Predadores territoriais por cinco metros de alcatrão!

 


Acordei como adormeci: com a certeza de que Turim não era apenas uma cidade. Era um enigma. E eu, com a arrogância delicada de quem acredita no destino, tinha acabado de aceitar resolvê-lo. Não perdi tempo com os pormenores do pequeno-almoço - essa liturgia universal dos hotéis onde tudo sabe a “já visto” e a café demasiado correto - ainda que reconheça o seu conforto previsível. Mas há dias em que o conforto é uma distração elegante. E eu precisava de desconforto. De fricção. De mistério.

Saí. O ar fresco atingiu-me como uma verdade. Trazia consigo uma mistura indecifrável: o rasto de perfumes caros, quase arrogantes, e a humidade tímida da manhã sobre o Rio Pó. Era como se a cidade respirasse por camadas - primeiro seduz, depois revela, e por fim… esconde de novo. Ajustei as alças da mochila. Leve. Essencial. Como as decisões que realmente importam. Fiquei imóvel por um instante, suspenso entre direções possíveis, como se escolher um caminho fosse trair todos os outros. À minha volta, Turim despertava com uma elegância que não precisa de aplausos - aristocrática, contida, perigosamente consciente de si própria.


O sol começava a tocar as fachadas ocre e terracota com a delicadeza de um amante experiente. Ao fundo, os elétricos deslizavam sobre os carris com uma música metálica e hipnótica, como se a cidade tivesse banda sonora própria - e eu, por sorte ou imprudência, tivesse sido convidado a entrar na cena.

Abri o mapa. Papel rígido, virgem, ainda sem cicatrizes - ao contrário de mim. Os nomes saltavam-me aos olhos: Piazza Castello, Mole Antonelliana, Quadrilatero Romano. Promessas. Armadilhas. Ou ambos. Mas as ruas… as ruas não eram direções. Eram possibilidades. Um labirinto onde o erro não era falhar - era não se perder. Olhei à esquerda: pórticos infinitos, quilómetros de arcadas que pareciam sussurrar “fica mais um pouco”. À direita: uma avenida reta como uma decisão irrevogável, terminando nos Alpes - uma pintura viva que me lembrava, com ironia, o quão pequeno eu era dentro da minha própria narrativa.

Guardei o mapa, meio dobrado, meio rendido. E pensei: por agora, o meu guia será o instinto. Sempre foi. Para o melhor e, com frequência quase artística, para o desastre. Caminhei em direção ao som de um sino distante, com a sensação absurda - e deliciosamente egocêntrica - de ser o protagonista de uma história que ainda ninguém escreveu. Em Turim, não estás perdido. Estás apenas à espera que a cidade te revele o seu primeiro segredo… talvez escondido num café onde o tempo decidiu parar por capricho.


Mas há uma verdade inconveniente: Turim, com os seus 130 km², não é uma amante que se conquista a pé num só dia. É daquelas que exigem estratégia… ou rendição. Chamei um Uber. Uma escolha prática - e, confesso, ligeiramente humilhante para o meu romantismo pedestre. Fiz uma paragem estratégica na Piazza San Carlo, a sala de estar da cidade, onde tudo parece acontecer e nada, curiosamente, acontece com pressa. Entre o Caffè San Carlo e o Caffè Torino, a dúvida não é escolha - é estilo de vida.

E depois há o trânsito. Conduzir em Turim - como em qualquer cidade do mundo -  é um exercício filosófico disfarçado de caos. Um teatro onde a civilização entra em colapso a baixa velocidade. A metamorfose é quase imediata: basta o clique do cinto de segurança. O som seco de uma tranca que, paradoxalmente, liberta a fera.

É fascinante. Aquela pessoa que, minutos antes, pediu desculpa por existir demasiado perto de alguém num elevador, agora transforma-se num estratega de guerra, sentado num trono de cabedal, envolto num exoesqueleto de aço. O carro deixa de ser transporte. Torna-se identidade. Armadura. Ego com rodas. O habitáculo é um confessionário perverso. Ar condicionado perfeito, música escolhida a dedo, isolamento quase uterino. E, de repente, o outro deixa de ser humano. Não é alguém com uma vida, uma história, um cansaço. É “o carro da frente”. Um obstáculo. Um erro.


O para-brisas torna-se um ecrã onde todos são incompetentes - exceto nós, claro. Sempre nós. Protagonistas absolutos desta comédia trágica sobre rodas. E há uma ironia deliciosa nisso tudo: pessoas que citam mindfulness como quem recita poesia transformam-se em predadores territoriais por cinco metros de alcatrão. A ultrapassagem alheia? Uma afronta. Um ataque ao ego. Uma tentativa de reescrever o nosso lugar no mundo - a 80 km/h.

No fundo, o volante não muda ninguém. Apenas remove o verniz. Somos primatas com Wi-Fi e travões ABS. A nossa educação diária? Muitas vezes, apenas uma máscara leve demais para resistir ao primeiro sinal vermelho. No carro, essa máscara escorrega. Porque não há olhos. Não há consequências imediatas. Só a ilusão confortável da impunidade. É a coragem dos cobardes: insultos gritados para ninguém, protegidos por vidro e distância. Uma espécie de teatro íntimo onde a nossa mediocridade emocional ganha voz… e eco.

Talvez seja isso que mais me intriga: não a cidade, mas o espelho que ela oferece. Porque, no fim, não estamos a disputar a estrada. Estamos a disputar controlo. Significado. Um lugar que faça sentido numa vida que, muitas vezes, escapa por entre os dedos.

Depois de libertar este pensamento — como quem larga uma mala demasiado pesada num aeroporto e, por um instante, duvida se não deixou lá dentro a própria identidade - recostei-me no banco do Uber luxuoso. A cidade deslizava pela janela como um filme que não pede interpretação, apenas presença. E deixei que Turim continuasse a falar. Porque alguns enigmas não querem ser resolvidos. Querem apenas ser vividos - e, convenhamos, há dias em que a inteligência só atrapalha.


Quando cheguei à Piazza Castello, lá estavam, imóveis e quase arrogantes, o Palácio Real e o Palazzo Madama. Não eram apenas edifícios - eram declarações. De poder, de tempo, de uma Itália que começou ali antes de se tornar ideia. As fachadas, meticulosamente esculpidas, tinham aquela elegância que não pede aprovação. E eu, que gosto de pensar que sou imune a grandiosidades, dei por mim a admirar como quem reconhece um adversário à altura.

Abandonei o Uber e fui almoçar numa rua transversal, guiado por essa bússola invisível que mistura fome com intuição e um leve desespero existencial. O restaurante não tinha pretensões - o que, em Itália, é sempre um excelente sinal. Pequeno, acolhedor, com mesas que pareciam conspirar entre si e um aroma que me agarrou pela consciência antes mesmo de eu entrar.

Pedi Brasato al Barolo. E esperei. A carne chegou envolta num molho escuro, profundo, quase filosófico. Desfazia-se com uma facilidade suspeita, como se tivesse desistido de resistir ao tempo - ou ao vinho. O Barolo, esse, não estava apenas no prato; estava no ar, no silêncio respeitoso que se faz à primeira garfada, no olhar cúmplice do empregado que percebeu que eu tinha acabado de fazer uma escolha certa na vida. O vinho que acompanhava não era menos impressionante: encorpado, com notas que não tentei decifrar porque, francamente, há momentos em que descrever sabores é uma forma de os estragar.

O staff tinha aquela simpatia rara: genuína, sem aquele sorriso treinado que grita “gorjeta”. Fizeram-me sentir não cliente, mas cúmplice - como se todos soubéssemos que aquele almoço não era apenas comida, era um pequeno acordo com o prazer. A sobremesa chegou como uma provocação visual: cores vibrantes, quase infantis, mas com um açúcar contido, inteligente. Uma doçura que não invade, apenas sugere. Tal como certas pessoas.


Quando me preparava para continuar a minha viagem pelas ruas de Turim, recebi uma chamada de Penélope. Estava eufórica. O congresso tinha terminado mais cedo e ela já vinha a caminho. “Espera por mim. Mais uns minutos e estou ao teu lado, para nos perdermos os dois.” A voz dela tinha aquela textura perigosa: doce, mas com intenção.

E eu esperei. Tranquilamente. Ou pelo menos com uma tranquilidade suficientemente convincente. Quando chegou, houve um abraço. Mais prolongado do que o socialmente necessário - o que é sempre um bom indicador. Depois colámos as mãos, não por romantismo explícito, mas por uma necessidade prática: não nos perdermos. Ou, talvez, não nos encontrarmos demasiado depressa.

Seguimos em direção à Mole Antonelliana, esse símbolo que parece querer tocar o céu. Apanhámos o elevador panorâmico de vidro que sobe pelo meio do Museu Nacional do Cinema - uma experiência que mistura vertigem com uma estranha sensação de transparência emocional. Lá de cima, a vista a 360º sobre os telhados de Turim e os Alpes não corta apenas a respiração - corta também a ilusão de controlo. É nesses momentos que a mochila às costas faz sentido. Não pelo peso, mas pela escolha.

Descemos pela Via Po, entre livrarias de rua e sebistas que guardam histórias que ninguém pediu, mas que todos precisam. Até à Piazza Vittorio Veneto, aberta para o rio Pó como quem se rende à fluidez inevitável da vida. Caminhámos devagar. Falámos de tudo. Dos nossos países, das decisões que nos trouxeram ali, da forma como ela escolheu a infeciologia - uma área onde se combate o invisível, o que talvez diga mais sobre ela do que qualquer currículo. E de outras coisas. Sempre há outras coisas.


Quando o sol começou a desaparecer, fiz a pergunta inevitável - e ligeiramente arriscada: “E agora, o que vais fazer? Tens compromissos?” Ela olhou para o lado, depois para o outro, aproximou-se e falou junto ao meu ouvido: “Vou ficar contigo até onde der.” E, naquele momento, “onde der” pareceu-me o lugar mais exato do mundo.

Voltámos para o Quadrilatero Romano, esse labirinto onde o tempo se dobra e a modernidade finge que inventou tudo. A luz âmbar refletia-se nas pedras, criando aquele cenário perigosamente perfeito. Chegámos ao Vermuttino. Pequeno, íntimo, quase secreto. Uma “bottega” onde o tempo abranda - ou talvez onde nós finalmente acompanhamos o ritmo certo.

Sentámo-nos num banco de madeira demasiado pequeno para duas pessoas e demasiado perfeito para aquela proximidade. As pernas tocaram-se por necessidade, mas ficaram por escolha. Pedimos um Vermouth Rosso - não dois. Um gesto que, curiosamente, diz mais sobre intimidade do que qualquer declaração. Servido com gelo e laranja. E um Spritz Hugo, leve, quase despreocupado, como um contraponto à intensidade do primeiro.

O Tagliere chegou como uma pequena celebração: Pecorino frito, azeitonas marinadas, salame piemontês, focaccias estaladiças. Os olhos de Penélope brilharam - e eu percebi que há formas de felicidade que não precisam de tradução. A conversa misturava medicina com a minha sede de mundo. Atenas com Turim. Ciência com intuição. E, algures no meio, as nossas mãos começaram a falar mais do que a boca - o que, diga-se, é sempre um avanço civilizacional.


À nossa volta, o Quadrilatero pulsava. Antigo e moderno, como se César tivesse deixado um esboço e alguém tivesse decidido brincar com ele séculos depois. Acabámos por ir dançar. Porque há noites que exigem movimento - mesmo quando o corpo já protesta. A música parecia entender-nos. Ajustava-se ao nosso estado de alma, permitindo aquela dança lenta, colada, onde a cabeça encontra ombros e a respiração encontra ouvidos.

Quando as nossas pilhas começaram a piscar, regressámos ao hotel. No mesmo piso, ligeiramente perdidos - talvez pelo cansaço, talvez pelo excesso de presença. Ela encontrou o quarto primeiro. Abraçámo-nos novamente. Combinámos o pequeno-almoço - esse ritual civilizado que tenta dar continuidade ao que, na verdade, nunca é garantido.

E então, quase inaudível, disse: “Este não será o nosso último encontro.” Tirou os sapatos e afastou-se pelo corredor, com os mesmos movimentos suaves da dança que ainda nos habitava. Eu… bem, eu fiz o que qualquer pessoa sensata faria depois de uma noite assim: acertei no quarto por milagre, coloquei os fones e adormeci com uma música suave - talvez ainda com a roupa marcada pelo calor da noite, talvez com a consciência de que certos dias não se repetem.

https://www.youtube.com/watch?v=vHocyWusc-k&list=RDvHocyWusc-k&start_radio=1

E ainda bem. Porque, se se repetissem, deixariam de ser enigmas. E passariam a ser rotina - o que, convenhamos, seria um desperdício imperdoável.

 

Diário de uma viagem – 125 dia 

Comentários

  1. Ler-te é imaginar que não estamos apenas a atravessar cidades bonitas, com ruas de pedra e cafés onde o açúcar nunca chega a dissolver completamente. Não estamos aqui para fotografias bem enquadradas nem para fingir que entendemos a arte moderna. Estamos aqui para nos perdermos. Porque só quem se perde encontra aquilo que evitou a vida inteira.
    Talvez o mistério não esteja em descobrir todas as respostas, mas em aprender a conviver com as perguntas. Talvez a aventura não seja viajar pelo mundo, mas atravessar as partes de nós que evitamos. Talvez a magia esteja exatamente no desconforto de encarar aquilo que sempre soubemos, mas nunca quisemos dizer em voz alta.
    Deixo aqui um conselho: se ficaste pelo título, já começaste a falhar contigo. Porque as verdades inconvenientes não gritam. Não fazem barulho suficiente para competir com notificações, promessas fáceis ou frases motivacionais recicladas. Elas sussurram. E só as ouve quem tem coragem de ficar… um pouco mais.
    Por isso, se vais ler, não leias – viaja! E agora, deixa-me puxar-te mais fundo. Ah, o território onde todos nos achamos poetas e acabamos analfabetos emocionais.

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  2. Parabéns , Maurício, por mais este texto absolutamente fantástico.
    Ao lê-lo fiquei com a sensação de que Turim foi apenas o cenário… O verdadeiro enigma és tu a escrevê-lo.

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