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A mostrar mensagens de janeiro, 2026

Não sou pedinte, sou artista!

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  Despertei em Pescara com o rumor íntimo das ondas do mar. O dia abriu-se diante de mim como um leque de possibilidades, colorido e insolente, e a minha cabeça era um carrossel em rotação lenta, cheia de ideias a pedir estrada. Antes de tudo, porém, havia o ritual sagrado: rejuvenescer. A sala de pequenos-almoços era um templo de magia matinal. A luz, tímida e dourada, escorria pelas janelas como mel preguiçoso, pousando nos pratos, nas chávenas, nos rostos ainda meio sonhadores. O café forte exalava um perfume denso, quase obsceno, prometendo acordar não só o corpo, mas também as intenções. As torradas estalavam discretamente, enquanto a manteiga se rendia ao calor, derretendo-se com uma voluptuosidade indecente, como se soubesse que aquele instante - esse primeiro morder do dia - era sublime. Havia ali uma sensualidade silenciosa, um romantismo doméstico, onde cada gesto dizia: “respira, estás vivo, e o mundo ainda não te pediu nada em troca”. Depois, depois passei pela rece...

A mulher da morte que não escuta corações e transforma jardins floridos em cemitérios queimados!

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Despertei em Florença como quem abre um livro antigo e ainda quente, desses que cheiram a pólen, a pedra lavada pelo tempo e a promessas que não pedem explicação. Abri os olhos depois de um sonho, cheio de imagens tão saturadas de cor que nenhuma máquina fotográfica ousaria captá-las. Acordei três vezes. Três. E três vezes adormeci de novo, regressando sempre aos mesmos braços - braços que não pesavam, mas marcavam presença, como um sublinhado invisível na alma. Envolviam-me e segredavam, com uma voz que não vinha do ar nem do corpo, mas de algum lugar anterior a mim: “Eu sou o teu Karma. A origem da tua origem. O teu princípio e o teu fim. Eu sou os teus - nossos - pensamentos, palavras e atos a moldarem o futuro. Sou a concha que te acompanha, que te enrola e te esconde, ao mesmo tempo, em tempos diferentes, mas no mesmo lugar”. Aqui…” Aqui. A palavra caiu no quarto como uma pétala incendiada. Por momentos, considerei seriamente a hipótese de as cervejas do dia anterior terem vin...

Ainda tens alguma energia? Não… sim.

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  Abri as janelas no instante exato em que o sol, ainda tímido, ensaiava a primeira pincelada dourada do dia. O ar trazia uma promessa primaveril - leve, insinuante, quase cúmplice - e o rio Arno, lá em baixo, corria com a serenidade de quem já viu séculos passar e ainda assim encontra tempo para me desejar “bom dia”. Aquele caudal tranquilo, nascido nos Apeninos e destinado ao Mar Tirreno, parecia sussurrar histórias antigas apenas para mim, como se Florença tivesse decidido acordar comigo. Senti-me inexplicavelmente feliz. Mais ainda quando, ao fechar a janela, reparei num detalhe quase mágico: por baixo da porta do quarto repousava um mapa da cidade. Não um simples papel dobrado, mas uma promessa de regresso seguro depois de me perder - porque em Florença perder-se é um dever moral. E dentro do mapa, como um segredo guardado entre ruas e praças, uma nota manuscrita de Alessandra: “Hoje estou de folga. A partir do meio da manhã posso ser tua guia, com a promessa de me ensinares...

A distância mais longa é aquela que percorremos para dentro de nós!

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  Viajar sozinho ensina que o mundo é vasto, sim, mas que a distância mais longa é aquela que percorremos para dentro de nós mesmos - território sem mapa, onde a solidão morde e a saudade não pede licença. Quando despertei em Verona, o corpo parecia um território ocupado depois de uma batalha invisível. A noite tinha-me sugado as energias com a delicadeza cruel de quem beija e foge, e o dia, pontual como um cobrador de impostos emocionais, decidiu apresentar-me a fatura. Coloquei-me lentamente na vertical, negociando com os músculos como quem tenta convencer um velho amigo a dançar mais uma música, e arrastei-me até ao duche. A água caiu sobre mim como se eu estivesse debaixo da cascata do Salto Ángel, majestosa e excessiva, lavando não só a pele, mas também os pensamentos mais pesados. A espuma perfumada escorria devagar, levando consigo restos de cansaço, fragmentos de sonhos e pequenas angústias que já não me serviam. Ali, naquele ritual quase sagrado, o meu espírito voltou ...

Dar a mão não é acorrentar!

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  Despertei em Verona com a ansiedade própria de quem espera uma profecia e teme que ela venha com rodapé em letras pequenas. O velho do jardim - esse carteador profissional do destino, com mãos enrugadas de tanto baralhar futuros alheios - ainda não tinha falado. E eu, como qualquer pessoa sensata, decidi primeiro espreitar o mundo antes que o mundo resolvesse espreitar-me. Abri a janela. O rio Ádige escorria lá em baixo como um pensamento antigo, verde-acinzentado, paciente, contornando a cidade com a elegância de quem já viu demasiados amores começarem e acabarem. As margens guardavam edifícios ocres e rosados, empilhados como memórias teimosas, e as pontes pareciam frases suspensas entre dois silêncios. Verona não se impõe: seduz. Não grita romance - sussurra-o, com sotaque. Depois de um banho refrescante, segui o aroma do café. Renovado, quase novo, perigosamente otimista. A sala de pequenos-almoços era um pequeno teatro barroco. Mesas alinhadas como espectadores atentos, ...