A distância mais longa é aquela que percorremos para dentro de nós!
Viajar
sozinho ensina que o mundo é vasto, sim, mas que a distância mais longa é
aquela que percorremos para dentro de nós mesmos - território sem mapa, onde a
solidão morde e a saudade não pede licença.
Quando
despertei em Verona, o corpo parecia um território ocupado depois de uma
batalha invisível. A noite tinha-me sugado as energias com a delicadeza cruel
de quem beija e foge, e o dia, pontual como um cobrador de impostos emocionais,
decidiu apresentar-me a fatura. Coloquei-me lentamente na vertical, negociando
com os músculos como quem tenta convencer um velho amigo a dançar mais uma
música, e arrastei-me até ao duche.
A
água caiu sobre mim como se eu estivesse debaixo da cascata do Salto Ángel,
majestosa e excessiva, lavando não só a pele, mas também os pensamentos mais
pesados. A espuma perfumada escorria devagar, levando consigo restos de
cansaço, fragmentos de sonhos e pequenas angústias que já não me serviam. Ali,
naquele ritual quase sagrado, o meu espírito voltou a reconhecer o corpo, agora
limpo, desperto, levemente vaidoso do seu próprio aroma.
Segui
então o cheiro do café forte, esse farol existencial que nos salva da deriva
matinal. Quando entrei na sala, o tempo tropeçou. Havia uma mesa reservada com
o meu nome, como se o mundo, por um instante, tivesse decidido escrever-me uma
dedicatória. Um ramo de flores repousava ali, bonito demais para ser apenas
decoração, e eu senti o ar fugir-me dos pulmões mesmo antes de ler a pequena
nota dobrada em forma de coração. A caligrafia era um desenho paciente, quase
uma coreografia da mão sobre o papel. “Se Giulietta fosse viva oggi, la
tragedia di Shakespeare potrebbe essere risolta con un semplice sussurro
romantico. Grazie per aver incrociato il mio cammino. Valentina.” Sorri. Um
sorriso inteiro, desses sobem até aos olhos. Verona, cidade de amores
impossíveis, tinha-me oferecido um parêntesis improvável, uma versão
alternativa da história onde o destino, por uma vez, piscou o olho.
O
pequeno-almoço foi saboreado como se fosse um elixir: vitaminas, aromas,
promessas silenciosas. Cada gole de café tinha um travo de despedida e cada
pedaço de pão vinha temperado com gratidão. Valentina despediu-se apenas com o
olhar - um olhar que dizia “fica” e “vai” ao mesmo tempo, esse paradoxo tão
humano - e eu respondi com um sorriso e um gesto de abraço que não aconteceu,
mas que ficou suspenso no ar, inteiro, perfeito.
Havia
ali um misto de tristeza e felicidade, como só os momentos verdadeiramente
únicos sabem oferecer. Aqueles instantes que justificam a nossa passagem pelo
mundo, que provam que estivemos aqui e que, por breves segundos, fomos inesquecíveis
para alguém - e para nós próprios.
Depois,
como sempre, malas no carro. O ritual prático tentando ser mais forte do que a
emoção, falhando redondamente. Liguei o motor e deixei Verona afastar-se pelo
retrovisor. A cidade encolhia, mas não diminuía. Ficava inteira dentro de mim,
colorida, mágica, com um leve sorriso sarcástico, como se dissesse: “Não te
preocupes, voltas sempre. Nem que seja em memória.”
A
estrada abriu-se como uma promessa cumprida. O asfalto desenhava curvas suaves,
ladeado por colinas que pareciam cochilar sob um céu absurdamente azul. O dia
era calmo, desses que não levantam a voz porque sabem que serão escutados. No
rádio, uma canção italiana antiga - daquelas que falam de amores impossíveis
com uma alegria dramática - envolvia o carro num abraço quente. Eu conduzia sem
pressa, como quem saboreia cada quilómetro, cada sombra de cipreste, cada raio
de sol atrevido a entrar pela janela.
Bolonha
surgiu sólida, elegante, cheia de histórias empilhadas umas sobre as outras
como livros antigos numa estante nobre. Cidade sábia, gorda e vermelha - e não
apenas nos títulos, mas na alma. Sábia no silêncio das bibliotecas e na
respiração antiga da universidade; gorda nos aromas que escapavam das cozinhas
como convites irrecusáveis; vermelha nos telhados de terracota e numa certa
ousadia ideológica que ainda hoje paira no ar.
Procurei,
como quem cumpre um ritual sagrado, o restaurante da famosa massa bolonhesa. E
encontrei-o. Um almoço completo de sabores profundos, reconfortantes, quase
indecentes de tão bons. A massa parecia ter sido feita para aquele exato
momento da minha vida. O staff tinha uma simpatia fora do normal: calmos,
organizados, com tempo - esse luxo moderno - para explicar mistérios e lendas
da terra, como se me estivessem a passar um segredo de família.
Falaram-me
da pequena janela secreta onde se espreita um canal medieval escondido, como
uma veia discreta da cidade. Contaram-me do pórtico onde um sussurro viaja pelo
ar e chega intacto ao lado oposto, desafiando a lógica e alimentando
confidências. Riram-se ao mencionar flechas cravadas num teto por causa de uma
tentativa de assassinato falhada - distrações fatais existem, afinal. E
piscaram o olho ao falar de uma estátua que, dependendo do ângulo, revela mais
do que devia. Crianças não podem ver. Adultos fingem que também não.
Bolonha
precisava de horas. Muitas. Precisava de passos lentos sob quilómetros de
pórticos que protegem do sol, da chuva e, às vezes, da pressa do mundo. Merecia
a minha permanência. Mas o meu destino chamava-se Florença, e o dia não esticava
por decreto emocional.
A
estrada até Florença voltou a ser poesia em movimento. As colinas ondulavam
como corpos descansados, e a luz do dia começava a despedir-se com delicadeza,
pintando o céu em tons de despedida lenta. Quando cheguei, já havia pouca luz,
e as primeiras estrelas surgiam tímidas, salpicando o céu como sinais cúmplices
de que o dia seguinte seria bonito. As estrelas raramente mentem.
O
hotel, mesmo ao lado do rio, foi uma surpresa agradável — dessas que nos fazem
sorrir sem perceber porquê. Um hotel de charme, elegante sem ser pretensioso. A
entrada acolhia como um salão antigo que conhece histórias demais para se
impressionar. A receção tinha uma luz quente, quase dourada, e um staff que
sabia exatamente quando falar e quando apenas sorrir - arte rara.
O
quarto esperava-me virado para o rio, silencioso, confortável, com aquele tipo
de aconchego que não se mede em estrelas oficiais, mas em batimentos cardíacos
que desaceleram. Abri a janela. O rio corria tranquilo, refletindo luzes e
segredos. Sentei-me por um momento, em silêncio, com a sensação clara de que
viajar não é ir - é ficar. Ficar dentro do que se viveu. E naquela noite, entre
Verona, Bolonha e Florença, eu estava perigosamente inteiro.
À
medida que o crepúsculo se desfaz como um segredo mal guardado, Florença
despe-se da multidão e fica em camisa de noite: pedra fria, sombra longa,
beleza que não pede licença. Caminho pelas margens do Arno, onde os candeeiros
antigos lançam luzes amareladas que tremem na água como memórias indecisas. A
cidade desenha-se suspensa no tempo, num equilíbrio frágil entre o que foi e o
que insiste em ser. O ar da Toscana morde - não com crueldade, mas com aquela
delicadeza felina que acorda a melancolia e a convida a sentar-se connosco.
Sob
o olhar severo e irónico das estátuas da Piazza della Signoria, procuro não
apenas uma mesa, mas um abrigo. Um lugar onde o mundo abrande e eu possa pousar
o peso invisível que trago aos ombros. Fujo das praças iluminadas, como quem
foge de uma conversa superficial, e perco-me nas ruelas de Oltrarno. O
empedrado devolve o eco dos meus passos - único som a quebrar o silêncio
cúmplice da noite. É um diálogo íntimo entre mim e a cidade, e Florença, sábia,
responde apenas quando quer.
Encontro-a:
uma pequena trattoria escondida, janelas embaciadas, luz ténue, promessa de
calor. Ao entrar, o aroma de trufas e vinho tinto envolve-me como um abraço
antigo, desses que não fazem perguntas. Entre paredes de tijolo exposto e um
violoncelo distante - alguém a ensaiar a tristeza com método - o corpo rende-se
à massa artesanal e a alma, essa viajante cansada, descansa por instantes na
beleza triste e eterna da Florença noturna. Há felicidade ali, mas é uma
felicidade contida, educada, quase tímida. Como eu.
Depois,
caminho lentamente até ao bar do hotel, despido de energia e de ilusões
práticas. O bar recebe-me com elegância discreta: madeiras escuras, luz suave,
poltronas que sabem guardar confidências. O staff move-se com a precisão de
quem aprendeu que cuidar também é uma arte. Sorrisos genuínos, atenção sem
invasão - um carinho profissional que aquece mais do que devia. Pedem-me poucas
palavras; sabem que o dia já falou demais.
Servem-me
um whisky forte. Sem rodeios. No primeiro gole, sinto o peso do mundo nos
ombros e penso, com um humor seco, que talvez esta seja a forma mais crua de
liberdade: estar inteiro dentro do cansaço. Olho para o lugar vazio ao meu lado
e compreendo que o silêncio não é apenas ausência de vozes - é a presença
ensurdecedora de tudo o que deixei para trás. Sou eu, a mochila encostada à
cadeira e esta melancolia persistente, infiltrando-se pelas frestas das janelas
como uma corrente de ar que ninguém consegue vedar.
Há
uma dor mansa em ver o pôr do sol num horizonte que não me conhece. Em pedir
uma mesa para um. Em brindar apenas com o meu reflexo no vidro. Sou a minha
única testemunha, o meu único porto, e às vezes cansa ser-se o próprio abrigo
quando o que mais se queria era ser resgatado por um olhar familiar. Viajar
sozinho ensina que o mundo é vasto, sim, mas que a distância mais longa é
aquela que percorremos para dentro de nós mesmos - território sem mapa, onde a
solidão morde e a saudade não pede licença.
Peço
outro whisky. O bar já está vazio. Resta um violino distante - teimoso - e, de
repente, outra voz. Aproxima-se com passos suaves, coloca dois chocolates sobre
a mesa como quem deixa um amuleto, e pergunta com doçura profissional: “Tutto
bene? Hai bisogno di altro?” - “Companhia”, respondo, antes que o bom senso me intercete.
Depois, para disfarçar a ousadia, acrescento com um sorriso torto: "um mapa para
me orientar". “Sou Alessandra” - diz ela, sorrindo. E o meu sorriso de volta
abre uma porta que eu não sabia que ainda existia. “Vou pedir para deixar no
teu quarto”.
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Mais
tarde - ou talvez já seja outro dia - dou por mim deitado na cama, fones nos
ouvidos, música suave a embalar pensamentos que insistem em não dormir. O corpo
pesa, a mente vagueia, mas algo mudou. Entre a melancolia e a promessa, penso,
com uma ironia quase feliz: amanhã será um novo dia.
Diário
de uma viagem – 102 dia – 05/10/2025









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