Afinal, como provar que Deus existe?
Mochila
às costas. Mapa na mão. Passos lentos. E aquela vontade quase infantil de nos
perdermos numa cidade estrangeira como quem se perde dentro de si próprio. Há
cidades que se visitam. Outras despem-nos. La Rochelle fazia parte da segunda
categoria.
Sentia
no olhar de Penélope um brilho raro. Emoção. Não a emoção superficial das
pessoas que colecionam fotografias para provar ao mundo que existiram, mas uma
emoção funda, silenciosa, quase perigosa. Via nela duas versões a caminhar lado
a lado. De um lado, a menina feita de curiosidades, sonhos sem medida e
perguntas impossíveis. Do outro, a mulher romântica e sensual, carregada de
histórias gravadas na pele como cicatrizes invisíveis. Entre essas duas
mulheres não existia distância. Existia apenas tensão. Mistério. E, naquele
instante, apenas eu tinha autorização para atravessar essa fronteira.
O
dia estava agradável para caminhar. As ruas respiravam lentamente. O cheiro da
maresia misturava-se com pão acabado de fazer e tabaco antigo vindo das
esplanadas. Caminhávamos entrelaçados por conversas suspensas, dessas que nunca
acabam realmente porque continuam dentro da cabeça mesmo depois do silêncio.
Quando
chegámos à Torre da Lanterna, senti imediatamente o peso das histórias presas
nas pedras. A velha Torre dos Prisioneiros erguia-se diante de nós como um
aviso medieval contra os excessos do coração humano. Lá dentro, centenas de
inscrições deixadas por corsários, marinheiros e homens esquecidos pelo tempo
cobriam as paredes. Desenhos toscos. Nomes. Datas. Promessas de regresso.
Declarações de amor destinadas a mulheres que talvez nunca mais tenham voltado
a ver.
O
amor sempre teve qualquer coisa de cárcere marítimo. Uns homens afundam-se no
oceano. Outros afundam-se numa pessoa. E poucos sobrevivem aos dois. Penélope
passava os dedos pelas pedras com delicadeza, como se pudesse ouvir ecos
antigos escondidos nas fissuras. Havia naquela torre uma tristeza bela. Um
romantismo bruto. Pensei em como a humanidade evoluiu tecnologicamente,
inventou inteligência artificial, satélites, algoritmos, guerras híbridas e
redes sociais onde todos fingem felicidade…, mas continua incapaz de resolver a
solidão. Séculos passam e os homens continuam a escrever nomes em paredes na
esperança absurda de não serem esquecidos.
Os
templários também haviam passado por aquelas ruas. Sentia-se isso. La Rochelle
guarda ainda o perfume discreto das ordens secretas, dos juramentos feitos à
meia-luz, dos símbolos escondidos à vista de todos. Há cidades onde o passado
morreu. Aqui não. Aqui ele observa-nos das sombras.
Seguimos
depois para a Catedral de São Luís. Parámos em frente à imponência silenciosa
da fachada. Ficámos quietos, apenas a olhar. Os arcos altos pareciam erguidos
não para tocar o céu, mas para lembrar aos homens o quão pequenos são. Entrámos
devagar. O som dos nossos passos dissolveu-se imediatamente naquele silêncio
espesso que apenas existe em igrejas antigas e hospitais durante a madrugada.
Penélope
entrou primeiro. Cobriu a cabeça com um lenço, aproximou-se do altar e ajoelhou-se.
Depois fechou os olhos. E ficou imóvel. Mas não era um silêncio qualquer. Era
um silêncio de fé. Não aquela fé teatral dos fanáticos que gritam certezas para
esconder os próprios medos. Era outra coisa. Algo mais raro. Mais difícil. A fé
madura de quem já viu demasiada dor para acreditar em ilusões fáceis, mas
continua, ainda assim, a escolher acreditar.
Pensei
nos mortos que ela segurou nos hospitais. Nos olhos que viu apagar-se
lentamente. Nas despedidas sem poesia. Nos familiares destruídos pelos
corredores frios das urgências. Penélope acreditava que a morte não era um fim
absoluto, apenas uma porta para uma dimensão onde a matéria perde importância e
a memória permanece viva. E talvez seja isso a fé verdadeira. Continuar a amar
mesmo depois da devastação.
Fiquei
a observá-la ajoelhada enquanto a luz dos vitrais descia sobre o seu rosto.
Naquele instante ela parecia pertencer simultaneamente à Terra e a qualquer
outra dimensão invisível. Senti um desejo estranho de a proteger e de me perder
nela ao mesmo tempo. Como se fosse sagrada e perigosa. Como o mar.
Depois
levantou-se devagar, respirou fundo, pegou na minha mão e guiou-me novamente
para o exterior. E seguimos. As ruas cobertas pelas arcadas medievais acolhiam-nos
como corredores secretos de outra época. Descobrimos pequenas livrarias onde os
livros cheiravam a pó e eternidade. Cafés escondidos. Varandas floridas. Gatos
indiferentes observando turistas com o desprezo típico de quem já viu
civilizações nascer e cair. Entrámos finalmente num pequeno restaurante que nos
conquistou pela rusticidade e pelo aroma.
O
almoço chegou lentamente: peixe fresco, delicado, quase translúcido,
acompanhado por um vinho branco de Bordéus que nos colou à mesa mais do que devia.
Há vinhos perigosos. Não por embriagarem o corpo, mas porque fazem baixar as
defesas da alma.
Conversámos
durante horas. Política. Geopolítica. As guerras modernas disfarçadas de
diplomacia elegante. As democracias fatigadas. A decadência intelectual das
massas que trocam pensamento crítico por frases curtas no Instagram e vídeos de
quinze segundos. A humanidade inteira parece caminhar orgulhosamente para um
precipício enquanto discute pronomes, tendências e filtros de beleza. Roma caiu
com mais dignidade.
E
depois, inevitavelmente, chegámos à fé. Olhei para ela demoradamente antes de
perguntar: “Tens uma fé transparente e sólida…, mas como provar que Deus
existe?” Penélope sorriu de forma quase impercetível. Não aquele sorriso
automático das pessoas treinadas para parecer simpáticas. Um sorriso
verdadeiro. Calmo. Quase triste.
Pegou na minha mão. Fixou os meus olhos. E começou a falar pausadamente, como quem acende uma vela dentro da escuridão: “Tu és a prova disso.” Fiquei em silêncio. Lá fora, La Rochelle continuava viva entre o mar e as pedras antigas. O vento atravessava as ruas estreitas trazendo cheiro a sal e tempestade. E, pela primeira vez em muito tempo, senti medo. Porque há respostas que não nos tranquilizam. Apenas nos desarmam.
Há
perguntas que não cabem num laboratório. Perguntas que não aceitam bisturis,
fórmulas ou microscópios. Perguntas que entram em nós como o mar entra numa
gruta escura: lentamente, profundamente, deixando eco. “Afinal, como provar que
Deus existe?” Talvez a questão não seja apenas provar. Talvez seja sentir. Talvez
seja sobreviver ao silêncio depois da pergunta.
Vivemos
mergulhados num universo em movimento. Tudo dança. Os planetas giram numa
coreografia invisível, as estrelas nascem e morrem em incêndios cósmicos, os
oceanos respiram como criaturas antigas e até o coração humano pulsa obedecendo
a uma ordem misteriosa. Nada está imóvel. Nada está parado. E, no entanto,
diante de tanta dinâmica, surge uma inquietação inevitável: quem acendeu o
primeiro impulso? Quem soprou o primeiro movimento antes do tempo existir?
Se
tudo o que se move é movido por outro, então o universo inteiro parece um
gigantesco dominó metafísico. Uma peça toca a outra, que toca a outra, que toca
a outra…, mas em algum lugar deve existir a primeira mão invisível. Um primeiro
motor não movido. Um princípio sem princípio. Um fogo que não precisou ser
aceso. E talvez Deus seja precisamente isso: o início que nunca começou.
O
ser humano tenta fugir dessa ideia porque ela assusta. Preferimos aquilo que
conseguimos medir, pesar, catalogar. A ciência ensinou-nos a desmontar os
mecanismos do mundo, mas desmontar não é o mesmo que compreender. Podemos
explicar como nasce uma estrela e, ainda assim, não compreender porque a beleza
de um céu estrelado nos faz chorar em silêncio.
Há
coisas que ultrapassam a geometria da razão. Tudo parece possuir uma causa. Uma
folha cai porque o vento a empurrou. O vento sopra devido às diferenças de
pressão. As pressões existem por causa da temperatura. A temperatura vem do
Sol. O Sol nasceu do colapso gravitacional de matéria interestelar… e a mente
continua a descer por esse abismo de causalidades até tropeçar numa vertigem
impossível: e a primeira causa?
Uma
série infinita de causas parece um corredor sem fim, uma escadaria perdida no
escuro. Em algum ponto, a razão humana exige um chão. Algo que exista por si
mesmo. Algo necessário. Porque tudo o que conhecemos é contingente: pode
existir ou deixar de existir. Nós próprios somos passageiros frágeis, feitos de
carne perecível, sonhos temporários e memórias que envelhecem.
Mas
se tudo fosse contingente, então teria havido um momento absoluto de vazio. E
do nada… nada nasce. Assim, a mente procura desesperadamente um ser cuja
existência não dependa de nenhuma outra. Um ser necessário. Não criado. Não
condicionado. Não limitado. Chamaram-lhe Deus. E, no entanto, mesmo os
argumentos filosóficos parecem insuficientes diante da vastidão do mistério.
Porque Deus não cabe apenas na lógica; infiltra-se também na emoção. Há
qualquer coisa de divino no modo como o amor acontece. No instante em que
alguém segura a nossa mão num momento de queda. No perfume da terra molhada
depois da chuva. Na música que nos destrói sem nos tocar. Na criança que sorri
sem compreender ainda a crueldade do mundo.
Há
uma espécie de assinatura invisível espalhada pela criação. As coisas parecem
obedecer a uma ordem secreta. As galáxias organizam-se com precisão absurda. O
ADN guarda bibliotecas inteiras dentro de estruturas microscópicas. As
constantes do universo parecem afinadas com delicadeza impossível. Bastaria uma
pequena alteração e talvez nada existisse: nem estrelas, nem matéria, nem
consciência, nem poesia, nem amor.
Será
tudo acidente? Ou haverá uma inteligência silenciosa por detrás do véu? A
Bíblia afirma que a existência de Deus revela-se na própria criação. Não como
uma prova matemática, mas como uma impressão deixada no tecido do universo.
Como pegadas invisíveis na neve do infinito. E talvez seja por isso que tantos
homens, desde filósofos a mendigos, desde cientistas a poetas, sentiram em
algum momento uma estranha nostalgia do eterno - como se a alma humana tivesse
saudades de algo que nunca viu, mas sempre conheceu.
Contudo,
entramos então numa floresta ainda mais inquietante. E se nada disto for real? E
se o universo inteiro for apenas uma simulação colossal? Uma arquitetura
digital construída por uma civilização incompreensivelmente avançada? A
hipótese parece saída de um delírio cinematográfico, mas tornou-se um debate
filosófico sério. Talvez sejamos apenas consciências programadas, presas dentro
de uma realidade artificial. Talvez o céu seja um código. Talvez as estrelas
sejam algoritmos luminosos. Talvez a morte seja apenas o desligar de um
sistema.
E
então surge o terror mais frio de todos: bastaria alguém desligar a máquina… e
desapareceríamos como um reflexo apagado de um ecrã. Mas mesmo nessa hipótese
permanece um paradoxo extraordinário. Ainda sentiríamos dor. Ainda amaríamos.
Ainda teríamos medo. Ainda sofreríamos por saudade. Ainda olharíamos o mar ao
entardecer e sentiríamos o coração apertar-se sem explicação.
Mesmo
simulados, a experiência seria real para nós. Talvez seja isso que o filme
Matrix tentou dizer quando perguntou: “O que é real?” Se tudo aquilo que vemos,
ouvimos, tocamos e sentimos são sinais elétricos interpretados pelo cérebro,
então a realidade sempre foi uma interpretação. Uma perceção íntima. Um teatro
de consciência.
Mas
há algo que nenhuma simulação consegue anular completamente: a sede humana pelo
absoluto. O homem pode duvidar da matéria. Pode duvidar dos sentidos. Pode
duvidar do universo inteiro. Mas continua a procurar significado. Continua a
procurar transcendência. Continua a levantar os olhos ao céu nas noites de
desespero. E talvez isso, por si só, já seja um vestígio de Deus. Porque a fome
sugere alimento. A sede sugere água. E talvez a eterna necessidade humana de
infinito sugira precisamente a existência do eterno.
No
fundo, Deus nunca poderá ser provado como se prova uma equação. Não porque seja
falso, mas porque talvez pertença a uma dimensão maior do que os instrumentos
humanos conseguem alcançar. A ciência observa o mecanismo; a fé procura o
sentido. Uma explica o “como”. A outra pergunta “porquê”.
E
entre ambas existe o mistério. Talvez Deus habite exatamente aí: no espaço
invisível entre aquilo que sabemos e aquilo que sentimos. Se algum dia me
voltarem a perguntar como provar que Deus existe, eu responderei sem
arrogância, sem dogmas e sem necessidade de vencer debates: Existe, sim. Não
porque o consegui aprisionar numa fórmula. Não porque a razão humana o
conseguiu medir. Mas porque há algo dentro de nós que continua a reconhecê-Lo
mesmo no escuro. Está na fé. Na esperança que resiste quando tudo desaba. Na
consciência inexplicável de que somos mais do que matéria organizada. Na
estranha luz que permanece acesa dentro do coração humano mesmo depois de todas
as tragédias. E talvez Deus seja precisamente isso: A luz que nenhuma noite
consegue extinguir.
Depois
levantou-se, entrelaçou o braço no meu e, para mudar a conversa, disse: “Gosto
do teu perfume. Vamos por aí descobrir mundo. Precisamos de caminhar.” Havia
qualquer coisa de perigosamente simples naquela frase. Como se descobrir mundo
fosse apenas isso: caminhar ao lado da pessoa certa enquanto o resto da vida,
com as suas contas, medos e folhas de Excel, esperava disciplinadamente num
canto da memória.
E
fomos. Atravessámos a ponte para a Île de Ré, suspensos sobre aquele Atlântico
cinzento-prateado que parecia respirar lentamente sob nós. Três quilómetros de
travessia e, ainda assim, tive a sensação absurda de que deixávamos um
continente inteiro para trás. Não França. Não La Rochelle. Outra coisa. Talvez
a parte de nós que ainda fingia saber exatamente para onde ia.
A
ilha recebeu-nos com vento salgado e um silêncio raro - aquele silêncio que não
nasce da ausência de som, mas da presença esmagadora da beleza. As bicicletas
deslizavam pelas ciclovias como pensamentos felizes. As casas brancas, com
portadas verdes, azuis e vermelhas, pareciam pintadas por alguém que acreditava
honestamente no amor. Havia flores por toda a parte, derramadas das janelas,
penduradas nos muros, rebeldes, excessivas, quase indecentes na maneira como
insistiam em florescer.
Penélope caminhava devagar,
como quem não queria chegar a lado nenhum. Às vezes apertava-me o braço. Outras
vezes soltava-se apenas para tocar nas pétalas de uma buganvília ou para
prender o cabelo atrás da orelha enquanto o vento insistia em desfazê-lo.
Passámos
pelas praias selvagens onde a areia parecia farinha dourada e o oceano avançava
com uma arrogância antiga, indiferente ao drama humano. Havia gaivotas aos
gritos, crianças descalças, casais reformados de mãos dadas e nós os dois,
absurdamente vivos, como se tivéssemos fugido de alguma coisa sem coragem de
dizer o quê.
“Sabes
qual é o problema das viagens? - perguntou ela de repente. “Qual?” “Fazem-nos
parecer mais felizes do que somos.” Ri-me. “E isso é um problema?” Ela encolheu
os ombros. “Só quando voltamos.” Aquilo ficou entre nós algum tempo, como ficam
as frases verdadeiras: incómodas, belas e impossíveis de desmentir.
Ao
regressarmos a La Rochelle, o Porto Velho recebia o pôr do sol com uma
teatralidade quase ofensiva. As torres medievais - Saint-Nicolas, de la Chaîne
e de la Lanterne - guardavam a entrada do porto como velhos gigantes cansados,
mergulhados numa luz dourada que fazia tudo parecer mais eterno do que
realmente era.
Passeámos
sem pressa junto à água. Os mastros balançavam suavemente e o cheiro do mar
misturava-se com manteiga quente, vinho branco e conversa humana. Havia
qualquer coisa profundamente civilizada em cidades portuárias ao entardecer:
como se o mundo inteiro pudesse naufragar desde que ainda existissem ostras frescas,
vinho frio e alguém disposto a esperar por nós.
No
mercado, provámos ostras locais. Penélope observava-me com perverso
divertimento enquanto eu tentava manter alguma dignidade perante aquele
exercício gastronómico viscoso e aristocrático. “Tens cara de quem está a
engolir um pequeno acidente marítimo” - disse ela. “Isto não é comida. É uma
vingança do oceano.” Ela riu-se tão alto que duas pessoas se viraram. E eu
pensei, com alguma surpresa, que há risos que conseguem iluminar mais do que
cidades inteiras.
Depois
fomos partilhar um gelado na Ernest Le Glacier. Escolheu figo e flor de sal. Eu
chocolate negro. Naturalmente acabámos ambos a provar o do outro, porque a
intimidade começa sempre assim: pequenas invasões autorizadas.
Sentámo-nos
perto do porto enquanto o céu escurecia devagar. Havia músicos de rua ao longe.
Um acordeão cansado. Copos a tilintar. O murmúrio do mar contra as pedras. E
aquele estranho cansaço feliz das pessoas que caminharam muito sem fugir uma da
outra.
Quando
regressámos ao hotel, já trazíamos o corpo vencido pelo dia. Antes de subir,
afundámo-nos nos sofás da receção, em silêncio. O luxo verdadeiro talvez seja
esse: existir ao lado de alguém sem necessidade de representar inteligência,
força ou alegria.
Então
Penélope inclinou-se ligeiramente para mim e perguntou com um sorriso
malicioso: “Então, quando mudamos o programa na folha de Excel?” Olhei para ela
e sorri com aquela honestidade fatigada que só aparece tarde da noite. “Na
próxima estação. Aqui já não poupamos nada.” Elam percebeu imediatamente que eu
não falava apenas de dinheiro.
Porque
a verdade é essa: passamos metade da vida a fazer contas para sobreviver e a
outra metade a perceber que as únicas coisas importantes nunca couberam em
tabelas.
Subimos.
O corredor do hotel era longo, silencioso, mergulhado numa penumbra azulada. As
luzes discretas criavam sombras suaves nas paredes e a carpete abafava os
passos, como se o próprio edifício respeitasse o cansaço dos viajantes.
Foi
aí que ela me abraçou. Sem aviso. Sem teatro. Sem necessidade de explicar nada.
Talvez me tenha beijado também. Não tenho a certeza. O escuro às vezes protege
os momentos mais importantes da precisão da memória. Depois aproximou os lábios
do meu ouvido e segredou: “Simplesmente estamos gratos um ao outro. Descansa.
Amanhã temos uma nova viagem até Caen. Eu conduzo.”
Há
pessoas que aparecem na nossa vida para nos incendiar; outras, mais raras,
aparecem apenas para nos devolver lentamente à paz.
Diário de uma viagem – 141 dia






