Ainda tens alguma energia? Não… sim.

 


Abri as janelas no instante exato em que o sol, ainda tímido, ensaiava a primeira pincelada dourada do dia. O ar trazia uma promessa primaveril - leve, insinuante, quase cúmplice - e o rio Arno, lá em baixo, corria com a serenidade de quem já viu séculos passar e ainda assim encontra tempo para me desejar “bom dia”. Aquele caudal tranquilo, nascido nos Apeninos e destinado ao Mar Tirreno, parecia sussurrar histórias antigas apenas para mim, como se Florença tivesse decidido acordar comigo.

Senti-me inexplicavelmente feliz. Mais ainda quando, ao fechar a janela, reparei num detalhe quase mágico: por baixo da porta do quarto repousava um mapa da cidade. Não um simples papel dobrado, mas uma promessa de regresso seguro depois de me perder - porque em Florença perder-se é um dever moral. E dentro do mapa, como um segredo guardado entre ruas e praças, uma nota manuscrita de Alessandra: “Hoje estou de folga. A partir do meio da manhã posso ser tua guia, com a promessa de me ensinares Portugal, país que quero visitar em breve.”


Deixara também o número de telefone. Era pouco. Era tudo. Um único ponto de referência para nos encantarmos. Sorri com aquele sorriso que nasce sem pedir nada em troca e, com um banho rápido e refrescante - desses que acordam a pele e as ideias - deixei-me guiar por outro instinto infalível: o aroma do café.

Segui-o como quem segue um desafio sagrado. Todas as manhãs o faço, e raramente perco. A sala do pequeno-almoço recebia-me com uma elegância antiga: paredes que já tinham ouvido conversas de outras eras, cadeiras confortáveis como confidências bem guardadas, e uma luz suave que parecia ter sido filtrada por quadros renascentistas. Sobre a mesa, um festim italiano: pão estaladiço ainda morno, manteiga cremosa, compotas de fruta madura, croissants leves como promessas cumpridas, e o café - intenso, escuro, quase insolente - a reclamar atenção imediata. Havia também fruta fresca, sumos vivos, e aquele silêncio confortável que só os lugares com história sabem oferecer. Pensei, entre um gole e outro, que Florença não é apenas o berço do Renascimento; é uma cidade que renasce todos os dias, sem alarde, com arte, lendas e um humor peculiar que se revela nos detalhes.


Depois, telefonei à Alessandra. A voz dela tinha uma clareza sorridente. Combinámos encontrar-nos na praça mais importante da cidade, lugar onde o tempo se dobra sobre si mesmo. Durante o Império Romano, ali havia termas; na Idade Média, os artesãos tomaram conta do espaço, como se a cidade tivesse trocado o vapor quente pela forja criativa. Sob um céu aberto e generoso, comecei a caminhar lentamente em direção à Piazza della Signoria.

Cada passo era uma descoberta. Observei varandas com roupa colorida a secar ao sol, portas gastas por mãos anónimas, bicicletas encostadas como se descansassem de um romance atribulado. As pessoas passavam com aquela elegância distraída de quem vive rodeado de beleza e já não faz alarde disso. Havia casais a discutir com paixão teatral, senhores idosos a gesticular como maestros invisíveis, turistas perdidos com mapas abertos e almas fechadas - ainda não tinham percebido que Florença não se lê, sente-se.


Eu tinha de Alessandra apenas uma imagem vaga, quase apagada, mas isso pouco importava. O que me seduzia era a sua boa vontade: substituir o mapa por uma nativa, trocar linhas impressas por histórias vivas, conhecer os cantos da cidade como quem conhece os cantos de casa. E ali ia eu, entre curiosidade e romantismo, com um sorriso meio enigmático, pronto para trocar ruas por confidências, pedras antigas por risos novos. Se o mapa me ensinaria a regressar ao hotel, Alessandra - pressentia eu - talvez me ensinasse a ficar.

Quando a vi, máquina fotográfica na mão, já me tinha roubado alguns instantes em forma de imagem, enquanto eu procurava alguém que tinha na retina um pouco desfocada, mas cujo sabor ainda me morava na boca: o chocolate que me oferecera na noite anterior, doce, denso, com uma ponta de provocação. Aproximando-me, percebi que não era em nada a mulher ainda retida na minha memória - cabelo apanhado, farda castanha, quase institucional. À minha frente estava outra Alessandra: cabelos longos a cair como uma promessa, corpo desenhado com a elegância de quem não pede licença ao espelho, sorriso luminoso e uma voz que, essa sim, permanecia intacta, como uma assinatura sonora.


Depois de um abraço demorado - desses que dizem “estamos aqui” antes de qualquer palavra - ela fixou-me o olhar e disse, com uma naturalidade perigosa:” Então… vamos por aí…” - “não sabia que tinhas paixão por fotografia” - arrisquei, meio desarmado. “Os momentos marcantes são para serem recordados” - respondeu, com um sorriso tão enigmático que quase merecia legenda.

E fomos. Fomos na descoberta de Florença, que nesse instante parecia ter acordado só para nós. A cidade oferecia-se em camadas: o cheiro quente da pedra antiga, o som distante de passos misturados com vozes, a luz a escorrer pelas fachadas como mel dourado. Caminhávamos lado a lado, por vezes tão próximos que o braço dela roçava no meu, um toque breve, elétrico, suficiente para desorganizar pensamentos. Florença pulsava sob os pés, e cada rua parecia cúmplice daquele início.


Mas antes da aventura, a fome - essa entidade democrática - chamou-nos à razão. Alessandra levou-me a uma rua que respirava história, onde o tempo parecia andar mais devagar por respeito. O restaurante era ancestral, paredes gastas, mesas de madeira que já tinham ouvido segredos demais para se impressionarem connosco. Pedimos massas como manda a liturgia italiana: al dente, generosas, envolvidas num molho que cheirava a paciência e tradição. O vinho branco veio da melhor região, fresco, mineral, com aquele toque insolente que pede mais um gole e uma conversa mais lenta. Brindámos sem grandes discursos, porque certos brindes sabem falar sozinhos. A sobremesa foi digna do momento: cremosa, delicada, quase indecente na forma como se desfazia na boca. Rimo-nos, cúmplices, como crianças a fazer algo ligeiramente proibido - talvez amar demasiado a vida naquele instante.

Reabastecidos de prazer, fomos descobrir os cantos da casa - porque Florença, com Alessandra, deixou de ser cidade e passou a ser lar temporário. Mostrou-me o Buraco do Vinho, onde antigamente se vendia vinho pela janela, como quem passa bilhetes secretos ao mundo. Falou-me da Ponte Vecchio e de Hitler, numa mistura improvável de romance e sombra histórica, provando que até os lugares mais fotogénicos têm fantasmas discretos. Levantámos o olhar para a Cúpula de Brunelleschi, imensa, audaciosa, quase arrogante na sua beleza - uma obra que parece dizer: “Sim, é possível.”


A Janela Fantasma do Palazzo Grifoni surgiu como uma piscadela da cidade, uma ausência que conta mais histórias do que muitas presenças. Depois veio o momento Pinóquio: Alessandra explicou-me a origem do boneco mais mentiroso do mundo com um humor tão seco que eu quase suspeitei que o nariz dela crescia invisivelmente a cada piada. Ri-me, claro - porque rir ali era obrigatório, quase um imposto municipal.

O “tour” pela Catedral foi solene e vertiginoso, uma mistura de fé, arte e vertigens existenciais. No Mercato Nuovo, mostrou-me a Pedra da Vergonha, e eu pensei que certas pedras continuam úteis, especialmente para alguns políticos modernos. Pelo caminho, as artes de rua de Blub e Clet surgiam como comentários irónicos da cidade contemporânea: santos de mergulho, sinais de trânsito com alma - Florença também sabe rir de si própria.


Ao final da tarde, sentámo-nos junto ao rio. O sol despedia-se devagar, pintando o céu de laranja, rosa e promessas vagas. Falámos de nós, do que fomos, do que talvez seríamos. Contei-lhe de Portugal, do nosso acordo silencioso: um dia seria eu o guia, a trocar mapas por histórias minhas.

Portugal é um pequeno tesouro repleto de sítios incríveis por explorar. Praias paradisíacas, montanhas inspiradoras e vilas históricas, tudo combinado com uma gastronomia de limpar o prato com uma bucha de pão, acompanhada com uma pinga portuguesa, um dos melhores vinhos do mundo.

Portugal, que muitas vezes arrumamos para o fim da lista, é considerado pelas World Travel Awards como o melhor destino da Europa e do Mundo. Mas isto não é nada do outro mundo, é deste, porque apenas confirma a atual tendência, reconhecida igualmente por muitos guias, escritores de viagem e órgãos de comunicação social especializados em viagens e turismo. 

Portugal tem muitas sugestões; se quiseres vai por mim! O Parque Nacional da Peneda-Gerês é um mundo mágico composto por montanhas imponentes, trilhos assombrosos, vales bucólicos, cascatas idílicas, lagoas de sonho, matas encantadas, pontes medievais, santuários irreais, calçadas milenares, aldeias perdidas no tempo e tradições seculares. Considerado pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera

Neste cenário idílico, somos acompanhados por uma gastronomia diversificada inspirada nos sabores locais únicos, como cabrito assado no forno, vitela barrosã, cozido à moda de Barroso e muitos outros. Para além de tudo isto, não te faltará a hospitalidade e a amabilidade do povo sempre disponível para ajudar.


Os olhos de Alexandra brilhavam ao ouvir-me, talvez estivesse a fazer uma viagem em cima das minhas palavras. Quando as estrelas já salpicavam o céu, levantou-se, pegou na minha mão - gesto simples, devastador - e perguntou: “Ainda tens alguma energia?”. Respondi com a honestidade possível: “Não… sim.” Sorriu. Sempre aquele sorriso. “Então vamos a um bar que eu conheço.”

E fomos. Petiscámos, bebemos cervejas geladas, deixámos os corpos colarem-se ao som de uma música italiana que parecia feita para esse exato momento. Dançámos sem coreografia, sem planos, com o riso solto e o cansaço feliz. A noite avançou, indulgente.

https://www.youtube.com/watch?v=pj5J439g5iI&list=RDpj5J439g5iI&start_radio=1

Despedimo-nos como quem fecha um livro marcando a página com cuidado. Voltei ao hotel, com as minhas derradeiras energias, o corpo cansado e a cabeça cheia de imagens que nenhuma máquina conseguiria captar. Deitei-me, coloquei os fones para ouvir esta musica maravilhosa, e pensei que, afinal, o mapa tinha falhado - porque eu ainda estava ali. E talvez, só talvez, fosse exatamente isso que Florença queria de mim.

 

Diário de uma viagem – 103 dia – 06/10/2025

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