Na Grécia antiga, a beleza não era um esboço geométrico rabiscado por estilistas apressados!
Quando
despertei naquele quarto com vista para a Acrópole, ainda meio enroscado nos
lençóis e na dúvida existencial entre sonho e realidade, juro que por instantes
temi ter sido sequestrado para dentro de um museu a céu aberto. As colunas - dóricas,
jónicas e coríntias - erguiam-se diante de mim como guardiãs silenciosas de
algum ritual antigo, e eu, pobre mortal ainda a bocejar, sentia-me observado
por milénios de história… e talvez por um ou outro deus mal-intencionado.
Um
banho fresco devolveu-me a consciência ao corpo - ou talvez tenha despertado
desejos adormecidos - e guiou-me, pelo aroma irresistível do pequeno-almoço,
até à sala onde a fome e a curiosidade sempre se encontram.
O
hotel, esse museu vivo, exalava história por cada pedra, mas a sala de
refeições era um abraço moderno: confortável, elegante, com um staff que
parecia ter escapado de um desentendimento temporal com a estética clássica.
Nada de deusas gregas de quadris generosos nem guerreiros de ombros largos
esculpidos à mão dos mitos - não, ali tudo era uniforme, polido, quase
demasiado real para combinar com o resto da atmosfera.
Pensei,
não sem ironia, nas antigas regras de beleza: mulheres ruivas e “cheinhas” a
atrair pretendentes como as abelhas ao mel; homens fortes, perfumados, talhados
para conquistar impérios e corações. No fundo, um catálogo inteiro de
preferências que faria qualquer influencer moderna engasgar-se no seu matcha
latte.
E
foi então que, num golpe de destino ou sarcasmo cósmico, abri o meu computador
e dei de caras com a manchete portuguesa do dia - a obesidade tratada como
doença crónica, imparcial na distribuição entre homens e mulheres, democrática
no impacto, tirana nos riscos. Diabetes, hipertensão, problemas
cardiovasculares, autoestima aos tombos… Uma ladainha preocupante que
contrastava brutalmente com a leveza do calor grego que batia na minha nuca.
Reconheço:
com aquela leitura, senti o coração acelerar - não de paixão, mas de culpa -
precisamente no momento em que levei à boca o meu pão ainda quente, a manteiga
a render-se voluptuosamente à superfície crocante. Por um segundo, fiquei ali,
entalado entre o prazer e a consciência, como quem tenta beijar dois deuses
rivais ao mesmo tempo.
E
talvez tenha sido esse choque - entre o sublime e o mundano, o clássico e o
moderno, o desejo e o medo - que tornou aquele pequeno-almoço, simples e
silencioso, na coisa mais erótica e enigmática que vivi naquela manhã.
Quando
deixei o hotel, a mochila ajustada aos ombros e o sol da manhã a dourar as
fachadas antigas, imaginei a expressão de Péricles se ele pudesse acompanhar-me.
O grande estadista da Atenas clássica, cuja sombra intelectual ainda percorre
as colinas e ruínas da cidade, talvez sorrisse ao ver a metrópole moderna
erguida sobre os alicerces da sua obra.
Ele,
que sonhou uma cidade luminosa, aberta ao debate, à arte, ao pensamento -
ficaria certamente intrigado com a energia elétrica da juventude ateniense, com
o movimento constante das avenidas, com a forma como o passado e o presente se
entrelaçam como fios de um mesmo tear.
Percorri
as ruelas calcetadas que serpenteiam entre o bairro de Plaka e a majestosa
Acrópole. Cada esquina parecia esconder uma lenda, cada pedra um eco de
filósofos que mudaram a história do mundo. Ali, no alto, o Partenon erguia-se
como um poema em mármore. Diz-se que Atena venceu Poseidon pelo domínio da
cidade oferecendo a oliveira - símbolo de sabedoria, paz e prosperidade - e é
como se cada tronco secular no caminho sussurrasse essa antiga vitória.
O
Areópago, onde outrora se discutiam leis; a Ágora, onde Sócrates passeava
questionando tudo e todos; o Teatro de Dioniso, berço da tragédia e da comédia
- tudo se alinhava diante dos meus passos como capítulos vivos de um livro que
nunca se fecha.
Foi
no centro histórico que descobri um pequeno restaurante chamado Afrodite, como
se a própria deusa tivesse deixado ali um altar ao sabor e ao encanto humano. A
fachada era uma mistura harmoniosa de pedra e ferro, com colunas decorativas
iluminadas por tochas que ardiam suavemente, evocando o ambiente dos antigos
santuários. Entrar ali era como atravessar um portal entre eras.
O
staff vestia trajes inspirados na Grécia clássica - túnicas leves adaptadas ao
estilo contemporâneo - e movia-se com a elegância tranquila de quem conhece bem
a sua casa e o seu ofício. Os sorrisos eram calorosos, genuínos, daqueles que
iluminam mesmo as horas mais cansadas.
Os
pratos… Ah, esses pareciam realmente vindos do reino de Afrodite: azeite dourado e perfumado, ervas frescas que
lembravam colinas ensolaradas, peixe delicado, pão quente, mel espesso como
ambrosia. Cada travessa chegava à mesa como um gesto de hospitalidade divina.
Ao
regressar pelas ruas iluminadas, a cidade parecia diferente - mais íntima, mais
próxima. Talvez fosse o cansaço agradável de um dia bem vivido, talvez a
memória da notícia que tinha lido logo pela manhã no computador: mais um alerta
sobre o aumento global da obesidade e os desafios que ela traz à saúde e à
sociedade.
Pensei
na ironia de Atenas, berço do equilíbrio entre corpo e espírito, confrontada
hoje com um mundo que, embora avançado, vive cada vez mais entre ecrãs, ritmos
apressados, alimentação desregrada e vidas sedentárias.
Na
Grécia antiga, a beleza era um templo de carne, e não um esboço geométrico
rabiscado por estilistas apressados. As mulheres não viviam escravizadas por
fitas métricas, ângulos afiados ou a ameaça cósmica das medidas perfeitas.
Ali,
sob um sol que parecia lamber as colinas com língua quente, celebravam-se
curvas generosas - colinas, vales, declives suaves que convidavam à
contemplação e ao toque, como se o próprio corpo fosse uma paisagem divina
criada para ser navegada.
As
coxas mais plenas eram vistas não como “excesso”, mas como promessa: promessa
de fertilidade, de vigor, de mulheres que carregavam o mundo na cintura e ainda
dançavam com os deuses ao cair da tarde. E aqueles quadris amplos, tão amplos
quanto a imaginação de Homero embriagado, eram verdadeiras oferendas - portais
do futuro, molduras vivas para o desejo.
Se,
por milagre bizarro, essas mulheres helénicas fossem cuspidas no presente e
largadas numa praia de água turquesa, cercadas de biquínis microscópicos que
parecem ter sido costurados por duendes minimalistas… bem, talvez não coubessem
na ditadura elástica do século XXI.
E
talvez - com sarcástico alívio - respondessem: “Querido, a única coisa pequena
aqui é o vosso conceito de beleza.” Porque os antigos gregos não conheciam a
palavra que hoje ecoa como um trovão ansioso: “obesidade”. Não havia essa nuvem
escura pairando sobre cada talher, cada refeição, cada espelho. No tempo deles,
corpos grandes eram corpos vivos. E ponto.
Já
nos tempos modernos, a tal palavra desencadeia um cortejo de implicações - uma
procissão quase trágica: físicas, com médicos a recitar avisos como oráculos de
bata branca; sociais, com olhares que medem, pesam e condenam antes de qualquer
conversa; económicas, como se o tamanho do corpo pudesse decidir o preço da
dignidade; e, talvez mais feroz que todas, as implicações psicológicas - o
famoso fogo interior. Esse fogo não é chama romântica nem erotismo ardente. É
outro tipo de queimação: o atrito constante entre o que se é e o que dizem que
se deveria ser; o espectro do julgamento escondido em vitrines, anúncios,
comentários “bem-intencionados” que cortam mais fundo que espada de hoplita; o
peso invisível que ninguém vê, mas que se cola aos ombros como armadura de
bronze.
Mas
na Grécia antiga… Ah, lá o fogo era outro: fogo de pele, de desejo, de
celebração da forma humana como obra-prima natural. Um fogo que acendia noites
inteiras à beira do mar Egeu, com corpos iluminados pela lua e pela ousadia de
simplesmente existir - inteiros, sensuais, descomplicados. Se ouvires bem,
quase se escuta o eco desses tempos: sussurros de mulheres que caminhavam com
passos firmes, câmeras imaginárias deslizando pelas curvas como se filmassem o
nascimento da própria beleza, e deuses, sempre eles, invejosos da forma humana
que ousava ser mais divina que o Olimpo.
Quando
cheguei ao hotel, nem o banho fresco conseguiu afastar este pensamento
persistente. A sensação não era de fome, mas de reflexão - talvez um convite
silencioso a repensar o modo como vivemos, comemos e nos movemos num mundo cada
vez mais acelerado.
Diário
de uma viagem – 73 dia – 06/09/2025


Tem a delicadeza de quem viaja por fora e por dentro ao mesmo tempo. Há nele uma magia tranquila quando o sol, o mármore e o aroma do pequeno-almoço parecem abrir um espaço novo dentro de nós. Lembrei-me de Vergílio Ferreira: viajar é também reencontrar-nos, e é isso que se sente neste texto um encantamento silencioso que atravessa o corpo e a memória, de Atenas
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