Please do not disturb!
Adormeci
a pensar que há dias que não pedem mais do que isso: um final bonito, uma
melodia persistente e a certeza íntima - quase arrogante - de que, por
instantes, estivemos exatamente onde devíamos estar. Despertei com o mesmo
sentido: sereno, como se a noite tivesse passado a ferro as inquietações.
Fui
à janela. O Adriático estendia-se diante de mim com aquela calma que só o mar
conhece quando já viu tudo. Espreitei-o como quem se despede sem dramatismos,
com a elegância discreta de um “até breve” dito em silêncio. O céu não exibia
um sol aberto; preferia uma luz filtrada, amena, cúmplice - dessas que não
queimam a pele nem os pensamentos.
Rejuvenesci
num banho refrescante, quase ritualístico, como se a água lavasse não só o
corpo, mas também as camadas de ontem. Depois, a sala de pequenos-almoços
recebeu-me com promessas simples e eficazes: café forte, pão com manteiga,
fruta fresca… e, contra todas as probabilidades do meu histórico pessoal, ovos
escalfados. Confesso: senti-me ousado. Um aventureiro gastronómico às nove da
manhã.
Liguei
à Valentina. Uma despedida de “até já”, daquelas que não fecham portas - apenas
as encostam. Ela ficou do outro lado da linha, com a sua voz segura, uma
cultura acima da média e um conhecimento profundo do seu país e da delicada
coreografia geopolítica dos Balcãs. Valentina não falava: ela desenhava mapas
invisíveis enquanto sorria.
Segui
estrada em direção a Zagreb. A viagem era curta; o almoço, provavelmente, já na
capital croata. A estrada serpenteava com elegância, ladeada por colinas
verdes, casas de telhados avermelhados e jardins cuidados com um orgulho
silencioso. A natureza parecia arranjada sem ostentação, como alguém
naturalmente bonito que não precisa de provar nada a ninguém. O tempo
mantinha-se cúmplice: sem sol excessivo, sem drama - apenas confortável, como
um bom casaco de meia-estação.
A
música romântica acompanhava-me, abraçando pensamentos que voltavam, teimosos,
à conversa da noite anterior. A Croácia surgia-me não apenas como paisagem, mas
como conceito. Membro da União Europeia desde 2013, república parlamentar, país
de herança cultural rica e identidade forte, moldada entre a Europa Central e
os Balcãs. Um povo por vezes mais reservado, menos dado a efusões públicas - o
que alguns confundem com frieza. Eu, pelo contrário, senti afabilidade,
segurança, humanidade. Um país tranquilo, com baixas taxas de criminalidade,
onde o sorriso não é espalhafatoso, mas é verdadeiro.
Economicamente,
a Croácia vive a contradição moderna: turismo pujante, indústria alimentar,
petroquímica e metalúrgica relevantes, fundos europeus a sustentar
investimento… e, ainda assim, uma disparidade inquietante entre salários e
custo de vida. O salário médio ronda os 1400 euros, mas a habitação, a
alimentação e as despesas essenciais facilmente engolem esse valor. Para muitas
famílias, viver com dignidade é um exercício diário de equilíbrio precário. O mercado
de trabalho nem sempre oferece estabilidade; o sistema de saúde público,
pressionado, obriga muitos a recorrer ao setor privado.
Fiz
silêncio. Um silêncio denso. E pensei que o problema não respeita fronteiras.
Portugal, Croácia, outros tantos países onde a riqueza insiste em não se
distribuir com justiça. Como Portugal, a Croácia vive uma estabilidade
democrática aparente, marcada por divisões ideológicas entre conservadores e
social-democratas - um espelho familiar, quase desconfortavelmente próximo.
Geopoliticamente,
os Balcãs continuam a ser essa encruzilhada nervosa entre Europa, Médio Oriente
e Ásia. Rivalidades étnicas não resolvidas, memórias históricas inflamáveis,
interesses concorrentes da UE, EUA, Rússia, China, Turquia. Um “barril de
pólvora” em versão contemporânea: instabilidade controlada, mas nunca
adormecida. Cada Estado procura o seu interesse, a sua segurança, navegando
numa anarquia subtil, tirando partido das tensões das grandes potências.
Funciona… até deixar de funcionar.
Olhei
para o céu e pensei: se o mundo fosse um jardim infinito, o horizonte não seria
uma linha, mas uma sinfonia de cores vibrantes. Cada pétala exalaria a essência
mais pura do que significa ser humano. Nesse éden, o Amor seria a flor central -
talvez uma rosa de luz iridescente, cujas raízes se entrelaçam sob a terra,
conectando todos os seres. O seu perfume seria um abraço invisível, capaz de
curar feridas antigas e lembrar-nos que ninguém é uma ilha.
O
Humanismo surgiria em lírios de branco perolado, inclinando-se uns para os
outros, sem hierarquias, sem disputas por sol ou orvalho. O Respeito seria o
solo fértil, macio, onde espécies distintas coexistem sem se sufocar. A
Honestidade correria num riacho de água cristalina, refletindo a luz sem
distorções - palavras transparentes, gestos sem sombra. A aura desse mundo
seria um arco-íris constante. O ar teria sabor a esperança e toque de seda. Não
haveria inverno para a alma. A maior beleza não estaria na perfeição, mas na
vulnerabilidade confiante de quem se abre ao mundo.
Se
pudesse, enviaria esta mensagem a alguns líderes mundiais - aqueles que puxam
os fios das marionetas com mãos demasiado bem treinadas. Talvez humanizasse
algumas mentes distraídas… ou talvez não. O sarcasmo sorriu-me: utopias também
precisam de humor para sobreviver.
Com
a música ainda a aquecer-me o peito, cheguei a Zagreb. O reencontro com o rio
Sava aconteceu junto ao meu hotel, na Donji Grad - a cidade baixa, mais
moderna, elegante, pulsante. Próxima da Praça Ban Jelacic, da Catedral, da vida
que acontece a cada momento. O hotel foi uma surpresa deliciosa: linhas
contemporâneas, decoração elegante, conforto acima da média. Fui recebido por
Katarina, cujo sorriso ultrapassava largamente as formalidades. Indicou-me um
lugar próximo para almoçar.
O
restaurante parecia ter parado no tempo por escolha própria: ar retrô, madeira
escura, fotografias antigas nas paredes, uma atmosfera de nostalgia bem
temperada. A comida era uma ode à carne - suculenta, acompanhada por um vinho
tinto croata encorpado, profundo, quase confessional. A sobremesa… ah, a
sobremesa levou-me ao sétimo céu sem escalas nem turbulência. Um pequeno
milagre açucarado.
Depois
do almoço, quando Zagreb me chamava com promessas de ruas douradas e histórias
por descobrir, o corpo recusou-se a obedecer. Não era fraqueza - era sabedoria
ancestral. A resistência física é um rio com margens que não se forçam. A alma
queria cor; a matéria pedia trégua.
Cedi.
Voltei ao hotel como quem regressa a um santuário temporário. Pendurei na porta
o suave, mas firme, “Please do not disturb”. O quarto acolheu-me como um
confidente discreto. A temperatura era um bálsamo. O cansaço físico caiu sobre
mim como um manto pesado, mas a aura era colorida: aceitação, amor-próprio,
aquela melancolia doce do viajante que sabe quando parar.
Deitei-me.
O mundo exterior dissolveu-se ao som de uma música romântica que sussurrava
promessas de descanso. Não era o fim da viagem - era apenas uma pausa
necessária. Um acordo silencioso entre mim e o meu corpo.
https://www.youtube.com/watch?v=o3GglMrPj4o&list=RDo3GglMrPj4o&start_radio=1
E
assim, nesse limbo de notas, cansaço e entendimento, adormeci. Com um sorriso
nos lábios.
Diário
de uma viagem – 94 dia – 27/09/2025








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