Há uma solidão profunda em ser pobre num lugar desenhado para o prazer!
A
noite foi um sonho sonhado - redundância necessária, porque havia sonhos que
sonham o sonhador. Uma experiência vívida, dessas que se infiltram na pele e
ficam, como sal depois do mar. Era fantasia e desejo profundo, mas também
preocupação: um ensaio torto da realidade, um laboratório do inconsciente onde
medos e vontades ensaiavam passos que eu não soube interpretar. Talvez nunca se
saiba. Talvez o mistério seja a única interpretação honesta.
Abri
a janela. E lá estava ele. O mar Adriático sussurrava promessas de um romance
intemporal, desses que não precisam de nomes nem finais felizes. A sua beleza
não era apenas visual - era uma sinfonia sensorial, um acordo secreto entre
luz, som e cheiro. Fiquei em silêncio, como quem respeita um templo, e
continuei a sonhar acordado: caminhávamos de mãos dadas, eu e a mulher da
concha, ao longo da praia, enquanto a água azul-turquesa, cristalina e quase
indecente de tão perfeita, beijava a areia com a delicadeza de quem sabe
seduzir. A brisa marítima, carregada de sal e memórias antigas, acariciava-nos
a pele. Cada ondulação era uma obra-prima arquitetónica, entoando uma melodia
suave e hipnótica - uma canção de amor composta pela própria natureza, para
embalar corações distraídos e almas disponíveis.
Despertei
de vez. Duche gelado. A realidade também precisa de choque térmico. Foi então
que reparei: estava em Zadar, na Croácia. Segui o aroma do café forte e do pão
torrado, a flertar descaradamente com a manteiga. Os croissants exibiam-se com
um brilho quase obsceno, em competição desleal com uma variedade de doces de
todos os sabores e intenções. Frutas alinhadas em design contemporâneo eram a
nota final de uma música suave que envolvia a sala cheia de luz e cor. O sol da
manhã dourava os restos de café quando o chefe da receção se aproximou,
quebrando o feitiço do meu despertar lento.
Com
um gesto polido, apresentou-me Valentina. Dizer que seria apenas a minha guia
para descobrir Zadar seria um eufemismo imperdoável. No instante em que os
nossos olhos se cruzaram, a cidade - com os seus milénios de história e pedra
branca - tornou-se apenas cenário de fundo. Valentina tinha a elegância
magnética de quem conhece todos os segredos das ruelas venezianas e a
intensidade do Adriático no olhar: profundo, mutável, perigoso na medida certa.
“Zadar
não se visita”, disse-me enquanto começávamos a caminhar. “Zadar escuta-se.” Conduzi-me
primeiro ao Fórum Romano, coração antigo da cidade. Sob os nossos pés, as
pedras ainda guardavam o eco dos discursos, das conspirações e dos amores
improváveis de há dois mil anos. Contou-me como os romanos desenharam ali o
centro do mundo, convencidos - como todos os impérios - de que a eternidade
lhes pertencia.
Passámos
pela Igreja de São Donato, austera, circular, quase minimalista antes do minimalismo
existir. Sussurrou-me um segredo: a acústica é tão perfeita que até o silêncio
ganha peso. Talvez por isso os concertos ali soem como confissões públicas. Seguimos
pelas ruelas de pedra branca, polidas por séculos de passos e fugas. Falou-me
das influências venezianas, das guerras, dos cercos, da capacidade quase
teimosa de Zadar renascer sempre que a tentam apagar. Eu ouvia com atenção, mas
havia algo que me dizia que absorvia mais do que palavras.
Ao
meio-dia, levou-me a um restaurante pequeno, discreto, longe das armadilhas
turísticas. O peixe chegou fresco, grelhado com simplicidade quase religiosa.
Brindámos com um vinho branco croata - mineral, elegante, com acidez suficiente
para acordar a conversa. Falámos de turismo em Portugal e na Croácia, das
semelhanças improváveis, da hospitalidade como vocação e da dificuldade de
preservar a alma quando o mundo inteiro quer consumir o corpo das cidades.
Rimo-nos. Houve sarcasmo. Houve silêncio confortável. Houve aquele tipo de
entendimento que não pede legendas.
Disse-me
o sonho de visitar Portugal. Falei-lhe da terra onde vivia. Braga cidade que respirava
história, das caminhas que poderá fazer no Parque Nacional da Peneda Gerês no
Norte de Portugal: “Vais saltar das folhas do livro imaginário de histórias de
encantar, para entrar num paraíso de verdade, cheio de montanhas imponentes,
trilhos assombrosos, vales bucólicos, cascatas idílicas, lagoas de sonho, matas
encantadas, pontes medievais, santuários irreais, calçadas milenares, aldeias
perdidas no tempo e aquele lugar imperdível. O Agrinho Suites & Spa Hotel
Gerês, situado num recanto romântico na margem da albufeira da Caniçada. Por
momentos fizemos um silêncio inexplicável e senti brilho no seu olhar.
À
tarde, conduziu-me ao Órgão do Mar. As ondas tocavam música através da pedra,
como se o Adriático tivesse aprendido a tocar para impressionar. Mais adiante,
a Saudação ao Sol aguardava o crepúsculo - aquele espetáculo que Hitchcock
considerou o mais belo do mundo. E, por uma vez, ninguém ousou discordar.
Mas
caminhar por Zadar é também um exercício de dualidade que magoa. Uma
coreografia cruel entre o brilho do mármore polido e a sombra baça da exclusão.
Sob o céu de um azul impossível, onde o Órgão do Mar canta eternamente e o sol
se despede com teatralidade, a cidade veste-se de opulência antiga e turística.
E, tal como em Portugal, logo ali ao lado - onde a música das ondas não abafa o
silêncio do desespero - vive uma pobreza que o mundo escolheu não ver.
Nas
ruelas de pedra branca, à sombra das igrejas milenares, surgem vultos
esquecidos. Mãos cansadas seguram copos vazios enquanto turistas erguem taças
de vinho local. Olhares cruzam os nossos, não à procura de um guia ou de uma
fotografia, mas de um reconhecimento de humanidade que a pressa do consumo lhes
roubou. Dói perceber como os iates luxuosos na marina e as luzes da Saudação ao
Sol servem de moldura cruel para quem não tem a certeza do dia seguinte.
Há
uma solidão profunda em ser pobre num lugar desenhado para o prazer. É estar
num banquete e alimentar-se apenas do cheiro. Ignoramos o homem curvado no
banco porque o crepúsculo é mais fotogénico; desviamos da mulher que pede ajuda
porque o mapa manda seguir para o monumento. Zadar aprendeu a esconder as suas
cicatrizes sociais sob a maquilhagem do progresso. E isso dói mais do que as
ruínas.
Quando
regressámos ao hotel e eu me preparava para pagar o trabalho de Valentina, ela
aproximou-se. Olhos nos olhos. Demasiado perto para ser apenas profissional.
Abraçou-me e, com uma voz quase inaudível, segredou: “Convida-me para petiscar
algo leve… ao som de boa música. Ficarei feliz em terminar o dia como o
imaginei.
O
bar era íntimo, luz baixa, madeira quente, jazz ao vivo que parecia escorrer
pelas paredes. Saxofone lento, contrabaixo preguiçoso. Petiscos simples, mas
saborosos: queijos locais, azeite dourado, pão morno. Cerveja boa, fria,
cúmplice. Conversámos como quem folheia um álbum antigo - histórias de vida,
quedas, recomeços, ironias do destino. Rimos de nós próprios. Houve sarcasmo
suave, daqueles que protege em vez de ferir. O tempo desacelerou por respeito.
No
final, regressámos cada um ao seu silêncio. No quarto, voltei a olhar o mar -já
não como promessa, mas como espelho. Adormeci ao som desta música maravilhosa,
com o coração cheio e uma serenidade estranha, sabendo que teria de acordar
cedo para viajar até Zagreb.
https://www.youtube.com/watch?v=XN-GwBmzp88&list=RDGMEM2VCIgaiSqOfVzBAjPJm-ag&index=33
Alguns
dias não pedem mais do que isso: um final bonito, uma melodia persistente e a
certeza de que, por instantes, estivemos exatamente onde devíamos estar.
Diário
de uma viagem – 93 dia – 26/09/2025






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