porque se odeie a criança, mas porque se odeia mais o outro progenitor.

Sim, é confuso. É suposto ser. Há uma espécie de magia negra emocional nisso tudo. Frases ditas em tom casual que plantam dúvidas. Silêncios estratégicos. Olhares que ensinam mais do que palavras. Pequenos venenos diluídos no quotidiano, administrados com a precisão de quem sabe exatamente onde dói.

E enquanto isso, a criança torna-se aquilo que raramente se nomeia: uma “criança satélite”. Orbita entre duas casas, dois mundos que não se falam, dois universos que exigem lealdade total, mas oferecem versões incompatíveis da realidade. Aprende cedo a filtrar palavras, a editar sentimentos, a esconder afetos. Torna-se diplomata antes de saber o que é um país. E, sejamos honestos, até desenvolve competências úteis - gestão de conflito, leitura emocional, adaptação rápida. Um pequeno génio social… moldado pela necessidade de evitar explosões. Quem precisa de infância quando se pode ter sobrevivência avançada?

O mais curioso - ou trágico, dependendo do humor do dia - é o papel do sistema judicial. Uma máquina pesada, burocrática, construída para pesar factos enquanto ignora o tempo emocional. Porque o tempo da justiça é cronológico; o da criança é visceral. Meses podem ser anos. Anos podem ser irreparáveis.


Um processo arrasta-se, decisões são adiadas, relatórios acumulam-se - e, entretanto, a narrativa vai sendo escrita dentro da cabeça da criança. Sem contraditório. Sem recurso. Sem advogado. E depois perguntamo-nos, com um ar genuinamente perplexo, porque é que aquela criança cresceu com dificuldade em confiar, em amar, em manter relações estáveis. Como se o terreno onde foi plantada não tivesse sido minado desde o início.

Mas aqui está o ponto que incomoda - aquele que ninguém gosta de encarar de frente: o divórcio não é o vilão desta história. O divórcio, por si só, pode até ser um ato de coragem, uma tentativa de interromper ciclos disfuncionais. O verdadeiro problema é a incapacidade de metamorfose. A falha em transformar conjugalidade em coparentalidade. É como se algumas pessoas conseguissem sair da relação, mas não da guerra.

E então o amor - esse conceito que inspirou poemas, músicas, revoluções acaba reduzido a uma moeda de troca emocional. Usado, negociado, condicionado. “Se fizeres isto, podes vê-lo.” “Se disseres aquilo, perdes isso.” Romântico, não é? E no meio de tudo isto, ainda há momentos de beleza. Pequenos, quase invisíveis. Um abraço dado às escondidas. Um desenho guardado no fundo da mochila. Um “gosto de ti” sussurrado com medo de ser ouvido pelo lado errado.

Porque o amor, apesar de tudo, é teimoso. Resiste. Escapa pelas frestas. Recusa-se a ser completamente domesticado. Talvez seja isso que aquele outdoor queria dizer. Ou talvez fosse apenas tinta velha num pedaço de metal esquecido.

Mas fica a dúvida - e as dúvidas, às vezes, são mais perigosas do que as certezas: E se o verdadeiro “amor sem custódia” fosse aquele que não tenta possuir, nem manipular, nem vencer? E se amar fosse, afinal, deixar a criança amar… sem medo? Estranho conceito. Quase revolucionário.

Depois levantei-me, ainda com o corpo a guardar o calor da cidade, e continuei na descoberta de Lyon como quem folheia um livro antigo, daqueles que cheiram a histórias por revelar. A Place Bellecour, imensa e quase arrogante na sua grandeza, parecia conter o eco de passos de séculos inteiros - e ali estava eu, um intruso moderno, a tentar decifrar-lhe os silêncios. Caminhei sem pressa até à Ópera, onde a arquitetura mistura passado e audácia, como se alguém tivesse decidido que a tradição também pode ousar. E ousa.


Na Place des Terreaux, a Fonte Bartholdi erguia-se com aquela imponência quase teatral, cavalos em fúria contida, água em movimento constante - como se tudo ali estivesse à beira de acontecer, mas nunca acontecesse por completo. Um pouco como certas emoções que se acumulam sem nunca se confessarem.

Terminei o dia no Parque da Tête d’Or. O lago refletia um céu que já se despedia, os jardins botânicos respiravam calma, e até o jardim zoológico - gratuito, como se a beleza ali fosse um direito - parecia conspirar para abrandar o tempo. Caminhei até sentir o cansaço instalar-se nos músculos, aquele cansaço bom, que não pesa - apenas confirma que se viveu.

Regressei ao hotel com o corpo a pedir pausa e a mente ainda inquieta. Passei pelo bar para jantar qualquer coisa leve, sem grandes expectativas - erro meu, como viria a perceber. Inesperadamente, encontrei Catherine. A rececionista de olhos verdes - aqueles olhos que parecem saber mais do que dizem - estava agora incorporada em barmaid. Uma mulher polivalente, pensei, com um leve sorriso que já trazia alguma ironia. Sentei-me. O ambiente era harmonioso, elegante, quase cúmplice: luz baixa, música suave, e aquele tipo de silêncio confortável que só certos lugares conseguem criar.

Em poucos segundos, Catherine estava junto à minha mesa. “Então… como correu o teu dia? Gostaste de Lyon?” Olhei para ela e sorri. Não era apenas uma pergunta - havia ali uma curiosidade genuína, talvez até um leve desafio. “Sinto que estás cansado”, continuou inclinando ligeiramente a cabeça. “Vou preparar-te algo simples…, mas especial. Para te rejuvenescer.” E afastou-se. O seu andar tinha qualquer coisa de deliberadamente despreocupado, como quem sabe exatamente o efeito que provoca, mas finge ignorá-lo. Ou pior - gosta de fingir.

Regressou pouco depois com um pequeno prato que parecia modesto à primeira vista: pão rústico ainda morno, ligeiramente tostado, com queijo francês cremoso a derreter nas bordas, acompanhado por finas fatias de presunto delicadamente curado. Ao lado, uma pequena salada fresca com nozes e um toque subtil de mel. Simples. Perfeito. E, como promessa cumprida, uma taça de champanhe francês, gelado, com bolhas finas que subiam como segredos apressados.

Provei. Era mais do que sabor - era textura, contraste, intenção. Cada elemento parecia colocado com cuidado, como se aquele “lanche” fosse, afinal, uma declaração discreta. E enquanto comia, sentia o olhar dela, de soslaio, como quem não quer interromper, mas não consegue ignorar. Um jogo silencioso. Observação mútua. Avaliação, talvez.


Finalmente, regressou à minha mesa. “Sei que amanhã já partes…”, disse, com o mesmo sorriso, mas agora com algo mais difícil de ler. “É o meu dia de folga. Podia guiar-te por outros lugares da cidade.” Sorri. Sorri e pensei. Podias, se…, mas a vida raramente se organiza em sincronias perfeitas. Andamos sempre ligeiramente desencontrados - por minutos, dias… ou decisões. Talvez num outro tempo -  pensei, sem dizer nada. Ela assentiu. Como se compreendesse mais do que eu disse.

Subi ao quarto. Abri a janela, repetindo o ritual da manhã. A cidade respirava lá fora, indiferente e bela. Inspirei fundo. Larguei a roupa, como quem abandona o dia, e coloquei os fones. A música envolveu-me devagar, quase como um abraço que não pede permissão. E, no entanto, não consegui evitar pensar nela. Nos olhos verdes. No sorriso fácil. No convite simples que carregava possibilidades infinitas - e nenhuma concreta.

https://www.youtube.com/watch?v=W9yk1Er4acY&list=RDW9yk1Er4acY&start_radio=1

Adormeci assim, entre o conforto do cansaço e a inquietação do que não aconteceu. No dia seguinte, esperava-me a viagem até Mónaco. Mas havia algo que ficava. Talvez não fosse Lyon. Talvez fosse Catherine. Ou, mais precisamente, a versão de mim que, por um instante, acreditou que certos encontros podiam alterar o rumo das coisas - e que, no fundo, sabia que não. Há cidades que nos marcam. E há pessoas que fazem essas marcas doer um pouco mais quando partimos.

 

Diário de uma viagem – 133 dias 

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