Para onde os vamos arrumar?
Não há solução sem escolha. E escolher implica perder alguma coisa. Implica dizer “não” a interesses que gritam mais alto do que as necessidades.
Acordei
em Zurique como adormeci: suspenso nesse fio invisível que separa a tristeza da
gratidão - como se o coração, indeciso, recusasse escolher um lado e preferisse
ficar ali, em equilíbrio instável, mas estranhamente honesto. Há algo de
profundamente humano nesse estado intermédio, quase como um cais onde atracam
sentimentos que não sabem ainda se partem ou se ficam.
Porque,
no meio desta viagem - entre estradas frias e pensamentos quentes, entre o
silêncio das montanhas e o ruído íntimo de quem pensa demais - tenho encontrado
pessoas que não pedem protagonismo, mas deixam marcas. Pequenos gestos,
palavras soltas, presenças inesperadas. Como migalhas de humanidade num mundo
que tantas vezes se esquece de ser humano. E talvez seja isso que nos sustenta:
não os grandes acontecimentos, mas os detalhes quase invisíveis que nos impedem
de cair.
Levantei-me.
Coloquei-me na vertical como quem assume o peso do dia. Fui à janela e ali
estava o rio Limmat, a correr com a indiferença serena de quem já viu tudo. Há
rios que parecem entender-nos melhor do que as pessoas - não interrompem, não
julgam, apenas seguem.
O
banho acordou-me o corpo, mas não os pensamentos. Esses já estavam desperto há
muito. E depois, o ritual: o café forte, quase agressivo, a cortar a manhã como
uma lâmina; o pão acabado de cozer, ainda quente, a libertar um aroma que
parece ter memória; a manteiga - ou talvez algo mais delicado - a derreter ao
primeiro toque, num flirt silencioso entre o calor e a rendição. Há algo de
quase erótico nesse encontro diário - não pelo excesso, mas pela subtileza.
Pelo toque. Pela antecipação. Pelo prazer simples que não precisa de
explicação.
Mas
hoje não me arrastei. Hoje havia urgência. Zurique estava à minha espera - ou
talvez fosse eu que precisava dela. A cidade revela-se com uma dualidade quase
provocadora: por um lado, a precisão clínica de um centro financeiro que não
falha; por outro, o charme imperfeito de ruas que já viram séculos passar. Em
Altstadt, o tempo não anda - observa. As pedras contam histórias que ninguém
escreveu, os edifícios inclinam-se como velhos sábios, e as igrejas erguem-se
não apenas como monumentos, mas como lembretes de que já houve fé suficiente
para construir o impossível.
E
depois há o contraste. Sempre o contraste. Porque Zurique é limpa, organizada,
eficiente - quase demasiado perfeita para ser real. E, no entanto, essa
perfeição levanta uma pergunta incómoda: o que fica escondido quando tudo
parece funcionar? Olhei à volta. Procurei sinais de falha, de fratura, de
humanidade crua. Não vi sem-abrigo. Ou talvez estivessem apenas fora do campo
de visão - não por inexistência, mas por gestão. E isso diz tanto quanto a sua
presença.
O
tempo passou. A fome chegou - como sempre, fiel e pragmática. Entrei num
restaurante guiado por essa bússola interna que raramente falha. Risoto de
espargos. Simples. Elegante. Preciso. Fui bem-recebido - o que, por aqui, é
quase um pequeno milagre social. O staff falava, sorria, existia. Ao contrário
de uma certa reserva suíça que, por vezes, parece mais um sistema de defesa do
que uma característica cultural.
E
foi ali, entre um vinho branco gelado e pequenos petiscos que não pediam atenção,
mas mereciam respeito, que o pensamento voltou à causa anterior e começou a
ganhar forma. Primeiro tímido, depois insistente. Como uma ferida que se recusa
a cicatrizar.
A
casa. Sempre a casa. A dificuldade em encontrar um teto deixou de ser um
problema - tornou-se um sintoma. E como todos os sintomas persistentes, aponta
para algo mais profundo. Chamam-lhe gentrificação. Palavra bonita. Quase
elegante. Cabe bem em relatórios, soa inteligente em conferências, desliza com
facilidade em discursos bem ensaiados. Mas há palavras que são máscaras - e
esta é uma delas.
Porque
não são fenómenos. São decisões. E há uma ironia quase cruel em ver Portugal -
pequeno em território, imenso em potencial - tornar-se incapaz de resolver um
dos principais flagelos. Jovens adiados. Vidas suspensas. Amor em espera.
Filhos por nascer não por falta de vontade, mas por falta de espaço. Casas
transformadas em números. Em ativos. Em abstrações.
E
no meio disto tudo, um vazio. Não de espaço. Mas de coragem. E então o
pensamento muda. Deixa de ser contemplativo e torna-se incómodo. Quase rebelde.
Porque há um momento em que pensar já não chega - é preciso confrontar. Talvez
a verdade mais simples seja também a mais difícil: não há solução sem escolha.
E escolher implica perder alguma coisa. Implica dizer “não” a interesses que
gritam mais alto do que as necessidades.
E,
ponto a ponto, a ideia começa a desenhar-se - como quem reconstrói algo que nunca
deveria ter sido destruído. Um parque público de habitação. Real. Não
simbólico. Não eleitoral. Uso do que já existe - património abandonado,
esquecido, à espera de propósito. Mas isso não chega, é preciso muito mais. Outras
ideias vão surgindo para albergar as pessoas, mas o que estamos a falar é de
casas para as pessoas viverem. É preciso mais ação direta. Sem rodeios. Sem
medo de parecer óbvio.
Porque,
no fundo, a pergunta é quase infantil na sua simplicidade - e talvez por isso
tão poderosa: porque não faz o Estado aquilo que qualquer família faria?
Comprar terreno. Planear. Construir. Resolver. Não no centro saturado, onde o
preço já perdeu qualquer ligação à realidade, mas nas margens vivas - onde ainda há espaço para crescer sem sufocar,
mas uma rede de transportes eficiente.
Terrenos
esquecidos. Ideias ignoradas. Soluções evitadas. Casas simples, mas dignas.
Porque dignidade não é um luxo - é o mínimo. E depois, o essencial: permitir
acesso real. Não promessas. Não simulações de apoio. Mas condições de compra ajustadas,
no valor e tempo, às possibilidades de cada família. Porque uma casa não é um
prémio. É o ponto de partida.
E
aqui o pensamento ganha uma camada quase sarcástica - porque o dinheiro, esse,
existe sempre. Para o que não importa. Para o que impressiona. Para o que
aparece. Projetos que nascem para fotografia e morrem no silêncio. Indemnizações
pagas por erros que ninguém assume. Milhões que evaporam - enquanto se repete,
como um mantra vazio, que “não há solução”.
Há.
Sempre houve. Faltou foi vontade de escolher o essencial. E depois há a contradição
mais humana - e talvez mais desconfortável: acolhemos quem chega. E bem. Mas não
lhes damos lugar. Queremos a força de trabalho, mas não queremos assumir a
responsabilidade que vem com ela. E assim criamos um país que precisa de
pessoas… mas não lhes oferece casa.
Acredito
na propriedade privada. Mas não como desculpa para a ausência de
responsabilidade. E acredito que um Estado que apenas observa deixa de governar
- passa a assistir. E assistir não resolve. Talvez nunca tenha sido complicado.
Talvez sempre tenha sido isto: usar o que temos, gastar no que importa, e
construir - com coragem - aquilo que falta. Casas. Mas, mais do que isso - futuro.
Depois
levantei, e foi por aí - como quem não decide, mas é decidido pelo próprio
tempo, esse tirano elegante que em Zurique usa relógio suíço e ironia fina. Já
não sobrava muito tempo. E talvez nunca sobre. Há cidades que não se visitam -
insinuam-se, seduzem, e depois abandonam-nos com a mesma delicadeza com que nos
receberam.
Visitei
Lindenhof, uma colina histórica que parece ter sido colocada ali não por
estratégia militar, mas por puro exibicionismo paisagístico. Lá de cima, o rio
Limmat serpenteava com a arrogância tranquila de quem sabe que é bonito sem
precisar de filtros, enquanto a Cidade Velha se estendia como um segredo mal
guardado. Respirei. Ou pelo menos tentei - porque há momentos em que o ar não
entra, só contempla.
Terminei
no Lago de Zurique, esse cenário onde a sofisticação suíça se funde com a
serenidade da natureza como se fossem amantes antigos que já não discutem. As
águas, azuis e límpidas, refletiam o céu com uma fidelidade quase suspeita -
como se o mundo ali fosse uma cópia melhorada de si mesmo. Ao longe, os Alpes
surgiam como promessas que nunca fiz, mas que, estranhamente, sinto que falhei
em cumprir. A beleza era hipnotizante. E como toda beleza excessiva,
ligeiramente cruel.
Se
eu tivesse mais tempo - essa expressão que usamos como desculpa existencial -
poderia ter assistido a um espetáculo na Ópera de Zurique, onde a arte se veste
de gala e finge que entende a alma humana. Poderia ter ido ao Lindt Home of
Chocolate, onde o açúcar tenta compensar tudo aquilo que a vida insiste em
tornar amargo - e eu, naturalmente, cairia nessa armadilha com entusiasmo
infantil. E com mais um pouco de tempo - sempre mais um pouco, nunca o suficiente
- subiria até Felsenegg, flutuando num teleférico entre o chão e a ilusão, só
para ver o mundo lá de cima e fingir que compreendo alguma coisa.
E
outras coisas mais. Sempre há outras coisas mais. A lista infinita do que não
vivemos. Mas o tempo - esse curador de arrependimentos - não me deu mais tempo.
Regressei ao hotel sem apetite para jantar, o que é curioso, porque a alma
parecia faminta de qualquer coisa que não se serve em prato algum. Pedi apenas
uma sandes no bar, bebi uma cerveja suíça com a seriedade de quem faz um brinde
a si próprio, subi ao quarto, larguei a roupa como quem abandona versões de si
mesmo, e acariciei a concha que transporto na mala - esse pequeno fragmento de
mar que insiste em lembrar-me que pertenço a alguém que há de receber a minha
carta de amor que lancei engarrafada ao mar em Constança.
Coloquei
os fones. E adormeci com esse som mágico - um eco distante, talvez do oceano,
talvez de mim - enquanto o mundo lá fora continuava a girar com a sua pressa
inútil.
https://www.youtube.com/watch?v=EcfkStBmeqA&list=RDEcfkStBmeqA&start_radio=1
E,
naquele instante suspenso entre o sonho e a memória, percebi que há lugares que
não se deixam levar connosco… porque, no fundo, são eles que nos guardam para
sempre.
O
dia seguinte esperava-me uma aventura até Lausanne.
Diário de uma viagem – 129 dia






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