Good morning!
No
dia seguinte, despertei com uma leveza que não sentia há muito tempo. A luz
suave da manhã atravessava as janelas do hotel, enquanto o som tranquilo da
cidade a despertar completava aquele cenário quase cinematográfico.
Ainda
meio sonolento, peguei no telemóvel. Uma notificação iluminava o ecrã:
“Good
morning, Maurício! Did you sleep well? Would you like to visit Amsterdam with
me? — Lorena”
Sorri.
Aquela mensagem despertou em mim uma alegria inesperada. Lorena, a mulher
misteriosa e encantadora a quem dera boleia em Antuérpia e com quem partilhara
um jantar especial na noite anterior, queria descobrir a cidade comigo. A ideia
não podia parecer mais perfeita.
Encontrámo-nos
na receção do hotel. Ela surgiu com um vestido leve, o cabelo solto a dançar ao
sabor da brisa. Cumprimentou-me com um beijo doce no rosto, e os seus olhos
sorriam antes mesmo dos lábios.
-
Dormiste bem? — perguntei, tocando-lhe suavemente na mão.
-
Muito bem. Mas acho que o dia vai ser ainda melhor - respondeu Lorena, com um
sorriso cúmplice.
Começámos
a nossa caminhada por Amesterdão com uma energia leve e natural. A primeira
paragem foi no Bairro dos Museus, onde visitámos o majestoso Rijksmuseum.
Admirámos obras de Rembrandt e Vermeer, percorrendo lado a lado aquelas salas
silenciosas carregadas de história.
Enquanto
observávamos “A Ronda Noturna”, ela segurou-me no braço e sussurrou:
-
Gosto da forma como olhas para as coisas. Com tempo. Com atenção.
Depois
seguimos para o Museu Van Gogh, onde partilhámos impressões sobre as cores
vibrantes e as emoções profundas transmitidas pelo artista. A conversa fluía
como se nos conhecêssemos há anos.
Mais
tarde, atravessámos o Vondelpark, onde o verde das árvores nos envolveu numa
atmosfera serena e romântica. Sentámo-nos num banco durante alguns minutos,
apenas a observar os ciclistas, os casais e a vida a acontecer à nossa volta.
Sem pensarmos demasiado, a minha mão encontrou a dela.
-
Gostavas de viajar mais? - perguntei, olhando-a de perfil.
Ela
sorriu antes de responder.
-
Gostava… contigo. És uma boa companhia. Tranquilo, divertido. Viajar contigo é
colocar o coração em modo aventura.
Sorri.
Havia algo naquela frase que ficaria comigo.
“Never
give up, never stop dreaming.”
Algumas
pessoas cruzam o nosso caminho e deixam frases que nunca se apagam. Pequenas
sementes que ficam guardadas na memória e acabam por nos acompanhar para
sempre.
Viajar
em modo aventura é perceber que nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde. É
partir sem controlar tudo, sem regras rígidas nem limites impostos, mas com o
desejo enorme de chegar a lugares que, de alguma forma, já existiam dentro de
nós.
Passamos
grande parte da vida a tentar transformar sonhos em realidade. Muitas vezes
parecem distantes, adiados pelas obrigações, pelo medo ou pelas circunstâncias.
Mas viajar é uma das formas mais bonitas de quebrar essa rotina: é abrir espaço
ao desconhecido, ao inesperado e ao novo.
Sonhamos
conhecer lugares incríveis, mergulhar noutras culturas, experimentar sabores
diferentes, encontrar pessoas inesquecíveis, esquecer o despertador, perder a
noção dos dias e sentir a liberdade de escolher onde queremos estar.
Nunca
conseguiremos apaixonar-nos verdadeiramente pelo mundo se não largarmos as
âncoras que nos prendem sempre ao mesmo lugar. Certas oportunidades não voltam,
porque a água do rio nunca passa duas vezes pelo mesmo ponto.
Continuámos
até Jordaan, um bairro boémio e encantador, cheio de pequenas lojas, galerias
de arte e ruas que pareciam contar histórias. Passeámos junto aos canais, onde
os barcos deslizavam lentamente e os reflexos dourados dançavam sobre a água.
A
fome começou a aparecer, e eu já tinha o lugar perfeito em mente.
Almoçámos
no De Belhamel, um restaurante elegante junto ao canal Brouwersgracht. Pedimos
vieiras grelhadas de entrada, seguidas de um tenro magret de pato com molho de
vinho tinto. Acompanhámos com um Pinot Noir francês, leve e envolvente.
A
luz entrava pelas grandes janelas de vidro, refletia-se no vinho e iluminava o
rosto de Lorena de uma forma quase irreal.
-
Sabes que já estou a imaginar outras cidades contigo? - confessou ela, num tom
entre o desejo e a ternura.
Mais
tarde, depois de explorarmos o Mercado das Flores e fazermos uma breve visita à
Casa de Anne Frank, fomos jantar ao Restaurant Greetje, uma pequena joia da
gastronomia neerlandesa.
O ambiente era acolhedor e elegante: velas nas mesas, madeira escura e um aroma irresistível espalhado pelo ar.
Rimos,
trocámos olhares cúmplices e brindámos à sorte daquele encontro improvável.
-
Amanhã vou para Londres… mas gostava de te ver outra vez. Noutra cidade. Noutra
aventura - disse ela, enquanto desenhava lentamente círculos no rebordo do copo
de vinho.
Depois
do jantar, caminhámos sem pressa pelos canais iluminados. A noite estava
agradável, e o som da água misturava-se com o eco tranquilo dos nossos passos.
Parámos
numa ponte. Abracei-a com ternura, e ela correspondeu como se também quisesse
guardar aquele momento. Ficámos ali, só os dois, como se Amesterdão tivesse
parado para nos oferecer aquele instante.
Nessa
noite percebi, mais do que nunca, que algumas das melhores viagens não são
aquelas que planeamos. São aquelas que o destino prepara silenciosamente para
nós.
Despedimo-nos
numa madrugada mágica. A cidade estava calma, quase como se respeitasse o
silêncio entre mim e Lorena. O canal refletia as luzes douradas das pontes, e a
brisa parecia sussurrar todas as palavras que nenhum de nós conseguiu dizer.
O
último abraço foi longo, com aquele sabor agridoce de quem vive algo bonito
enquanto sente a despedida aproximar-se.
Ela
seguiu para Londres.
Eu
fiquei ali por alguns instantes, imóvel perante o frio suave da madrugada,
tentando adiar aquilo que já era inevitável: a distância.
Diário
de uma viagem – dia 19
