Mensagens

Viagens à volta de um mundo misterioso, romântico, sensual, enigmático.

Para onde os vamos arrumar?

Imagem
  Não há solução sem escolha. E escolher implica perder alguma coisa. Implica dizer “não” a interesses que gritam mais alto do que as necessidades. Acordei em Zurique como adormeci: suspenso nesse fio invisível que separa a tristeza da gratidão - como se o coração, indeciso, recusasse escolher um lado e preferisse ficar ali, em equilíbrio instável, mas estranhamente honesto. Há algo de profundamente humano nesse estado intermédio, quase como um cais onde atracam sentimentos que não sabem ainda se partem ou se ficam. Porque, no meio desta viagem - entre estradas frias e pensamentos quentes, entre o silêncio das montanhas e o ruído íntimo de quem pensa demais - tenho encontrado pessoas que não pedem protagonismo, mas deixam marcas. Pequenos gestos, palavras soltas, presenças inesperadas. Como migalhas de humanidade num mundo que tantas vezes se esquece de ser humano. E talvez seja isso que nos sustenta: não os grandes acontecimentos, mas os detalhes quase invisíveis que nos imped...

Chamam-lhe crise da habitação. Gentrificação. Palavras elegantes, quase técnicas, que soam bem em conferências e relatórios. Isto não é ficção. É real!

Imagem
Despertei em Bellagio - Lago de Como - com uma sensação amarga, quase traiçoeira, como se o próprio paraíso tivesse decidido expulsar-me com delicadeza. Havia em mim um silêncio estranho, desses que não pedem companhia, porque já encontraram tudo o que procuravam. Nunca, em lugar algum, tive tanto prazer na minha própria presença. E isso, ironicamente, tornou a despedida ainda mais cruel. Cumpri o ritual de todas as manhãs com a mesma reverência de quem sabe que repete um gesto condenado à extinção. O pequeno-almoço, sempre declinoso - não por falta de qualidade, mas por excesso de consciência. Hoje, porém, recusei-me a romantizar manteigas e cafés. Há momentos em que até o prazer se torna redundante. Carreguei as malas com uma solenidade quase teatral, como se cada fecho de zíper fosse um ponto final mal colocado. Despedi-me da Elettra. E como sempre - ou talvez como nunca mais - ficámos presos naquele abraço prolongado, onde o tempo se dissolve e o corpo diz o que a linguagem nun...

Quem cuida e quem é cuidado? Talvez a resposta mais honesta seja esta: todos seremos ambos. Em momentos diferentes.

Imagem
Despertei no paraíso. E, como qualquer pessoa minimamente desconfiada da felicidade súbita, fiz o teste mais científico que conheço: toquei uma vez, toquei-me a segunda. Nada de transcendências, nada de harpas celestiais, nenhum coro angelical a julgar as minhas escolhas de vida. Não. Continuava inteiro, imperfeitamente humano, com sono e alguma ironia acumulada. Estava mesmo em Bellagio, no Lago de Como. E isso, por si só, já parecia uma provocação do universo. Há lugares que não pedem licença - impõem-se. Bellagio não se apresenta; revela-se. E fá-lo com uma elegância quase irritante, como quem sabe que é belo desde sempre e nunca teve necessidade de provar nada a ninguém. Aqui, o tempo não passa - escorre. Como o lago. Como um pensamento preguiçoso num fim de tarde sem culpa. A primeira luz da manhã atravessa as cortinas de linho pesado e desenha no quarto um quadro que faria qualquer pintor renascentista reconsiderar a própria carreira. Tons de pêssego, ouro velho, uma espécie ...

Ensinamos datas, fórmulas, capitais…, mas não ensinamos o que fazer quando o mundo interior desaba sem aviso prévio.

Imagem
  Começo esta viagem com um excerto de um comentário motivador que recebi: “Deixo aqui um conselho: se ficaste pelo título, já começaste a falhar contigo. Porque as verdades inconvenientes não gritam. Não fazem barulho suficiente para competir com notificações, promessas fáceis ou frases motivacionais recicladas. Elas sussurram. E só as ouve quem tem coragem de ficar… um pouco mais.” Acordei em Turim como adormeci - com o corpo ainda a guardar a memória térmica da noite, como se a pele fosse um arquivo sensorial onde certos instantes insistem em permanecer. Talvez porque, no fundo, eu soubesse que há dias que não se repetem. E ainda bem. A repetição é o primeiro passo para a banalidade, e banalizar o extraordinário seria um erro quase tão grave como não o viver. O enigma, esse, precisa de distância. Precisa de ausência. Precisa de nós. Depois, o som - leve, ritmado, quase cúmplice - na porta. Não era apenas um toque, era uma interrupção cuidadosamente coreografada pelo destino....

Predadores territoriais por cinco metros de alcatrão!

Imagem
  Acordei como adormeci: com a certeza de que Turim não era apenas uma cidade. Era um enigma. E eu, com a arrogância delicada de quem acredita no destino, tinha acabado de aceitar resolvê-lo. Não perdi tempo com os pormenores do pequeno-almoço - essa liturgia universal dos hotéis onde tudo sabe a “já visto” e a café demasiado correto - ainda que reconheça o seu conforto previsível. Mas há dias em que o conforto é uma distração elegante. E eu precisava de desconforto. De fricção. De mistério. Saí. O ar fresco atingiu-me como uma verdade. Trazia consigo uma mistura indecifrável: o rasto de perfumes caros, quase arrogantes, e a humidade tímida da manhã sobre o Rio Pó. Era como se a cidade respirasse por camadas - primeiro seduz, depois revela, e por fim… esconde de novo. Ajustei as alças da mochila. Leve. Essencial. Como as decisões que realmente importam. Fiquei imóvel por um instante, suspenso entre direções possíveis, como se escolher um caminho fosse trair todos os outros. À min...