Hum… estás silencioso… ou adormeceste outra vez?
Acordei
com o som vibrante do meu telemóvel, aquele toque que parece ter sido escolhido
por um inimigo. Era a Zora. “Levanta da
cama mais cedo”, disse ela, com uma energia que contraria todas as leis da
física matinal. “Eu sei que custa, mas temos um longo caminho para percorrer. Suspendeu
a voz durante alguns segundos - segundos que me pareceram suspeitosamente
estratégicos - e depois continuou: “Hum… estás silencioso… ou adormeceste outra
vez? Quero levar-te ao desfiladeiro de Ovcar-Kablar, e se não formos cedo,
sobra pouco tempo para te mostrar a cidade”.
Senti-me
uma mola a saltar da cama, movida por um misto de urgência e aquela dose
irracional de entusiasmo que só os viajantes teimosos entendem. Um duche
fresco, um sacudir de alma, e já estava a descer para o meu lugar sagrado: a
sala dos pequenos-almoços.
Antes
de ver Zora - que me esperava com um ar desportivo, pronta para escalar
montanhas, mover nuvens e talvez reorganizar o alinhamento dos planetas - fui
capturado pelo aroma forte do café e aquele perfume glorioso de pão torrado a
derreter manteiga como se fosse um ritual pagão.
A
sala era um templo matinal: uma paleta de cores suaves nas paredes, toalhas
creme que brilhavam sob a luz quente do amanhecer, janelas amplas que deixavam
entrar um sol tímido, filtrado por cortinas diáfanas. O aroma de frutas
frescas, hortelã cortada e café recém-moído dançava no ar. Uma música serena,
algo entre jazz e sonho, preenchia o espaço sem o dominar.
O
staff movia-se com uma coreografia digna de uma passagem de moda: passos
firmes, elegantes, bandejas equilibradas com a precisão de um mágico, sorrisos
treinados, mas genuínos - como se o palco fosse iluminado e nós fôssemos o
público privilegiado daquela matiné gourmet.
Partimos.
Cerca de 15 km de estrada serpenteada, onde a paisagem começava a despir-se da
cidade para vestir a pureza da natureza. O desfiladeiro de Ovcar-Kablar surgiu
diante de nós como um segredo antigo revelado só a viajantes merecedores.
Era
um refúgio idílico, onde a natureza e a espiritualidade se entrelaçavam numa
sinfonia de beleza pura. Um paraíso escondido, um jardim secreto da Sérvia. O
Rio Morava Ocidental desenhava meandros impossíveis, curvas tão estreitas e
caprichosas que pareciam laços de um amor eterno, rompendo com ternura os
poderosos maciços de Ovcar e Kablar.
Olhei
para Zora. “Como é que tu sabias onde me tocar?”, perguntei, embriagado pela
grandiosidade do cenário. O silêncio caiu entre nós, mas não um silêncio
qualquer - era daqueles densos, eternos, que parecem suspender o próprio tempo.
Quando voltei o olhar para ela, vi um sorriso brilhante a emergir… e lágrimas
discretas, que cintilavam como cristais. Com voz suave, pegou delicadamente a
minha mão e disse: “O tempo da nossa amizade gravou-te na minha pele como um
livro de desejos.” E ali, naquele instante, o tempo deixou de cumprir o seu
trabalho habitual. Abrandou. Respirou. Fez-se cúmplice.
As
encostas verdejantes, cobertas por vegetação luxuriante, pareciam abraçar o
vale com ternura. Cada planta era uma relíquia viva, cada pedra um guardião
silencioso. O ar era puro, quase sagrado. O silêncio só era quebrado por aves
de rapina e pelo murmúrio da água - como se a natureza sussurrasse segredos
impossíveis de traduzir.
Mosteiros
medievais surgiam pela paisagem como sentinelas do tempo - a “Montanha Sagrada
da Sérvia”. Pareciam guardar histórias ocultas, aguardando apenas o viajante
certo para revelá-las. Os pontos altos do Kablar ofereciam vistas que tiravam o
fôlego: o rio recortando o vale em curvas perfeitas, a neblina matinal fazendo
o desfiladeiro parecer uma ilha flutuante.
Cenário
digno de cinema - ou de um sonho lúcido. As águas termais de Ovcar Banja,
brotando do coração da terra, prometiam cura e entrega. Um abraço quente capaz
de derreter até as dúvidas mais teimosas. Tinha lido naquela manhã um texto que
me enviaram com carinho: "Há em nós uma arquitetura delicada, uma
tessitura de pilares visíveis e invisíveis que sustenta a frágil construção do
que somos." Ali, perante tamanha grandeza, percebi: não somos nada - e o
pouco que somos é apenas um pequeno parafuso numa engrenagem infinita. "Habitamos
o paradoxo de sermos edifícios sempre em obra, porém também sempre à beira de
um desabamento." Se imaginarmos o planeta uma construção de legos, basta
uma peça mal encaixada para tudo ruir.
Voltámos
a Cacak no início da tarde e procurámos um restaurante de amigos da Zora junto
ao rio Zapadna Morava - esse gigante sereno, espelho de colinas e histórias. O
restaurante era uma peça harmoniosa do cenário: um casal jovem, simpático,
daqueles que te recebem como se já te conhecessem de vidas passadas.
A
gastronomia era aromática, cheia de personalidade - pratos que cheiravam a
ervas frescas, a tradição, a memórias cozinhadas em lume brando. Brindámos com
o melhor vinho branco sérvio - fresco, luminoso, quase provocador. A conversa
prolongou-se suave, fluida. Falámos de tudo, mas sobretudo da economia, daquela
realidade que molda vidas: sim, o nível de vida na Sérvia é mais baixo do que a
média da UE; sim, os salários não acompanham; sim, o custo é mais leve - mas a
qualidade… essa mora nos detalhes, nos valores, no tempo mais humano.
Depois
fomos descobrir a cidade que repousa nos braços do rio - um rio que não é apenas
água, mas emoção líquida. Cacak revelou-se com nuance, com sensualidade
discreta: Praça principal - um coração vibrante, cafés ao ar livre, sorrisos
fáceis, música que se mistura com o vento. Museus e galerias - guardiões de
memórias, misturando história com modernidade. Ruelas antigas - onde cada pedra
parece ter uma história por contar, onde cada esquina é um convite. Jardins e
parques - refúgios verdes, bancos que sussurram para que pares um pouco, fontes
que brincam com a luz. A Catedral da Santíssima Trindade - imponente e serena,
um toque espiritual que ecoa pelas ruas.
As
margens do Morava - caminhos para mãos dadas, para pensamentos soltos, para
passos que não têm pressa. À medida que o sol começava a despir-se para o seu
descanso dourado, o rio tornava-se amante e espelho. Dourado, rosa,
hipnotizante. As pontes eram metáforas - travessias de alma, promessas de
encontros. As pedras guardavam memórias de beijos roubados. Os mosteiros
observavam tudo, eternos e pacientes.
Enamorei-me
pela noite, num restaurante gourmet, velas acesas, música baixa, conversas que
se prolongam até onde puder durar. A vida noturna em Cacak tinha o seu encanto
íntimo: mais conversa do que extravagância, mais alma do que ruído. Convidámos
os amigos da Zora para um brinde final, e foi então que descobrimos o Cvetnjak.
Um
oásis. Acolhedor. Romântico. Ao ar livre, junto à margem do rio. Iluminação
suave, cocktails perfeitos, um design moderno que parecia abraçar-nos. Sentámo-nos
num canto protegido, quase secreto, onde a noite parecia querer confidenciar
algo.
Já
era tarde quando me lembrei: no dia seguinte tinha uma viagem até Belgrado. Zora
prometeu despertar cedo para se despedir. Eu só queria chegar ao quarto, apagar
o corpo, e deixar a música que escolhi embalar-me — mas nem chegou ao fim.
https://www.youtube.com/watch?v=J3TRREHxPCw&list=RDJ3TRREHxPCw&start_radio=1
A
noite fechou-se sobre mim, tranquila, quente, absoluta. E adormeci…
Diário
de uma viagem – 87 dia – 20/09/2025






ResponderEliminarAs palavras avançam com delicadeza e verdade, entre pausas que sabem cuidar de quem lê. Não se lê apenas com os olhos; sente-se num lugar onde a memória e a emoção se tocam sem pressa. Há viagens que cruzam mapas; esta atravessa a alma e fica.
Como é bom ler-te, com a mesma emoção de, Adagio, de Lara Fabian, a tocar como fundo.