Acordei com o meu corpo ainda salgado num mar inventado!

 


Despertei em Janina, na Grécia, de um sonho tão perfeito que me pareceu realidade - ao contrário daqueles outros, poeirentos e confusos, que se desvanecem no breu logo que abro os olhos. Este não. Este ficou preso aos meus lençóis, às minhas pestanas, à minha pele ainda quente, tão nítido que me senti tentado a fechar os olhos apenas para voltar a ele, como quem regressa ao abraço de alguém que não sabe se existe. Era um sonho vívido - ou talvez lúcido - com tal intensidade sensorial e clareza inquietante que, ao acordar, hesitei entre o que era sonho e o que era realidade. Como se o limite entre o real e o imaginário tivesse sido apagado durante a noite por mãos invisíveis.

Foi uma sensação maravilhosa, o meu corpo ainda salgado por um mar inventado. O dia amanhecia cinzento, mas eu, teimoso, aprendi cedo a viver entre nuvens: deixo-as pousar nos ombros, deixo-as passar, até que o sol, sedutor e orgulhoso, resolve finalmente entrar em cena. E então a luz acontece - devagar. Caminhei descalço na areia dessa praia paradisíaca que ainda me queimava a alma; a praia deserta, o céu em pose de artista, o horizonte infinito, tudo contribuía para essa estranha certeza de que eu podia voar rasante sobre o oceano, como um pássaro de filme, colorido e livre.

E lá estava ela. Molhada, desenhada como escultura viva no meio das ondas. Um colar de conchas movia-se no seu peito como se respirasse com ela. Chegou, assim me pareceu, de algum abismo luminoso no fundo do mar, numa forma perfeita de sereia.

Vem - disse-lhe, ou talvez só pensei. Segura a minha mão. Vamos caminhar nesta praia deserta, chutando a saudade para fora da maré. Queria aprisionar a beleza daquele instante, pô-la num frasco de vidro ou num poema. Abraça-me. Beija-me. Faz-me feliz -  sim, disse tudo isso, com a desfaçatez de quem sabe que o amor, nos sonhos, é sempre possível.

Hum… Tu eras a sereia que clareavas meus pensamentos, atiçavas meus ímpetos, fertilizavas minhas ideias. Procuravas-me em forma de liberdade - e como eu sempre quis essa forma tua… Depois do mergulho, senti que o sonho, como a vida, também traz as suas lições. Todos nós carregamos desejos e objetivos, mas o mundo, esse professor mal-humorado, insiste em testes surpresa: obstáculos, fracassos, silêncios. E, no entanto, é pela persistência e pela esperança - essas duas irmãs teimosas - que atravessamos os dias difíceis.

Foi então que o aroma do pequeno-almoço me puxou de volta, como uma mão invisível a chacoalhar o ombro: uma sinfonia matinal que acaricia a alma com cheiro a pão quente e café forte. Era um convite sussurrado, suave como a primeira luz da alvorada que se infiltra pelos sonhos para os transformar em vida. A realidade, afinal, também sabe ser bela quando percebemos que ainda estamos vivos - e que a cada manhã o mundo nos oferece um elixir de possibilidades.

Afastando-me de Janina, coloquei música alegre no carro e, com a pompa de um ator secundário a tentar roubar a cena, gritei: “Bom dia, mundo! Tenho 24 horas por explorar!” Nada de replays: hoje a vibe é de estreia absoluta. O guião está em branco e o diretor - eu próprio - está com a curiosidade no máximo. Que venham os twists positivos, as coincidências felizes, os acasos generosos. O dia é meu.

A estrada serpenteava pela paisagem com o erotismo lento de uma fita de seda ao vento. O sol, que surgira tímido, derramava agora um dourado amplo pelos campos e montanhas, pintando tudo com uma luminosidade que parecia saída de um cinema mediterrânico dos anos 70. Vinhas, oliveiras, casas brancas espreitando por entre colinas, tudo ganhava um brilho secreto, como se o mundo estivesse a posar para mim.



Em Fier, parei para almoçar num pequeno restaurante típico, escondido numa rua estreita como se tivesse sido colocado ali por acaso - ou por capricho de algum deus menor do apetite. O cordeiro era perfeito: macio, suculento, aromático, com aquele sabor ancestral que só a comida humilde sabe ter. A cerveja artesanal, fria como um poema bem escrito, escorreu-me pela garganta com um prazer quase indecente.

As mulheres do staff desfilavam com vestidos longos ou blusas brancas bordadas de vermelho e preto - como pinturas vivas em movimento, trazendo histórias antigas nos fios do tecido. Sorriam com uma gentileza tranquila, e o restaurante parecia suspenso no tempo.

Depois do almoço, não resisti a visitar Apolónia, esse centro histórico onde as ruínas gregas e romanas ainda sussurram ao ouvido de quem sabe escutar. Entre colunas quebradas e sombras antigas, vários grupos de jovens estudantes passeavam, riam, tiravam notas, fotografavam - como se tentassem captar o passado para o levar no bolso.

Aquele entusiasmo estudantil acendeu em mim reflexões inevitáveis: os sistemas educativos, tanto na Grécia como em Portugal, padecem dos mesmos males - centralização, burocracia, falta de recursos humanos. Mas diferem nos currículos, no peso do ensino profissional, nas respostas às crises económicas. E apesar das falhas, Portugal ainda leva alguma vantagem. Ambos lutam, porém, pela modernização, pela dignidade dos professores e pela equidade no acesso à educação - esse bem que deveria ser tão sagrado quanto o olimpo onde se inspiram as nossas esperanças.

Ao seguir para Tirana, a estrada abriu-se em cenários de beleza natural quase selvagem: rios que serpenteavam como prata líquida, montanhas de um verde profundo, aldeias que passavam como lembranças velozes. Conduzir sozinho é conversar com o próprio eco: fazemos perguntas que não sabemos responder, respondemos coisas que não tínhamos perguntado.

E ali, entre curvas e silêncios, lembrei-me dos estudantes de Apolónia: jovens que talvez nunca saibam o quanto a educação que recebem definirá o país que amanhã terão de consertar.

Cheguei finalmente a Tirana com o sol a despedir-se atrás dos edifícios coloridos. A cidade, outrora cinzenta, transformara-se num mosaico vibrante depois do comunismo, um gesto quase poético para reacender a esperança de um povo inteiro.

O Rogner Hotel Tirana esperava-me como um oásis de romance no coração fervilhante da capital. Jardins exuberantes, palmeiras cúmplices, uma piscina cintilante - tudo conspirava para criar um ambiente onde a paixão e a tranquilidade se entrelaçam sem pedir licença.

Mas eu queria apenas pousar as malas e procurar um jantar com velas, música suave e vinho albanês feito de uvas indígenas. E sim - a Albânia faz vinhos magníficos, com tradições mais antigas do que muitos querem admitir. Terminei a noite no bairro de Blloku, num clube de jazz panorâmico, saboreando uma gelada Korça enquanto a cidade girava em luzes lá fora.

https://www.youtube.com/watch?v=IiqPoODeYSE&list=RDIiqPoODeYSE&start_radio=1

Quando cheguei ao quarto, já só conseguia ver com nitidez a cama ampla com janelas enormes a vigiar-me, colocar os fones e escutar esta musica maravilhosa para me embalar.

 

Diário de uma viagem – 78 dia – 11/09/2025

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