Não sou pedinte, sou artista!
Despertei em Pescara com o rumor íntimo das ondas do mar. O dia abriu-se diante de mim como um leque de possibilidades, colorido e insolente, e a minha cabeça era um carrossel em rotação lenta, cheia de ideias a pedir estrada. Antes de tudo, porém, havia o ritual sagrado: rejuvenescer. A sala de pequenos-almoços era um templo de magia matinal. A luz, tímida e dourada, escorria pelas janelas como mel preguiçoso, pousando nos pratos, nas chávenas, nos rostos ainda meio sonhadores. O café forte exalava um perfume denso, quase obsceno, prometendo acordar não só o corpo, mas também as intenções. As torradas estalavam discretamente, enquanto a manteiga se rendia ao calor, derretendo-se com uma voluptuosidade indecente, como se soubesse que aquele instante - esse primeiro morder do dia - era sublime. Havia ali uma sensualidade silenciosa, um romantismo doméstico, onde cada gesto dizia: “respira, estás vivo, e o mundo ainda não te pediu nada em troca”. Depois, depois passei pela rece...