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Viagens à volta de um mundo. Apesar da distância, somos todos parte da mesma história.

Como imaginas um mundo perfeito... ou menos imperfeito?

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Despertei em Norwich carregado de energia, como se durante a noite alguma força invisível tivesse renovado cada fibra do meu corpo. Havia em mim uma urgência, impossível de ignorar, uma necessidade quase física de caminhar sem destino e deixar que a cidade se revelasse aos poucos, camada após camada, como um manuscrito medieval. No dia anterior já tinha sentido algo semelhante nas ruas de Cambridge. Uma vibração. Uma presença. Uma frequência que não pertencia inteiramente ao mundo visível. Enquanto percorria as ruas estreitas da cidade universitária, ouvira passos ao meu lado. Passos leves. Delicados. Passos que cruzavam com os meus num bailado invisível. Não via ninguém. Mas sentia-a. Era bailarina. Dançava ao meu lado com uma leveza que parecia desafiar as leis da matéria. Cada movimento era um convite silencioso, uma coreografia de pura sensualidade desenhada no ar. Os seus braços fluíam como fitas de seda, contornando o meu corpo à distância exata de um suspiro. Havia nela uma ...

O útero onde nascemos é talvez a maior lotaria da existência humana!

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Despertei em Londres com uma ausência. Não era apenas a ausência de Penélope - embora o seu lado vazio tivesse o peso exato de um inverno - era uma ausência mais funda, quase mineral, como se a cidade inteira tivesse perdido uma cor durante a noite. Londres acordara cinzenta, suspensa numa névoa húmida que se colava às fachadas vitorianas e aos táxis negros. O céu parecia um lençol mal lavado por deuses cansados. E eu, estranhamente, parecia parte daquela paisagem. Levantei-me sem a euforia habitual. O corpo movia-se por hábito, não por vontade. Tomei um banho demorado, deixando a água escorrer sobre mim como se pudesse dissolver pensamentos. Há dias em que um homem não se lava; apenas tenta apagar-se um pouco. Quando saí do vapor do quarto de banho, o telemóvel iluminou-se com uma mensagem de Penélope. Cheguei bem a Atenas. Hoje o dia vai ser pesado. Já tenho saudades tuas. Dormiste? Alimenta-te. Havia mais algumas palavras, dessas que ficam no silencio. Desci para a sala dos pe...

Os lobos modernos não uivam para a lua. Falam baixo. Vestem elegância. Cheiram a perfume caro.

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Acordar em Londres e abrir lentamente a janela para contemplar o Rio Tâmisa era quase um ritual de iniciação à melancolia. O rio deslizava pesado e silencioso, como se carregasse séculos de despedidas nas suas águas escuras. O céu estava cinzento, não aquele cinzento vulgar da chuva iminente, mas um cinzento emocional, profundo, quase humano - como se a própria cidade soubesse que algo dentro de nós começava a mudar. Penélope tinha voo para Atenas às vinte e duas horas. Havia nela uma tristeza discreta, mas evidente. O entusiasmo dos dias anteriores evaporava-se lentamente, como o vapor que subia das chávenas de café quente na sala de pequenos-almoços. Os meus abraços, que até ali tinham funcionado como abrigo, deixavam de ser suficientes para alterar-lhe o humor. Talvez porque existam momentos em que o corpo aceita o carinho, mas a alma já começou a sofrer antecipadamente a ausência. Sentámo-nos frente a frente. O aroma do café forte misturava-se com o cheiro do pão acabado de coz...