Ensinamos datas, fórmulas, capitais…, mas não ensinamos o que fazer quando o mundo interior desaba sem aviso prévio.

 


Começo esta viagem com um excerto de um comentário motivador que recebi: “Deixo aqui um conselho: se ficaste pelo título, já começaste a falhar contigo. Porque as verdades inconvenientes não gritam. Não fazem barulho suficiente para competir com notificações, promessas fáceis ou frases motivacionais recicladas. Elas sussurram. E só as ouve quem tem coragem de ficar… um pouco mais.”

Acordei em Turim como adormeci - com o corpo ainda a guardar a memória térmica da noite, como se a pele fosse um arquivo sensorial onde certos instantes insistem em permanecer. Talvez porque, no fundo, eu soubesse que há dias que não se repetem. E ainda bem. A repetição é o primeiro passo para a banalidade, e banalizar o extraordinário seria um erro quase tão grave como não o viver. O enigma, esse, precisa de distância. Precisa de ausência. Precisa de nós.

Depois, o som - leve, ritmado, quase cúmplice - na porta. Não era apenas um toque, era uma interrupção cuidadosamente coreografada pelo destino. Abri, ainda suspenso entre o sono e a realidade. Era Penélope. Sorriu como quem já sabia que eu abriria. «Λοιπόν!! Κοιμάσαι ακόμα; Μπορώ να περάσω μέσα; Ώρα για πρωινό!»


E entrou como se o quarto também fosse dela. Ou talvez fosse. Há pessoas que não pedem espaço - ocupam-no com uma naturalidade desconcertante. Sentou-se na cama, sorrindo, e por um segundo tive a estranha sensação de que tudo aquilo já tinha acontecido… ou que ainda iria acontecer. Tomei um banho rápido, desses que não lavam pensamentos, apenas os apressam. Vesti-me ainda com o corpo húmido, como se o tempo me perseguisse. “Estou pronto! Vamos.” Ela aproximou-se da janela, espreitou a cidade como quem avalia um segredo e disse: “Não te enganaste no quarto. Foi pena… a paisagem do meu era mais linda.” Sorri. Não pela frase - mas pelo subtexto.

Pegou-me na mão e descemos, guiados por algo mais primitivo do que mapas: o aroma do café forte, do pão de centeio acabado de cozer, da vida a começar outra vez. Caminhávamos entre cheiros e possibilidades, enquanto conversávamos sobre futuros improváveis com a convicção ingénua de quem acredita que o mundo ainda é um lugar onde os encontros não são acidentes - são escolhas adiadas.

Falávamos de nos encontrarmos “por aí”, como se o planeta fosse pequeno o suficiente para caber num plano mal definido. E, ironicamente, é - mas só para quem tem coragem de sair do lugar. O problema é que a maioria prefere ficar. Preguiça aguda, chamam-lhe alguns. Eu chamo-lhe medo disfarçado de rotina.

Despedimo-nos com um abraço mais longo do que o necessário. O tempo esticou-se ali, como se também ele quisesse ficar. “Tenho que estar aqui mais um dia… pode ser que desvie o meu regresso para Atenas e vá ao teu encontro no Lago de Como… é o teu próximo destino, certo?” Eu? Eu apenas lhe segredei: “Fico feliz.” E fiquei. Mas também fiquei com aquela suspeita incómoda de que a felicidade, quando dita em voz baixa, tem mais verdade do que qualquer declaração épica.


Deixei Turim, mas levei comigo aquilo que não cabe em malas: fragmentos, olhares, silêncios partilhados. E uma pergunta - daquelas que não se fazem em voz alta. A estrada até ao Lago de Como revelou-se como uma espécie de transição emocional. O asfalto serpenteava por entre campos verdes, colinas suaves, pequenas aldeias que pareciam existir apenas para lembrar que a pressa é uma invenção urbana. O céu estava indeciso - entre o azul e o cinzento - como se também ele ponderasse ficar ou partir.

Passei por Milão quase como quem toca numa obra de arte sem ter tempo para a contemplar. Parei apenas o suficiente para poder dizer, com aquele orgulho inútil, mas satisfatório: “Eu estive aqui.” E estive. Milão é, de facto, muitas vezes descrita como a alma elegante e discreta de Itália. E é curioso - porque a elegância verdadeira nunca grita. Sussurra. Está nos detalhes. Nos gestos contidos. Nos edifícios que não precisam de provar nada a ninguém.

Mesmo numa passagem breve, senti o peso da história misturado com a leveza do presente. Vi de longe a imponência do Duomo di Milano - aquela catedral que parece esculpida com paciência divina - e imaginei-me perdido nas sombras do Castello Sforzesco, onde o passado ainda ecoa nas pedras.  Não entrei na Galleria Vittorio Emanuele II, mas vi o reflexo do seu esplendor nos olhos de quem passava. E soube, nesse instante, que há cidades que não se visitam - estudam-se. Saboreiam-se. Regressam-se.

Milão não é para ser consumida num dia. É para ser vivida com método, com tempo, com intenção. Uma viagem programada ao milímetro, como quem respeita um ritual. Porque há lugares que exigem mais de nós - e Milão é um deles.


Continuei viagem. E à medida que me aproximava do Lago de Como, algo em mim abrandava. Como se o corpo finalmente aceitasse o ritmo da paisagem. As montanhas começaram a desenhar-se no horizonte, e a água - calma, quase imóvel - surgiu como um espelho onde tudo parecia mais claro… ou mais confuso. Nunca se sabe. Há uma magia ali. Não daquelas óbvias, feitas para fotografias. Mas uma magia silenciosa, quase tímida. A que se sente mais do que se vê.

E enquanto o carro avançava, dei por mim a pensar nela. Penélope. Como se fosse menos uma pessoa e mais uma ideia persistente, dessas que não nos largam mesmo quando fingimos que já seguimos em frente. Nas histórias que ela me contou da sua infância havia sempre uma luz estranha, quase dourada, como aquelas tardes que parecem eternas mas que, no fundo, escondem pequenas fraturas. A casa dos pais - cheia de silêncios bem-educados. A escola - onde aprendeu a resolver equações, mas não a decifrar o peso no peito nos dias em que não queria sair da cama. A universidade - onde se tornou “competente”, essa palavra elegante que tantas vezes significa apenas “funcionalmente perdida”.

E eu pensei: como é que nos ensinaram tanto… e ainda assim tão pouco? É preciso mudar. É preciso evoluir. Os tempos são outros - embora, ironicamente, os problemas emocionais continuem com um ar perigosamente vintage. Ansiedade com roupa nova. Solidão com Wi-Fi. Depressão com filtro bonito.


Falamos tanto de futuro, mas insistimos em educar como se o presente fosse opcional. A verdade, crua e pouco romântica, é esta: continuamos a formar crianças para passarem testes, não para sobreviverem a si próprias. Ensinamos datas, fórmulas, capitais…, mas não ensinamos o que fazer quando o mundo interior desaba sem aviso prévio. E depois fingimos surpresa quando adolescentes se perdem em labirintos emocionais que ninguém lhes ensinou a mapear.

Literacia emocional não é um luxo progressista para escolas “moderninhas”. É sobrevivência básica. Imagina uma sala de aula onde, entre matemática e história, há espaço para aprender a nomear emoções sem vergonha. Onde uma criança percebe que “raiva” não é defeito, é linguagem. Onde um adolescente descobre que pedir ajuda não é fraqueza, é inteligência emocional em estado bruto.

Mas não - preferimos continuar a avaliar quem memoriza melhor, enquanto ignoramos quem está silenciosamente a colapsar. E depois há os adultos. Ah, os adultos - essas crianças envelhecidas com acesso a crédito e crises existenciais mais sofisticadas. No trabalho, então, o cenário é quase poético… se não fosse trágico. Escritórios cheios de gente cansada, motivada por cafés e prazos, a tentar parecer produtiva enquanto emocionalmente está em modo de economia de energia.


Queremos rendimento? Queremos produtividade? Então talvez seja hora de fazer algo radical: tratar pessoas como pessoas. Programas de bem-estar não podem ser apenas fruta grátis às segundas-feiras e uma palestra anual sobre “gestão de stress” que toda a gente finge ouvir enquanto responde a e-mails. Isso é o equivalente corporativo de pôr um penso rápido numa fratura exposta e promoverem-se no mercado como empresas evoluídas e humanitárias.

O que realmente muda o jogo é mais incómodo - e por isso mesmo mais necessário: criar espaços onde se possa falhar sem medo imediato de punição. Ensinar líderes a reconhecer sinais de esgotamento antes que se tornem baixas médicas. Integrar pausas reais - não aquelas pausas performativas em que a pessoa continua mentalmente presa ao trabalho. Incentivar conversas honestas, ainda que imperfeitas. Sobretudo imperfeitas.

Porque um funcionário emocionalmente equilibrado não é apenas “mais feliz” - é mais criativo, mais resiliente, mais… humano. E, ironicamente, mais produtivo. Mas isto exige coragem. E uma certa dose de desconforto coletivo. Porque mudar a educação - na escola ou no trabalho - implica admitir que o modelo atual falha. E ninguém gosta de admitir que passou anos a perpetuar um sistema que ensina a viver… pela metade.


O carro continuava a avançar, como se soubesse algo que eu ainda estava a tentar entender. E pensei outra vez em Penélope. Talvez o que ela sempre tentou dizer - nas entrelinhas das histórias da sua vida - era simples, quase dolorosamente simples: Não precisamos de saber mais. Precisamos de sentir melhor. Precisamos de entender melhor. Precisamos de ser ensinados… a ser.

E talvez - só talvez - quando começarmos a educar para o Bem-Estar com a mesma seriedade com que educamos para exames, deixemos de formar pessoas que sobrevivem ao mundo… e passemos finalmente a formar pessoas que sabem habitá-lo. O resto? O resto aprende-se. Ou desaprende-se. Com sorte. E alguma honestidade brutal pelo caminho.

Quando, finalmente, cheguei ao Lago de Como, cortei a respiração. O Lago de Como não é apenas um destino; é uma pintura viva onde o azul profundo da água se funde com o verde esmeralda das montanhas, criando um cenário que parece saído de um sonho romântico do século XIX. Parei o carro, olhei em volta e pensei: meu Deus, isto é o destino perfeito para quem procura beleza absoluta, intimidade e aquela sensação mágica de que o mundo é, de facto, um lugar maravilhoso.

Eu estava a chegar ao Paraíso - ou a algo perigosamente próximo. Um lugar perfeito para namorar, para viver devagar, para acreditar que alguém, em algum momento da história, decidiu especializar-se em Paz e Bem-Estar… e acertou em cheio. Lá estava ele, o lago, com o seu formato improvável de “Y” invertido, como se até a geografia tivesse sentido necessidade de ser elegante.


Rodeado de vilas encantadas, hesitei entre destinos como quem escolhe entre sonhos: Bellagio ou Varenna. Escolhi Bellagio - porque às vezes a vida pede decisões firmes, e alguma programação nas reservas. Caminhar por ali é perder-se num labirinto de ruas estreitas e floridas, onde cada esquina revela uma nova promessa de beleza. E pensei, com uma convicção quase infantil: amanhã tenho todo o dia para te descobrir.

Antes do hotel, rendi-me a um almoço tardio - ou talvez a uma desculpa sofisticada para prolongar o encantamento. Imagina: um terraço suspenso sobre águas imóveis, como se o lago tivesse decidido cooperar com o cenário. O sol italiano brilhava com intensidade dramática, mas a brisa fresca das montanhas tratava de manter tudo num equilíbrio perfeito, quase suspeito.

As buganvílias moldavam a paisagem como um quadro demasiado bem composto para ser espontâneo. E depois veio o aroma da carne grelhada na perfeição. Um corte de Chianina, suculento, selado com precisão quase cirúrgica, temperado apenas com sal marinho e ervas locais, como se dissesse: “não compliques o que já nasceu perfeito.”

O Brunello di Montalcino chegou com a arrogância tranquila de quem sabe o seu valor. O som do vinho a cair no cristal foi, sem exagero, mais sedutor do que muitas conversas que já tive. A cor rubi, profunda, refletia o sol como se conspirasse com ele. E naquele momento - entre a carne, o vinho e o silêncio bem-educado do espaço - senti-me perigosamente apaixonado… pela vida, note-se. Ou pelo cenário. Ou por mim naquele cenário.

Para finalizar, algo quase indecente na sua leveza: uma panna cotta de baunilha fresca com frutos silvestres que se dissolvia antes de eu conseguir formar uma opinião coerente sobre ela. O serviço? Impecável. Coreografado. Aquela eficiência silenciosa que faz parecer que o luxo verdadeiro não precisa de se anunciar - apenas acontece. O tilintar dos talheres misturava-se com o som suave da água, criando uma banda sonora que nenhum compositor ousaria tentar replicar.


Depois, procurei o meu hotel. O Grand Hotel Villa Serbelloni não é apenas um hotel; é um palácio onde os sentidos são convidados a render-se. Um lugar onde o tempo abranda, talvez por respeito. Ao cruzar o pórtico, o cansaço da viagem evaporou-se com uma dignidade surpreendente. Fui recebido não como hóspede, mas como alguém que regressa - o que é estranho, considerando que nunca lá tinha estado.

As rececionistas tinham aquela elegância que não se aprende -  nasce-se com ela ou nunca se chega lá. Quando ouvi o meu nome pronunciado com uma suavidade quase calculada, percebi que ali até a intimidade era um serviço incluído. O check-in não foi um procedimento; foi um prelúdio.

E depois o quarto. Um santuário. Assim que entrei, o mundo exterior perdeu relevância - o que, convenhamos, é raro e ligeiramente preocupante. As malas ficaram esquecidas enquanto me deixei cair na cama: uma nuvem de algodão egípcio e sedas que parecia ter sido desenhada para convencer o corpo a desistir de qualquer resistência.

Tetos altos com estuques trabalhados, mobiliário de época em tons pastéis, e a luz dourada do entardecer a atravessar cortinas pesadas. Da janela, o lago - profundo, azul, hipnótico. Ao fundo, montanhas que não pedem atenção, exigem-na.

Adormeci. Quando acordei, o jantar já era uma memória que nunca aconteceu. Refresquei-me, vesti algo leve e desci. Na receção, perguntei à Elettra - o nome no crachá parecia demasiado adequado - o que poderia comer no bar. Ela respondeu, com um sorriso que sabia mais do que dizia: “Quase tudo. E beber também.” E, sem esforço, encaminhou-me.


O bar era… perigoso. Não no sentido literal, mas naquele tipo de perigo que envolve conforto excessivo e música baixa, carregada de sensualidade. Um piano distante, notas de jazz que se insinuavam no ar como um segredo partilhado. Luz quente, cadeiras que convidavam à permanência, e aquele tipo de ambiente onde ninguém parece estar com pressa - o que, ironicamente, faz o tempo acelerar.

Comi. Bebi. Voltei a comer. Voltei a beber. Elettra cruzava o meu caminho, sempre ocupada, sempre elegante, carregada de papéis como se tivesse assuntos importantes a tratar - o que provavelmente tinha. Nunca dizia nada, mas o sorriso dela fazia perguntas suficientes. “Estás a gostar?” “Vais ficar?” “Vais perceber?”

https://www.youtube.com/watch?v=7nQuSzugzig&list=RD7nQuSzugzig&start_radio=1

Quando finalmente senti as pilhas a ceder, subi. No quarto, coloquei os fones e deixei a música ocupar o espaço que ainda restava dentro de mim. Antes disso, espreitei o telemóvel - só para confirmar se Penélope tinha, afinal, desviado o caminho para Atenas.

Não tinha. Ou talvez tivesse. Depende de como se define “caminho”. Porque, naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, tive a estranha sensação de que não fui eu que cheguei ao Lago de Como - foi ele que, silenciosamente, chegou a mim.

 

Diário de uma viagem – 126 dia

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