Troquei os olhos com a história da gravata!

 


Quando me despedi de Sarajevo, fiquei dividido como um mapa rasgado ao meio. Metade de mim partiu pela estrada, obediente ao relógio e ao motor quente; a outra metade ficou ali, suspensa no abraço de Azra, ancorada no calor humano da cidade. Há adeuses que não cabem nas palavras - e aquele foi um deles. Um adeus com peso específico, desses que fazem a garganta fechar e os olhos brilhar de forma traiçoeira. A lágrima que escorreu não sabia se era de felicidade ou de tristeza; talvez fosse de ambas, misturadas numa química perfeita. A ansiedade de partir empurrava-me para a frente, enquanto a dor de deixar um lugar mágico, habitado por pessoas preenchidas de história e alma, me puxava para trás. Sarajevo não se despede: fica a viver dentro de nós, como uma música que não se consegue desligar.


Depois parti. A estrada abriu-se como um longo suspiro entre montanhas e vales, uma fita de asfalto costurada por paisagens que pareciam pintadas à mão. A Bósnia e Herzegovina acompanhou-me com a sua beleza austera, verde profundo, rios que serpenteavam como pensamentos distraídos, aldeias onde o tempo parecia negociar cada segundo. Ao atravessar a fronteira para a Croácia, senti a mudança quase física - a luz tornou-se mais aberta, o horizonte mais largo, como se alguém tivesse ajustado a saturação do mundo. A paisagem transformou-se com delicadeza: campos extensos, o relevo a suavizar-se, a promessa do Adriático a pairar no ar como um segredo bem guardado.

Foi em Dugopolje que parei para almoçar, mais por instinto do que por plano. Quase instantaneamente encontrei um pequeno restaurante, desses que não precisam de letreiro vistoso porque confiam na verdade do que servem. O staff recebeu-me com um sorriso fácil, genuíno, e em poucos minutos já me explicavam a cidade com tal entusiasmo que comecei a ponderar seriamente se não deveria ficar mais um dia - ou dois - para descobrir melhor aquele “campo longo” que sustenta gerações à sombra da montanha Mosor. A refeição foi simples e memorável: sabores honestos, bem temperados, como se cada prato carregasse um pedaço da terra fértil que lhe deu origem.


Enquanto comia, falaram-me da Caverna Vranjaca, esse tesouro geológico escondido em Kotlenice - uma pérola do mundo cárstico, um arco-íris subterrâneo moldado ao longo de milhões de anos. Contaram-me uma história  surpreendente de Stipe Punda, que em 1903 seguiu um pombo ferido e acabou por descobrir a segunda parte da gruta. Monumento natural desde 1963, temperatura constante de 15 graus, estalactites e estalagmites em tons de verde e azul - ouvi tudo com o entusiasmo de uma criança a quem acabam de revelar um truque de magia. Saí de Dugopolje alimentado no corpo e na imaginação.


Retomei a viagem em direção a Zadar com a sensação clara de estar num país feito de histórias e mistério. A Croácia aguçava-me a curiosidade a cada quilómetro, como se me piscasse o olho constantemente. Troquei os olhos quando descobri - ou redescobri - a história da gravata, esse símbolo tão pequeno e tão carregado de significado. No século XVII, soldados croatas usavam lenços distintos ao pescoço; os franceses encantaram-se e batizaram-nos de “cravate”, derivado de “croata”. Um pedaço de tecido que tanto pode enaltecer como escravizar num dia de calor. Durante anos, a gravata definiu estatuto, poder, autoridade, distinção social. Mais do que elegância, comunicava hierarquias invisíveis, separava importantes de dispensáveis. Hoje, felizmente, vai perdendo peso - a nova geração prefere dar outro sentido à vida, aproximando-se da igualdade, distinguindo os homens não pelo nó que apertam ao pescoço, mas pela capacidade de interpretar o mundo e conduzir os acontecimentos para um lugar melhor.


Foi inevitável lembrar-me de Heitor, o diretor do hotel em Sarajevo, com quem conversei alguns minutos na sala dos pequenos-almoços. Jovem, talentoso, camisa desportiva, calças de ganga, ténis - aquele ar de quem não espera que façam, faz acontecer. Disse-me algo que ficou comigo: liderar é influenciar comportamentos para que os resultados sejam alcançados da melhor forma possível. Quem confunde poder com imposição acaba por pagar caro a falta de lucidez. Há um fosso profundo entre chefe e líder; ambos ocupam posições de poder, mas exercem-no de formas radicalmente diferentes. Um manda, o outro inspira. Um ordena, o outro transforma.

A Croácia revelou-se-me, assim, como um país de contrastes harmoniosos: herança histórica entranhada na pedra, natureza exuberante a reclamar protagonismo, uma economia em mutação dentro do contexto europeu. Da costa recortada do Adriático, com mais de mil ilhas e águas translúcidas, às montanhas e planícies do interior, tudo respira diversidade. Os Lagos de Plitvice, com as suas dezasseis bacias ligadas por cascatas, são o manifesto vivo da conservação ambiental. O país cresce, aposta no turismo sustentável, acelera o PIB, enfrenta desafios - inflação, demografia, mão de obra - mas mantém algo essencial: hospitalidade, segurança, autenticidade. Caminhar sozinho à noite aqui é um privilégio tranquilo, um valor que guardo com especial carinho. Nas zonas rurais, sente-se a frugalidade sábia, a autossuficiência que não precisa de ostentação.


Cheguei a Zadar já noite cerrada. O céu pouco estrelado avisava-me que as nuvens estavam de passagem e o tempo mudaria. O hotel, moderno, de frente para o Adriático, surgiu como um porto seguro depois de um dia intenso. A receção foi amigável, quase cúmplice; os quartos, confortáveis, convidavam ao abandono imediato das preocupações. O bar, com uma luz bonita e música bem escolhida, ofereceu-me sandes de presunto deliciosas e uma cerveja gelada que desceu como redenção — talvez duas ou três, porque a música merecia companhia. Havia ali um ritmo cinematográfico, uma sensação de cena final antes do corte.


Quando cheguei ao quarto, cheguei também ao fim de mim. O corpo vinha atrasado da alma, e a alma vinha carregada de estradas, nomes impronunciáveis e promessas que não fiz a ninguém - exceto ao acaso. Quase sem forças para me despir, deixei a roupa cair como quem abandona versões antigas de si mesmo. Nem consegui espreitar da janela o mar Adriático; não por desinteresse, mas por respeito. Há mares que exigem cerimónia, e eu estava demasiado cansado para lhes prestar vénia.

Abri lentamente a minha mala, como se ela pudesse acordar se fosse brusco. Lá dentro, entre camisas amarrotadas e silêncios acumulados, peguei na minha concha e depositei-a na palma da mão com uma delicadeza quase supersticiosa. Era pequena, mas carregava oceanos. Pensei - com aquele dramatismo íntimo que só acontece quando estamos sozinhos: se já leste a minha carta de amor, aquela que lancei engarrafada ao mar em Constança, então esta noite será magica. Não pedi confirmação. O universo detesta interrogatórios.


Coloquei os fones e deixei-me cair na música como quem se entrega a um cúmplice antigo. As notas envolveram-me com uma sensualidade discreta, dessas que não precisam tocar para arrepiar. Não sei se a cama era redonda ou quadrada - sinceramente, pouco importava. As geometrias perdem importância quando o corpo decide descansar e a cabeça aceita render-se. Ali, deitado entre lençóis anónimos, senti-me protagonista de um filme europeu a cores saturadas, com diálogos raros e longos planos de silêncio.

Se me perguntarem se as mulheres croatas são bonitas, direi a verdade: não reparei. Talvez amanhã. Hoje, a beleza tinha outras formas - a do cansaço bem merecido, a do humor sarcástico que me fez sorrir sozinho ao pensar no quão romântico me torno quando ninguém está a ver, a da aventura ainda por abrir como um livro na mesa de cabeceira. Ri-me baixinho: viajo tanto e continuo a ser este personagem que se apaixona por detalhes inúteis e confia cartas de amor ao mar como se ele tivesse serviço de correio.

https://www.youtube.com/watch?v=lBERoll-WTI&list=RDGMEM2VCIgaiSqOfVzBAjPJm-ag&start_radio=1&rv=zz_PFyk8ntc

Adormeci assim, embalado por um país que sabe contar histórias sem levantar a voz e por um silêncio que, finalmente, me deixou descansar. Lá fora, o Adriático continuava a existir sem mim. Cá dentro, pela primeira vez em dias, tudo estava exatamente no lugar certo.

Diário de uma viagem – 92 dia – 25/09/2025

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