A mulher da morte que não escuta corações e transforma jardins floridos em cemitérios queimados!
Acordei
três vezes. Três. E três vezes adormeci de novo, regressando sempre aos mesmos
braços - braços que não pesavam, mas marcavam presença, como um sublinhado
invisível na alma. Envolviam-me e segredavam, com uma voz que não vinha do ar
nem do corpo, mas de algum lugar anterior a mim: “Eu sou o teu Karma. A origem
da tua origem. O teu princípio e o teu fim. Eu sou os teus - nossos -
pensamentos, palavras e atos a moldarem o futuro. Sou a concha que te
acompanha, que te enrola e te esconde, ao mesmo tempo, em tempos diferentes,
mas no mesmo lugar”. Aqui…”
Aqui.
A palavra caiu no quarto como uma pétala incendiada. Por momentos, considerei
seriamente a hipótese de as cervejas do dia anterior terem vindo com um teor
alcoólico conspirativo, daqueles que abrem portais metafísicos sem aviso
prévio. Mas não. Aquilo parecia demasiado coerente para ser apenas ressaca e demasiado
absurdo para ser só realidade.
Saltei
da cama. O sol já não era criança, dourando as paredes com a arrogância mansa
de quem sabe que é eterno. Meti-me debaixo de um duche gelado - um ritual de
sobrevivência para regressar ao mundo concreto - mas nem a água fria conseguiu
apagar o que permanecia no quarto: o aroma nos lençóis, um perfume subtil,
íntimo, como se alguém elegantemente perfumado tivesse dormido ao meu lado e
decidido partir antes de deixar explicações. Típico. Até os mistérios em
Florença têm estilo.
Depois…
depois veio o café. E o pão quente, a manteiga a render-se lentamente ao calor,
como quem suspira antes de desaparecer. Foi esse chamamento ancestral que me
arrancou do quarto, arrastado pela fome e por uma noite que tinha sido tudo
menos económica em emoções.
A
sala de pequenos-almoços abriu-se diante de mim como um pequeno teatro matinal.
Luz natural filtrada por janelas altas, mesas de madeira clara, o tilintar
discreto de chávenas, o murmúrio poliglota de viajantes ainda meio adormecidos.
Havia croissants dourados como cúpulas renascentistas, frutas cortadas com
precisão quase cirúrgica, compotas que pareciam ter sido feitas por alguém que
acreditava no amor. O cheiro do café era sério, comprometido, sem espaço para
frivolidades.
Ali,
o pequeno-almoço não era apenas uma refeição: era um rito iniciático. O meu
ritual preferido para começar o dia. Sentar, respirar, observar. Dar a primeira
dentada como quem diz ao universo: “Estou acordado. Podes começar.” Cada gole
era um acordo tácito com a cidade, cada pedaço de pão uma assinatura invisível
no contrato do dia que nascia.
Fortalecido
- física e existencialmente - passei pelo bar. Alessandra estava lá, como
sempre pareceu estar: no sítio certo, à hora certa, com aquele sorriso que
mistura ironia italiana e uma ternura que não se explica. Despedi-me dela num
abraço apertado e longo, desses que dizem mais do que discursos mal ensaiados.
Agradeci-lhe a companhia na descoberta de Florença, porque algumas cidades só
se revelam quando são partilhadas. E ela fez toda a diferença. Toda.
Deixei-lhe
uma promessa lançada com solenidade exagerada e humor descarado: recebê-la em
Portugal com honras de Estado. Afinal, algumas pessoas merecem escolta
emocional e bandeiras ao vento. Saí. Florença esperava-me outra vez. E eu,
claramente, ainda não tinha acabado de acordar.
Saí.
Malas no carro, o motor a suspirar como quem entende despedidas, e comecei a
afastar-me fisicamente de Florença - esse detalhe técnico da geografia -
enquanto, com uma teimosia quase obscena, ela permanecia inteira no meu
coração. Florença não se deixa para trás: insinua-se. Fica como um perfume caro
no casaco, mesmo depois de lavandaria emocional.
O
destino chamava-se Pescara, a chamada pérola da Riviera Adriática: chique, elegante,
reconstruída com a vaidade de quem sabe quanto custa cada metro quadrado de si.
Uma cidade que parece andar sempre de salto alto, mesmo quando vai à praia.
Moderna, organizada, um centro de transportes onde os comboios chegam pontuais
como se tivessem sido educados em colégios suíços. Mas antes, havia estrada. E
a estrada, ah… a estrada italiana nunca é apenas um meio: é um romance em
andamento.
O
asfalto desenrolava-se sob um céu improvavelmente azul para a época do ano,
desses azuis que parecem mentira meteorológica. O sol aquecia com uma
intimidade quase indecente, como se tivesse sido convidado. À volta, pequenos
lugares floridos surgiam e desapareciam como versos curtos: casas baixas,
varandas com roupa a secar e flores a competir entre si por atenção, gente
simples com gestos largos e sorrisos que não pedem tradução. O verde era vivo,
exagerado, quase teatral - um verde que não pede desculpa por existir.
Ancona
apareceu como uma pausa bem escrita. A “cidade do sol nascente e poente”
repousa sobre um promontório em forma de cotovelo que abraça o Adriático com a
elegância de quem sabe exatamente onde tocar. Aqui, a luz dourada dança de
forma diferente, mais lenta, mais consciente, como se estivesse a seduzir as
pedras milenares uma a uma. Caminhar por Ancona é entrar num romance antigo
entre a terra e o mar, onde o Arco de Trajano e a Catedral de San Ciriaco
vigiam o horizonte como sentinelas de um amor eterno - daqueles que sobrevivem
a impérios, modas e maus cortes de cabelo.
Para
o almoço, escolhi Passetto. E escolhi bem, como quem escolhe uma amante pelo
olhar e só depois confirma o resto. Descer a imponente escadaria de mármore
branco foi um ritual de passagem: cada degrau afastava-me do ruído do porto e
aproximava-me de um refúgio de paz onde o mar respira mais fundo. À mesa, o
peixe chegou fresco, brilhante, delicadamente disposto, como se tivesse
ensaiado para aquele momento. A cerveja italiana, gelada no ponto exato da
tentação, escorria pelo copo com uma sensualidade que dispensava metáforas -
mas eu usei-as na mesma. A sobremesa… divina. Um excesso justificado. Doce,
cremosa, quase pecaminosa, saboreada com o Adriático a estender-se à frente
como um convite permanente ao abandono.
O
staff feminino parecia menos uma equipa de serviço e mais uma improvável final
de Miss Itália: sorrisos seguros, movimentos graciosos, uma beleza natural que
não pedia filtros nem promessas. Serviam com competência e um ligeiro ar de
quem sabe exatamente o efeito que provoca - e usa isso com humor subtil, quase
cruel.
Depois
do almoço, fui descobrir Ancona com passos lentos, como quem não quer acordar a
cidade. Capital da região de Marche, antiga cidade portuária fundada por
gregos, orgulhosa do seu nome em forma de cotovelo - Ankon - que permite o luxo
raro de ver o sol nascer e pôr-se no mesmo mar. O porto histórico respirava
histórias, a Catedral de São Ciriaco impunha silêncio respeitoso, e as falésias
desenhavam um dramatismo natural que dispensava adjetivos… mas eu usei-os
todos.
Passei
devagar pelas ruas emparedadas, observando o movimento das pessoas, esse teatro
quotidiano feito de pressas pequenas, conversas altas, gestos italianíssimos e
uma autenticidade que não se vende em souvenirs. Ancona não faz pose para
turistas: vive. Mistura a energia de uma cidade portuária agitada com a
tranquilidade serena da costa do Adriático. É menos estereótipo, mais verdade.
Menos espetáculo, mais substância. Uma cidade que não grita “olha para mim”,
mas que, inevitavelmente, prende o olhar.
Depois,
era tempo de seguir viagem até Pescara. O tempo continuava cúmplice, agradável,
provocador. Um dia feito para mergulhar no mar, esticar-me ao sol, rir sozinho
de pensamentos sarcásticos e agradecer, com um humor meio mágico, meio sentimental,
por estar exatamente ali - em trânsito, em viagem, em vida. A estrada escorria leve, e eu também. Levava
comigo uma liberdade indisciplinada, essa que não cabe em mapas nem respeita
horários. Até que, de repente, o mundo travou. Um placard gigante rasgou o azul
do dia: “La sopravvivenza è il primo passo; vivere con dignità è il nostro
impegno!” “Sobreviver é o primeiro passo; viver com dignidade é o nosso
compromisso.”
Fiquei
ali. Estátua improvisada, coração em suspensão. A ironia do destino quis que,
num dia feito para o prazer simples da existência, eu fosse confrontado com a
sua face mais crua. A Itália tem sido, há décadas, o coração pulsante - e
tantas vezes solitário - de um mundo que ainda não aprendeu a olhar a dor sem
desviar o olhar.
Quando
as ondas do Mediterrâneo devolvem corpos exaustos, mentes estilhaçadas e almas
que carregam apenas a esperança frágil de um amanhã sem bombas, é nas costas
italianas - de Lampedusa à Sicília - que a humanidade se despe de discursos e
se manifesta nua, imperfeita, real. Este país tornou-se porto de abrigo para
quem foge da fome extrema, da miséria absoluta, de guerras que devoram nações
como se fossem fósforos.
Ser
“exemplo” nunca foi politicamente confortável. Mas foi, e continua a ser, um
imperativo moral. Está no gesto do pescador que interrompe a faina para puxar
uma criança do mar gelado, como se puxasse o próprio futuro. Está nas mãos dos
voluntários que oferecem um cobertor térmico e algo ainda mais raro: um olhar
que devolve dignidade. Receber quem dá à costa desgastado não é logística - é
reconhecimento.
A
Itália recorda-nos, com um sotaque antigo e um coração teimoso, que por trás de
cada estatística existe um nome, uma família deixada para trás, um direito
básico à vida. E, apesar dos desafios económicos e das pressões políticas, o espírito
de solidariedade mediterrânica insiste em ser farol, impedindo que o mar se
transforme apenas num cemitério de sonhos mal enterrados.
Mas
a luz vacila. Hoje, este cenário de compaixão enfrenta a sombra de uma
metamorfose gélida. Um ICE sem poesia: gelo fardado, burocrático, comandado por
uma lógica sem pulso, uma mulher da morte que não escuta corações e transforma
jardins floridos em cemitérios queimados. Fronteiras militarizadas substituem o
acolhimento por arame farpado; formulários substituem mãos; números substituem
pessoas. É a erosão silenciosa da democracia, convertida em ditaduras do medo. A
prometida terra dissolve-se em políticas de exclusão, onde o ser humano vale
menos do que um carimbo mal pousado.
E
eu pergunto - com humor ácido, porque chorar sozinho na estrada também cansa -
que mundo é este onde países que se diziam livres e democráticos se transformam
em versões caricatas de loucas ditaduras? Onde o ser humano é reduzido a um
número, e o número ainda precisa de justificar a própria existência?
Retomei
a viagem. O mar continuava azul, insolente. O sol, generoso. E eu, dividido
entre a beleza e a ferida, segui em frente. Porque viver, afinal, é isso:
avançar mesmo quando a paisagem nos parte o coração - e ainda assim escolher
não congelar. Já o céu estava salpicado de estrelas cintilantes quando cheguei
a Pescara, como se o Adriático tivesse decidido acender a sua própria
constelação privada só para me receber. A “pérola da Riviera Adriática” não faz
cerimónias: oferece-se inteira, elegante sem arrogância, moderna sem perder a
memória. Reconstruída depois da guerra, traz no betão renovado uma espécie de
sabedoria tranquila, como quem já caiu, levantou-se e agora caminha melhor.
Ali, o cosmopolitismo convive com a serenidade costeira, e o sal do mar parece
discutir poesia com o vento - talvez um eco distante de Gabriele D’Annunzio,
filho ilustre, ainda a declamar aos ouvidos distraídos da cidade.
O
meu hotel ficava mesmo em frente ao mar Adriático, um privilégio assumido sem
culpa. Moderno, elegante, confortável, daqueles lugares onde o design sabe
calar-se para deixar o corpo descansar. Fui recebido com uma simpatia
desconcertante - daquela que desarma qualquer tentativa de manter pose de
viajante experiente - e com uma bebida italiana, frutada e gelada, que me
beijou os lábios com descaramento mediterrânico. Pensei, com humor
involuntariamente sarcástico, que se a vida fosse sempre assim, os filósofos
estariam desempregados.
Pousei
as malas, despi o cansaço num banho refrescante e vesti roupa leve, como quem
se despe também das urgências do mundo. Não tinha apetite para refeições
pesadas; a noite pedia outra coisa: movimento, curiosidade, pequenas
descobertas. Caminhei pela cidade moderna, entre jardins floridos que pareciam
conspirar perfumes, até encontrar um pequeno bar modesto - desses que não
prometem nada e entregam tudo. Bons petiscos, boa cerveja, música agradável e
um ambiente jovem, vivo, quase insolente na sua alegria simples. Ali, o tempo
perdeu a gravata e riu-se de si próprio.
Mais
tarde, a noite levou-me pela mão até à beira da praia, como quem conduz um cúmplice
a um segredo. Caminhava em direção ao hotel, com os sapatos cheios de areia e a
cabeça cheia de nada - esse nada confortável que só o mar sabe oferecer. O sal
no ar colava-se à pele, e a lua, atrevida, fingia iluminar o caminho quando na
verdade apenas observava.
Foi
então que a encontrei. Entre o murmúrio das ondas e o riso distraído de quem
passava, uma mulher tocava violino. Um olhar triste, desses que parecem ter
memória própria, atravessava-lhe o rosto. A música escapava-lhe dos dedos como
um pedido de socorro elegante, educado demais para ser ouvido num mundo apressado.
As pessoas passavam - sempre passam - e não a viam. Talvez porque a tristeza
não faça barulho suficiente. Talvez porque a beleza, quando não pede licença,
costuma ser ignorada.
No
cesto, duas moedas solitárias conversavam entre si, provavelmente debatendo se
o jantar seria real ou apenas uma esperança malcozinhada. A roupa, cansada do
tempo, denunciava batalhas antigas. O cabelo, maltratado, parecia ter aprendido
a sobreviver ao vento sem reclamar. Ainda assim - e aqui reside o mistério -
havia nela uma beleza escondida, quase insolente, como um tesouro que se recusa
a ser descoberto por qualquer um.
Parei.
Ela notou a minha presença. Não disse nada. O violino falou por ela. Escutei
duas músicas. Duas histórias sem palavras, cheias de curvas, promessas e
silêncios estratégicos. Havia algo de sensual na forma como o arco deslizava,
não no sentido óbvio, mas naquele mais perigoso: o da intimidade involuntária.
Eu não a conhecia, mas naquele instante sabia exatamente como ela respirava por
dentro.
Aplaudi.
Sem trocarmos uma única palavra - porque algumas verdades estragam quando ditas
- deixei dinheiro suficiente para uma refeição. E uma nota simples, quase
ingénua, que dizia: “Bom jantar. Amanhã o sol volta a nascer num novo dia”.
Soou-me
ligeiramente clichê, confesso. Mas há noites em que o cliché é apenas honestidade
cansada de ser original. Afastei-me com um sorriso torto, meio emocionado,
pensando que talvez tivesse acabado de assistir a um concerto privado pago com
humanidade. Ou talvez não. Talvez tivesse sido apenas mais um figurante na vida
dela. E está tudo bem. Porque o sol, esse exibicionista incorrigível, vai mesmo
nascer amanhã. E, com sorte, alguém vai finalmente ouvir o violino.
Agora,
a areia guardava o calor do dia, o mar respirava fundo, e cada passo era uma
conversa íntima com o silêncio. O corpo estava satisfeito, a mente levemente
embriagada de beleza, e o coração - esse eterno aventureiro sentimental - batia
num ritmo literário, colorido, mágico. Precisava de escutar uma boa música,
depois entregar-me ao silêncio de um sono, capaz de devolver algum bom senso a
um mundo enigmático onde, infelizmente, ainda predomina a lei do mais bélico.
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Adormeci
assim: entre o rumor das ondas e um sorriso discreto, sabendo que, pelo menos
naquela noite, Pescara tinha-me ensinado que viver pode ser um ato simples,
sensual e misterioso - e que, às vezes, a verdadeira rebeldia é apenas
descansar em paz.
Diário de uma viagem – 104 dia – 07/10/2025













Um texto belíssimo e sempre atual.
ResponderEliminarO teu diário, Maurício, encanta pela escrita e inquieta pelo conteúdo, lembrando-nos que a beleza do mundo não pode ser dissociada da responsabilidade de o olhar inteiro. Muito bom!! Já tinha saudades de te ler!!!