Estamos preparados para uma nova pandemia?



E o despertador tocou na hora exata em que foi programado. Nem um segundo antes, nem um segundo depois. Um carrasco suíço teria menos pontualidade. Mas nenhum de nós estava preparado para acordar. Havia uma espécie de conspiração silenciosa entre o corpo e a alma para fingirmos que o mundo lá fora não existia. As pestanas estavam coladas como duas páginas húmidas de um livro abandonado à chuva, e os músculos pareciam ter sido substituídos por chumbo derretido durante a noite.

O tempo, esse amigo impiedoso que nos sorri enquanto nos empurra para o precipício das horas, não nos concede tréguas. Levantámo-nos com a dignidade trágica de dois náufragos resgatados demasiado cedo. O chão frio do quarto foi o primeiro insulto da manhã.

Arrastámo-nos até ao duche enquanto a luz nos feria os olhos com a violência de um interrogatório policial. Há qualquer coisa de profundamente humilhante em tentar parecer humano às 8 da manhã, depois de uma noite mal dormida. Penélope parecia uma poetisa russa ressuscitada à força depois de uma noite de vodka e existencialismo. Eu devia ter o aspeto de um profeta decadente que perdera a fé e a escova de cabelo na mesma manhã.

Depois veio a água. Gelada. Cruel. Uma agressão líquida. O primeiro jato atingiu-nos como uma revelação divina administrada por um carrasco nórdico. O corpo enrijeceu numa coreografia grotesca; cada nervo despertou aos gritos. Tenho quase a certeza de que ouvi os meus ancestrais protestarem dentro do ADN. Penélope soltou um som indefinível entre um grito de guerra celta e o lamento de uma gaivota atropelada. Durante alguns segundos, deixámos de ser seres humanos sofisticados para nos transformarmos em criaturas primitivas, traumatizadas e molhadas.

Mas foi precisamente ali, naquele choque brutal entre a água fria e a pele adormecida, que os sentidos regressaram. Lentamente. Como soldados cansados voltando de uma guerra invisível. Ainda assim, a verdadeira ressurreição aconteceu apenas no pequeno-almoço do hotel.

Antes de tudo, bebemos a água morna com limão em jejum. Um ritual quase religioso. O ácido cítrico acordou-nos por dentro enquanto o corpo absorvia aquela primeira promessa de vida. Há qualquer coisa de profundamente otimista em beber água com limão logo pela manhã. É como dizer ao organismo: “Vamos tentar outra vez.” Hidrata o corpo depois do sono, oferece vitamina C, reorganiza silenciosamente o caos interno.

Os funcionários divertiam-se connosco. Talvez pela nossa boa disposição absurda àquela hora. Talvez porque o cansaço nos tornara perigosamente sinceros. Penélope, ainda meio despenteada, insistia em cumprimentar toda a gente com um entusiasmo diplomático digno de uma candidata à presidência de um país tropical.

Depois, subimos novamente ao quarto para recolher as malas. Mas antes de partir, abri o computador para espreitar as notícias de Portugal e do mundo. Um hábito inevitável, quase masoquista. Procuramos sempre compreender o incêndio enquanto seguramos fósforos nas mãos.

Foi então que li sobre o regresso do vírus Ébola. Depois de uma ausência silenciosa, quase fantasmagórica, voltava a surgir nas manchetes internacionais. Um surto da rara estirpe Bundibugyo espalhava-se pela República Democrática do Congo e já atravessara fronteiras até ao Uganda. Febres hemorrágicas severas. Hemorragias internas. Falência múltipla de órgãos. Taxas de letalidade capazes de transformar aldeias inteiras em lugares assombrados pela ausência.


E o mais perturbador era o silêncio anterior à deteção. Meses. Talvez mais. O vírus a circular invisivelmente numa região já esmagada pela pobreza, pelos conflitos e pela fragilidade das infraestruturas de saúde. Sempre os conflitos. Sempre os mesmos abutres sobre corpos diferentes. Fechei o computador.

Penélope já esperava junto à porta, de braços cruzados, ansiosa por desbravar a estrada até Londres. Havia nela aquela inquietação bonita das pessoas que sentem o mundo como uma aventura permanente. Sorriu-me sem fazer perguntas. Às vezes a amizade está precisamente nisso: alguém compreender o peso do teu silêncio sem exigir tradução.

A estrada abriu-se diante de nós como um longo romance inglês escrito em tons verdes. As pequenas povoações sucediam-se com uma delicadeza quase irreal. Casas de pedra cobertas de hera. Jardins impecáveis onde flores pareciam colocadas por pintores obsessivos. Pequenas igrejas antigas surgiam entre colinas suaves como sentinelas cansadas do tempo.

No carro, um jazz suave preenchia os espaços entre os pensamentos. Trompetes lentos. Piano discreto. Música para estradas longas e almas inquietas. Foi então que Penélope perguntou, quase num sussurro: “É preocupante?” E houve silêncio. Há sempre um silêncio causticante antes das possíveis catástrofes humanas. Um silêncio pesado, quase físico. Como se o mundo sustivesse a respiração por um instante.

Partilhei o que tinha lido: que não existia ainda vacina ou tratamento aprovado especificamente para aquela variante. Que a Organização Mundial da Saúde declarara emergência de saúde pública internacional. Que o Ébola se transmite através do contacto direto com fluidos corporais de pessoas infetadas ou animais selvagens. Que a rapidez da resposta médica determina, muitas vezes, a fronteira entre a vida e a morte.

Mas o problema nunca é apenas o vírus. Os vírus revelam-nos. Mostram as fraturas morais da civilização. Até quando permitiremos que o solo africano sangre sob a bota de uma hipocrisia global sem limites? É revoltante observar como um continente tão vasto, tão rico em recursos, continua condenado a ser retratado através da fome, da doença e da guerra. Como é possível existir tanta riqueza enterrada no chão e tanta miséria à superfície?

Enquanto os países ricos pilham ouro, diamantes, coltan e petróleo com uma sofisticação quase elegante, milhões permanecem abandonados a uma existência sem dignidade. E a culpa é partilhada. Asquerosamente partilhada.

De um lado, o neocolonialismo económico que drena recursos enquanto distribui discursos humanistas em conferências climatizadas. Do outro, dirigentes corruptos que vendem o próprio povo por contas bancárias no estrangeiro, transformando nações inteiras em negócios privados alimentados por sangue.

É intolerável. Em pleno século XXI, continuamos a assistir à exploração de África como quem observa chuva através de uma janela confortável. O mundo lucra com a agonia alheia enquanto finge espanto perante as consequências.

E talvez a pior doença não seja o Ébola. Talvez seja a indiferença. Talvez seja esta capacidade monstruosa de normalizar o sofrimento distante desde que o supermercado continue abastecido e o combustível permaneça barato.

Ainda guardamos na memória o silêncio das ruas. As janelas fechadas. Os abraços suspensos no ar como promessas adiadas. O som das ambulâncias tornou-se parte da rotina e, durante meses, aprendemos a contar o tempo entre boletins de mortes e esperanças frágeis.


A pandemia da COVID-19 deixou marcas invisíveis. Não apenas nos hospitais ou na economia, mas dentro das pessoas. Houve quem perdesse familiares sem direito a despedida. Houve crianças que cresceram a conhecer o medo antes da liberdade. Houve idosos que morreram olhando para rostos escondidos atrás de máscaras. E houve também um cansaço coletivo que nunca desapareceu completamente.

Mas a pergunta continua suspensa sobre o mundo como uma nuvem pesada: estamos preparados para uma nova pandemia? Talvez tenhamos mais tecnologia. Mais vacinas. Mais conhecimento científico. Contudo, será que nos tornámos mais humanos? Mais solidários? Mais conscientes da fragilidade da vida?

Uma nova pandemia poderá não atingir apenas os pulmões. Poderá atingir a confiança, a estabilidade emocional, a capacidade de convivermos uns com os outros. Porque depois da última crise ficaram feridas profundas: ansiedade, solidão, descrença em certas instituições e um sentimento silencioso de vulnerabilidade permanente.

E se a próxima pandemia fosse ainda mais devastadora? Se o número de perdas humanas ultrapassasse aquilo que julgávamos suportável? Seríamos resilientes ou voltaríamos a cair no caos, na divisão, no egoísmo e no medo?

Existe também uma questão incómoda, quase dolorosa: como reagiríamos se soubéssemos que essa tragédia surgiu por negligência política, por interesses económicos ou por incúria de quem tinha o dever de proteger populações?

Talvez fosse essa a ferida mais difícil de aceitar. Porque uma catástrofe natural provoca sofrimento. Mas uma tragédia evitável provoca revolta. A ideia de que milhões de vidas poderiam ter sido poupadas transforma o luto em indignação. E nenhum povo permanece sereno quando sente que foi abandonado pelos próprios líderes. A serenidade nasce da confiança. E a confiança morre quando a verdade chega tarde demais.

Mesmo assim, talvez exista algo que a humanidade aprendeu: a fragilidade aproxima-nos. Nos momentos mais escuros houve médicos exaustos que continuaram a lutar, vizinhos que deixaram comida à porta de desconhecidos, famílias que descobriram o valor de um simples toque, de uma conversa, de uma presença.

Talvez a verdadeira preparação para uma nova pandemia não esteja apenas nos laboratórios ou nos planos de emergência. Talvez esteja na nossa capacidade de preservar humanidade quando tudo à volta ameaça desmoronar.

Porque no fim, quando o medo atravessa continentes e o silêncio invade cidades inteiras, o que salva o ser humano não é apenas a ciência. É a compaixão. É a memória. É a coragem de continuar a olhar uns pelos outros, mesmo diante da possibilidade da perda. E talvez seja precisamente aí que se mede a verdadeira resiliência de um povo.


Mas, uma outra questão impõe-se, quase como um eco desconfortável daquilo que vivemos recentemente: estaremos preparados para não repetir os mesmos erros políticos, sociais e humanos? Porque as pandemias não revelam apenas fragilidades da saúde pública. Revelam também fragilidades morais.

Durante os períodos de maior sofrimento surgem sempre dois rostos da humanidade. Há quem cuide, quem proteja, quem arrisque a própria vida pelos outros. Mas há também quem veja na tragédia uma oportunidade. Oportunidade de lucro. De influência. De poder. Como se o medo coletivo pudesse ser transformado num negócio silencioso.

Enquanto famílias choravam perdas irreparáveis, houve interesses económicos a prosperar no meio do caos. Houve disputas políticas em vez de união. Houve decisões tardias, contradições, jogos de imagem e discursos construídos mais para proteger reputações do que vidas humanas.

E isso deixa uma pergunta amarga: seremos capazes de agir de forma diferente numa próxima crise? Talvez a verdadeira preparação não esteja apenas em hospitais equipados ou reservas estratégicas de medicamentos. Talvez esteja na ética das decisões. Na transparência dos governantes. Na coragem de colocar a dignidade humana acima dos interesses financeiros. Porque uma sociedade perde parte da sua alma quando a dor coletiva é usada como moeda de oportunidade.

É perturbador imaginar que, perante uma nova ameaça global, ainda existam pessoas capazes de olhar para a escassez, para o medo e para a morte como um mercado promissor. Como se cada máscara, cada vacina, cada recurso essencial pudesse transformar-se apenas num cálculo económico.

Nesses momentos, a pandemia deixa de ser apenas biológica. Torna-se moral. E talvez seja precisamente aí que reside o maior perigo: não no vírus em si, mas na incapacidade humana de aprender com o sofrimento vivido.

Se não formos capazes de construir memória coletiva, de exigir responsabilidade política e de defender valores humanos acima da ganância, então estaremos vulneráveis novamente - não apenas a uma nova doença, mas aos mesmos erros que ampliam qualquer tragédia. A História mostra-nos que os povos sobrevivem às epidemias. O difícil é sobreviver à indiferença, ao oportunismo e à erosão da confiança humana.

Ficámos algum tempo em silêncio depois disso. Apenas o jazz continuava. E a estrada. Até que chegámos a Maidstone, capital do condado de Kent, o célebre “Jardim de Inglaterra”. A cidade parecia saída de um velho postal esquecido entre páginas de um romance antigo. Havia qualquer coisa de sereno nos seus edifícios históricos, nas pontes elegantes e na forma como os rios Medway e Len cortavam a paisagem com uma tranquilidade quase terapêutica.

E foi precisamente junto ao rio Medway que encontrámos um pequeno restaurante simpático para uma refeição leve. A água corria devagar, indiferente às tragédias humanas, aos vírus, às guerras, às fronteiras e às ambições. Talvez os rios saibam algo que nós ainda não compreendemos: que o mundo continua sempre a avançar, mesmo carregando dentro de si toda a beleza e toda a podridão da humanidade.


Depois do almoço ainda seguramos o tempo para espreitar a cidade, como quem tenta negociar com o relógio um pequeno milagre clandestino. Maidstone ficava a cerca de uma hora de Londres, mas naquele dia parecia existir num fuso horário próprio, suspenso entre a despedida e a ilusão de eternidade. Amanhã, ao final da tarde, Penélope partiria para Atenas e, talvez por isso, ambos caminhávamos com a delicadeza de quem segura um copo de cristal cheio até à borda. Nenhum de nós dizia, mas sentíamos: o tempo começava a tornar-se um inimigo educado.

Visitámos o Maidstone Museum. O edifício, uma magnífica mansão elisabetana, parecia saído de um romance inglês onde toda a gente esconde um segredo e bebe chá para disfarçar tragédias familiares. As paredes respiravam história. Havia dinossauros, arte japonesa, corredores silenciosos e aquele cheiro estranho dos museus antigos - uma mistura de madeira envelhecida, pó aristocrático e memórias que ninguém teve coragem de deitar fora.

O velho Iguanodon, “Iggy”, observava-nos com a serenidade de quem sobreviveu cento e vinte e cinco milhões de anos apenas para testemunhar turistas cansados e casais emocionalmente confusos. O brasão da cidade ostentava o dinossauro com orgulho. Achei aquilo admirável. Só os ingleses conseguem transformar um fóssil numa espécie de mascote municipal sem que ninguém ache estranho. Talvez porque, no fundo, o Reino Unido inteiro vive elegantemente agarrado ao passado.

Enquanto caminhávamos entre vitrines e relíquias, comecei a notar que Penélope se aproximava mais de mim. Tocava-me o braço sem motivo. Encostava-se subtilmente ao meu ombro. Abraçava-me como quem teme que o mundo possa roubar-lhe alguma coisa importante sem aviso prévio. À medida que o tempo diminuía, ela parecia mais carente de presença, mais faminta de pele, mais necessitada daquele tipo raro de silêncio confortável que só acontece quando duas pessoas deixam de tentar impressionar-se.

Depois seguimos até ao Kent Life. A quinta histórica tinha qualquer coisa de encantadoramente simples. Animais de quinta, pomares, casas rurais preservadas com um carinho quase obsessivo. O campo inglês possui uma beleza melancólica.

“Um dia, quando a vida me permitir, gostava de viver no campo...” - sussurrou-me ao ouvido, numa voz baixa, quase infantil, pedindo aprovação sem admitir que a pedia. Sorri. “Tu sobreviverias três dias. Depois reclamavas da internet lenta, da lama nos sapatos e da ausência do barulho da cidade.” Ela riu-se. “Talvez. Mas ao menos morreria feliz entre flores e galinhas emocionalmente estáveis.” E naquele instante percebi uma coisa curiosa: o humor é muitas vezes a forma mais elegante de duas pessoas confessarem medo.

Mais tarde passámos pelo Mote Park. O lago refletia um céu cinzento-claro típico de Inglaterra, aquele tom indeciso entre chuva e poesia. Havia famílias, corredores, cães felizes demais para um país com tão pouco sol, e casais espalhados pela relva como se o mundo não estivesse permanentemente à beira do colapso financeiro e emocional. Era uma maravilha tranquila.

Antes de regressarmos, ainda fomos conhecer o Leeds Castle. O castelo erguia-se sobre o lago como uma visão saída de um conto antigo. Pedra refletida na água escura. Torres elegantes. Jardins impecáveis. Um lugar bonito ao ponto de provocar desconfiança. Há cenários assim: perfeitos demais para não esconderem fantasmas.

Penélope caminhava devagar junto à margem, segurando o meu braço. “Se este castelo fosse nosso...” - começou ela. “Estaríamos arruinados em dois meses só com aquecimento central.” Ela soltou uma gargalhada sincera, inclinando a cabeça no meu ombro.


E talvez fosse isso que tornava tudo tão raro: conseguíamos alternar entre profundidade e absurdo sem esforço. Como duas pessoas que aprenderam que maturidade não é perder o humor, mas saber exatamente quando usá-lo para salvar um coração.

A estrada até Londres trouxe-nos de volta ao mundo real. O trânsito adensava-se à medida que nos aproximávamos da cidade. Filas intermináveis de carros, luzes vermelhas refletidas no asfalto húmido, motas serpenteando entre faixas, autocarros impacientes e aquele caos perfeitamente organizado das grandes capitais. Londres aproximava-se lentamente diante de nós, imensa, iluminada, viva. Uma criatura antiga que nunca dorme verdadeiramente.

Dentro do carro, porém, existia outro universo. Mais silencioso. Mais íntimo. A mão dela repousava sobre a minha perna enquanto observava as luzes pela janela. Por momentos, parecia distante. Talvez já estivesse emocionalmente no aeroporto de amanhã. Talvez estivesse apenas cansada de fingir força durante tantos anos.

O hotel junto ao Rio Tâmisa era exatamente aquilo que se espera de um romance inglês bem escrito: discreto, elegante e perigosamente acolhedor. Fachada vitoriana, portas de madeira escura, corredores revestidos a carpete espessa e iluminação quente que fazia toda a gente parecer mais bonita e menos cansada da vida.

O quarto tinha janelas amplas com vista parcial para o rio, cortinas pesadas, lençóis impecavelmente brancos e aquele conforto silencioso que apenas os hotéis antigos sabem oferecer. Tudo parecia convidar à permanência. O restaurante no piso inferior exalava aromas de manteiga, vinho e ervas frescas. Ao lado, um pequeno bar envolto em penumbra recebia os hóspedes com música ao vivo de piano. Notas lentas preenchiam o espaço como chuva suave sobre vidro. Já era tarde. Estávamos cansados demais para sair novamente, por isso decidimos jantar ali mesmo.

Depois de deixarmos as malas no quarto, tomámos um banho demorado, quase terapêutico. A água quente parecia lavar mais do que o cansaço da viagem. Lavava ruídos antigos. Ansiedades acumuladas. Pequenas dores emocionais que aprendemos a esconder até de nós próprios. Vestimos roupas leves e descemos para jantar.

Entre pratos, vinho e olhares demorados, a conversa ganhou profundidade. O jantar transformou-se num cocktail estranho de sabores e memórias partilhadas. Como se ambos tivéssemos finalmente baixado as defesas.

Penélope olhou-me com os olhos brilhantes, segurando discretamente uma lágrima. “Nunca senti momentos tão leves, tão livres, tão românticos, com tanta paz, como os que estou a passar ao teu lado. A verdadeira amizade é, sem dúvida, o pilar que suporta uma relação duradoura. Mas não é uma amizade qualquer... é uma amizade sentida, honesta, transparente, feita de escuta e diálogo.”


Fez uma pausa curta antes de continuar. “A minha primeira e única relação foi um desastre. Casei com um homem narcisista. A única coisa boa que ficou foi um filho maravilhoso, que procuro educar com os valores que recebi dos meus pais.”

Depois veio o silêncio. Um silêncio profundo. Tão profundo que o piano ao fundo parecia tocar dentro de nós. Ela segurou-me a mão. “E tu? Às vezes sinto que carregas o peso da desilusão. Isso fez de ti um homem sereno… consciente de que o caminho da felicidade não tem atalhos. Verdade?”

Escutei-a sem pressa. Há perguntas que merecem silêncio antes da resposta. “Eu não me posso queixar de violência narcisista…, mas conheci jogos de interesse onde o dinheiro era presença constante nas conversas. Durante algum tempo deixei de sentir firme o chão que pisava. Porque o amor, às vezes, tem destas coisas: cega-nos. Os grandes desencontros passam a parecer pequenos desvios.” Olhei para o copo antes de concluir: “Como escreveu José Saramago: “Para ver a ilha é preciso sair da ilha.’”

Londres nunca será uma memória serena dentro de mim. Há cidades que nos acolhem; outras observam-nos em silêncio, como se conhecessem antecipadamente a queda inevitável de tudo aquilo que julgávamos sólido. Foi aqui que despertei de um pesadelo demasiado humano: o da ambição que cresce sem medida, sem consciência, sem travão - até devorar o próprio sentido da existência.

Aprendi, talvez tarde demais, que o ser humano é frágil precisamente quando se convence da sua invulnerabilidade. Há uma violência subtil na sede de poder, no desejo incessante de possuir mais, conquistar mais, ser mais, como se a grandeza pudesse preencher os vazios que carregamos em silêncio. E quando o bom senso abandona o razoável, resta apenas o eco frio das consequências - um eco que não grita, mas corrói lentamente.

Ainda assim, não me toca recordar. Porque há memórias que não merecem abrigo no coração. Recordar, neste caso, não é viver outra vez; é recolher os fragmentos do que fui, observar as ruínas sem nostalgia, e compreender aquilo que elas vieram ensinar. Crescer, por vezes, não nasce da felicidade, mas da lucidez amarga que certas feridas oferecem. E algumas cidades não ficam na alma pela beleza que tiveram, mas pelas verdades obscuras que nos obrigaram a enfrentar.

Penélope apertou lentamente os meus dedos. E naquele instante percebi que crescer emocionalmente talvez seja exatamente isto: deixar de procurar pessoas perfeitas e começar apenas a procurar verdades suportáveis.

Depois ela começou a olhar discretamente para o relógio. Não por impaciência, mas porque o corpo já confessava aquilo que os lábios evitavam dizer. Queria descansar. Queria silêncio. Queria, sobretudo, um lugar onde pudesse tocar-me sem que o mundo existisse à volta.


Subimos para o quarto devagar, quase sem palavras. Lá fora, Londres continuava acordada. Mas dentro daquele quarto o tempo parecia finalmente rendido. Ela aproximou-se de mim junto à janela, pousando as mãos no meu peito com uma delicadeza desarmante. Beijou-me devagar, sem urgência, como quem tenta memorizar uma sensação antes da despedida inevitável. Havia desejo, claro. Mas havia sobretudo ternura. Uma intimidade rara, construída não apenas pela atração, mas pela confiança.

Os nossos corpos procuraram-se naturalmente entre lençóis desalinhados. Londres desapareceu. O passado também. Restou apenas aquele instante imperfeito e verdadeiro onde duas pessoas cansadas da vida encontraram abrigo uma na outra.

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Adormecemos, com o corpo colocado, transpirado, e com um sorriso rasgado. Como se, por algumas horas, tivéssemos conseguido enganar o mundo, atrasar o tempo e convencer a noite a permanecer um pouco mais connosco.

 

Diário de uma viagem – 148 dia 

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