Não sou pedinte, sou artista!
Despertei
em Pescara com o rumor íntimo das ondas do mar. O dia abriu-se diante de mim
como um leque de possibilidades, colorido e insolente, e a minha cabeça era um
carrossel em rotação lenta, cheia de ideias a pedir estrada. Antes de tudo,
porém, havia o ritual sagrado: rejuvenescer.
A
sala de pequenos-almoços era um templo de magia matinal. A luz, tímida e
dourada, escorria pelas janelas como mel preguiçoso, pousando nos pratos, nas
chávenas, nos rostos ainda meio sonhadores. O café forte exalava um perfume
denso, quase obsceno, prometendo acordar não só o corpo, mas também as
intenções. As torradas estalavam discretamente, enquanto a manteiga se rendia
ao calor, derretendo-se com uma voluptuosidade indecente, como se soubesse que
aquele instante - esse primeiro morder do dia - era sublime. Havia ali uma
sensualidade silenciosa, um romantismo doméstico, onde cada gesto dizia:
“respira, estás vivo, e o mundo ainda não te pediu nada em troca”.
Depois,
depois passei pela receção. Pedi um mapa da cidade e algumas indicações, como
quem aceita pistas, mas recusa atalhos. Sem guia, sem sorrisos treinados, sem
propostas que me roubassem o prazer raro de estar comigo. Queria sentir o
destino nas palmas das mãos, errar por conta própria, perder-me com método e
encontrar-me por acaso. A rececionista, uma mulher atraente com voz sensual,
explicou-me tudo. Eu agradeci, e saí com aquele sorriso interno de quem não
quer olhar para trás.
Pescara
recebia-me com uma atmosfera romântica inevitável - não fosse o berço de
Gabriele D’Annunzio, poeta de excessos, de palavras que beijam e mordem. A
longa praia estendia-se ao longo do Adriático como um convite descarado: mar
azul, bares pulsantes, música a flutuar no ar e mulheres bonitas que caminhavam
com a confiança de quem sabe que faz parte da paisagem. Havia vida, havia
promessa, havia tentação.
A
cidade, moderna e reconstruída após os escombros do pós-fascismo, misturava
linhas contemporâneas com a elegância caprichosa da Art Nouveau. Era um diálogo
entre o passado e o futuro, feito de fachadas que parecem contar histórias enquanto
fingem não se lembrar delas. Caminhei devagar, em passos medidos, com o olhar
afiado de um observador que prefere sentir antes de compreender. Cada esquina
era um mistério leve, cada rua um verso inacabado.
E
assim comecei a percorrer Pescara: com o coração aberto, o humor afiado, a alma
curiosa e essa estranha certeza de que o dia, tal como a cidade, ainda guardava
surpresas suficientes para me fazer rir, suspirar e, quem sabe, acreditar um
pouco mais na magia discreta de simplesmente estar ali.
Caminhar
por Pescara é como folhear um livro onde o design moderno faz amor, sem pudor,
com tradições profundas. A cidade não se exibe; insinua-se. A sua alma vibra na
Piazza della Rinascita, carinhosamente apelidada de Piazza Salotto, onde o
tempo entra em modo avião. Ali, observei o vaivém elegante de quem domina a arte
suprema do dolce far niente - pessoas sentadas como se estivessem a ensaiar a
eternidade, cafés bebidos com a solenidade de um ritual pagão, olhares que
sabem esperar.
E,
como quem obedece a um chamamento do apetite e da alma, encontrei um
restaurante. Almocei um prato que não se come: experimenta-se. Frutos do mar
frescos, ainda a saber a sal e segredo, banhados no famoso azeite de Abruzzo,
acompanhados por um vinho italiano que parecia sussurrar verdades antigas. A
sobremesa… ah, a sobremesa era divinal e indecente, sensual como o ar que eu
respirava, doce como um beijo roubado e lento como uma promessa bem-feita.
Depois,
caminhei com os moradores pelas ruas de paralelepípedos, onde cada pedra parecia
ter uma história para contar - algumas certamente exageradas, como convém às
boas histórias. Segui a margem sul do Rio Pescara até ao Museo delle Genti
d’Abruzzo. Instalado num antigo quartel, o museu guarda a memória crua e fascinante
da região. Fiquei diante de ferramentas paleolíticas raras, capas de pele de
carneiro, botas com pregos e uma cabana de pedra cónica totalmente
reconstruída. Alguns artefactos tinham 650 mil anos. De repente, senti-me
jovem. Ridiculamente jovem. Um bebé existencial com wi-fi e dúvidas modernas.
Continuei
ao longo do rio, mais duzentos metros, até à Casa Natal de Gabriele d’Annunzio.
O local onde nasceu o mais infame fascista da cidade no século XIX. A casa
preserva o interior original, com motivos e entalhes extravagantes, moldes de
gesso das mãos e do rosto de Annunzio, cópias originais dos seus livros,
anotações corridas - pensamentos presos no papel como insetos numa gota de
âmbar. Admirei tudo com aquela ambiguidade desconfortável que a história nos
oferece: beleza e sombra de mãos dadas.
Atravessei
o rio e dirigi-me para norte, até ao Museu de Arte Moderna. Quadros
requintados, silêncios respeitosos, obras de Guttuso, Monet, Picasso. E foi
ali, entre cores eternas e génios imortais, que o inesperado decidiu ser
generoso comigo: reencontrei a mulher do violino.
Parei
para a ouvir tocar. Ao meu lado, outras pessoas. No chão, o mesmo cesto, com
duas moedas tímidas. Ela sentiu a minha presença. Baixou ligeiramente a cabeça,
concentrou-se ainda mais na música que lhe escapava dos dedos finos, como se o
violino fosse uma extensão do seu próprio corpo. Quando terminou, pousou o
instrumento e veio ao meu encontro. As pessoas dispersaram lentamente, mas
seguiram-na com os olhos, como quem assiste ao último ato de um feitiço.
Parou
à minha frente e, num tom quase secreto, disse: “Grazie. Sono Martina.” Aproximou-se
e abraçou-me. Um abraço leve, mas prolongado. Um daqueles que não pedem licença
ao tempo. “Non andare.” E eu fiquei. Arrumou o violino, o cesto e outras coisas
mais. Voltou, enlaçou-me o braço e perguntou: “Possiamo parlare? Sem que eu
tivesse tempo de responder, caminhámos assim durante minutos. Em silêncio. Um
silêncio tão denso que parecia dizer tudo. Depois, começou a falar, sem que eu tivesse
feito qualquer pergunta: “Não sou pedinte”, disse. “Sou artista.” Gosto de arte
de rua. Vivo em Nápoles, dou aulas de música. Vim a Pescara passar uns dias com
uma amiga e aproveito para fazer o que amo. Com o dinheiro que deixam no meu
cesto, ajudo quem precisa.” E eu confirmei quando ela deixou todo o dinheiro do
cesto no regaço de uma mendiga idoso.
Fiquei
em silêncio. Envergonhado. Pela pressa em julgar, pelo olhar condicionado, pela
arrogância invisível. Pedi desculpa. Ela, ao contrário do que eu esperava,
sorriu com ternura e disse que tinha ficado feliz por me reencontrar. “Pedi
para que isso acontecesse”, confessou. E aconteceu.
Falámos
de nós. Falámos da vida. Falámos do mundo. Convidou-me a ver o pôr do sol em
Pescara. Petiscámos diante daquela paisagem absurda de tão bela. Falámos dos
nossos países, do custo de viver, da dificuldade de sobreviver apenas da
música. Para a maioria dos músicos, a arte é uma vocação a tempo inteiro
aprisionada num horário de part-time. Uma paixão que precisa de faturas pagas
para continuar a sonhar.
Ela
falou-me da “vida dupla”, do “day job” que paga rendas, contas e equipamentos,
do cansaço físico e, pior ainda, da fragmentação do foco. É difícil compor uma
melodia quando a cabeça está ocupada com folhas de Excel. Sobreviver da música
hoje exige mais do que talento: exige estratégia, literacia financeira e uma
resistência emocional quase heroica. Falámos de lobbies, de redes de
influência, de como o talento puro raramente chega sozinho aos palcos iluminados.
Eu
escutava tudo. Atento. Presente. Martina falava com um copo de vinho tinto na
mão, a voz calma, por vezes com os olhos marejados, outras vezes com um gesto
de ternura que parecia tocar-me por dentro. Descobrimos, quase a rir, que ambos
viajaríamos para Nápoles no dia seguinte. O acaso sorriu. Ou o destino
piscou-nos o olho, cúmplice.
Partilhámos
a ideia de viajarmos juntos. Novas partilhas. Novas histórias. Quando me
despedi dela e cheguei ao hotel, não sentia o chão. O mundo parecia flutuar
alguns centímetros abaixo dos meus pés. Só ouvia música. Coloquei os fones,
deixei-me deslizar pelos sons que me transportavam para outras paragens, outros
futuros possíveis.
https://www.youtube.com/watch?v=Z259AonCupk&list=RDo3GglMrPj4o&index=7
Adormeci
com a sensação rara de quem foi tocado - não apenas por uma cidade, mas por um
encontro. Com o coração sereno, o sorriso discreto e a certeza suave de que, às
vezes, basta estar presente para que a vida nos ofereça algo delicado,
improvável e profundamente humano.
Diário
de uma viagem – 105 dia – 08/10/2025






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