Quem cuida e quem é cuidado? Talvez a resposta mais honesta seja esta: todos seremos ambos. Em momentos diferentes.
Despertei no paraíso. E, como qualquer pessoa minimamente desconfiada da felicidade súbita, fiz o teste mais científico que conheço: toquei uma vez, toquei-me a segunda. Nada de transcendências, nada de harpas celestiais, nenhum coro angelical a julgar as minhas escolhas de vida. Não. Continuava inteiro, imperfeitamente humano, com sono e alguma ironia acumulada. Estava mesmo em Bellagio, no Lago de Como. E isso, por si só, já parecia uma provocação do universo. Há lugares que não pedem licença - impõem-se. Bellagio não se apresenta; revela-se. E fá-lo com uma elegância quase irritante, como quem sabe que é belo desde sempre e nunca teve necessidade de provar nada a ninguém. Aqui, o tempo não passa - escorre. Como o lago. Como um pensamento preguiçoso num fim de tarde sem culpa. A primeira luz da manhã atravessa as cortinas de linho pesado e desenha no quarto um quadro que faria qualquer pintor renascentista reconsiderar a própria carreira. Tons de pêssego, ouro velho, uma espécie ...