Se o Natal fosse celebrado na rua, deixaríamos de nos sentir perdidos, numa casa que é só nossa, porque a chave do amor não roda na fechadura.
Acordei
devagar e feliz, como quem regressa de um sonho bom sem pressa de abrir os
olhos ao mundo. A luz da manhã entrava tímida pelo quarto e eu, cúmplice desse
instante, espreitei por entre as cortinas a vista soberba sobre o rio Sava,
largo, sereno, quase solene. Observei-o como se lhe dissesse adeus - não um adeus
triste, mas daqueles que se dizem com gratidão, quando sabemos que algo belo já
nos pertenceu por um momento.
Dentro
de mim fervilhava a ideia da viagem que tinha pela frente até Sarajevo, na
Bósnia e Herzegovina. Era um entusiasmo calmo, maduro, de quem se sente
orgulhoso por continuar a descobrir o mundo, mesmo sabendo que o mundo também
nos descobre a nós. Um banho fresco devolveu-me a vitalidade. A água escorria
pelo corpo como se apagasse os últimos vestígios do sono e acendesse a
curiosidade. O resto da energia recuperei na sala de pequenos-almoços, onde o
aroma do café forte se misturava com o pão torrado a derreter lentamente a
manteiga - uma sinfonia simples e perfeita.
A
sala era ampla, luminosa, decorada com madeira clara e apontamentos modernos.
Sobre o balcão, uma explosão de cores: sumos de laranja, romã, kiwi, cenoura e
beterraba alinhavam-se como frascos de vitaminas líquidas, quase obras de arte
comestíveis. Frutas cortadas com precisão, iogurtes, cereais e pequenas
tentações doces disputavam a atenção. Ao fundo, uma música suave - jazz discreto
com um toque balcânico - embalava o espaço sem o invadir.
Jovan
e Anja surgiram com aquele carinho silencioso de quem cuida sem fazer barulho.
Os meus anjos da guarda do dia anterior. Um sorriso aqui, um olhar cúmplice
ali, como se quisessem despedir-se sem palavras, no respeito bonito de quem
sabe que os encontros verdadeiros não precisam de discursos. Havia ternura
naquele silêncio.
Quando
estava a colocar as malas no carro, senti um abraço pelas costas. Um aperto
suave e quente, acompanhado por uma voz que conhecia demasiado bem para não me
fazer sorrir: “Pensavas que ias escapar sem te despedires de mim?” Voltei-me e
encontrei os olhos de Zora, brilhantes, húmidos, carregados de tudo aquilo que
não se diz porque não cabe em frases. Uma lágrima teimava em ficar. “Não te
queria acordar tão cedo” - disse-lhe, enquanto lhe devolvia um abraço longo,
daqueles que suspendem o tempo.
Foi
um momento de pura amizade, profunda, quase sagrada. Não havia promessas nem
despedidas definitivas, apenas a certeza tranquila de que certos laços não
precisam de presença constante para existirem. O calor daquele abraço ficou-me
na pele como um talismã. Depois, quase sem olhar para trás - porque há despedidas
que doem mais quando se prolongam - segui estrada fora até Loznica, cidade
fronteiriça com a Bósnia e Herzegovina, estendida
ao longo da margem direita do rio Drina, essa linha líquida que separa países,
mas une paisagens.
A
estrada era um quadro em movimento. Tons de verde profundo misturavam-se com
dourados suaves. As árvores inclinavam-se ligeiramente, como se observassem a
minha passagem. O asfalto serpenteava com elegância, convidando à contemplação.
Pequenas aldeias surgiam e desapareciam, casas simples com telhados vermelhos,
jardins cuidados, fumo a sair de chaminés como sinais de vida tranquila.
Loznica,
apesar de ter recebido estatuto de cidade apenas em 2008, respira história
antiga. Descobertas arqueológicas apontam para povoações do período Neolítico,
e senti isso no ar - como se o solo guardasse memórias que não cabem nos
livros. À entrada da cidade encontrei um restaurante discreto, mas convidativo.
Madeira desgastada, toalhas simples, um ambiente honesto. Pedi carne grelhada,
suculenta, temperada com mestria, acompanhada de legumes e pão quente. A
sobremesa veio depois: doce, cremosa, reconfortante. Tudo acompanhado por uma
cerveja sem álcool, fresca, surpreendentemente deliciosa, perfeita para o
momento.
O
tempo não era muito e a cidade ficou para uma próxima visita. Segui viagem e,
ao entrar na Bósnia e Herzegovina, um cartaz enorme capturou-me o olhar: “Bem-vindo.
Aqui vivemos o espírito de Natal todos os dias com humanidade. “Fiquei ali
alguns minutos, imóvel, a absorver a força daquela mensagem. Gostei desse
compromisso contínuo com a bondade, a compaixão e a solidariedade. Pensei no
Natal em Portugal, na nossa forma festiva de viver esse espírito, e sorri com
essa diferença invisível entre culturas.
Por
momentos sinto-me em transe hipnótico, numa concentração profunda com a minha
memoria ampliada e focada nos motivos porque celebramos o Natal. Realmente
nunca um floco de neve se sentiu responsável por uma avalancha. A obrigação de
as coisas estarem bem, ou de se fingir que estão bem durante esta quadra, é
como pegar um floco de neve a cair. Não tenho nada diretamente contra o dia de Natal, mas acho que seria
mais útil se o momento fosse mais praticado durante o ano e dum modo menos
efusivo.
Aguenta
coração! Apaziguado com uma refeição em casa, com cardápio especial e uma
árvore com muitas luzes, exaltando discretamente a bondade com que cada um, a
si mesmo, se atribui na distribuição de prendas, grande parte sem qualquer
utilidade, acabando muitas vezes em discussão por ressentimentos passados.
Se todos os dias fosse Natal, despertaria em
nós uma sensibilidade superior, as pessoas seriam mais amáveis e mais
tolerantes; espalhava-se o sentimento de solidariedade naqueles em que o
decisivo não é o egoísmo do bem pessoal, mas sim a realidade do mundo que vemos
na miséria descoberta na rua e a que se encobre também por trás de cortinas
desbotadas; as famílias seriam mais unidas, não precisariam de motivos para se
reunirem e festejar as alegrias de cada um.
O
Natal seria um fascinante laboratório da vida, transformado numa grande mesa de
amor, com uma enorme preocupação pela incomunicabilidade da pobreza
envergonhada e, nunca uma noite onde o desinteresse se esconde na alegria da
euforia comercial. Mas como, infelizmente, o Natal é apenas uma vez no ano,
celebramos este dia ausentes dos sofrimentos, das injustiças, dos desamores, da
pobreza, da ingratidão.
Se
este Natal fosse um pouquinho na rua, poderíamos oferecer um intervalo a uma
vida que nasceu submissa e sofrida, uma aprendizagem às consciências distraídas
da realidade, convictas de que fizeram o suficiente ou o que lhes era possível.
Se fossemos arquitetos de um verdadeiro espirito natalício, descobríamos o “sol
da noite”, deixaríamos de abandonar vidas perdidas na rua e nós, deixaríamos de
nos sentirmos perdidos de todo, numa casa que é só nossa, porque a chave do
amor não roda na fechadura.
A
Bósnia e Herzegovina, fora da União Europeia, mas candidata oficial desde
dezembro de 2022, revelou-se-me fascinante mesmo antes de a conhecer
verdadeiramente: um país de encontros - islâmico e cristão -, montanhoso,
resiliente, com uma costa adriática mínima de apenas 20 km, um lírio dourado
como símbolo nacional e Sarajevo como palco do estopim da Primeira Guerra
Mundial, após o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando em 1914. Um
território onde cerca de 90% é montanhoso e apenas 10% habitável, governado
como uma federação de identidades complexas.
A
viagem até Sarajevo foi de cortar a respiração. Montanhas ondulantes, casas espalhadas
pelas encostas, estradas que pareciam desenhadas à mão, nuvens a brincar com a
luz. O tempo estava instável, dramático, perfeito para quem gosta de paisagens
com personalidade. Cheguei a Sarajevo já sob um céu coberto de nuvens,
salpicado aqui e ali por estrelas tímidas. A cidade, conhecida como a
“Jerusalém da Europa”, acolhe mesquitas, igrejas ortodoxas e católicas e
sinagogas lado a lado, como se a diversidade fosse ali um ato de resistência
elegante.
O
meu hotel, como quase sempre, ficava junto ao rio Miljacka, que corta o centro
histórico e passa por pontes icónicas como a Ponte Latina. Ao entrar, senti o
aroma da elegância: madeira polida, tecidos nobres, iluminação quente. Na
receção, fui recebido com encanto e um brinde de boas-vindas. O staff feminino
destacava-se pela beleza natural e pela forma como conjugava profissionalismo e
simpatia - um sorriso que não era ensaiado.
Depois
do check-in, subi ao quarto. O luxo era discreto: linhas simples, cama
generosa, tecidos macios. Fui direto à janela. Lá fora, a zona histórica
iluminada desenhava sombras e brilhos, como um cenário de cinema antigo. Após
um banho refrescante, saí para jantar. As ruas estreitas de Sarajevo,
labirínticas e carregadas de história, guiaram-me como se soubessem exatamente
onde eu precisava de ir. Entre o charme otomano e o legado austro-húngaro, cada
viela sussurrava segredos.
O
restaurante era um refúgio acolhedor. Velas projetavam sombras dançantes nas
paredes de pedra. Um violino suave preenchia o ar. A gastronomia local foi um
deleite - sabores autênticos, intensos. Um vinho da Herzegovina, encorpado e
aromático, acompanhou a refeição com elegância. O serviço foi impecável. A
noite passou sem pressa, como devem passar as noites memoráveis.
Terminei
no bar do hotel, com uma cerveja refrescante, amendoins e música de piano.
Atrás do balcão, uma mulher bósnia preparava cocktails com um sorriso
tranquilo. “Maurício é nome espanhol ou brasileiro?” - perguntou. Sorri,
malicioso: “Isso não sei… mas sei que nasci em Portugal, uma terra que também
tem mulheres bonitas.” Ela fixou-me nos olhos, sorriu: “És muito gentil. O meu
nome é Azra. Também não sei a origem, mas nasci na Bósnia”. E afastou-se com um
andar elegante, quase provocador.
Quando
subi ao quarto, já com as pálpebras pesadas, encontrei sobre a mesa um cocktail
de frutas aromáticas e um bilhete: “Desejo-te uma noite muito agradável. Vou
saber mais de Portugal.” Fui à janela. A cidade dormia num silêncio profundo.
As luzes refletiam-se no rio como pensamentos soltos. Havia sensualidade
naquele instante solitário, uma intimidade rara entre mim e a cidade.
Coloquei
os fones e deixei-me escorregar para o sono ao ritmo íntimo da minha playlist,
enquanto a cidade, lá fora, respirava em enigmas. Já meio ausente de mim,
perguntei-me o que mais me reservaria aquele labirinto de luzes e sombras, onde
as surpresas nascem ao dobrar de cada esquina e o acaso tem a delicadeza de um
destino disfarçado.
https://www.youtube.com/watch?v=867NagfZ1L8&list=RD867NagfZ1L8&start_radio=1
Adormeci
sem ver a concha que me acompanha nesta viagem, guardada na mala como um
talismã antigo - proteção e cuidado, silêncio e promessa. Ela não chegou até
mim por acaso. Carrega um chamado, talvez o meu lugar no mundo, o mesmo onde há
de aportar a carta de amor que confiei a uma garrafa e lancei ao Mar Negro, em
Constança, acreditando que o mar também sabe guardar segredos e devolvê-los
quando é tempo.
Com
esse pensamento suspenso, a mulher que deixara a concha no meu quarto naquela
noite misteriosa voltou a visitar-me em sonho - ou talvez tenha atravessado a
fronteira do real. Surgia do mar calmo, sob uma lua generosa, a pele luminosa
de sal e noite. O cabelo ainda molhado desenhava rios escuros pelas costas; o
corpo, frio do abraço das águas, procurava calor como quem reconhece um porto.
Enrolou-se
nos meus lençóis com a naturalidade de quem sempre ali pertenceu. Havia nela um
silêncio carregado de sentidos, uma proximidade que ardia sem pressa. Ficou
colada a mim como uma concha viva, guardando murmúrios, mares inteiros, e um desejo
antigo de abrigo. O tempo perdeu o nome. O mundo reduziu-se ao ritmo da
respiração partilhada, ao peso doce de um corpo que promete e protege.
Quando
o sol entrou pela janela, atrevido, tocou-me o rosto para me acordar. Abri os
olhos. Ela já não estava. Restava o perfume de mar, a dobra quente dos lençóis
e a certeza de que alguns encontros existem apenas para nos ensinar a lembrar -
como se o amor, tal qual o oceano, nos tocasse uma vez para nunca mais nos
deixar iguais.
Diário
de uma viagem – 90 dia – 23/09/2025








Comentários
Enviar um comentário