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A mostrar mensagens de março, 2026

Quem cuida e quem é cuidado? Talvez a resposta mais honesta seja esta: todos seremos ambos. Em momentos diferentes.

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Despertei no paraíso. E, como qualquer pessoa minimamente desconfiada da felicidade súbita, fiz o teste mais científico que conheço: toquei uma vez, toquei-me a segunda. Nada de transcendências, nada de harpas celestiais, nenhum coro angelical a julgar as minhas escolhas de vida. Não. Continuava inteiro, imperfeitamente humano, com sono e alguma ironia acumulada. Estava mesmo em Bellagio, no Lago de Como. E isso, por si só, já parecia uma provocação do universo. Há lugares que não pedem licença - impõem-se. Bellagio não se apresenta; revela-se. E fá-lo com uma elegância quase irritante, como quem sabe que é belo desde sempre e nunca teve necessidade de provar nada a ninguém. Aqui, o tempo não passa - escorre. Como o lago. Como um pensamento preguiçoso num fim de tarde sem culpa. A primeira luz da manhã atravessa as cortinas de linho pesado e desenha no quarto um quadro que faria qualquer pintor renascentista reconsiderar a própria carreira. Tons de pêssego, ouro velho, uma espécie ...

Ensinamos datas, fórmulas, capitais…, mas não ensinamos o que fazer quando o mundo interior desaba sem aviso prévio.

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  Começo esta viagem com um excerto de um comentário motivador que recebi: “Deixo aqui um conselho: se ficaste pelo título, já começaste a falhar contigo. Porque as verdades inconvenientes não gritam. Não fazem barulho suficiente para competir com notificações, promessas fáceis ou frases motivacionais recicladas. Elas sussurram. E só as ouve quem tem coragem de ficar… um pouco mais.” Acordei em Turim como adormeci - com o corpo ainda a guardar a memória térmica da noite, como se a pele fosse um arquivo sensorial onde certos instantes insistem em permanecer. Talvez porque, no fundo, eu soubesse que há dias que não se repetem. E ainda bem. A repetição é o primeiro passo para a banalidade, e banalizar o extraordinário seria um erro quase tão grave como não o viver. O enigma, esse, precisa de distância. Precisa de ausência. Precisa de nós. Depois, o som - leve, ritmado, quase cúmplice - na porta. Não era apenas um toque, era uma interrupção cuidadosamente coreografada pelo destino....

Predadores territoriais por cinco metros de alcatrão!

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  Acordei como adormeci: com a certeza de que Turim não era apenas uma cidade. Era um enigma. E eu, com a arrogância delicada de quem acredita no destino, tinha acabado de aceitar resolvê-lo. Não perdi tempo com os pormenores do pequeno-almoço - essa liturgia universal dos hotéis onde tudo sabe a “já visto” e a café demasiado correto - ainda que reconheça o seu conforto previsível. Mas há dias em que o conforto é uma distração elegante. E eu precisava de desconforto. De fricção. De mistério. Saí. O ar fresco atingiu-me como uma verdade. Trazia consigo uma mistura indecifrável: o rasto de perfumes caros, quase arrogantes, e a humidade tímida da manhã sobre o Rio Pó. Era como se a cidade respirasse por camadas - primeiro seduz, depois revela, e por fim… esconde de novo. Ajustei as alças da mochila. Leve. Essencial. Como as decisões que realmente importam. Fiquei imóvel por um instante, suspenso entre direções possíveis, como se escolher um caminho fosse trair todos os outros. À min...

Obsolescência programada não é apenas uma estratégia - é uma declaração de desprezo pela inteligência de quem consome.

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Despertei em Livorno ainda o sol conspirava com a noite, indeciso entre partir ou ficar. Abri os olhos devagar, como quem teme confirmar a realidade depois de um sonho demasiado vívido - ou demasiado perigoso para ser lembrado. Fui à janela espreitar o mar. Lá estava ele, cúmplice silencioso, com aquele azul ainda por acordar, respirando numa cadência antiga, indiferente às histórias humanas que nele se afogam. Para garantir que não estava preso a um delírio qualquer, enfiei-me debaixo da cascata de água do banheiro. Fria, impiedosa, quase moralista - como se dissesse: “Acorda. O mundo não tem paciência para as tuas dúvidas existenciais.” Fiquei ali até o corpo ceder à evidência: estava vivo, inteiro… e sem memória plausível de como chegara ao quarto na noite anterior. Há noites assim - improváveis, quase clandestinas, que nos atravessam sem pedir autorização e depois recusam-se a dar explicações. Segui então o aroma do café forte, esse guia espiritual dos que ainda acreditam em re...