Uma amizade genuína entre homem e mulher pode oferecer o que tantas relações românticas perdem: oxigénio.
Ainda o sol não tinha rasgado a noite e eu já estava desperto, com a estranha euforia dos homens que acordam como se tivessem sido devolvidos à juventude por engano - ou por capricho de algum deus entediado. Havia em mim uma eletricidade rara, um pressentimento absurdo e quase infantil de que Montpellier me esperava com as mãos cheias de surpresas. Daquelas surpresas indecentes, improváveis, quase ofensivas à lógica. Das que não pedimos, não planeamos, não merecemos - e, por isso mesmo, são as únicas verdadeiramente memoráveis. O destino, quando decide brincar, tem um humor de péssimo gosto e uma pontaria impecável.
Na
véspera, Penélope telefonou-me. A grega de cabelo azul e olhos cor do mar
inquieto, médica na área de medicina de Infetologia, que conheci em Turim entre
conversas improváveis, vinho honesto e silêncios perigosos. A mulher que me
fizera acreditar que certos encontros não pertencem à biografia, mas à mitologia.
Perguntou-me, com aquela voz de veludo ligeiramente rouco, pelos detalhes da
minha viagem, os horários, o hotel, os dias. Uma curiosidade demasiado
minuciosa para ser inocente. Desliguei com a suspeita acesa e aquela sensação
antiga, tão masculina e tão ridícula, de quem percebe que há qualquer coisa no
ar e finge não perceber para saborear melhor a surpresa.
Tomei
um banho demorado, frio o suficiente para despertar o corpo e perigoso o
bastante para acordar memórias. Depois desci à liturgia mais confiável do
mundo: o aroma de café forte e o perfume indecentemente sedutor do pão acabado
de sair do forno. Crosta estaladiça, miolo quente, manteiga a derreter com a
sensualidade obscena de tudo o que é simples e perfeito. Há prazeres que não
precisam de poesia; bastam-se a si mesmos. O resto é vaidade literária.
Mochila
às costas, sapatilhas no chão, a disposição de quem vai conquistar uma cidade
ou perder-se nela com elegância, passei pela receção para recolher um mapa. Um
gesto prudente e teatral: pedir um mapa para não me perder numa cidade onde,
secretamente, eu já me sentia deliciosamente perdido. Montpellier tem esse
efeito.
É
um refúgio romântico no sul de França, onde o passado se recusa a morrer e o
presente fingia que não se importar. As ruas estreitas do centro histórico
guardam a alma medieval com a vaidade discreta de uma mulher madura que sabe
exatamente o que vale e não precisa de o anunciar. Havia o dourado do sol
mediterrânico a escorrer pelas fachadas, o murmúrio das esplanadas, o rumor
elegante da cidade a respirar sem pressa, como quem conhece o valor da demora.
Montpellier não seduz- insinua-se. E isso, como em tudo o que vale a pena, é
muito mais perigoso.
Mapa
na mão, fui por aí, com a solenidade inútil dos exploradores urbanos e a
competência geográfica de um pombo embriagado. Lentamente, cheguei à Place de
la Comédie. O coração da cidade. Amplo, vibrante, quase teatral na sua própria
beleza. Uma das maiores zonas pedonais da Europa, viva de passos, vozes, luz e
promessa. A Ópera Comédie ergue-se com aquela arrogância arquitetónica
tipicamente francesa - bela, grandiosa, convencida de si. Em frente, a Fonte
das Três Graças exibe a sua graça mitológica com a tranquilidade insolente de
quem sabe que já foi desejada por séculos.
Foi
então que o telefone tocou. Atendi. Do outro lado, uma respiração breve. Depois
a voz. “Tirei uns dias de férias… e acabei de fazer check-in no hotel onde
estás. Apanhei um voo direto de Atenas.” Houve um silêncio. Não um silêncio
vazio. Um silêncio denso. Um desses silêncios que suspendem o tempo e fazem o
coração hesitar entre o espanto e a imprudência.
Era
Penélope. Penélope, que eu conhecera em Turim. Penélope, que me prometera um
reencontro no paraíso e faltara ao encontro no Lago de Como por causa da súbita
doença do pai. Penélope, que agora surgia em Montpellier como quem não
reaparece - acontece. Depois voltou a falar, e eu juro que consegui ouvi-la
sorrir. “Diz-me onde estás. Eu vou ter contigo. Prometi que não te perdia.”
Sentei-me
num banco para respirar, porque até os homens com alguma dignidade precisam
ocasionalmente de se sentar diante do inesperado. Enviei-lhe a localização por
GPS com a precisão neurótica de quem já aprendera que o romantismo é lindo, mas
a tecnologia evita tragédias logísticas.
Preparei-me
para esperar uma eternidade. O tipo de eternidade breve e ansiosa que dura
apenas minutos, mas envelhece um homem vários anos. “Cheguei.” A voz soou atrás
de mim. Virei-me. E ali estava ela. “Pensavas que ias esperar…, mas as saudades,
às vezes, fazem atalhos.” (risos)
Penélope.
Mais real do que a memória. Mais bela do que a saudade tinha permitido. Trazia
o cabelo azul ligeiramente rebelde, desalinhado com a precisão estudada das
mulheres que sabem exatamente o efeito da aparente desordem. O rosto limpo, a
pele dourada de sal e verão, o corpo de quem parecia viver em movimento, como
se a quietude lhe fosse uma forma menor de morte. Abraçou-me sem hesitação. E
não foi um abraço social, desses que as boas maneiras inventaram para disfarçar
a distância. Foi um abraço apertado, quente, inteiro. Um abraço com memória,
com fome, com atraso.
Senti-lhe
o perfume - caro, discreto, perigosamente bem escolhido. Qualquer coisa entre
madeira clara, pele aquecida e um segredo impronunciável. Afastou-se o
suficiente para me olhar, perto o bastante para me desarmar. “Antes de qualquer
filosofia… vamos almoçar. Não tomei o pequeno-almoço para não perder tempo.” E
fomos.
Seguimos
o instinto, que é uma forma elegante de chamar destino ao acaso, e entrámos no
primeiro restaurante que nos chamou pelo nariz. O aroma a carne grelhada
arrastou-nos para dentro como uma promessa primitiva. Havia naquele lugar a
honestidade robusta dos bons restaurantes franceses.
Sentámo-nos
como quem chega a um lugar onde já tinha sido esperado. Pedimos entrecôte
grelhada no ponto exato em que a carne deixa de ser alimento e se torna
argumento. Veio fumegante, marcada pelas brasas, com a superfície tostada a
guardar um interior rubro, tenro, obscenamente suculento.
Pedimos
um vinho tinto de Languedoc. Profundo, escuro, com notas de frutos negros,
especiarias e aquela gravidade terrosa que parece nascer de vinhas educadas
pelo sol e pela paciência. O primeiro gole não se bebeu - demorou-se. Tinha
corpo, tinha nervo, tinha aquele tipo de carácter que não se encontra em gente
excessivamente disponível. Penélope bebeu-o devagar, com a delicadeza estudada
de quem sabe que há gestos que também seduzem.
Depois
veio a sobremesa, e com ela a rendição. Uma tarte tatin morna, de maçãs
caramelizadas até ao ponto indecente da doçura, massa quebrada delicada, uma
colher de crème fraîche a derreter com a lentidão lasciva de tudo o que sabe exatamente
o efeito que provoca. Partilhámo-la com a intimidade silenciosa dos gestos que
parecem pequenos e nunca são.
E
foi aí que o almoço deixou de ser almoço. Colou-nos à mesa. O vinho
prolongou-se. A sobremesa demorou-se. A tarde desistiu de avançar. Falámos como
falam duas pessoas que já tinham começado uma conversa noutra cidade e noutro
tempo, e apenas a retomavam. Os olhos dela brilhavam com uma humidade doce,
vulnerável, luminosa. A voz amaciara. Havia nela qualquer coisa entre a coragem
e a vertigem.
“Sabes…
nunca senti tantas saudades de um amigo. Lembro-me de todas as nossas palavras
em Turim. Dos nossos silêncios. Dos toques das nossas mãos. Nunca me senti tão
liberta de tudo. Solta. Como se voasse. Como se estivesse suspensa num voo de
asa delta, sem medo de cair.”
Ficámos
em silêncio. Não por falta de resposta. Mas porque certas verdades, quando
chegam nuas, merecem espaço. Depois sorri. “Eu podia repetir cada uma das tuas
palavras…, mas tu já disseste tudo. E, convenhamos, não vamos começar a chorar
agora. Ainda por cima em França. Eles já têm dramatismo suficiente para todos. (risos)
Ela
riu. E no riso havia alívio, cumplicidade e qualquer coisa perigosamente
próxima de ternura. Depois falei. Falei de nós. Dela. De mim. Dos outros. Dos
milhões de outros. Dos que se encontram tarde. Dos que se reconhecem cedo
demais. Dos que vivem vidas inteiras ao lado de alguém sem nunca serem vistos. Dos
que tocam uma mão por acaso e sentem mais verdade nesse gesto do que em anos de
convivência domesticada. Dos que se resignam. Dos que se traem. Dos que trocam
o assombro pela estabilidade, a vertigem pela rotina, o desejo pela paz morna
de um afeto sem incêndio. Falei dessa gente toda - com a crueldade lúcida de
quem sabe que a maioria não vive: administra-se.
Penélope
ouvia-me com os olhos presos nos meus. E eu continuei, talvez porque o vinho
ajudava, talvez porque a verdade, quando encontra escuta, ganha coragem. Ela
sorriu devagar. Triste. Bela. Desarmada. Lá fora, Montpellier ardia mansa sob o
sol.
Há
um tribunal invisível a funcionar vinte e quatro horas por dia. Não tem
mármore, não tem juiz de toga, não tem martelo a bater na madeira - mas
sentencia com uma rapidez obscena. Funciona nos olhares enviesados, nas piadas
mastigadas à mesa, no arquejo moralista de quem vê um homem e uma mulher a rir
juntos e já lhes escreve um adultério em rascunho. Esse tribunal chama-se
sociedade. E uma das suas condenações favoritas é esta: se um homem e uma
mulher partilham intimidade emocional, então há desejo; se há ternura, há
perigo; se há escuta, há tentação; se há amizade, é apenas um romance
preguiçoso à espera de tirar a roupa.
É
uma suspeita antiga, bafienta, quase medieval - mas ainda desfila com perfume
moderno e telemóvel no bolso. Mudaram-se as roupas, não se mudaram os medos.
Continuamos sofisticados o suficiente para falar de inteligência emocional em
podcasts e primitivos o suficiente para desconfiar de uma amizade platónica
como quem fareja gasolina perto de uma vela.
E
talvez seja esse o primeiro escândalo: a sociedade aceita com mais facilidade a
promiscuidade do corpo do que a intimidade inocente da alma. Um homem e uma
mulher podem partilhar uma cama numa série e o público chama-lhe química. Mas
se partilham silêncio, confidência, lealdade, vulnerabilidade - ah, então algo
“estranho” se passa. Porque, para o imaginário social, o corpo pode ser casual;
a alma, nunca. O corpo é desculpável. A intimidade é suspeita.
No
fundo, o que escandaliza não é o erotismo. É a proximidade sem posse. A amizade
verdadeira entre géneros diferentes perturba porque desmonta uma das ficções
sociais mais rentáveis: a de que toda a intimidade entre homem e mulher tem de
obedecer à gramática do desejo. Como se a única linguagem possível entre dois
corpos diferentes fosse a da conquista. Como se um homem só pudesse admirar uma
mulher se a desejasse. Como se uma mulher só pudesse confiar num homem se,
algures, o erotismo estivesse a ensaiar entrada. Como se ternura sem erotização
fosse um erro de sistema.
Mas
não é. É maturidade. E talvez por isso incomode tanto. A amizade platónica
entre homem e mulher é uma forma sofisticada de intimidade - e a sofisticação
assusta sempre os espíritos mais rudimentares. Exige contenção sem repressão.
Exige afeto sem apropriação. Exige presença sem invasão. Exige linguagem
emocional sem o velho vício da conquista. E isso é profundamente subversivo
numa cultura que ainda educa homens para desejar e mulheres para desconfiar.
A
sociedade desconfia da amizade platónica entre homens e mulheres porque ela
desafia dois pilares antigos: o da posse e o da simplificação. A posse diz: se
te amo, devo ter exclusividade sobre a tua intimidade. A simplificação diz: se
há intimidade, há sexo. Ambas são intelectualmente pobres. Ambas emocionalmente
preguiçosas. Ambas perigosamente normalizadas.
É
aqui que o ciúme entra, não como prova de amor - esse mito romântico que já
devia ter sido enterrado com honras discretas - mas como sintoma de insegurança
com boa publicidade. O ciúme raramente é sobre o outro. É sobre o medo de não
bastar. Sobre o pânico de ser substituível. Sobre a humilhação antecipada de
imaginar que alguém, algures, pode compreender melhor quem amamos. E poucas
coisas ameaçam mais um ego inseguro do que alguém que conhece o nosso parceiro
sem o possuir. Porque o desejo pode ser combatido; a conexão, essa, é mais
difícil de vigiar.
É
por isso que tantos relacionamentos criam regras rígidas disfarçadas de
respeito: “não precisas de falar tanto com ele”, “não vejo necessidade dessa
proximidade”, “não gosto que lhe contes certas coisas”, “amizades assim
confundem”. Traduzindo do dialeto da insegurança: não confio na tua autonomia,
não confio na minha relevância, e prefiro controlar o risco a desenvolver
confiança.
O
problema é que controlo nunca foi intimidade. Foi sempre medo com vocabulário de
autoridade. E assim regressamos, elegantemente vestidos de modernidade, a
modelos antigos: a mulher vigiada, o homem territorial, a amizade filtrada pela
suspeita, a liberdade emocional negociada como se fosse cláusula contratual.
Chamam-lhe maturidade relacional. Muitas vezes é apenas patriarcado reciclado
com melhor iluminação.
O
medo da traição alimenta esta arquitetura. E é compreensível: ser traído não
fere apenas o amor; fere o narcisismo, a perceção, a identidade, a ideia que
tínhamos da realidade. A traição não dói apenas porque alguém foi embora - dói
porque alguém nos obrigou a rever o mapa. Mas transformar esse medo em política
preventiva é uma forma trágica de covardia emocional. Quem teme tanto a
possibilidade de perder começa a amputar, preventivamente, tudo o que poderia
enriquecer a relação.
E
assim se empobrecem vidas em nome da proteção. As pessoas têm cada vez menos
amigos. Não é uma impressão melancólica; é uma erosão silenciosa. A vida adulta
tornou-se um território de agendas, fadiga, sobrevivência e vínculos
utilitários. Há menos tempo, menos disponibilidade, menos coragem para
sustentar intimidade sem função. A amizade - sobretudo a amizade profunda,
paciente, não performativa - tornou-se quase um luxo. E ainda assim continuamos
a tratá-la como ameaça, precisamente quando mais precisamos dela.
Talvez
uma das ironias mais cruéis da vida adulta seja esta: exigimos que o amor
romântico sustente tudo aquilo que antes era distribuído por uma aldeia
emocional inteira. Queremos que um parceiro seja amante, melhor amigo,
confidente, cúmplice, terapeuta, espelho, porto, aventura, abrigo, humor, colo
e milagre. Depois espantamo-nos quando a estrutura cede. Nenhum amor sobrevive
intacto ao peso de ter de ser tudo.
É
por isso que amizades importam. E importam ainda mais quando são livres da
lógica predatória. Uma amizade genuína entre homem e mulher pode oferecer um
tipo de espelho raro: menos narcísico, menos teatral, menos condicionado pelos
papéis clássicos da sedução. Pode ensinar escuta sem performance. Cuidado sem
cálculo. Presença sem exigência. Pode oferecer o que tantas relações românticas
perdem: oxigénio.
Mas
a cultura pop fez um excelente trabalho em sabotar essa possibilidade. Décadas
de filmes, séries e narrativas ensinaram-nos a mesma lição, repetida até
parecer verdade: “homens e mulheres não podem ser amigos”. Se se dão bem, vão
acabar na cama. Se partilham vulnerabilidade, o beijo é inevitável. Se há
química intelectual, o argumento exige tensão sexual. Hollywood nunca viu duas
pessoas emocionalmente compatíveis sem lhes arrancar a roupa ao terceiro ato. E
o público, coitado, habituou-se à pobreza simbólica. A ficção romantizou tanto
a inevitabilidade do desejo que deseducou a imaginação para a beleza da
contenção. Mas a vida real, felizmente, é mais complexa e mais elegante do que
um argumento preguiçoso.
Homens
e mulheres podem procurar coisas diferentes nas amizades, sim - e isso não é
ameaça, é riqueza. Em termos gerais, muitas mulheres tendem a cultivar amizades
mais verbalizadas, mais emocionalmente explícitas, mais assentes na partilha
íntima. Muitos homens, por socialização, tendem a formas mais laterais de
vínculo: presença prática, humor, lealdade tácita, afeto menos discursivo. Não
são essências biológicas; são hábitos aprendidos. E precisamente por isso, a
amizade entre géneros pode ser um laboratório extraordinário de expansão
emocional. Homens aprendem novas gramáticas de vulnerabilidade. Mulheres
experimentam formas menos exaustivas de presença. Ambos ganham léxico interior.
E
há ainda a glória discreta da amizade de baixa manutenção - essa forma adulta,
quase sagrada, de amor sem cobrança. Não exige presença diária, não dramatiza
ausências, não contabiliza silêncios. Sobrevive ao tempo, ao caos, às estações.
É a amizade que não precisa de performance para continuar viva. A amizade que
entende que amar alguém também é saber deixá-lo respirar.
Talvez
seja isso que tantas relações românticas não suportam: a ideia de que há amor
sem posse, intimidade sem exclusividade, lealdade sem clausura. Mas é precisamente
aí que está o futuro. Precisamos de novos modelos de intimidade. Modelos em que
confiança não seja vigilância sofisticada. Em que fidelidade não signifique
monopólio emocional. Em que maturidade não seja controlo com boas maneiras. Em
que amar alguém não implique reduzir-lhe o mundo para aliviar a própria
insegurança.
Reconstruir
a confiança social exige uma revolução menos ruidosa e mais difícil: a de
aceitar que a intimidade não pertence exclusivamente ao erotismo. Que existem
afetos profundos que não pedem consumação. Que há encontros que não querem
posse. Que duas pessoas podem reconhecer-se, tocar-se na linguagem, salvar-se
no afeto, e ainda assim não querer possuir-se.
É
preciso ensinar isto cedo: que nem toda a ternura é sedução. Que nem toda a
escuta é flerte. Que nem toda a proximidade é prelúdio. Que maturidade
emocional é saber distinguir desejo de vínculo, atração de reconhecimento,
posse de presença. E talvez, quando finalmente crescermos o suficiente para
aceitar isso, descubramos o óbvio que durante séculos nos escapou com a
subtileza cruel das coisas simples: que ser amigo é uma das formas mais raras
de amor.
Porque
ser amigo não é querer. É compreender. É ver os sinais, entender as palavras e
escutar o silêncio. E há intimidades que nunca precisaram de um corpo para
serem absolutamente inesquecíveis.
Depois
levantámo-nos devagar, como quem regressa de um sonho e ainda desconfia da
solidez do chão. Colei a mão dela à minha - não a segurei, colei-a, como se
houvesse ali qualquer pacto silencioso a selar-se na pele - e saímos sem
destino, que é sempre a forma mais honesta de descobrir uma cidade e, por
vezes, uma pessoa.
Montpellier
abriu-se diante de nós. Entrámos em L’Écusson como quem atravessa o corpo de um
velho romance: ruas estreitas, medievais, de pedra gasta e sombras cúmplices,
varandas inclinadas para escutar confissões, lojas com montras indecentemente
bonitas, cafés onde o tempo se servia em chávenas pequenas e demoradas, e
restaurantes a cheirar a vinho, manteiga e pecado civilizado. Havia qualquer
coisa de sensual naquele labirinto de pedra - uma voluptuosidade discreta,
quase irónica, como se a cidade soubesse exatamente o efeito que causava e se
divertisse com isso.
Penélope
caminhava ao meu lado com a leveza de quem nunca pertence inteiramente a lugar
nenhum. O cabelo azul, insolente e improvável, feria a luz com uma elegância
quase ofensiva; os olhos, dessa cor indecisa entre o mar e a promessa,
observavam tudo com a curiosidade felina de quem não vê monumentos, vê
possibilidades. E eu, que até então me habituara à minha própria companhia como
se fosse castigo e método, estranhava aquele milagre simples: já não pensava
sozinho.
Seguimos
depois até à Promenade du Peyrou, onde a cidade se ergue para se contemplar a
si própria com a vaidade merecida das coisas belas. Lá em cima, o mundo parecia
mais claro, mais legível, mais suportável. O Arco do Triunfo erguia-se com a
pompa de quem ainda acredita na glória; o Aqueduto Saint-Clément cortava o
horizonte com a serenidade de uma obra que não precisa de explicar a sua
utilidade para justificar a sua beleza. Ficámos ali algum tempo, encostados ao
parapeito, em silêncio, vendo a tarde inclinar-se devagar sobre os telhados e
sobre nós. Há silêncios que pesam. Aquele não. Aquele pousava.
Na
Catedral de Saint-Pierre, o ar mudou. As pedras impunham respeito, e não era
pela idade. Era pela memória. A entrada, monumental e estranha, tinha qualquer
coisa de fortaleza e de mistério, como se Deus ali tivesse exigido arquitetura
à altura do seu ego. Entrámos. O fresco das naves envolveu-nos de imediato, e
por instantes até o ruído dos pensamentos pareceu indecoroso. Penélope olhou em
volta com um recolhimento raro, quase terno. Havia nela uma irreverência
elegante, mas também essa delicadeza inesperada diante do que resiste ao tempo.
Sorri. Até os espíritos livres se curvam perante certas grandezas - nem que
seja apenas por estética.
Terminámos
o dia no Jardin des Plantes, esse antigo refúgio botânico onde a França
decidiu, séculos atrás, organizar a beleza e dar-lhe nomes latinos. Caminhámos
entre árvores centenárias, aromas húmidos, sombras vegetais e o rumor manso das
folhas, como se o jardim respirasse por nós. A luz, já morna e oblíqua,
dourava-lhe a pele e acendia no azul do cabelo reflexos quase sobrenaturais.
Por um instante, Penélope pareceu menos mulher do que aparição - dessas que
surgem em mitologias marítimas para arruinar homens sensatos. Felizmente, eu
nunca tive grande vocação para a sensatez.
Regressámos
ao hotel a passos lentos, embalados por esse cansaço bom que só chega depois de
um dia plenamente vivido. Subimos ao quarto, refrescámo-nos, vestimos roupa
leve, quase íntima sem o ser, e combinámos encontrar-nos no bar. O apetite era
pouco, o que me pareceu um excelente sinal: há noites em que a fome muda de
nome.
O
bar recebia-nos com luz baixa, música suficiente para envolver sem interromper,
copos que brilhavam com a modéstia sofisticada dos lugares que sabem exatamente
o que são. Pedimos qualquer coisa para petiscar, mais por cortesia social do
que por necessidade, e deixámo-nos ficar. Conversámos longamente - e com essa
perigosa facilidade que só existe entre duas pessoas que ainda não se
prometeram nada, mas já começaram a falhar ao próprio cinismo.
Havia
humor nas palavras dela, um humor afiado, quase cruel às vezes, como convém a
quem já viu demasiado para se impressionar com pouco. Falava com ironia elegante,
essa forma superior de inteligência que não precisa de levantar a voz para
desmontar uma ilusão. Ríamo-nos com frequência, e isso surpreendeu-me. O
sarcasmo, quando bem usado, é uma forma de intimidade: só se partilha com quem
sabemos que entenderá o corte sem sangrar. A música ia mudando, a noite
adensava-se, e Penélope tornava-se cada vez menos uma coincidência agradável e
cada vez mais uma hipótese perigosa.
Foi
então que lhe perguntei, com a casualidade estudada de quem finge desinteresse
para esconder expectativa, quais eram os planos dela para os dias seguintes, se
regressaria a Atenas, devolvendo-me ao velho hábito de conversar apenas comigo
mesmo.
Ela
baixou os olhos. Sorriu de lado. E depois, inclinando-se apenas o suficiente
para transformar a resposta em segredo, disse: “Quero ir contigo até onde der.”
Não foi uma frase. Foi uma chave. Companheira de viagem, pensei. E a ideia caiu
em mim com o peso exato das revelações simples. Eu, que já estava cansado de
falar comigo e receber sempre as mesmas respostas, tinha finalmente a
possibilidade de trocar o monólogo pelo milagre imperfeito de um diálogo. E não
um diálogo qualquer - mas aquele género raro, imprevisível, onde o outro não
nos confirma: desafia-nos.
A
noite prolongou-se mais do que devia, como tudo o que vale a pena e quase nada
do que é sensato. Falámos até a música se tornar distante, até os copos vazios
começarem a parecer objetos filosóficos, até o cansaço se transformar nessa
embriaguez lúcida que só as boas conversas concedem. Houve momentos de silêncio
cheios, olhares demorados, uma proximidade que já não precisava de pretextos.
Quando subimos, já tarde, levávamos connosco esse estado raro de exaustão feliz
- o corpo cansado, a mente desperta, o coração perigosamente inclinado para o
improvável.
À
porta do quarto, ela aproximou-se, pousou dois dedos no meu pulso como quem
testa a febre de um destino, e sorriu com aquela expressão indecifrável que as
mulheres e o mar partilham com irritante mestria: dorme- murmurou. Amanhã temos
montanhas. E foi talvez a frase mais sedutora da noite.
Fechei
a porta com um sorriso que já não me lembrava de saber usar. Do outro lado
esperava-me um quarto. Do lado de dentro, uma vertigem. Andorra deixara de ser
apenas um destino no mapa. Tornara-se promessa.
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E
adormeci com essa estranha alegria dos homens que, depois de muito tempo a
fugir sem companhia, descobrem enfim o luxo imprevisível de ter alguém ao lado
para se desafiar.








