Obsolescência programada não é apenas uma estratégia - é uma declaração de desprezo pela inteligência de quem consome.
Despertei em Livorno ainda o sol conspirava com a noite, indeciso entre partir ou ficar. Abri os olhos devagar, como quem teme confirmar a realidade depois de um sonho demasiado vívido - ou demasiado perigoso para ser lembrado. Fui à janela espreitar o mar. Lá estava ele, cúmplice silencioso, com aquele azul ainda por acordar, respirando numa cadência antiga, indiferente às histórias humanas que nele se afogam.
Para
garantir que não estava preso a um delírio qualquer, enfiei-me debaixo da
cascata de água do banheiro. Fria, impiedosa, quase moralista - como se
dissesse: “Acorda. O mundo não tem paciência para as tuas dúvidas
existenciais.” Fiquei ali até o corpo ceder à evidência: estava vivo, inteiro…
e sem memória plausível de como chegara ao quarto na noite anterior. Há noites
assim - improváveis, quase clandestinas, que nos atravessam sem pedir autorização
e depois recusam-se a dar explicações.
Segui
então o aroma do café forte, esse guia espiritual dos que ainda acreditam em
redenção matinal. O pão quente, estaladiço, flertava descaradamente com a
manteiga que se derretia como uma amante apaixonada - sem pudor, sem
estratégia, apenas entrega. A sala de pequenos-almoços era uma armadilha
cuidadosamente montada: tábuas de queijos curados, alguns suaves como
promessas, outros intensos como verdades difíceis; presuntos translúcidos,
quase artísticos na sua decadência elegante; croissants dourados, frágeis, com
aquele estalar que denuncia prazeres culpados; frutas frescas, coloridas, como
se a natureza quisesse pedir desculpa pelos excessos anteriores; sumos
naturais, iogurtes cremosos, bolos caseiros… um desfile indecente de tentações.
Mas a vontade de manter a linha - essa entidade tirânica que nos governa em
silêncio - falou mais alto. Recusei o pecado com a dignidade possível de quem
claramente queria ceder. Há uma espécie de heroísmo patético em negar um
croissant perfeito. Um gesto inútil, quase político.
Depois
veio a despedida de Graziela. Há despedidas que são meros formalismos. E há
aquelas que nos desmontam com subtileza cirúrgica. O abraço foi mais prolongado
do que qualquer protocolo recomendaria. O olhar dela brilhava com uma
intensidade que não se ensina - nasce de lugares que a razão não visita.
Prometeu visitar-me em Portugal. Falei-lhe do Agrinho Suites & Spa Gerês
Hotel, no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês - o nosso pequeno paraíso,
onde o tempo abranda e a alma respira. Convidei-a. Talvez com mais esperança do
que prudência.
Antes
de entrar no carro, outro abraço. Talvez um beijo - há pormenores que a
memória, por razões que não compreendo, decide arquivar num cofre inacessível.
E depois, junto ao ouvido, a sua voz: “Non dimenticarmi mai.” Como se esquecer
fosse uma escolha. E arranquei. Livorno começou a afastar-se pelo retrovisor,
mas há cidades que não ficam para trás - instalam-se. Levava comigo mais do que
recordações: levava fragmentos de uma versão de mim que talvez só exista ali.
A
estrada até Génova revelou-se um poema em movimento. O verão ainda resistia,
mas o outono já ensaiava a sua entrada triunfal - folhas a dourar, tons quentes
a infiltrar-se na paisagem, como uma despedida elegante da abundância. Pequenas
vilas surgiam ao longo do caminho, encaixadas entre colinas e mar, com roupas
estendidas ao vento e pessoas entregues à sua faina diária - uma coreografia
simples que o mundo moderno insiste em complicar. Havia uma beleza quase
irritante naquela normalidade. Enquanto muitos correm atrás de uma felicidade
que não sabem definir, ali vivia-se. Sem filtros. Sem pressa. Sem hashtags.
Parei
em Génova para almoçar. Cidade de contrastes dramáticos, onde o esplendor
aristocrático do passado convive com a rudeza sincera de um porto milenar. “La
Superba”, chamam-lhe - e com razão. Não se oferece de imediato. Exige esforço,
curiosidade, algum desapego ao conforto. É uma cidade que se revela a quem
insiste.
E
foi nesse labirinto de ruelas que encontrei o improvável: um restaurante
português. Claro que estamos em todo lado. Somos como o vento - invisíveis, persistentes,
inevitáveis. Entrei com um sorriso cúmplice. Já sentia saudades da comidinha
portuguesa, essa forma emocional de explicar o mundo. Pedi bacalhau assado na
brasa, acompanhado por um bom vinho do Douro. Para terminar, o inevitável pudim
Abade de Priscos - dourado, sedoso, doce… quase indecente na sua perfeição.
O
restaurante era pequeno, escondido numa dessas ruas onde a luz entra com
dificuldade, mas onde a vida pulsa com intensidade. Paredes decoradas com
azulejos, fotografias antigas de Lisboa, Porto, Braga, de rostos anónimos que
carregam histórias maiores do que qualquer narrativa oficial. Havia ali um
cheiro familiar - não apenas de comida, mas de pertença.
O
dono, português, radicado em Itália há décadas, falava de Portugal com aquela
nostalgia que não envelhece. Um sentimento partilhado por milhões de emigrantes
- gente que partiu não por ambição desmedida, mas por necessidade. Porque o seu
país, tantas vezes, não soube - ou não quis - criar condições para que
ficassem.
E
aqui entra a parte menos romântica da história. Portugal tem sido, durante
demasiado tempo, um exportador de talentos. Médicos, engenheiros, empresários,
artistas… gente capaz, preparada, que vê no estrangeiro aquilo que o seu
próprio país raramente oferece: reconhecimento, oportunidade, dignidade. Não é
apenas uma questão económica - é estrutural, quase cultural. Um país que,
paradoxalmente, forma bem, mas retém mal. Que celebra o sucesso… desde que
aconteça lá fora. E assim continuamos: a perder os nossos, a enriquecer outros,
a repetir um ciclo que já devia ter sido interrompido há muito. Não por falta
de consciência, mas por excesso de resignação.
No
fim do almoço, caminhei um pouco pelas ruelas de Génova — não por vontade, mas
por uma espécie de convocação silenciosa, como se a cidade me tivesse chamado
pelo nome sem nunca me ter conhecido. O tempo era curto, cruelmente curto, para
compreender uma cidade com mais de meio milhão de habitantes. Ainda assim,
havia qualquer coisa de insolente na forma como Génova se deixava entrever: não
se explica, insinua-se.
Entrei
no labirinto dos “Caruggi”, esse emaranhado de ruelas estreitas e sombrias onde
o tempo não parou - apenas se tornou cúmplice. Ali, cada pedra parece guardar
um segredo mal contado, cada janela semiaberta observa mais do que revela.
Caminhar por elas é aceitar um pacto: perdes-te, ou não entras verdadeiramente.
E eu perdi-me, claro. Mas com uma elegância que só os distraídos fingem ter.
O
ar estava saturado de contrastes - o cheiro quente e quase indecente da
focaccia acabada de fazer misturava-se com a maresia que subia do porto como
uma memória antiga, salgada e persistente. Era como se a cidade respirasse por
mim, ou talvez eu por ela, num acordo tácito que dispensava entendimento. Havia
ecos. Sempre ecos. De mercadores que negociavam mais do que especiarias, de
marinheiros que regressavam com histórias exageradas e saudades mal resolvidas.
E, no meio disso tudo, eu - um intruso moderno, com pressa, telemóvel no bolso
e uma arrogância ingénua de quem acha que pode “conhecer” um lugar em poucas
horas. Génova riu-se de mim, tenho a certeza. E com razão.
Se
tivesse ficado mais um dia - esse luxuoso “se” que raramente nos é concedido -
teria ido à Via Garibaldi. Teria atravessado a opulência dos Palazzi dei Rolli,
mergulhado em pátios de mármore frio, deixado o olhar perder-se em frescos
celestiais que parecem pintados para distrair de verdades menos bonitas.
Jardins suspensos, como promessas adiadas, sussurrariam histórias de uma
nobreza que, em tempos, acreditou ser eterna. Spoiler: não era. Mas tiveram
estilo enquanto durou.
Mas
não fiquei. E talvez ainda bem. Há cidades que ganham mais com a ausência do
que com a presença prolongada. Tornam-se ideias, e as ideias - ao contrário das
visitas guiadas - não se esgotam. Enquanto os meus olhos tentavam memorizar
pormenores - uma porta gasta, um sorriso fugaz, uma sombra que parecia
seguir-me - a minha mente traiu-me. Recuou. Livorno surgiu, como fazem as
memórias que importam. E ali, entre becos diferentes, mas estranhamente
familiares, comecei a costurar os retalhos das conversas com Graziela.
Perguntei-lhe,
quase por reflexo, se era normal os hóspedes trazerem tantas malas para tão
poucos dias. Era uma pergunta banal, mas carregada de uma inquietação que já me
roía há horas. Ela não hesitou: “As que viste não são muitas. Quando saem, levam
outras tantas com roupa que compraram aqui. E então… silêncio. Não um silêncio
qualquer. Um desses silêncios densos, quase palpáveis, onde duas consciências
se encaram sem precisar de palavras. Um silêncio de reprovação mútua, como se
ambos tivéssemos tropeçado, ao mesmo tempo, na mesma evidência absurda.
Olhei
em volta. Corpos vestidos de tecidos que ainda cheiravam a loja. Identidades
provisórias penduradas em cabides caros. E pensei - com uma ironia amarga - que
talvez já não sejamos pessoas que vestem roupa, mas sim roupa que veste
pessoas. O ato de comprar, outrora simples e funcional, transformou-se num
ritual quase religioso de compensação emocional. Compramos porque estamos
cansados, porque estamos tristes, porque estamos… vazios. E o problema não é o
vazio - é a ilusão de que ele se preenche com etiquetas.
Vivemos
na era do “excesso vazio”. Armários que transbordam e almas em saldo. Repetimos
padrões como quem coleciona desculpas: “era barato”, “estava em promoção”, “vi
alguém usar”. Como se o preço baixo fosse um álibi moral. Como se a consciência
também tivesse desconto. No epicentro desta farsa elegante está o chamado Fast
Fashion. Rápido, acessível, irresistível - como tudo o que nos seduz e depois
nos trai. Uma miragem onde o luxo parece democrático, mas a conta real chega
sempre a outro endereço.
Porque
aquilo que não pagamos na caixa registadora… paga alguém. E paga caro. Paga a
costureira invisível, algures num país que raramente sabemos apontar no mapa,
cosendo horas intermináveis por um salário que não compraria sequer a peça que
produziu. Paga o rio tingido de químicos, que deixou de refletir o céu para
refletir a nossa indiferença. Paga o planeta, sufocado em microplásticos e em
escolhas descartáveis. E, ironicamente, pagamos nós também - na forma de uma
insatisfação crónica, essa doença moderna que nos faz querer sempre mais… do
que não precisamos.
Há
qualquer coisa de profundamente absurdo em desenhar roupa para durar menos do
que um impulso. Obsolescência programada não é apenas uma estratégia - é uma
declaração de desprezo pela inteligência de quem consome. E nós, com um sorriso
cúmplice, aceitamos. Porque é novo. Porque é tendência. Porque… porque sim.
Graziela
escutava-me sem pestanejar. Às vezes, desviava o olhar para as pessoas à nossa
volta, como quem confirma silenciosamente cada palavra. Havia nela uma atenção
rara, quase perigosa - daquelas que nos obrigam a ser honestos até ao
desconforto.
E
eu continuei. Talvez esteja na altura de reaprender a perguntar. Perguntas simples,
quase ingénuas, mas revolucionárias na sua essência: preciso mesmo disto? Quem
fez isto? Quantas vezes vou usar? Num mundo viciado em respostas rápidas,
questionar tornou-se um ato de resistência. Precisamos de trocar a pressa pela
consciência. A quantidade pela intenção. O impulso pela responsabilidade.
Migrar de uma lógica linear - extrair, fabricar, descartar - para uma circular,
onde o valor não termina no primeiro uso, mas se reinventa.
Escolher
melhor. Comprar menos. Reparar mais. Herdar histórias em vez de acumular
objetos. Porque a moda, no seu estado mais puro, nunca foi sobre excesso.
Sempre foi sobre expressão. Sobre identidade. Sobre contar ao mundo, sem
palavras, quem somos - não quantas vezes mudamos.
Depois
segui para o meu destino. Génova ficou para trás. Ou talvez não. Há lugares que
não nos deixam sair completamente - ficam alojados, discretos, à espera de
serem revisitados numa memória qualquer, num cheiro inesperado, ou numa frase
que alguém diz sem saber que está a abrir uma porta antiga.
A
estrada até Turim foi uma dessas portas entreabertas. Havia algo quase
indecente na forma como a paisagem se oferecia - uma transição lenta, quase
teatral, do verão para o outono. Os verdes começavam a ceder, com uma dignidade
rara, a tons de cobre, dourado e ferrugem, como se as árvores estivessem a
ensaiar uma despedida elegante, sem drama, apenas com estilo. As vinhas
desenhavam linhas perfeitas nas encostas, como se alguém tivesse decidido
organizar o caos da natureza com uma régua e um copo de vinho na mão.
Passei
por pequenas vilas que pareciam ter sido esquecidas pelo tempo - ou talvez
protegidas dele. Casas de pedra com janelas abertas, roupa a secar ao vento,
cafés com meia dúzia de homens a discutir o mundo com a autoridade de quem
nunca saiu dali. E talvez estejam certos. Há uma sabedoria em não ir a lado
nenhum que nós, eternos fugitivos, insistimos em ignorar.
O
ar tinha aquele cheiro híbrido - terra quente ainda a libertar o último suspiro
do verão, misturado com a promessa húmida do outono. Abri o vidro. Não por
necessidade, mas por respeito. Há momentos que exigem ser sentidos com todos os
sentidos disponíveis. E, por breves instantes, pensei: talvez o destino nunca
tenha sido Turim. Talvez fosse isto - o caminho, a suspensão, o intervalo onde
ninguém espera nada de nós e, por isso mesmo, podemos ser tudo.
Mas
cheguei. E quando cheguei a Turim, a cidade já estava iluminada - não apenas
pelas luzes, mas por uma elegância quase arrogante. Turim não tenta
impressionar. Sabe que já impressiona. Há uma diferença subtil, mas
devastadora. Era uma cidade de contrastes bem resolvidos: o peso da história
equilibrado pela leveza de um presente que sabe exatamente quem é. Arquitetura
barroca a dialogar com linhas industriais modernas, como dois tempos diferentes
que decidiram, civilizadamente, partilhar o mesmo espaço sem discutir. E
depois… os detalhes. Os museus, os cafés, as montras onde o chocolate não é apenas
comida, é arte. Os vinhos - ah, os vinhos - que não pedem aprovação, apenas
cumplicidade. Hum… chocolates e vinhos. Estava, sem grande margem para dúvida,
a aproximar-me do meu conceito pessoal de paraíso - que, diga-se de passagem,
não exige asas nem harpistas, apenas boas decisões gastronómicas e alguma
companhia interessante.
O
hotel ficava perto do centro histórico - compacto, elegante, quase
meticulosamente preservado, como se alguém tivesse decidido que o tempo podia
passar, mas sem exageros. Instalado num edifício do século XIX, oferecia tudo o
que um viajante cansado precisa e tudo o que um viajante curioso não sabia que
queria: um terraço com vistas que nos fazem reconsiderar as nossas prioridades,
um spa que promete redenção física e quartos onde o silêncio tem textura.
O
staff… bem, o staff parecia ter sido escolhido com um critério muito
específico: competência irrepreensível e uma beleza que não pede licença para
existir. Há quem diga que a massa engorda. Eu começo a suspeitar que, em
Itália, ela faz milagres estéticos. Ou então é genético. Inclino-me mais para
essa teoria - é menos injusta para o resto da humanidade.
Fui
recebido como alguém esperado. E isso, mais do que luxo, é uma arte. Deixei as
malas no quarto, lavei o cansaço do corpo como quem apaga uma história antiga,
vesti algo leve e desci. Na receção, pedi sugestões a Silvia - um sorriso
perigoso, daqueles que nos fazem confiar mais do que devíamos - e saí.
A
noite em Turim tinha vida própria. Mas, curiosamente, o destino que me deram
não era barulhento nem exuberante. Era um restaurante discreto, quase
escondido, desses que não precisam de publicidade porque já têm tudo o que
importa: clientes fiéis e comida honesta. Silvia esqueceu-se de reservar mesa.
Um pequeno erro humano que, como todos os bons erros, acabou por melhorar a
história.
O
gerente - um homem alto, sólido, com um bigode preto que parecia ter
personalidade própria e cabelo branco que contrariava qualquer lógica estética
- recebeu-me com simpatia e pediu-me que aguardasse. Fiquei num espaço
semiaberto, observando.
Foi
então que notei que alguém me observava também. Cabelo azul. Não um azul tímido
- um azul assumido, quase desafiador. E um olhar fixo. Direto. Inexplicável. Durante
um segundo, considerei a hipótese mais conveniente para o meu ego: talvez me
estivesse a confundir com alguém famoso. Não seria a primeira vez.
Pouco
depois, o gerente regressou com uma proposta: partilhar mesa com outra pessoa.
Aceitei sem hesitar - sou, por natureza, perigosamente disponível para
conversas inesperadas. E claro… era ela. Quando cheguei, levantou-se com uma elegância
tranquila. “Sou Penélope. Grega. Estou aqui para um congresso de Medicina.
Reconheci-te do hotel quando ambos fizemos check in.” Apresentei-me,
justificando a minha distração com o cansaço - uma desculpa aceitável, mas
claramente insuficiente perante aquele cenário.
Ela
riu-se. E sugeriu vinho. Aceitei. Evidentemente. O jantar começou com uma
simplicidade que só os bons momentos sabem ter. Pedi carne grelhada com legumes
- um prato que, nas mãos certas, se transforma numa declaração de intenções. A
carne chegou no ponto exato, suculenta, com aquele sabor ligeiramente fumado
que faz o silêncio à mesa parecer uma forma de respeito. Os legumes - coloridos,
firmes, quase orgulhosos - não eram acompanhamento; eram cúmplices.
O
vinho que Penélope escolheu… tinha personalidade. Não era daqueles que agradam
a todos. Era intenso, profundo, com notas que iam surgindo aos poucos, como uma
conversa bem conduzida. Bebemos devagar, como quem percebe que a pressa seria
um erro quase ofensivo. A sobremesa foi partilhada - uma escolha natural, como
se já estivéssemos numa fase da conversa onde dividir deixava de ser uma opção
e passava a ser inevitável. Um doce delicado, com chocolate e algo cítrico que
equilibrava tudo. Cada colher parecia prolongar não o sabor, mas o momento.
Falámos.
Falamos dos nossos países, das nossas histórias, das coisas que nos definem e
das que fingimos que não. Falei-lhe do que mais me orgulha - aquele lugar onde
a natureza ainda manda, onde o silêncio não é desconfortável – o Parque
Nacional da Peneda Gerês. Falei-lhe tambem do Agrinho Suites & Spa Gerês
Hotel, um hotel spa dentro de um spa ao ar livre. Um lugar que, talvez, um dia
ela devesse conhecer. Ela ouviu com atenção e anotou - o tipo de atenção que
não se finge.
Depois
caminhámos de volta ao hotel. A cidade, iluminada, parecia cúmplice de algo que
ainda não tinha sido dito. As conversas tornaram-se mais leves, depois mais
profundas, depois leves outra vez - como ondas. No bar do hotel, continuámos.
Duas cervejas. Talvez três. A contagem perdeu relevância. Foi então que ela
disse que ficaria mais dois dias. Estava na area de Infetologia e veio a Turim
assistir a um congresso. No dia seguinte, queria descobrir a cidade a partir do
meio da tarde. “Achas que podes” Houve um pequeno silêncio depois disso. Não
desconfortável. Não hesitante. Apenas… carregado. “Queres que seja o teu guia
numa cidade que não conheço. Queres te perder comigo”
Ela
olhou para mim e sorriu. Como se aquela proposta não tivesse sido decidida
naquele momento, mas muito antes - talvez no olhar, talvez no restaurante,
talvez até antes de nos conhecermos. Concordei. Claro que concordei. Mas havia
algo ali - uma sensação difícil de explicar. Como se aquele encontro fosse mais
do que acaso, mais do que coincidência. Como se Turim, com toda a sua elegância
silenciosa, tivesse decidido intervir.
https://www.youtube.com/watch?v=9sxEDeiRHBU&list=RD9sxEDeiRHBU&start_radio=1
Despedimo-nos.
Subi ao quarto com aquela estranha leveza que só as boas histórias em início
provocam. Despi-me do dia, coloquei os fones e deixei-me cair na cama. A música
começou. E, algures entre uma nota e outra, entre o cansaço e a antecipação,
adormeci com a certeza de que Turim não era apenas uma cidade. Era um enigma. E
eu tinha acabado de aceitar resolvê-lo.











Belissimo, Maurício. Os teus textos não são apenas relatos de viagens: são um espelho inquieto de quem observa o mundo com atenção e coragem.
ResponderEliminarMuito bom!!!