Foi com essa pulsação que comecei a tecer pensamentos sobre a morte - ou sobre a vida depois da vida!
Sai
de Kalamata na Grecia com o sol ainda a mastigar a orla das montanhas,
carregando comigo um mistério que me seguia como uma sombra teimosa - dessas
que não pedem licença e se estendem aos nossos pés mesmo quando viramos costas
ao passado. Havia também um vazio doce, quase infantil, por não me ter
despedido de Paula. O pequeno-almoço, embora maravilhoso, não conseguiu preencher
o espaço que ela deixou suspenso entre duas frases por acabar. Ficou a promessa
- leve como um beijo roubado ao vento - de nos encontrarmos em qualquer canto
do mundo para continuar uma conversa que, por si só, parecia um organismo vivo,
respirando à espera do próximo capítulo.
Ao
afastar-me de Kalamata em direção a Janina, vi a cidade encolher no retrovisor
como um sonho que se evapora lentamente ao acordar. As memórias, no entanto,
ficaram agarradas a mim como sal na pele depois de um mergulho no mar:
persistentes, íntimas, luminosas. E foi nesse instante, quando a cidade já era
uma pincelada esbatida na paisagem, que o telemóvel vibrou. Uma mensagem de
Paula: “Boa viagem, amigo. Levas contigo parte de mim.” As palavras ecoaram no carro com a ternura de
um sussurro ao ouvido. Senti um arrepio. Não era só a estrada que me guiava até
Janina; era também este laço invisível, feito de saudade e promessa, que me
puxava para frente.
A
viagem até Janina revelava-se um filme de cores saturadas - o verde das oliveiras,
o azul quase insolente do céu, as casas que se erguiam timidamente junto à
estrada, como figurantes espontâneas num cenário improvisado. A paisagem
inteira parecia querer seduzir-me, como se soubesse que eu estava renovado,
rejuvenescido, pronto para viver o dia com o corpo solto e a alma aberta.
No
início da tarde, parei em Patras para almoçar. A cidade, maior que qualquer
fome que eu pudesse ter, trazia no ar um cheiro antigo - uma mistura de
história sacra, comércio, festa e mar. O martírio de Santo André, a igreja que
guarda o crânio do santo, o eco distante do Carnaval gigante, a herança romana
que teima em não desaparecer… tudo ali parecia vibrar entre o sagrado e o
profano.
Foi
por pura intuição - ou talvez fome guiada pelo destino - que dei por mim diante
do Restaurante Banana Moon. O aroma seduzia-me pela porta como um convite quase
carnal, e a decoração era tão acolhedora que me fez sorrir. Pedi um almoço
simples: um prato de ingredientes frescos que sabiam à terra e ao mar,
acompanhado de uma cerveja leve que me escorregou pela garganta como uma
carícia. A sobremesa, essa, era um pequeno luxo - um mimo gourmet que parecia
piscar o olho ao meu apetite já satisfeito.
Depois
vagueei pela cidade, guiado pelo tempo curto e pela curiosidade larga. Visitei
- ou desejei ter visitado - lugares que o relógio não me deixou abraçar como
devia: O Castelo de Patras, sentinela medieval com vista para o Golfo; O Farol
de Patras, erguido como um poema de pedra e luz; A Igreja de Agios Andreas,
monumental, luminosa; A praça Georgiou I, cheia de vida e de histórias ditas em
sussurros; O porto, sempre inquieto, sempre vivo.
Enquanto
caminhava, a mente começou a costurar comparações entre o custo de vida grego e
o português - e aí o passeio ganhou um humor amargo. A Grécia, com salários
médios mais altos, impostos mais baixos, poder de compra mais robusto… e nós,
em Portugal, sempre na vanguarda do charme turístico e na retaguarda da
dignidade económica. É irónico como um país “na moda” esconde bolsos vazios atrás
de praias idílicas. Pensei nisto tudo enquanto digeria. Felizmente, já tinha
almoçado - estas reflexões dão azia.
Voltei
à estrada com música boa, daquelas que se infiltram no sangue e fazem a
paisagem dançar. As montanhas, o mar, o vento, tudo parecia querer recordar-me
que a vida pulsa em cada detalhe. Foi com essa pulsação que comecei a tecer
pensamentos sobre a morte - ou sobre a vida depois da vida. Lembrei-me dos
relatos de quem voltou do quase-além: túneis de luz, paz absoluta, visões,
despedidas, reencontros. Talvez a alma fosse energia em trânsito. Talvez
estivéssemos todos apenas a cumprir mais uma volta num carrossel infinito.
É
tudo muito confuso. A concha que me tem acompanhado, ou talvez guiado, é uma
coincidência tão evidente, que me faz acreditar, que estamos todos aqui num
estágio muito curto de aprendizagem cíclica. As vezes observo o comportamento
de algumas pessoas, alheios a uma realidade certa, consumidos pela ganancia do
poder, da riqueza material. Colher para além do necessário, proporciona uma
sensação de controlo sobre a própria vida e o ambiente. Sentir-se no comando
pode ajudar a mitigar a ansiedade da impotência face a eventos incontroláveis,
como a doença e a própria morte. Eles correm como baratas tontas, mesmo quando
o tempo já lhes dá pouco tempo, para refletirem a sua existência.
Mas
afinal o que representa a concha que me acompanha e que parece que respira,
talvez uma conexão transcendental. A minha alma gémea? Será que existem almas
gémeas com uma conexão que transcende o tempo e o espaço, e que estão
destinadas a encontrar-se, independentemente das circunstâncias. Às vezes sinto
que a concha representa a minha alma gémea, que me protege e se reencontra em
diferentes vidas, um destino amoroso preordenado num reconhecimento instantâneo
e profundo, uma sensação de "regresso a casa" ou familiaridade
inexplicável.
Quando
cheguei a Janina, o céu já estava bordado de estrelas. A cidade, iluminada,
parecia sorrir-me com cumplicidade. O Lago Pamvotis espelhava a noite, e a
pequena ilha ao centro flutuava como um segredo antigo. O hotel surpreendeu-me
pela elegância discreta, pelo staff caloroso, pelas boas-vindas que me
envolveram como um abraço. Depois de uma refeição leve no bar, deixei-me
distrair por um casal mergulhado num jogo de xadrez - cada peça movida como se
valesse um destino.
O
quarto era um convite luxuoso ao descanso. A janela oferecia um panorama
sublime sobre o lago, e o silêncio tinha um perfume próprio. Mas o mistério da
noite estava apenas a começar.
Quando
apaguei a luz e me deixei afundar no colchão, senti um movimento na penumbra.
Uma silhueta feminina, sensual, ondulava como uma dança de ventre entre
sombras. A lua recortava-lhe o corpo com um colar de conchas pendurado no
pescoço: a minha concha, muitas, todas iguais à minha que eu guardara, jurava
eu, no bolso da mala. Ela não falou. Não precisava. A presença dela era música,
era respiração, era promessa.
https://www.youtube.com/watch?v=lBERoll-WTI&list=RDv4k6JgC7UVA&index=6
Enquanto
uma melodia serena escorria pela escuridão, uma das conchas brilhava mais no
peito daquela mulher misteriosa, movendo-se lentamente, como se me chamasse -
ou me lembrasse - de algo que ainda não vivi.
Diário
de uma viagem – 76 dia – 09/09/2025


Cada página é a alma de uma revelação. A concha que acompanha vibra como nos mistérios de Dan Brown, onde cada detalhe simples se torna carregado de significado. A forma de observar a luz, a mulher sombra, o silêncio, lembra um quadro de Armando Alves, onde cada gesto guarda emoção. A melodia que acompanha tudo é uma balada linda, que parece sussurrar aos sentidos e ao coração.
ResponderEliminarLê-se com a vontade de ler-te sempre mais: a viagem é paisagem, mas o que realmente avança é o coração — guiado por algo que escolheu antes de ser escolhido.
E é por isso que, ao ler-te sente-se que não se percorre um caminho: ele transforma-se em pura beleza.Maurício.