Quem cuida e quem é cuidado? Talvez a resposta mais honesta seja esta: todos seremos ambos. Em momentos diferentes.
Despertei no paraíso. E, como qualquer pessoa minimamente desconfiada da felicidade súbita, fiz o teste mais científico que conheço: toquei uma vez, toquei-me a segunda. Nada de transcendências, nada de harpas celestiais, nenhum coro angelical a julgar as minhas escolhas de vida. Não. Continuava inteiro, imperfeitamente humano, com sono e alguma ironia acumulada. Estava mesmo em Bellagio, no Lago de Como. E isso, por si só, já parecia uma provocação do universo.
Há
lugares que não pedem licença - impõem-se. Bellagio não se apresenta;
revela-se. E fá-lo com uma elegância quase irritante, como quem sabe que é belo
desde sempre e nunca teve necessidade de provar nada a ninguém. Aqui, o tempo
não passa - escorre. Como o lago. Como um pensamento preguiçoso num fim de
tarde sem culpa.
A
primeira luz da manhã atravessa as cortinas de linho pesado e desenha no quarto
um quadro que faria qualquer pintor renascentista reconsiderar a própria
carreira. Tons de pêssego, ouro velho, uma espécie de nostalgia cromática que
não se explica - sente-se. Antes de abrir os olhos, o mundo chega-me pelo
olfato: jasmim fresco, húmido, quase indecente na sua delicadeza, misturado com
o cheiro doce e mineral do lago. É um perfume que não se compra. Vive-se.
O
lençol de algodão egípcio ainda guarda a frescura da noite, como se tivesse
sido cúmplice de sonhos que já não recordo. Lá fora, o som de uma pequena
embarcação corta o silêncio com uma precisão quase terapêutica. Há algo
profundamente humano em ouvir água em movimento - talvez porque nos lembra que
tudo passa, até aquilo que jurávamos eterno… especialmente isso.
Levanto-me.
Descalço. Porque certos lugares exigem contacto direto, sem intermediários. A
varanda de ferro forjado espera-me como uma promessa antiga. E então vejo. Não
olho - vejo. O lago estende-se numa imensidão azul que desafia qualquer
tentativa de descrição honesta. Há momentos em que a linguagem falha. Este é um
deles. E ainda bem.
Fico
ali, suspenso entre o que fui e o que posso ser, com o coração estranhamente leve.
Uma paz antiga instala-se - não aquela paz ingénua, mas uma paz que já sofreu,
já perdeu, já questionou… e mesmo assim decidiu ficar. Bellagio não é um lugar.
É um estado de espírito. Uma espécie de trégua entre o caos e o sentido.
O
dia começa com café servido em porcelana fina - claro, porque até a cafeína
aqui tem estatuto - mas o verdadeiro escândalo é o pão acabado de cozer. Ainda
quente, ainda arrogante na sua perfeição, a flertar descaradamente com a
manteiga que se rende ao primeiro toque. Há algo de profundamente erótico neste
encontro simples. E talvez seja isso: o luxo aqui não é excessivo, é sensorial.
Não grita - sussurra.
A
vista não impõe urgência. Pelo contrário, desafia-a. A única decisão difícil é
escolher qual ruela de pedra explorar primeiro. E fui. Mochila às costas,
emoção no máximo, como se cada passo pudesse revelar uma versão mais interessante
de mim próprio - ou, no mínimo, uma boa história para contar.
Passei
pela receção para apanhar um mapa. Porque, apesar de tudo, ainda acredito na
ilusão de controlo. E foi aí que apareceu Elettra a rececionista que me fez o
check in. Olhos verdes - perigosamente atentos. Cabelo dourado - não daquele
artificial, mas daquele que parece ter sido escolhido pelo sol. Um sorriso que
não se decide entre a hospitalidade e a provocação. Italiana, claro. Porque
certos clichés existem por uma razão.
“Não
precisas,” disse ela, com uma leve inclinação de cabeça, como quem já sabe mais
do que devia. “Aqui acabas sempre por te perder… e perder-te neste paraíso é
gostoso.” Gostoso. Fiquei a mastigar a palavra como quem tenta decifrar um
enigma antigo. Gostoso como? Gastronómico? Sensorial? Emocional? Ou aquele tipo
de “gostoso” que não vem nos guias turísticos?
Sorri,
meio desconfiado, meio curioso. Afinal, perder-me nunca foi propriamente um
problema. Às vezes, é até a única forma honesta de me encontrar. Saí sem mapa. E
talvez seja essa a grande ironia - passamos a vida à procura de direções, de
certezas, de caminhos bem traçados… quando, no fundo, os momentos mais
verdadeiros acontecem exatamente quando não sabemos para onde vamos.
Saí
do hotel com a leve sensação de quem não encontrou respostas - e, ainda assim,
regressa mais cheio do que partiu. Bellagio, essa pérola suspensa sobre o Lago
de Como, não me prometeu certezas. Ofereceu-me perguntas melhores. E,
honestamente, já não é pouco.
Caminhei
sem pressa, como quem aprende a escutar com os pés. Não vi apenas flores
disciplinadas em varandas antigas nem a água cristalina a fingir eternidade. Vi
gente. Gente jovem, com pressa de chegar a qualquer lado que ainda não existe.
Gente “assim-assim”, como nós - equilibrando sonhos com contas. E gente idosa,
com o tempo já dobrado nas mãos, mas com uma dignidade que não pede autorização
para existir.
Havia
ali qualquer coisa de raro. Um convívio que não era encenado, não era
turístico, não era para fotografia. Era funcional. Orgânico. Cada pessoa
parecia saber, com uma naturalidade desconcertante, o seu lugar naquele pequeno
universo. Não um lugar imposto - mas um lugar assumido. E isso muda tudo.
As
cores de Bellagio não eram só mais brilhantes - eram mais vivas porque eram
partilhadas. Havia ali uma espécie de saúde invisível, uma comunidade que
respirava em conjunto. A entreajuda não era um gesto extraordinário; era
rotina. Quase aborrecida na sua constância. E talvez seja esse o verdadeiro
luxo: quando o cuidado deixa de ser exceção e passa a ser linguagem comum.
Claro
que comecei a costurar conclusões, como quem remenda pensamentos com linha
emprestada da realidade. Afinal… aqui quem cuida de quem? À primeira vista,
parecia simples: todos cuidam de todos. Mas depois percebi que não é assim tão
simétrico. Há sempre quem cuide mais. Quem esteja mais disponível. Quem abdique
mais tempo, mais energia, mais de si. E, curiosamente - ou talvez não - essas pessoas
não são as que aparecem nos postais.
São
invisíveis. E foi aí que a minha imaginação já não estava em Bellagio. Já
estava num avião, a atravessar nuvens, a regressar a Portugal com perguntas
incómodas na bagagem. Quem é quem no ato de cuidar? Quem valoriza -
verdadeiramente - esse trabalho que não produz lucros visíveis, mas sustenta
tudo o resto?
O
trabalho doméstico. O apoio a idosos. O acompanhamento silencioso. A paciência
repetida. A escuta que ninguém paga. Quem faz isto, maioritariamente? Mulheres.
Ainda. Sempre. Como se o cuidado fosse uma extensão biológica e não uma escolha
exigente, técnica, emocionalmente exaustiva.
Como
é que medimos isto em euros? Em reconhecimento? Em dignidade profissional? Não
medimos. Fingimos que é amor - e o amor, convenientemente, não entra em folhas
de Excel. Mas devia. Porque quem trata de nós quando envelhecemos - quando já
não conseguimos fazer o mais básico, o mais pequeno, o mais aparentemente
insignificante - está a sustentar a nossa qualidade de vida com gestos mínimos
que carregam um peso imenso.
Atar
um sapato. Dar banho. Esperar. Repetir. Acalmar. Estar. Quem são estas pessoas?
Heróis? Heroínas? Talvez. Mas a palavra soa grande demais para uma realidade
que, na prática, é mal paga, pouco valorizada e emocionalmente desgastante. São
pessoas comuns, com contas para pagar, cansaço acumulado e uma humanidade que
não desiste - mesmo quando o sistema parece desistir delas.
Trabalham
sem relógio. Sem ponto para picar. Porque aqui o “produto” são pessoas. Seres
humanos que já foram jovens, que já trabalharam, que já cuidaram de outros - e
que agora, finalmente, deveriam ser cuidados com a mesma dignidade. Mas será
que são? Há uma ironia quase cruel nisto tudo: a sociedade celebra a
produtividade, mas sobrevive graças ao cuidado. E o cuidado continua a ser
tratado como um detalhe, quando é, na verdade, a estrutura invisível de tudo.
Quem
cuida e quem é cuidado? Talvez a resposta mais honesta seja esta: todos seremos
ambos. Em momentos diferentes. Em graus diferentes. Com mais ou menos sorte. E
talvez o verdadeiro progresso de uma sociedade não esteja nas suas estradas,
nem nos seus índices económicos, mas na forma como trata quem já não consegue
correr nessas mesmas estradas.
Bellagio
não me deu respostas. Mas deixou-me com uma certeza desconfortável - e, ao mesmo
tempo, profundamente humana: uma sociedade só é verdadeiramente bela quando o
cuidado deixa de ser invisível. E passa a ser, finalmente, reconhecido como
aquilo que sempre foi - essencial.
Talvez
por isso abandonei o crochê, como quem larga um pensamento a meio. Segui o
aroma da carne grelhada que serpenteava pelas ruas estreitas, quente e
primitivo, como se me chamasse pelo nome. Aqui, a carne tem um perfume que não
se explica - só se aceita. E eu aceitei, porque há momentos em que a filosofia
cede ao instinto. Fiquei com aquela sensação incômoda, quase irritante, de que
o meu discurso nunca encontrará ouvidos atentos - não enquanto o corpo ainda
responde, enquanto o tempo ainda não cobrou o seu preço final. Só quando a vida
começa a exigir cuidado é que se compreende o valor de quem sempre cuidou.
Sentei-me.
Pedi uma garrafa de vinho tinto - não por gosto, mas por necessidade. Era
preciso anestesiar a memória antes que ela resolvesse falar alto demais. E
então, finalmente, pedi aquela carne que já crepitava no carvão como se
estivesse à minha espera desde sempre.
O
restaurante era um pequeno teatro de leveza: mesas de madeira gastas, toalhas
que já tinham ouvido demasiadas histórias, e um staff que se movia com a
elegância despreocupada de quem sabe que a vida não precisa de pressa. Riam
entre si, trocavam olhares cúmplices, como se cada cliente fosse apenas mais um
capítulo divertido num livro que nunca acaba.
A
empregada aproximou-se. Corpo elegante, postura tranquila, aquele olhar sereno
típico das italianas antes de casar - uma calma que parece provisória, mas
profundamente convincente. Não disse nada. Nem eu. Mas pensou. Tenho a certeza
absoluta de que pensou. E pior: pensou que eu devia ser disléxico. Não sei
porquê, mas senti isso com a convicção absurda que só os pensamentos alheios
nos conseguem dar.
Sorri.
Ela não. A carne chegou - perfeita, suculenta, com aquele sabor que faz o mundo
parecer temporariamente resolvido. E depois veio a sobremesa. Ah, a sobremesa…
Uma escultura disfarçada de alimento. Camadas delicadas, texturas impossíveis,
cores que pareciam pintadas à mão. Era uma obra de arte. Daquelas que deviam
ser contempladas em silêncio, talvez com uma luz direcionada e um crítico ao
lado a fingir que entende. Comê-la foi quase um ato de vandalismo. Cada
colherada doía - não pelo sabor, que era sublime - mas pela consciência de
estar a destruir algo irrepetível.
Saí
de lá mais leve e mais pesado ao mesmo tempo. Depois foi a descoberta de
Bellagio. Comecei a duvidar de muitas coisas, inclusive da fidelidade
mitológica de Penélope. Talvez ela tivesse, afinal, desviado o regresso. Talvez
todos desviemos, em algum momento. Talvez nos voltássemos a ver noutro lugar qualquer
- ou talvez não. Curiosamente, comecei também a aceitar a minha própria
companhia. Não é brilhante, mas não é má pessoa. Já é um começo.
A
paisagem abriu-se diante de mim como uma revelação: o lago dividido em braços,
os Alpes ao fundo, o azul a insinuar eternidade. Havia algo de cinematográfico
em tudo aquilo, como se o mundo tivesse sido cuidadosamente encenado para me
impressionar - e, ironicamente, eu estivesse ali sozinho para testemunhar.
Passeei
pelos jardins, subi escadarias, perdi-me entre lojas de seda e turistas em
busca de fotografias perfeitas. No topo, a vista devolveu-me à insignificância
com uma elegância brutal. Por um breve momento, senti-me ator. Mas rapidamente
me lembrei que não havia guião, nem público - apenas a ilusão de importância
que certos cenários nos oferecem. Por isso, fugi das multidões.
Caminhei
até Pescallo. Ali, o tempo tinha outra textura. Barcos imóveis, água calma,
silêncio honesto. Nada tentava impressionar - e talvez por isso tudo fosse mais
verdadeiro. Quando chegou a hora da janta, encontrei um pequeno restaurante
virado para o porto. Mesas simples, cheiro a mar e a carvão, e um dono que
parecia cozinhar como quem escreve cartas de amor - com intenção e memória.
Pedi peixe grelhado. Veio no ponto exato, pele estaladiça, carne delicada,
sabor limpo. Acompanhado por um vinho branco absolutamente irrepreensível -
daqueles que não se discutem, apenas se respeitam. Sobremesa nem pensar. Numa
terra onde tudo é doce, a maior ousadia é recusar o açúcar.
Regressei
ao hotel já cansado, mas com aquela fadiga boa, que vem da absorção do mundo.
Um lugar discreto, poucos hóspedes, funcionários atentos - gente que ainda
entende que cuidar não é um gesto, é uma postura.
No
bar, um grupo de suíços convidou-me para jogar xadrez. Recusei com um sorriso
cansado. Já estava noutra partida - uma menos lógica, mas infinitamente mais
complexa. Foi então que recebi a mensagem de Penélope. O pai estava doente.
Atenas chamava-a de volta. Respondi: “Um dia tens que vir ao Lago de Como
comigo. Isto é um lugar para ser partilhado em todos os momentos do dia e da
noite.” Ela respondeu, leve: “Espera-me. Não me vais fugir. Eu sei onde moras.”
Sorri.
Há promessas que são mais bonitas quando não se cumprem. Subi ao quarto,
coloquei os fones, deixei a música preencher os espaços onde os pensamentos
insistiam em ficar. Adormeci com a ideia de que, no dia seguinte, outra viagem
me esperava - Zurique, talvez mais certezas, talvez mais perguntas.
https://www.youtube.com/watch?v=AibC2zhdFMM&list=RDAibC2zhdFMM&start_radio=1
E no meio de tudo isso, ficou uma dúvida silenciosa, quase incômoda: Será que procuramos respostas… ou apenas lugares bonitos onde seja mais fácil ignorar as perguntas?








Lugares bonitos, para abraçar com um sorriso as respostas, das perguntas que a vida nos coloca... secando uma lágrima da dor que incomoda. Quem não vê, não sente... será? Ou será meramente um refúgio nos próprios sentimentos, confusos a saltitar entre uma miragem e a realidade? E será que existe realidade? Também não importa... Se um lugar bonito alegra, que ele perdure sempre!
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