Dar a mão não é acorrentar!
Despertei
em Verona com a ansiedade própria de quem espera uma profecia e teme que ela
venha com rodapé em letras pequenas. O velho do jardim - esse carteador
profissional do destino, com mãos enrugadas de tanto baralhar futuros alheios -
ainda não tinha falado. E eu, como qualquer pessoa sensata, decidi primeiro
espreitar o mundo antes que o mundo resolvesse espreitar-me.
Abri
a janela. O rio Ádige escorria lá em baixo como um pensamento antigo,
verde-acinzentado, paciente, contornando a cidade com a elegância de quem já
viu demasiados amores começarem e acabarem. As margens guardavam edifícios
ocres e rosados, empilhados como memórias teimosas, e as pontes pareciam frases
suspensas entre dois silêncios. Verona não se impõe: seduz. Não grita romance -
sussurra-o, com sotaque.
Depois
de um banho refrescante, segui o aroma do café. Renovado, quase novo,
perigosamente otimista. A sala de pequenos-almoços era um pequeno teatro
barroco. Mesas alinhadas como espectadores atentos, cobertas de doces que
pareciam pecados legalizados: croissants dourados, bolos tímidos, mas
perfumados, compotas a brilhar como joias comestíveis. Havia sumos frescos, ovos
mexidos, queijo a conspirar com o fiambre, pão quente a flertar descaradamente
com a manteiga e café forte.
O
staff movia-se em perfeita coreografia, como se alguém tivesse ensaiado cada
gesto ao som de uma ópera invisível. No
meio de toda esta envolvência, Valentina - dizia no crachá - era a cereja em
cima do bolo numa sala já demasiado bonita para ser real. Os olhos verdes
lembravam paisagens italianas vistas de comboio: campos, colinas, promessas. O
corpo desenhado com elegância natural, sem exageros. E a delicadeza… ah, a
delicadeza com que pousava pratos e sorrisos fazia o mundo parecer menos rude.
Fiquei
ali, a saborear lentamente o café e as torradas que se derretiam na boca,
enquanto os movimentos de Valentina dançavam diante de mim. Quando baixava a
cabeça, sentia - não via, sentia - que ela me observava com curiosidade. Talvez
se perguntasse o que fazia eu ali, sozinho, perdido no meio de casais
apaixonados, como um parêntese num romance alheio.
Levantei-me
devagar, coloquei a mochila às costas e, ao passar, segredei-lhe: “Se Romeo
potesse vederti, si salverebbe da una tragica storia con Giulietta.” Ela
sorriu. Um sorriso breve, envergonhado, mas com potência suficiente para
abastecer uma pequena cidade. O olhar acompanhou-me até à porta. Talvez aquela
frase fosse a faísca do dia dela. O sorriso dela foi, sem dúvida, o empurrão
que eu precisava para ver Verona com outros olhos.
Antes
de partir à descoberta de Verona - essa cidade que parece escrita a lápis de
cor por um poeta distraído - sentei-me num dos sofás excessivamente
confortáveis junto à receção do hotel. Daqueles que nos engolem devagar, como
se quisessem convencer-nos a desistir de qualquer aventura e a ficar ali,
imóveis, a observar o mundo através de um ecrã plano.
Abril
o meu computador para saber coisas de Portugal. Entre notícias novas e velhas
disfarçadas de urgentes, chamou-me a atenção o ritual quase litúrgico dos
debates políticos. Um espetáculo curioso, coreografado com a subtileza de uma
feira medieval. Não muito diferente, afinal, dos comentadores desportivos,
esses sacerdotes da bola, que passam horas infinitas a discutir apenas três
clubes, como se o resto do país jogasse futebol clandestinamente em caves mal
iluminadas, ou como se outras modalidades fossem mitos urbanos, tipo unicórnios
ou boa educação em horário nobre.
Mas
voltemos aos debates, esse desporto de contacto sem capacete. Escandaliza-me -
e não é palavra escolhida ao acaso - a forma evasiva, ruidosa e pouco
democrática com que os intervenientes se atropelam verbalmente. Falam todos ao
mesmo tempo, elevam o tom como quem sobe uma escada rolante avariada, não para
serem mais claros, mas para serem mais audíveis. A lógica parece simples: quem
grita mais, vence. Ideias? Detalhes irrelevantes. Importa é abafar o outro,
soterrar o argumento alheio sob uma avalanche de decibéis.
Que
falta de civismo. Para não dizer educação - essa velha senhora esquecida num
canto da sala, a beber chá frio enquanto ninguém lhe passa cartão. E fico a
pensar nos jovens espectadores, esses aprendizes de cidadãos, que assistem a
este espetáculo degradante como quem vê um combate de boxe intelectual, onde
não há árbitro, apenas publicidade nos intervalos. Que exemplo estamos a dar?
Que a democracia é um ringue? Que ouvir é sinal de fraqueza? Que vencer é falar
mais alto e não melhor?
Não
é fácil educar pessoas quando já são crescidas, é verdade. Mas há soluções
quase mágicas, dignas de Hogwarts democrático: bloquear microfones. Um de cada
vez. Uma voz. Uma ideia. Um pensamento completo, imagine-se. Só não se faz
porque, aparentemente, convém que o debate seja caos coreografado, barulho
vendável, conflito embalado para consumo rápido. Talvez isso dê mais
audiências. Talvez o silêncio dê menos cliques.
Temos
ainda muito a aprender sobre democracia. Mais de cinquenta anos de escola e,
mesmo assim, parece que estamos a desaprender regras básicas: ouvir, respeitar,
esperar a nossa vez. Coisas simples. Coisas quase revolucionárias. Desliguei o
computador, levantei-me do sofá - que tentou, sem sucesso, prender-me ali - e
segui em direção a Verona. Lá fora esperavam-me ruas antigas, histórias
sussurradas em pedra e um silêncio civilizado que, ironicamente, parecia
ensinar mais sobre democracia do que horas de debate televisivo.
Sorri.
A aventura podia finalmente começar. Mapa na mão - porque fingir que sabemos
onde vamos é um luxo que só os locais têm - parti à descoberta. A Arena de
Verona surgiu imponente, um colosso antigo que ainda respira música. As pedras
guardam ecos de óperas, aplausos e verões quentes. Não é apenas um anfiteatro:
é um coração romano que se recusa a parar. Na Casa de Julieta, o romantismo é
quase industrial, mas ainda assim eficaz. A varanda observa multidões
esperançosas, a estátua de Julieta recebe carícias supersticiosas e cartas
digitais substituem papéis apaixonados. O amor evolui, mas continua ingénuo.
Mesmo
que William Shakespeare não tivesse ambientado o amor proibido de “Romeu e
Julieta”, a cidade, com um poder de sedução inato, continuaria a ser uma das
mais românticas de Itália. Nas ruas, sempre com muito turismo, é frequente
assistires a espetáculos musicais de grande qualidade, a pintores que
transportam para a tela a arte que os olhos veem, e bloggers, muitos bloggers
sentados no chão.
Tu
visitas Verona e ficas, ficas, ficas… porque todos os dias são diferentes,
todos os dias os teus olhos observam novas maravilhas, todos os dias aprendes
um novo gesto de ternura, porque aqui todos anunciam o amor, como se vivê-lo em
segredo diminuísse a sua intensidade. Depois
de algum tempo tu cresces, cresces… e aprendes que dar a mão não é acorrentar,
que amar não significa financiar, que os beijos não são contratos, que os
presentes não são promessas, que ser feliz é estar livre.
Aqui,
és testemunha de milhares de declarações de amor nos mais exóticos cenários,
como se estivesses a assistir a um filme de rua, com um copo de pipocas na mão.
São abraços apertados, são beijos intensos nos lábios, umas vezes molhados de
lágrimas outras vezes coloridos com sorrisos.
Parece
que retornamos ao banco da escola, onde no caderno atulhado de regras
gramaticais e fórmulas matemáticas, tínhamos sempre um cantinho onde
desenhávamos corações com a caneta vermelha e, para tornar mais evidente,
grafitávamos por trás das portas dos banheiros, nas paredes ou nos troncos das
árvores.
Com
este cenário colorido, umas vezes com sorrisos outras vezes com lágrimas, andei
por ali a descobrir os lugares onde milhões de selfies são disparadas por
minuto, por casais apaixonados que escolheram Verona para anunciarem o seu
amor.
A
Ponte Scaligera estende-se firme sobre o rio, robusta e bela, conduzindo ao
Castelvecchio, antigo refúgio de poder, hoje abrigo de arte. Pedra sobre pedra,
história sobre história. Ali, Verona lembra que também soube ser guerra antes
de ser poema. Subi à Torre dei Lamberti e lá de cima a cidade abriu-se como um
livro ilustrado. Telhados, igrejas, praças - tudo em harmonia, como se alguém
tivesse tido tempo e paciência para fazer as coisas bem-feitas.
Na
Piazza delle Erbe, o mercado vibra sobre ruínas romanas. O Arco della Costa,
com a sua misteriosa costela pendurada, desafia explicações há séculos. Baleia?
Relíquia? Aviso? Verona gosta de deixar perguntas no ar. O Jardim Giusti foi um
sussurro verde. Terraços, fontes, um pequeno labirinto - perfeito para quem
precisa de se perder com método. Ali, o tempo desacelera e até os pensamentos
andam em bicos de pés.
A
fome encontrou-me numa rua histórica, estreita, onde as paredes parecem ter
ouvido demasiadas conversas para ainda se surpreenderem. Um restaurante
discreto, mesas de madeira, cheiro a vinho e carvão. Almocei carne grelhada à
perfeição, suculenta, acompanhada por um vinho italiano que falava mais alto do
que eu. A sobremesa veio como um abraço final - doce, cúmplice, inevitável.
Quando
saí do restaurante, fui direitinho ao jardim procurar o velho. No dia anterior,
o oráculo de carne e ossos recusara-se a ler-me as cartas - “cansaço”, dissera
ele, como quem diz destino em pausa. As minhas perguntas não eram leves: a
concha que carrego na mala como quem transporta um coração suplente, e a carta
de amor que lancei ao mar em Constança, engarrafada, selada com esperança e uma
pontinha de loucura. Eram questões densas demais para respostas apressadas.
E
lá estava ele, sentado como se nunca tivesse saído dali. Raiz humana fincada na
terra do jardim. Quando me aproximei, voltou a fixar-me com aquele olhar azul,
tempestuoso e profundo, capaz de naufragar certezas. Fizemos um silêncio tão
longo que começou a contar histórias próprias. Depois, com uma voz rouca, gasta
como um mapa antigo dobrado vezes sem conta, falou pausadamente, como quem mede
cada sílaba para não acordar deuses antigos. “A concha que te acompanha nas
tuas viagens, foi moldada pelas correntes profundas e pelo silêncio do abismo
do fundo do mar. Transporta consigo a essência do amor resiliente.
Sorri
por dentro: afinal, até os objetos tinham biografia mais interessante do que a
minha. “Tal como o sentimento que representa, ela não nasceu na superfície
calma. Foi forjada sob a pressão imensa do oceano, polida pela areia e pelo
tempo até atingir a sua forma mais pura. Quando a encostas ao peito, não ouves
apenas o eco das ondas, ouves o pulsar de uma ligação que sobreviveu à
escuridão e à distância. Ela simboliza o caminho do teu coração: uma viagem
para dentro, onde o amor se guarda como um segredo precioso."
Engoli
em seco. Aquilo estava perigosamente próximo de mim. “Ela é o testemunho de que
o verdadeiro afeto é como uma pérola: uma beleza rara que nasce da superação,
protegida por uma armadura de ternura, pronta a ser descoberta apenas por quem
sabe escutar a alma do mar.”
Fez
uma pausa teatral, dessas que fariam inveja a qualquer ator shakespeariano de
Verona, e arrematou com humor seco: “Dizem que todas as conchas guardam o eco
do oceano. Mas essa… essa guarda um segredo maior.” Aproximei-me um pouco mais.
“Ela veio das profundezas abissais, onde
a luz não chega, mas os sonhos repousam. Polida por milénios de correntes e
silêncio. Nela habita uma promessa latente, dessas que não gritam, mas esperam.
Então
falou da minha carta de amor lançada ao mar. No dia em que a maré, farta de
brincar de deuses distraídos, a depositar aos pés da mulher que habita os meus
sonhos - ou talvez os meus sonhos habitem nela, nunca sei - os seus olhos irão percorrer as minhas
palavras, batizadas pelo sal e pela espera, a magia antiga despertará. “A concha
que hoje seguras irá pulsar” - disse
ele, sem pestanejar. “O nácar transformar-se-á em pele, o som das ondas na sua
voz, e os seus olhos terão a cor das profundezas do mar. Ri nervosamente.
Aquilo já soava a feitiço sério.
“A
concha que era apenas um sonho desenhado na espuma, caminhará para fora do mar e
tornar-se-á na mulher que o teu coração já conhece, antes mesmo de a ver. O
destino está escrito a sal e tinta, à espera que o oceano decida que hoje é o
dia do vosso “sempre”.” Não resisti: “Hum… e quando?” Ele fez nova pausa,
olhou-me nos olhos com uma ternura quase cruel e sorriu, como quem sabe uma piada
cósmica que não pode contar. “Dá tempo ao tempo, porque tudo, no tempo, tem o
seu tempo.
Com
essa frase, regressei ao hotel caminhando lentamente ao longo do rio Ádige, que
corria indiferente às minhas epifanias sentimentais. Na receção, cruzei-me com
Valentina. Sorriu. Baixou o olhar. O mundo, traiçoeiro, suspendeu-se por um
segundo. “Serás tu a minha concha?”, pensei. “Ou estaremos apenas a viver em
tempos diferentes no mesmo lugar?”
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Senti-me
sugado das energias, como se o dia tivesse decidido cobrar juros emocionais. Só
queria chegar ao quarto, colocar os fones, deixar uma música suave ocupar os vazios
e adormecer com a ideia - meio ingénua, meio teimosa - de que talvez amanhã
seja, finalmente, o tempo que o tempo anda a guardar para mim.
Diário
de uma viagem – 101 dia – 04/10/2025









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