Acordei com o meu corpo ainda salgado num mar inventado!
Foi
uma sensação maravilhosa, o meu corpo ainda salgado por um mar inventado. O dia
amanhecia cinzento, mas eu, teimoso, aprendi cedo a viver entre nuvens:
deixo-as pousar nos ombros, deixo-as passar, até que o sol, sedutor e
orgulhoso, resolve finalmente entrar em cena. E então a luz acontece - devagar.
Caminhei descalço na areia dessa praia paradisíaca que ainda me queimava a
alma; a praia deserta, o céu em pose de artista, o horizonte infinito, tudo
contribuía para essa estranha certeza de que eu podia voar rasante sobre o
oceano, como um pássaro de filme, colorido e livre.
E
lá estava ela. Molhada, desenhada como escultura viva no meio das ondas. Um colar
de conchas movia-se no seu peito como se respirasse com ela. Chegou, assim me
pareceu, de algum abismo luminoso no fundo do mar, numa forma perfeita de
sereia.
Vem
- disse-lhe, ou talvez só pensei. Segura a minha mão. Vamos caminhar nesta
praia deserta, chutando a saudade para fora da maré. Queria aprisionar a beleza
daquele instante, pô-la num frasco de vidro ou num poema. Abraça-me. Beija-me.
Faz-me feliz - sim, disse tudo isso, com
a desfaçatez de quem sabe que o amor, nos sonhos, é sempre possível.
Hum…
Tu eras a sereia que clareavas meus pensamentos, atiçavas meus ímpetos,
fertilizavas minhas ideias. Procuravas-me em forma de liberdade - e como eu
sempre quis essa forma tua… Depois do mergulho, senti que o sonho, como a vida,
também traz as suas lições. Todos nós carregamos desejos e objetivos, mas o
mundo, esse professor mal-humorado, insiste em testes surpresa: obstáculos,
fracassos, silêncios. E, no entanto, é pela persistência e pela esperança -
essas duas irmãs teimosas - que atravessamos os dias difíceis.
Foi
então que o aroma do pequeno-almoço me puxou de volta, como uma mão invisível a
chacoalhar o ombro: uma sinfonia matinal que acaricia a alma com cheiro a pão
quente e café forte. Era um convite sussurrado, suave como a primeira luz da
alvorada que se infiltra pelos sonhos para os transformar em vida. A realidade,
afinal, também sabe ser bela quando percebemos que ainda estamos vivos - e que
a cada manhã o mundo nos oferece um elixir de possibilidades.
Afastando-me
de Janina, coloquei música alegre no carro e, com a pompa de um ator secundário
a tentar roubar a cena, gritei: “Bom dia, mundo! Tenho 24 horas por explorar!” Nada
de replays: hoje a vibe é de estreia absoluta. O guião está em branco e o
diretor - eu próprio - está com a curiosidade no máximo. Que venham os twists
positivos, as coincidências felizes, os acasos generosos. O dia é meu.
A
estrada serpenteava pela paisagem com o erotismo lento de uma fita de seda ao
vento. O sol, que surgira tímido, derramava agora um dourado amplo pelos campos
e montanhas, pintando tudo com uma luminosidade que parecia saída de um cinema
mediterrânico dos anos 70. Vinhas, oliveiras, casas brancas espreitando por
entre colinas, tudo ganhava um brilho secreto, como se o mundo estivesse a
posar para mim.
Em
Fier, parei para almoçar num pequeno restaurante típico, escondido numa rua
estreita como se tivesse sido colocado ali por acaso - ou por capricho de algum
deus menor do apetite. O cordeiro era perfeito: macio, suculento, aromático,
com aquele sabor ancestral que só a comida humilde sabe ter. A cerveja
artesanal, fria como um poema bem escrito, escorreu-me pela garganta com um
prazer quase indecente.
As
mulheres do staff desfilavam com vestidos longos ou blusas brancas bordadas de
vermelho e preto - como pinturas vivas em movimento, trazendo histórias antigas
nos fios do tecido. Sorriam com uma gentileza tranquila, e o restaurante parecia
suspenso no tempo.
Depois
do almoço, não resisti a visitar Apolónia, esse centro histórico onde as ruínas
gregas e romanas ainda sussurram ao ouvido de quem sabe escutar. Entre colunas
quebradas e sombras antigas, vários grupos de jovens estudantes passeavam, riam,
tiravam notas, fotografavam - como se tentassem captar o passado para o levar
no bolso.
Aquele
entusiasmo estudantil acendeu em mim reflexões inevitáveis: os sistemas
educativos, tanto na Grécia como em Portugal, padecem dos mesmos males - centralização,
burocracia, falta de recursos humanos. Mas diferem nos currículos, no peso do
ensino profissional, nas respostas às crises económicas. E apesar das falhas,
Portugal ainda leva alguma vantagem. Ambos lutam, porém, pela modernização,
pela dignidade dos professores e pela equidade no acesso à educação - esse bem
que deveria ser tão sagrado quanto o olimpo onde se inspiram as nossas
esperanças.
Ao
seguir para Tirana, a estrada abriu-se em cenários de beleza natural quase
selvagem: rios que serpenteavam como prata líquida, montanhas de um verde
profundo, aldeias que passavam como lembranças velozes. Conduzir sozinho é
conversar com o próprio eco: fazemos perguntas que não sabemos responder,
respondemos coisas que não tínhamos perguntado.
E
ali, entre curvas e silêncios, lembrei-me dos estudantes de Apolónia: jovens
que talvez nunca saibam o quanto a educação que recebem definirá o país que
amanhã terão de consertar.
Cheguei
finalmente a Tirana com o sol a despedir-se atrás dos edifícios coloridos. A cidade,
outrora cinzenta, transformara-se num mosaico vibrante depois do comunismo, um
gesto quase poético para reacender a esperança de um povo inteiro.
O
Rogner Hotel Tirana esperava-me como um oásis de romance no coração fervilhante
da capital. Jardins exuberantes, palmeiras cúmplices, uma piscina cintilante -
tudo conspirava para criar um ambiente onde a paixão e a tranquilidade se
entrelaçam sem pedir licença.
Mas
eu queria apenas pousar as malas e procurar um jantar com velas, música suave e
vinho albanês feito de uvas indígenas. E sim - a Albânia faz vinhos magníficos,
com tradições mais antigas do que muitos querem admitir. Terminei a noite no
bairro de Blloku, num clube de jazz panorâmico, saboreando uma gelada Korça
enquanto a cidade girava em luzes lá fora.
https://www.youtube.com/watch?v=IiqPoODeYSE&list=RDIiqPoODeYSE&start_radio=1
Quando
cheguei ao quarto, já só conseguia ver com nitidez a cama ampla com janelas
enormes a vigiar-me, colocar os fones e escutar esta musica maravilhosa para me
embalar.
Diário
de uma viagem – 78 dia – 11/09/2025

