Aqui em Sarajevo, tudo é intenso…

 


Sarajevo acorda devagar, como quem já viu demasiado e ainda assim insiste em sonhar. Muitas vezes chamada de Jerusalém da Europa, a cidade esconde entre montanhas cúmplices e ruelas otomanas uma mística que mistura melancolia, resiliência e uma paixão profunda - dessas que não gritam, mas deixam marcas.

Quando o sol entrou pela janela, atrevido como um amante sem modos, tocou-me o rosto para me acordar. Abri os olhos nesta cidade enigmática e ela, a mulher da concha, já lá não estava. Dissolveu-se no meu sonho como neblina sobre o Miljacka. Restava o perfume de mar - inexplicável, mas real - a dobra quente dos lençóis e a certeza inquietante de que os nossos encontros existem apenas para nos ensinar a lembrar.

Aqui em Sarajevo, tudo é intenso. Diz a lenda que o amor de um homem pela sua casa foi maior do que a vontade do Império Austro-Húngaro. Quando quiseram construir a Câmara Municipal, a Vijecnica, exigiram que ele vendesse a sua casa. Aceitou, mas impôs uma condição: que a casa fosse transportada, tijolo por tijolo, para a outra margem do rio. Hoje, esse edifício é um restaurante íntimo e romântico, prova viva de que o amor às raízes - e a teimosia bósnia - são a verdadeira argamassa do caráter local.


Mal me lembrei do restaurante, senti o aroma do café forte a invadir-me os sentidos, acompanhado pelo pão quente, babado por manteiga que se derretia em gestos quase indecentes. Tomei um banho fresco, espreitei a janela e gritei, sem vergonha nem tradução: Hello, Sarajevo. Desci depois para o meu spa do bem-estar - a sala de estar da cidade.

Ali, a fome tinha cor. Um dourado impaciente. As paredes guardavam tons quentes, gastas pelo tempo e pelas histórias, e as pessoas sorriam com aquela expressão universal de quem já salivava antes da primeira dentada. Olhavam as mesas como quem contempla uma promessa. A ironia era simples: ninguém ali tinha pressa, embora todos tivessem fome. Porque em Sarajevo, comer é um ato de respeito.

Na verdade, não se compreende a sensualidade desta cidade sem a Sevdalinka. É o fado da Bósnia. A palavra vem do árabe sawda, “bile negra”, melancolia amorosa. Música lenta, profunda, carregada de desejo reprimido, onde o aroma do café turco se mistura com vozes que cantam a dor e o prazer de amar. Por isso, este momento foi saboreado com lentidão. Parecia-me estar no lugar certo para alimentar a minha curiosidade aguçada. Descobrir Sarajevo começa sempre por aquilo de que mais gosto: o misterioso.


Fui ao ritual da fonte Sebilj. Diz a profecia local que quem beber da sua água voltará um dia a Sarajevo com o amor da sua vida. Talvez por isso seja o ponto de encontro preferido para o primeiro beijo depois dos passeios noturnos pelas ruas de pedra. Bebi. Não por fé, mas por respeito às histórias que insistem em sobreviver.

Depois subi às alturas, aos segredos sussurrados por Azra como quem confessa um pecado doce. As Mahalas, bairros nas colinas, revelam-se apenas a quem aceita perder-se. À medida que se sobe pelas ruas íngremes, a cidade desaparece e surgem jardins escondidos atrás de muros de pedra e portas de madeira pesada. Na Žuta Tabija, a Fortaleza Amarela, o pôr do sol é quase indecente.

Foi ali que pensei em Azra, a rececionista que me orientou na descoberta da cidade. Ela é uma fusão magnética entre herança eslava e mistério otomano, uma presença suspensa no tempo. Os seus olhos - azul glacial a tropeçar em verde avelã - não observam: interrogam. São olhos herdados das montanhas dos Balcãs, firmes, resilientes, perigosamente inteligentes. O corpo move-se com a elegância de quem conhece a própria força. Curvas naturais, postura altiva, ombros expressivos e uma cintura que parece desenhada pela água dos rios antigos. A sua sensualidade não se oferece; insinua-se.


Visitei depois o Isa-begov Hamam. Vapor, mármore, luz ténue. O luxo oriental restaurado com respeito. Ali, o tempo transpira. O corpo relaxa, mas a memória acorda. Saí mais leve, mas mais atento. Perdi-me no mercado histórico do século XV, onde o Oriente encontra o Ocidente sem pedir licença. Foi o momento certo para almoçar: um banquete vegetariano bósnio, servido com requinte simples. Legumes assados lentamente, especiarias suaves, pão acabado de sair do forno, tudo num restaurante confortável, numa rua que respirava história. Comer ali era ouvir a cidade mastigar o passado.

Passei pela Ponte Latina, onde um tiro mudou o mundo, e pelo Túnel da Esperança, onde a sobrevivência se fez engenharia e coragem. Nos museus, vi a infância roubada pela guerra, vi Srebrenica em silêncio ensurdecedor, e entre mesquitas e catedrais percebi que Sarajevo não escolhe um deus - escolhe coexistir.

Deixei para o fim aquilo que, no fundo, sabia que não era apenas uma visita, mas um acerto de contas silencioso com as ideias que levo no bolso. O estádio do FK Sarajevo - o Estádio Olímpico Asim Ferhatović Hase, para os íntimos da História, e Kosevo para quem o sente - ergue-se como um sobrevivente elegante, desses que já viram o mundo a arder e mesmo assim continuam de pé. Foi ali que, em 1984, o inverno se vestiu de festa e os Jogos Olímpicos abriram com promessas de paz, união e uma ingenuidade que hoje parece quase ficção científica.


Junto ao estádio, um grande placard impunha-se ao olhar com a solenidade de um juramento antigo: “Tudo pela verdade desportiva.” Em inglês, para não haver dúvidas globais: Everything for the sake of sporting truth. Fiquei ali, parado, a contemplar aquela frase como quem observa um quadro abstrato - bonito, provocador, mas perigosamente interpretável. A verdade desportiva… esse animal mitológico que todos juram ter visto, mas que raramente aparece em fotografias nítidas.

Foi então que, sem pedir licença, a comparação surgiu. Bósnia e Herzegovina. Portugal. Dois países, dois contextos, duas formas de olhar para a palavra “corrupção”. Os números são claros, frios, quase clínicos: Portugal apresenta uma perceção de corrupção significativamente menor do que a Bósnia e Herzegovina, sobretudo no setor público. Aqui, os desafios são maiores, mais visíveis, mais assumidos. Lá, são mais discretos, mais bem vestidos, mais institucionalmente educados.

Mas - e há sempre um “mas” com sabor a ironia - quando a conversa muda para o desporto, a balança parece ganhar vontade própria e inclina-se, estranhamente, a favor da Bósnia e Herzegovina. Pelo menos na sensação. Naquela sensação incômoda que se instala no estômago do adepto português quando o árbitro apita com convicção cirúrgica… sempre para o mesmo lado.

Em Portugal, a corrupção no futebol é como aquele parente incómodo que aparece em todos os jantares de família: ninguém o convidou, mas ele está sempre lá. É tema recorrente, combustível de debates inflamados, discussões de café, programas televisivos onde todos falam ao mesmo tempo e ninguém escuta. Quase sempre os mesmos clubes. Quase sempre os mesmos beneficiados. Quase sempre a mesma certeza coletiva de que “eles têm de ganhar”.


A História confirma o desconforto. Escândalos, processos judiciais, investigações, acusações, condenações aqui e ali. Uma limpeza que prometia ser profunda, mas que acabou por ser apenas cosmética. O flagelo não desapareceu; apenas aprendeu a esconder-se melhor. Hoje assiste-se em direto, no estádio ou no sofá, com comentários indignados e memes criativos - porque o humor, esse, continua a ser a nossa forma mais honesta de resistência.

O mais curioso - ou trágico, depende do humor do dia - é a aparente falta de vontade para acabar com os truques por baixo da mesa. Árbitros escolhidos com semanas de antecedência como quem escolhe o vinho certo para um jantar estratégico. Cartões cirurgicamente mostrados a jogadores decisivos, convenientemente antes de jogos importantes. Tudo tão bem ensaiado que quase merecia aplauso… se não fosse profundamente triste.

Pergunto-me, com uma sobrancelha levantada e a outra resignada: Não existem leis por conveniência ou por falta de criatividade? A videoarbitragem veio para esclarecer ou apenas para sofisticar o nevoeiro? Se qualquer decisão judicial pode ser corrigida quando se prova um erro grave, porque é que um jogo não pode ser revisto quando uma equipa perde por um erro grotesco - para não dizer calculado? Nunca entendi isso. Certo… também não é para entender.

Talvez a verdade desportiva seja apenas isso: um slogan bonito num placard, resistente à chuva, mas frágil perante os interesses. Uma frase que soa bem ao ouvido, sobretudo quando não obriga ninguém a cumpri-la. Com este pensamento a ecoar como um apito final mal digerido, a noite caiu sobre Sarajevo com uma elegância melancólica. As luzes da cidade acenderam-se como se nada fosse. E eu, humano, contraditório, cansado de verdades seletivas, fui restabelecer-me no hotel - não para dormir, mas para deixar que a lucidez descansasse um pouco.

Quando cheguei à receção, Sarajevo ainda me pulsava nos sapatos. Azra - olhos de quem já viu demasiadas chegadas e poucas despedidas felizes - levantou a cabeça com uma expressão de interrogação sincera, quase científica.” Gostaste da cidade?” “Amei” respondi, com a convicção de quem acabou de ser adotado por um lugar.


Houve um silêncio curto, desses que respiram. Aproveitei-o. “Podes orientar-me para uma refeição leve, num lugar agradável, com boa música?” Azra suspendeu o mundo por um segundo e, com um sorriso carregado de humor sarcástico, disparou como quem afina um violino: “Com ou sem companhia?” Sorri, porque a vida, quando provoca, deve ser convidada a entrar. “Estás convidada. Pode ser às 20h?” Ela sorriu também, cúmplice, e disse quase como um segredo partilhado num corredor de cinema. “És muito oportuno. Pode ser.”

A noite abriu-se como um plano-sequência. Caminhámos pelas ruas onde a história se escreve em camadas - otomana, austro-húngara, iugoslava - e onde os candeeiros parecem saber guardar confidências. Fomos a um bar-restaurante de madeira quente e luz âmbar, paredes a cheirar a conversa antiga e balcão que respeita o silêncio. Petiscámos como quem aprende a pronunciar uma cidade: pequenos pratos, sabores diretos, pão que pede histórias. A cerveja era honesta, fria, e a música - um jazz balcânico a piscar o olho - embalava-nos sem pedir licença.

Falámos dos nossos países como quem troca postais que ainda não existem. Rimos da oportunidade de viajar - essa profissão improvisada de quem coleciona mundos - e descobrimos que o desejo de partir é irmão gémeo do medo de ficar. Havia sensualidade no modo como ela escutava, divertida no timing do sarcasmo; havia mistério na forma como Sarajevo nos observava, paciente, como um figurante que sabe ser protagonista quando precisa. Entre brindes e confidências leves, o tempo perdeu a arrogância.

Quando regressei, a cidade despediu-se com um beijo discreto. Já era tarde para quem tem viagem cedo, cedo demais, rumo a Zadar, do outro lado do azul. No quarto, tomei um duche rápido - água a levar o pó das ruas e a fixar a memória.

https://www.youtube.com/watch?v=zz_PFyk8ntc&list=RDzz_PFyk8ntc&start_radio=1

Coloquei os fones e deixei uma música linda ocupar o espaço entre o peito e o travesseiro. Adormeci assim que fechei os olhos, embalado por uma noite mágica, dessas que não prometem eternidade, mas ficam. Sarajevo ficou no meu coração, gravado com letra cursiva.

 

Diário de uma viagem – 91 dia – 24/09/2025

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