Uma amizade genuína entre homem e mulher pode oferecer o que tantas relações românticas perdem: oxigénio.



Ainda o sol não tinha rasgado a noite e eu já estava desperto, com a estranha euforia dos homens que acordam como se tivessem sido devolvidos à juventude por engano - ou por capricho de algum deus entediado. Havia em mim uma eletricidade rara, um pressentimento absurdo e quase infantil de que Montpellier me esperava com as mãos cheias de surpresas. Daquelas surpresas indecentes, improváveis, quase ofensivas à lógica. Das que não pedimos, não planeamos, não merecemos - e, por isso mesmo, são as únicas verdadeiramente memoráveis. O destino, quando decide brincar, tem um humor de péssimo gosto e uma pontaria impecável.

Na véspera, Penélope telefonou-me. A grega de cabelo azul e olhos cor do mar inquieto, médica na área de medicina de Infetologia, que conheci em Turim entre conversas improváveis, vinho honesto e silêncios perigosos. A mulher que me fizera acreditar que certos encontros não pertencem à biografia, mas à mitologia. Perguntou-me, com aquela voz de veludo ligeiramente rouco, pelos detalhes da minha viagem, os horários, o hotel, os dias. Uma curiosidade demasiado minuciosa para ser inocente. Desliguei com a suspeita acesa e aquela sensação antiga, tão masculina e tão ridícula, de quem percebe que há qualquer coisa no ar e finge não perceber para saborear melhor a surpresa.

Tomei um banho demorado, frio o suficiente para despertar o corpo e perigoso o bastante para acordar memórias. Depois desci à liturgia mais confiável do mundo: o aroma de café forte e o perfume indecentemente sedutor do pão acabado de sair do forno. Crosta estaladiça, miolo quente, manteiga a derreter com a sensualidade obscena de tudo o que é simples e perfeito. Há prazeres que não precisam de poesia; bastam-se a si mesmos. O resto é vaidade literária.

Mochila às costas, sapatilhas no chão, a disposição de quem vai conquistar uma cidade ou perder-se nela com elegância, passei pela receção para recolher um mapa. Um gesto prudente e teatral: pedir um mapa para não me perder numa cidade onde, secretamente, eu já me sentia deliciosamente perdido. Montpellier tem esse efeito.

É um refúgio romântico no sul de França, onde o passado se recusa a morrer e o presente fingia que não se importar. As ruas estreitas do centro histórico guardam a alma medieval com a vaidade discreta de uma mulher madura que sabe exatamente o que vale e não precisa de o anunciar. Havia o dourado do sol mediterrânico a escorrer pelas fachadas, o murmúrio das esplanadas, o rumor elegante da cidade a respirar sem pressa, como quem conhece o valor da demora. Montpellier não seduz- insinua-se. E isso, como em tudo o que vale a pena, é muito mais perigoso.

Mapa na mão, fui por aí, com a solenidade inútil dos exploradores urbanos e a competência geográfica de um pombo embriagado. Lentamente, cheguei à Place de la Comédie. O coração da cidade. Amplo, vibrante, quase teatral na sua própria beleza. Uma das maiores zonas pedonais da Europa, viva de passos, vozes, luz e promessa. A Ópera Comédie ergue-se com aquela arrogância arquitetónica tipicamente francesa - bela, grandiosa, convencida de si. Em frente, a Fonte das Três Graças exibe a sua graça mitológica com a tranquilidade insolente de quem sabe que já foi desejada por séculos.


Foi então que o telefone tocou. Atendi. Do outro lado, uma respiração breve. Depois a voz. “Tirei uns dias de férias… e acabei de fazer check-in no hotel onde estás. Apanhei um voo direto de Atenas.” Houve um silêncio. Não um silêncio vazio. Um silêncio denso. Um desses silêncios que suspendem o tempo e fazem o coração hesitar entre o espanto e a imprudência.

Era Penélope. Penélope, que eu conhecera em Turim. Penélope, que me prometera um reencontro no paraíso e faltara ao encontro no Lago de Como por causa da súbita doença do pai. Penélope, que agora surgia em Montpellier como quem não reaparece - acontece. Depois voltou a falar, e eu juro que consegui ouvi-la sorrir. “Diz-me onde estás. Eu vou ter contigo. Prometi que não te perdia.”

Sentei-me num banco para respirar, porque até os homens com alguma dignidade precisam ocasionalmente de se sentar diante do inesperado. Enviei-lhe a localização por GPS com a precisão neurótica de quem já aprendera que o romantismo é lindo, mas a tecnologia evita tragédias logísticas.

Preparei-me para esperar uma eternidade. O tipo de eternidade breve e ansiosa que dura apenas minutos, mas envelhece um homem vários anos. “Cheguei.” A voz soou atrás de mim. Virei-me. E ali estava ela. “Pensavas que ias esperar…, mas as saudades, às vezes, fazem atalhos.” (risos)

Penélope. Mais real do que a memória. Mais bela do que a saudade tinha permitido. Trazia o cabelo azul ligeiramente rebelde, desalinhado com a precisão estudada das mulheres que sabem exatamente o efeito da aparente desordem. O rosto limpo, a pele dourada de sal e verão, o corpo de quem parecia viver em movimento, como se a quietude lhe fosse uma forma menor de morte. Abraçou-me sem hesitação. E não foi um abraço social, desses que as boas maneiras inventaram para disfarçar a distância. Foi um abraço apertado, quente, inteiro. Um abraço com memória, com fome, com atraso.

Senti-lhe o perfume - caro, discreto, perigosamente bem escolhido. Qualquer coisa entre madeira clara, pele aquecida e um segredo impronunciável. Afastou-se o suficiente para me olhar, perto o bastante para me desarmar. “Antes de qualquer filosofia… vamos almoçar. Não tomei o pequeno-almoço para não perder tempo.” E fomos.


Seguimos o instinto, que é uma forma elegante de chamar destino ao acaso, e entrámos no primeiro restaurante que nos chamou pelo nariz. O aroma a carne grelhada arrastou-nos para dentro como uma promessa primitiva. Havia naquele lugar a honestidade robusta dos bons restaurantes franceses.

Sentámo-nos como quem chega a um lugar onde já tinha sido esperado. Pedimos entrecôte grelhada no ponto exato em que a carne deixa de ser alimento e se torna argumento. Veio fumegante, marcada pelas brasas, com a superfície tostada a guardar um interior rubro, tenro, obscenamente suculento.

Pedimos um vinho tinto de Languedoc. Profundo, escuro, com notas de frutos negros, especiarias e aquela gravidade terrosa que parece nascer de vinhas educadas pelo sol e pela paciência. O primeiro gole não se bebeu - demorou-se. Tinha corpo, tinha nervo, tinha aquele tipo de carácter que não se encontra em gente excessivamente disponível. Penélope bebeu-o devagar, com a delicadeza estudada de quem sabe que há gestos que também seduzem.

Depois veio a sobremesa, e com ela a rendição. Uma tarte tatin morna, de maçãs caramelizadas até ao ponto indecente da doçura, massa quebrada delicada, uma colher de crème fraîche a derreter com a lentidão lasciva de tudo o que sabe exatamente o efeito que provoca. Partilhámo-la com a intimidade silenciosa dos gestos que parecem pequenos e nunca são.

E foi aí que o almoço deixou de ser almoço. Colou-nos à mesa. O vinho prolongou-se. A sobremesa demorou-se. A tarde desistiu de avançar. Falámos como falam duas pessoas que já tinham começado uma conversa noutra cidade e noutro tempo, e apenas a retomavam. Os olhos dela brilhavam com uma humidade doce, vulnerável, luminosa. A voz amaciara. Havia nela qualquer coisa entre a coragem e a vertigem.

“Sabes… nunca senti tantas saudades de um amigo. Lembro-me de todas as nossas palavras em Turim. Dos nossos silêncios. Dos toques das nossas mãos. Nunca me senti tão liberta de tudo. Solta. Como se voasse. Como se estivesse suspensa num voo de asa delta, sem medo de cair.”


Ficámos em silêncio. Não por falta de resposta. Mas porque certas verdades, quando chegam nuas, merecem espaço. Depois sorri. “Eu podia repetir cada uma das tuas palavras…, mas tu já disseste tudo. E, convenhamos, não vamos começar a chorar agora. Ainda por cima em França. Eles já têm dramatismo suficiente para todos. (risos)

Ela riu. E no riso havia alívio, cumplicidade e qualquer coisa perigosamente próxima de ternura. Depois falei. Falei de nós. Dela. De mim. Dos outros. Dos milhões de outros. Dos que se encontram tarde. Dos que se reconhecem cedo demais. Dos que vivem vidas inteiras ao lado de alguém sem nunca serem vistos. Dos que tocam uma mão por acaso e sentem mais verdade nesse gesto do que em anos de convivência domesticada. Dos que se resignam. Dos que se traem. Dos que trocam o assombro pela estabilidade, a vertigem pela rotina, o desejo pela paz morna de um afeto sem incêndio. Falei dessa gente toda - com a crueldade lúcida de quem sabe que a maioria não vive: administra-se.

Penélope ouvia-me com os olhos presos nos meus. E eu continuei, talvez porque o vinho ajudava, talvez porque a verdade, quando encontra escuta, ganha coragem. Ela sorriu devagar. Triste. Bela. Desarmada. Lá fora, Montpellier ardia mansa sob o sol.

Há um tribunal invisível a funcionar vinte e quatro horas por dia. Não tem mármore, não tem juiz de toga, não tem martelo a bater na madeira - mas sentencia com uma rapidez obscena. Funciona nos olhares enviesados, nas piadas mastigadas à mesa, no arquejo moralista de quem vê um homem e uma mulher a rir juntos e já lhes escreve um adultério em rascunho. Esse tribunal chama-se sociedade. E uma das suas condenações favoritas é esta: se um homem e uma mulher partilham intimidade emocional, então há desejo; se há ternura, há perigo; se há escuta, há tentação; se há amizade, é apenas um romance preguiçoso à espera de tirar a roupa.

É uma suspeita antiga, bafienta, quase medieval - mas ainda desfila com perfume moderno e telemóvel no bolso. Mudaram-se as roupas, não se mudaram os medos. Continuamos sofisticados o suficiente para falar de inteligência emocional em podcasts e primitivos o suficiente para desconfiar de uma amizade platónica como quem fareja gasolina perto de uma vela.

E talvez seja esse o primeiro escândalo: a sociedade aceita com mais facilidade a promiscuidade do corpo do que a intimidade inocente da alma. Um homem e uma mulher podem partilhar uma cama numa série e o público chama-lhe química. Mas se partilham silêncio, confidência, lealdade, vulnerabilidade - ah, então algo “estranho” se passa. Porque, para o imaginário social, o corpo pode ser casual; a alma, nunca. O corpo é desculpável. A intimidade é suspeita.


No fundo, o que escandaliza não é o erotismo. É a proximidade sem posse. A amizade verdadeira entre géneros diferentes perturba porque desmonta uma das ficções sociais mais rentáveis: a de que toda a intimidade entre homem e mulher tem de obedecer à gramática do desejo. Como se a única linguagem possível entre dois corpos diferentes fosse a da conquista. Como se um homem só pudesse admirar uma mulher se a desejasse. Como se uma mulher só pudesse confiar num homem se, algures, o erotismo estivesse a ensaiar entrada. Como se ternura sem erotização fosse um erro de sistema.

Mas não é. É maturidade. E talvez por isso incomode tanto. A amizade platónica entre homem e mulher é uma forma sofisticada de intimidade - e a sofisticação assusta sempre os espíritos mais rudimentares. Exige contenção sem repressão. Exige afeto sem apropriação. Exige presença sem invasão. Exige linguagem emocional sem o velho vício da conquista. E isso é profundamente subversivo numa cultura que ainda educa homens para desejar e mulheres para desconfiar.

A sociedade desconfia da amizade platónica entre homens e mulheres porque ela desafia dois pilares antigos: o da posse e o da simplificação. A posse diz: se te amo, devo ter exclusividade sobre a tua intimidade. A simplificação diz: se há intimidade, há sexo. Ambas são intelectualmente pobres. Ambas emocionalmente preguiçosas. Ambas perigosamente normalizadas.

É aqui que o ciúme entra, não como prova de amor - esse mito romântico que já devia ter sido enterrado com honras discretas - mas como sintoma de insegurança com boa publicidade. O ciúme raramente é sobre o outro. É sobre o medo de não bastar. Sobre o pânico de ser substituível. Sobre a humilhação antecipada de imaginar que alguém, algures, pode compreender melhor quem amamos. E poucas coisas ameaçam mais um ego inseguro do que alguém que conhece o nosso parceiro sem o possuir. Porque o desejo pode ser combatido; a conexão, essa, é mais difícil de vigiar.

É por isso que tantos relacionamentos criam regras rígidas disfarçadas de respeito: “não precisas de falar tanto com ele”, “não vejo necessidade dessa proximidade”, “não gosto que lhe contes certas coisas”, “amizades assim confundem”. Traduzindo do dialeto da insegurança: não confio na tua autonomia, não confio na minha relevância, e prefiro controlar o risco a desenvolver confiança.

O problema é que controlo nunca foi intimidade. Foi sempre medo com vocabulário de autoridade. E assim regressamos, elegantemente vestidos de modernidade, a modelos antigos: a mulher vigiada, o homem territorial, a amizade filtrada pela suspeita, a liberdade emocional negociada como se fosse cláusula contratual. Chamam-lhe maturidade relacional. Muitas vezes é apenas patriarcado reciclado com melhor iluminação.


O medo da traição alimenta esta arquitetura. E é compreensível: ser traído não fere apenas o amor; fere o narcisismo, a perceção, a identidade, a ideia que tínhamos da realidade. A traição não dói apenas porque alguém foi embora - dói porque alguém nos obrigou a rever o mapa. Mas transformar esse medo em política preventiva é uma forma trágica de covardia emocional. Quem teme tanto a possibilidade de perder começa a amputar, preventivamente, tudo o que poderia enriquecer a relação.

E assim se empobrecem vidas em nome da proteção. As pessoas têm cada vez menos amigos. Não é uma impressão melancólica; é uma erosão silenciosa. A vida adulta tornou-se um território de agendas, fadiga, sobrevivência e vínculos utilitários. Há menos tempo, menos disponibilidade, menos coragem para sustentar intimidade sem função. A amizade - sobretudo a amizade profunda, paciente, não performativa - tornou-se quase um luxo. E ainda assim continuamos a tratá-la como ameaça, precisamente quando mais precisamos dela.

Talvez uma das ironias mais cruéis da vida adulta seja esta: exigimos que o amor romântico sustente tudo aquilo que antes era distribuído por uma aldeia emocional inteira. Queremos que um parceiro seja amante, melhor amigo, confidente, cúmplice, terapeuta, espelho, porto, aventura, abrigo, humor, colo e milagre. Depois espantamo-nos quando a estrutura cede. Nenhum amor sobrevive intacto ao peso de ter de ser tudo.

É por isso que amizades importam. E importam ainda mais quando são livres da lógica predatória. Uma amizade genuína entre homem e mulher pode oferecer um tipo de espelho raro: menos narcísico, menos teatral, menos condicionado pelos papéis clássicos da sedução. Pode ensinar escuta sem performance. Cuidado sem cálculo. Presença sem exigência. Pode oferecer o que tantas relações românticas perdem: oxigénio.

Mas a cultura pop fez um excelente trabalho em sabotar essa possibilidade. Décadas de filmes, séries e narrativas ensinaram-nos a mesma lição, repetida até parecer verdade: “homens e mulheres não podem ser amigos”. Se se dão bem, vão acabar na cama. Se partilham vulnerabilidade, o beijo é inevitável. Se há química intelectual, o argumento exige tensão sexual. Hollywood nunca viu duas pessoas emocionalmente compatíveis sem lhes arrancar a roupa ao terceiro ato. E o público, coitado, habituou-se à pobreza simbólica. A ficção romantizou tanto a inevitabilidade do desejo que deseducou a imaginação para a beleza da contenção. Mas a vida real, felizmente, é mais complexa e mais elegante do que um argumento preguiçoso.

Homens e mulheres podem procurar coisas diferentes nas amizades, sim - e isso não é ameaça, é riqueza. Em termos gerais, muitas mulheres tendem a cultivar amizades mais verbalizadas, mais emocionalmente explícitas, mais assentes na partilha íntima. Muitos homens, por socialização, tendem a formas mais laterais de vínculo: presença prática, humor, lealdade tácita, afeto menos discursivo. Não são essências biológicas; são hábitos aprendidos. E precisamente por isso, a amizade entre géneros pode ser um laboratório extraordinário de expansão emocional. Homens aprendem novas gramáticas de vulnerabilidade. Mulheres experimentam formas menos exaustivas de presença. Ambos ganham léxico interior.


E há ainda a glória discreta da amizade de baixa manutenção - essa forma adulta, quase sagrada, de amor sem cobrança. Não exige presença diária, não dramatiza ausências, não contabiliza silêncios. Sobrevive ao tempo, ao caos, às estações. É a amizade que não precisa de performance para continuar viva. A amizade que entende que amar alguém também é saber deixá-lo respirar.

Talvez seja isso que tantas relações românticas não suportam: a ideia de que há amor sem posse, intimidade sem exclusividade, lealdade sem clausura. Mas é precisamente aí que está o futuro. Precisamos de novos modelos de intimidade. Modelos em que confiança não seja vigilância sofisticada. Em que fidelidade não signifique monopólio emocional. Em que maturidade não seja controlo com boas maneiras. Em que amar alguém não implique reduzir-lhe o mundo para aliviar a própria insegurança.

Reconstruir a confiança social exige uma revolução menos ruidosa e mais difícil: a de aceitar que a intimidade não pertence exclusivamente ao erotismo. Que existem afetos profundos que não pedem consumação. Que há encontros que não querem posse. Que duas pessoas podem reconhecer-se, tocar-se na linguagem, salvar-se no afeto, e ainda assim não querer possuir-se.

É preciso ensinar isto cedo: que nem toda a ternura é sedução. Que nem toda a escuta é flerte. Que nem toda a proximidade é prelúdio. Que maturidade emocional é saber distinguir desejo de vínculo, atração de reconhecimento, posse de presença. E talvez, quando finalmente crescermos o suficiente para aceitar isso, descubramos o óbvio que durante séculos nos escapou com a subtileza cruel das coisas simples: que ser amigo é uma das formas mais raras de amor.

Porque ser amigo não é querer. É compreender. É ver os sinais, entender as palavras e escutar o silêncio. E há intimidades que nunca precisaram de um corpo para serem absolutamente inesquecíveis.

Depois levantámo-nos devagar, como quem regressa de um sonho e ainda desconfia da solidez do chão. Colei a mão dela à minha - não a segurei, colei-a, como se houvesse ali qualquer pacto silencioso a selar-se na pele - e saímos sem destino, que é sempre a forma mais honesta de descobrir uma cidade e, por vezes, uma pessoa.

Montpellier abriu-se diante de nós. Entrámos em L’Écusson como quem atravessa o corpo de um velho romance: ruas estreitas, medievais, de pedra gasta e sombras cúmplices, varandas inclinadas para escutar confissões, lojas com montras indecentemente bonitas, cafés onde o tempo se servia em chávenas pequenas e demoradas, e restaurantes a cheirar a vinho, manteiga e pecado civilizado. Havia qualquer coisa de sensual naquele labirinto de pedra - uma voluptuosidade discreta, quase irónica, como se a cidade soubesse exatamente o efeito que causava e se divertisse com isso.


Penélope caminhava ao meu lado com a leveza de quem nunca pertence inteiramente a lugar nenhum. O cabelo azul, insolente e improvável, feria a luz com uma elegância quase ofensiva; os olhos, dessa cor indecisa entre o mar e a promessa, observavam tudo com a curiosidade felina de quem não vê monumentos, vê possibilidades. E eu, que até então me habituara à minha própria companhia como se fosse castigo e método, estranhava aquele milagre simples: já não pensava sozinho.

Seguimos depois até à Promenade du Peyrou, onde a cidade se ergue para se contemplar a si própria com a vaidade merecida das coisas belas. Lá em cima, o mundo parecia mais claro, mais legível, mais suportável. O Arco do Triunfo erguia-se com a pompa de quem ainda acredita na glória; o Aqueduto Saint-Clément cortava o horizonte com a serenidade de uma obra que não precisa de explicar a sua utilidade para justificar a sua beleza. Ficámos ali algum tempo, encostados ao parapeito, em silêncio, vendo a tarde inclinar-se devagar sobre os telhados e sobre nós. Há silêncios que pesam. Aquele não. Aquele pousava.

Na Catedral de Saint-Pierre, o ar mudou. As pedras impunham respeito, e não era pela idade. Era pela memória. A entrada, monumental e estranha, tinha qualquer coisa de fortaleza e de mistério, como se Deus ali tivesse exigido arquitetura à altura do seu ego. Entrámos. O fresco das naves envolveu-nos de imediato, e por instantes até o ruído dos pensamentos pareceu indecoroso. Penélope olhou em volta com um recolhimento raro, quase terno. Havia nela uma irreverência elegante, mas também essa delicadeza inesperada diante do que resiste ao tempo. Sorri. Até os espíritos livres se curvam perante certas grandezas - nem que seja apenas por estética.

Terminámos o dia no Jardin des Plantes, esse antigo refúgio botânico onde a França decidiu, séculos atrás, organizar a beleza e dar-lhe nomes latinos. Caminhámos entre árvores centenárias, aromas húmidos, sombras vegetais e o rumor manso das folhas, como se o jardim respirasse por nós. A luz, já morna e oblíqua, dourava-lhe a pele e acendia no azul do cabelo reflexos quase sobrenaturais. Por um instante, Penélope pareceu menos mulher do que aparição - dessas que surgem em mitologias marítimas para arruinar homens sensatos. Felizmente, eu nunca tive grande vocação para a sensatez.

Regressámos ao hotel a passos lentos, embalados por esse cansaço bom que só chega depois de um dia plenamente vivido. Subimos ao quarto, refrescámo-nos, vestimos roupa leve, quase íntima sem o ser, e combinámos encontrar-nos no bar. O apetite era pouco, o que me pareceu um excelente sinal: há noites em que a fome muda de nome.

O bar recebia-nos com luz baixa, música suficiente para envolver sem interromper, copos que brilhavam com a modéstia sofisticada dos lugares que sabem exatamente o que são. Pedimos qualquer coisa para petiscar, mais por cortesia social do que por necessidade, e deixámo-nos ficar. Conversámos longamente - e com essa perigosa facilidade que só existe entre duas pessoas que ainda não se prometeram nada, mas já começaram a falhar ao próprio cinismo.


Havia humor nas palavras dela, um humor afiado, quase cruel às vezes, como convém a quem já viu demasiado para se impressionar com pouco. Falava com ironia elegante, essa forma superior de inteligência que não precisa de levantar a voz para desmontar uma ilusão. Ríamo-nos com frequência, e isso surpreendeu-me. O sarcasmo, quando bem usado, é uma forma de intimidade: só se partilha com quem sabemos que entenderá o corte sem sangrar. A música ia mudando, a noite adensava-se, e Penélope tornava-se cada vez menos uma coincidência agradável e cada vez mais uma hipótese perigosa.

Foi então que lhe perguntei, com a casualidade estudada de quem finge desinteresse para esconder expectativa, quais eram os planos dela para os dias seguintes, se regressaria a Atenas, devolvendo-me ao velho hábito de conversar apenas comigo mesmo.

Ela baixou os olhos. Sorriu de lado. E depois, inclinando-se apenas o suficiente para transformar a resposta em segredo, disse: “Quero ir contigo até onde der.” Não foi uma frase. Foi uma chave. Companheira de viagem, pensei. E a ideia caiu em mim com o peso exato das revelações simples. Eu, que já estava cansado de falar comigo e receber sempre as mesmas respostas, tinha finalmente a possibilidade de trocar o monólogo pelo milagre imperfeito de um diálogo. E não um diálogo qualquer - mas aquele género raro, imprevisível, onde o outro não nos confirma: desafia-nos.

A noite prolongou-se mais do que devia, como tudo o que vale a pena e quase nada do que é sensato. Falámos até a música se tornar distante, até os copos vazios começarem a parecer objetos filosóficos, até o cansaço se transformar nessa embriaguez lúcida que só as boas conversas concedem. Houve momentos de silêncio cheios, olhares demorados, uma proximidade que já não precisava de pretextos. Quando subimos, já tarde, levávamos connosco esse estado raro de exaustão feliz - o corpo cansado, a mente desperta, o coração perigosamente inclinado para o improvável.

À porta do quarto, ela aproximou-se, pousou dois dedos no meu pulso como quem testa a febre de um destino, e sorriu com aquela expressão indecifrável que as mulheres e o mar partilham com irritante mestria: dorme- murmurou. Amanhã temos montanhas. E foi talvez a frase mais sedutora da noite.

Fechei a porta com um sorriso que já não me lembrava de saber usar. Do outro lado esperava-me um quarto. Do lado de dentro, uma vertigem. Andorra deixara de ser apenas um destino no mapa. Tornara-se promessa.

https://www.youtube.com/watch?v=8AEqUWtuiz8&list=RD8AEqUWtuiz8&index=1

E adormeci com essa estranha alegria dos homens que, depois de muito tempo a fugir sem companhia, descobrem enfim o luxo imprevisível de ter alguém ao lado para se desafiar.

 

Diário de uma viagem – 137 dia 

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