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A mostrar mensagens de novembro, 2025

Depois, despedimo-nos num abraço prolongado demais. Talvez um beijo envergonhado - ou não…

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  Acordei em Escópia com o corpo ainda preso ao pouco sono da noite anterior: a cama parecia ter íman, um abraço magnético, e as minhas pestanas insistiam em permanecer coladas, como se quisessem prolongar um sonho que já não lembrava. Com um esforço quase heroico, ergui-me. Foi então que reparei num envelope deslizado por baixo da porta, pousado no chão como um segredo à espera de ser descoberto. O elegante papel timbrado do hotel brilhava na penumbra do quarto. Abri-o. “Good morning, Mauricio!” Em inglês impecável, a carta saudava-me como se já me conhecesse. Desejava que o meu descanso tivesse sido tão generoso quanto as vistas que me aguardavam. Dava-me as boas-vindas a Escópia, essa capital que pulsa entre colunas clássicas e betão contemporâneo, entre memórias de impérios e a pressa de uma Europa moderna. Lá fora, dizia a carta, o rio Vardar brilhava como um convite e a cidade despertava comigo. A assinatura era simples: “Jana”. Aquela caligrafia - elegante, ligeiramente in...

São as vontades e não as intenções que movem o mundo!

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  Tirana de madrugada era uma respiração suspensa. Uma mulher de olhar magnético, calma na superfície, mas com um vulcão de intenções por dentro - daquelas que sabem exatamente o que querem e não precisam levantar a voz para dominar a sala. Espreitei pela janela e a cidade devolveu-me um murmúrio tímido: ruas quase vazias, sombras longas, passos incertos. O silêncio, tão frágil, começava a ceder à liturgia do quotidiano - o carro de limpeza que cantava ao longe, portas de cafés a entreabrir-se como pálpebras de um gigante adormecido. Tudo ali era promessa. O instante antes do caos. A pausa que antecede o dia, quando a história complexa da Albânia ancora à modernidade e tenta, a custo, seguir em frente. O aroma do pequeno-almoço puxou-me com a delicadeza de uma mão quente no pulso. Na sala colorida como um postal vivo, dançava o cheiro do pão acabado de cozer, do café forte e dos citrinos recém-coroados. E depois havia as pessoas - bonitas, bem vestidas, de uma elegância espontâne...

O meu pão torrado deixou-se seduzir pela manteiga derretida num romance tórrido!

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  Tirana de madrugada era uma respiração suspensa. Calma como uma mulher que sabe o poder que tem - e o usa apenas no silêncio. Espreitei pelas cortinas do quarto como quem espia um segredo antigo: a cidade ainda estava escura, mas um ar quente, quase aveludado, insinuava um dia agradável, talvez até cúmplice. Era como se a Albânia, num gesto subtilmente sensual, me tocasse no rosto antes mesmo de eu despertar totalmente. Depois de um banho fresco, com os meus amnisties perfumados a correrem pela pele como memórias de verões antigos, dirigi-me à sala de pequenos-almoços do Rogner Hotel Tirana. O espaço, com o seu brilho contido e elegância natural, ergueu-se diante de mim como um oásis moderno - daqueles onde as tâmaras são substituídas por vitaminas coloridas e os poetas, por turistas meio ensonados. O aroma dos ovos mexidos misturava-se com o perfume íntimo das frutas frescas, enquanto o meu pão torrado se deixava seduzir pela manteiga derretida, num romance tórrido e breve q...

Acordei com o meu corpo ainda salgado num mar inventado!

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  Despertei em Janina, na Grécia, de um sonho tão perfeito que me pareceu realidade - ao contrário daqueles outros, poeirentos e confusos, que se desvanecem no breu logo que abro os olhos. Este não. Este ficou preso aos meus lençóis, às minhas pestanas, à minha pele ainda quente, tão nítido que me senti tentado a fechar os olhos apenas para voltar a ele, como quem regressa ao abraço de alguém que não sabe se existe. Era um sonho vívido - ou talvez lúcido - com tal intensidade sensorial e clareza inquietante que, ao acordar, hesitei entre o que era sonho e o que era realidade. Como se o limite entre o real e o imaginário tivesse sido apagado durante a noite por mãos invisíveis. Foi uma sensação maravilhosa, o meu corpo ainda salgado por um mar inventado. O dia amanhecia cinzento, mas eu, teimoso, aprendi cedo a viver entre nuvens: deixo-as pousar nos ombros, deixo-as passar, até que o sol, sedutor e orgulhoso, resolve finalmente entrar em cena. E então a luz acontece - devagar. Ca...

E depois, como um bom filme, o momento dissolveu-se antes de se desgastar!

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  Despertei em Janina como quem regressa de uma viagem que nunca fez - ou talvez tenha feito, algures entre o corpo adormecido e o espírito teimoso que insiste em vagar quando lhe dá na gana. Acordei preso a mim mesmo, como se o meu esqueleto tivesse decidido dormir cinco minutos extra e o meu espírito, impaciente, batesse à porta do corpo exigindo reentrada. Um transe de segundos que pareceu uma eternidade. Salvou-me, como sempre, a promessa sensorial do pão torrado: aquele momento pagão em que a manteiga se dissolve sobre a superfície quente e estala, rende-se, derrete-se como um amante tímido, e o café - forte, severo, aromático - assume o papel de maestro a convocar o mundo de volta à minha consciência. O pequeno-almoço grego, dizem, celebra a saúde, o fresco, o natural. A mim, conservador assumido nas manhãs, bastou-me o ritual habitual para sentir que estava pronto para enfrentar Janina, essa cidade que sorri na subtileza e promete o inesperado com a confiança de quem con...

Foi com essa pulsação que comecei a tecer pensamentos sobre a morte - ou sobre a vida depois da vida!

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  Sai de Kalamata na Grecia com o sol ainda a mastigar a orla das montanhas, carregando comigo um mistério que me seguia como uma sombra teimosa - dessas que não pedem licença e se estendem aos nossos pés mesmo quando viramos costas ao passado. Havia também um vazio doce, quase infantil, por não me ter despedido de Paula. O pequeno-almoço, embora maravilhoso, não conseguiu preencher o espaço que ela deixou suspenso entre duas frases por acabar. Ficou a promessa - leve como um beijo roubado ao vento - de nos encontrarmos em qualquer canto do mundo para continuar uma conversa que, por si só, parecia um organismo vivo, respirando à espera do próximo capítulo. Ao afastar-me de Kalamata em direção a Janina, vi a cidade encolher no retrovisor como um sonho que se evapora lentamente ao acordar. As memórias, no entanto, ficaram agarradas a mim como sal na pele depois de um mergulho no mar: persistentes, íntimas, luminosas. E foi nesse instante, quando a cidade já era uma pincelada esbati...

Descobrir os sentimentos de uma mulher com uma natureza apaixonada, intensa e misteriosa, é o mesmo que resolver o cubo Rubik!

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  Despertei em Kalamata como quem regressa de um sonho emprestado: sereno, leve, suspenso num mistério que parecia respirar pelas paredes. Todos os efeitos da noite anterior tinham desaparecido - não apenas atenuados, não: evaporados, como se uma faxineira fantasma, diligente e caprichosa, tivesse passado a noite a convencer o caos a comportar-se. As pétalas, os bombons, a garrafa de champanhe, até os dois copos cúmplices… tudo varrido para um além arrumado. Em cima da cama, apenas o meu telemóvel e os fones que usei na noite anterior - testemunhas silenciosas da música que me embalou até ao sono. Na cómoda, uma carta de boas-vindas do hotel… e surpreendentemente a concha. A concha rompida pelo mar, meio aberta como um sorriso secreto. Dentro dela, um bilhete antigo, desbotado, rasgado nos cantos, onde se lia - quase implorado pela memória do papel - “Yours forever”. Nas minhas viagens sinto tudo tão perfeito, tão absurdamente envolvente, que às vezes arrisco acreditar que não ...

Honeymoon… nome que gritava romance até para quem viajava sozinho!

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  Despertei em Atenas como quem acorda dentro de um poema antigo, escrito em mármore e vento quente. A luz entrava pelas janelas do quarto com a mesma ousadia que os filósofos tinham para discordar uns dos outros na ágora, e eu, ainda meio pendurado no sono, arrastei-me até ao duche - um duche que parecia ter sido abençoado pelos próprios deuses, daqueles que limpam corpo e alma ao mesmo tempo. O aroma das torradas barradas com manteiga derretida chamou-me como um canto de sereia moderno, e o café forte prometia acordar até um oráculo cansado. Evitei olhar para o computador. As notícias eram sempre as mesmas: uns acreditando que salvariam o mundo com uma opinião num tom “didático”, outros a jurarem que tinham a solução ideal para todos os problemas… desde que o mundo ouvisse, claro. Sinceramente, pareciam-me primos afastados dos comentadores desportivos - esses sábios iluminados que passam horas a explicar porque é que o clube do coração falhou um passe, porque é que o treinado...

Na Grécia antiga, a beleza não era um esboço geométrico rabiscado por estilistas apressados!

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  Quando despertei naquele quarto com vista para a Acrópole, ainda meio enroscado nos lençóis e na dúvida existencial entre sonho e realidade, juro que por instantes temi ter sido sequestrado para dentro de um museu a céu aberto. As colunas - dóricas, jónicas e coríntias - erguiam-se diante de mim como guardiãs silenciosas de algum ritual antigo, e eu, pobre mortal ainda a bocejar, sentia-me observado por milénios de história… e talvez por um ou outro deus mal-intencionado. Um banho fresco devolveu-me a consciência ao corpo - ou talvez tenha despertado desejos adormecidos - e guiou-me, pelo aroma irresistível do pequeno-almoço, até à sala onde a fome e a curiosidade sempre se encontram. O hotel, esse museu vivo, exalava história por cada pedra, mas a sala de refeições era um abraço moderno: confortável, elegante, com um staff que parecia ter escapado de um desentendimento temporal com a estética clássica. Nada de deusas gregas de quadris generosos nem guerreiros de ombros largo...