Quem regressa de uma viagem sem ter dado um pouco de si - volta com os olhos cheios de paisagens, mas com a alma por habitar.
Não
posso dizer que despertei em Belgrado naquele quarto com uma vista soberba para
o rio Sava, porque só desperta quem dorme - e só dorme verdadeiramente quem
encontra repouso na alma. A minha noite fora um intervalo de arrepios. Belgrado
estava fria e eu, imprudente, deixara-me ir mal agasalhado, como se o corpo
pudesse ignorar o inverno quando o espírito insiste em viajar. A garganta
ardia, a cabeça pesava, e havia no corpo aquele cansaço febril que nos faz
sentir estrangeiros dentro de nós mesmos. Levantar da cama não era um impulso
de coragem, mas uma necessidade silenciosa de sobrevivência.
Como
se não bastasse, Zora ligou-me cedo. A voz vinha frágil do outro lado da linha
- também engripada. Talvez só à tarde pudesse encontrar-me. As viagens não são
feitas apenas de postais luminosos; muitas vezes exigem resiliência, improviso,
e a humildade de aceitar que, quando estamos sozinhos, somos tudo o que temos.
Vesti-me com esforço, cada movimento um pequeno ato de resistência, e desci à
receção à procura de um simples medicamento.
Foi
ali que Belgrado me tocou pela primeira vez - não através da arquitetura ou da
história, mas através de pessoas. Jovan e Anja, assim diziam os crachás,
perceberam o meu desconforto antes mesmo de eu o explicar. Não houve pressa
burocrática, apenas humanidade. Jovan sorriu com uma gentileza rara e
ofereceu-se para ir à farmácia, ali perto, como se aquele gesto fosse a coisa
mais natural do mundo. Anja, com uma delicadeza quase maternal, conduziu-me até
à sala de pequenos-almoços, preparou-me uma mesa, escolheu com cuidado o que eu
deveria comer para não tomar o medicamento em jejum. Foi o meu anjo da guarda
naquela manhã cinzenta. Passava frequentemente pela mesa, perguntava-me como me
sentia, ajustava uma chávena, oferecia um olhar atento. Fiquei desarmado. Em
terras estranhas, são estes gestos que nos salvam.
Voltei
ao quarto e deixei-me ficar um tempo entre o sono e a vigília, até sentir o
corpo ceder lentamente à medicação. Depois saí. O dia tinha melhorado, como se
a cidade respeitasse o meu esforço. Almocei algo leve num pequeno restaurante
de petiscos, discreto, mas acolhedor, não longe do hotel. Sandes simples, pão
quente, sabores honestos - nada de exuberante, mas tudo reconfortante.
Souberam-me bem. Souberam-nos bem, porque Zora chegou pouco depois, sem ter
almoçado, e fez-me companhia.
Depois
fomos descobrir Belgrado. Caminhávamos devagar, e Zora falava. Falava como quem
abre gavetas antigas cheias de memórias. Gosta de história, como eu, e por isso
contava-me os segredos da cidade onde nasceu - a cidade onde o Danúbio e o Sava
se encontram, como duas vidas que resistiram ao tempo e às guerras. Belgrado,
dizia ela, é especial. Carrega uma história densa, feita de protagonistas e
antagonistas, de quedas e renascimentos.
Levou-me
à Igreja de Ruzica, escondida dentro da Fortaleza, humilde e poderosa. Ali,
candelabros feitos de balas e espadas lembram que a fé nasceu da guerra. As
paredes guardam orações sussurradas por soldados e amantes, e há naquele espaço
um silêncio que pesa, mas consola. Depois falou-me do Poço Romano - profundo,
enigmático, envolto em lendas de prisioneiros e ecos sem fundo. Apesar do nome,
talvez nem romano seja, mas em Belgrado a verdade mistura-se com o mito como os
rios no horizonte. O antigo aqueduto romano, hoje quase esquecido, lembra que
esta cidade sempre foi atravessada - por água, por exércitos, por ideias.
Passámos pelo chamado Vale do Suicídio, um nome duro, que carrega a memória de
tempos sombrios, quando a esperança parecia uma palavra proibida.
Mas
quando me falou-me de Nikola Tesla, fê-lo com orgulho e reverência. Visionário,
incompreendido, solitário. Um homem à frente do seu tempo, que sonhava com um
mundo ligado por energia livre enquanto o mundo ainda aprendia a destruir-se.
Em Belgrado, Tesla não é apenas um cientista; é uma promessa de luz no meio da
escuridão.
Ao
fim da tarde, parámos a olhar a confluência dos rios. O Danúbio e o Sava
encontravam-se ali, serenos, refletindo o céu que começava a escurecer. A
Fortaleza de Belgrado erguia-se imponente, guardiã de séculos. Zora falou-me
das ilhas fluviais - dezasseis ao todo - e de Ada Ciganlija, onde a cidade
respira no verão, entre praias improvisadas e risos soltos. Havia romance
naquele encontro de águas, como se os rios soubessem que, juntos, eram mais do
que separados.
Já
sob um céu estrelado, jantámos num restaurante à beira do Danúbio. O ambiente
era cinematográfico. Luzes suaves, o rio a mover-se lentamente, e um staff
elegante, composto por mulheres sérvias de beleza intensa e movimentos
coreografados, como se cada gesto fosse ensaiado para o ecrã. A gastronomia
envolveu-nos em sabores profundos, carnes bem temperadas, acompanhadas por um
vinho sérvio que nos soltou os ombros e a alma. Brindámos. Rimos. Houve
palavras arrojadas, toques discretos, promessas suspensas no ar sobre o próximo
encontro - aquelas promessas que não precisam de data para serem verdadeiras.
Quando
regressei ao hotel, fiz questão de agradecer a Jovan e Anja, ainda ao serviço.
Subi ao quarto com uma leveza nova. Coloquei os fones, deixei a música
envolver-me, e pensei nas viagens que fiz, nos encontros e desencontros que me
moldaram, nas cidades que me ensinaram a ser melhor. Nas viagens aprendemos
muito mais do que caminhos. Aprendemos o peso do silêncio entre duas paragens,
o idioma invisível dos gestos, a delicadeza rara da amizade que nasce sem
promessas e a proteção que só existe quando confiamos o coração ao
desconhecido. Cada passo longe de casa rasga-nos por dentro e, ao mesmo tempo,
costura-nos com fios novos.
Quem regressa de uma viagem sem ter dado um pouco de si - volta com os olhos cheios de paisagens, mas com a alma por habitar. Porque viajar é sangrar devagar, é perder certezas, é aprender a cuidar do outro como quem se salva a si mesmo. E só assim, entre dor e beleza, começamos a entender a missão silenciosa desta breve passagem: ser mais humanos antes que o caminho termine.
https://www.youtube.com/watch?v=lBERoll-WTI&list=RDlBERoll-WTI&start_radio=1
Adormeci
devagar, com o coração cheio, mesmo sabendo que bem cedo tinha uma viagem pela
frente até Sarajevo na Bósnia e Herzegovina.
Diário
de uma viagem – 89 dia – 22/09/2025





"Que reflexão tão necessária e oportuna. De facto, é nessa dualidade constante entre a dor e a beleza que a nossa essência se molda. Ser 'mais humano' é, talvez, o maior desafio e a mais nobre missão desta nossa breve jornada. Obrigado por estas palavras que nos obrigam a parar e a sentir."Beijinhos
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