Depois fechei os olhos… e olhei para dentro de mim. E foi aí que O senti…
Despertei em Lausanne carregado de nostalgia - não aquela que pesa, mas a que sussurra, envolto numa estranha promessa de que o dia não se limitaria a acontecer: iria revelar-se. Havia em mim uma curiosidade quase infantil, aguçada como o primeiro gole de café depois de uma noite mal dormida. Não sabia exatamente o quê, mas sentia que algo me aguardava, paciente, como quem conhece o tempo melhor do que nós.
Depois
de um banho refrescante, desses que lavam mais do que o corpo e parecem
reorganizar pensamentos dispersos, segui o ritual de todas as manhãs. A sala
onde o pequeno-almoço era servido parecia suspensa num intervalo entre o
clássico e o íntimo. As paredes em tons suaves - entre o creme e o dourado
envelhecido - absorviam a luz da manhã que entrava pelas janelas altas,
filtrada por cortinas leves que dançavam com a brisa. Havia mesas de madeira
escura, polidas pelo tempo e por conversas esquecidas, e cadeiras estofadas que
convidavam a ficar mais do que o necessário.
No
fundo da sala, quase escondido, mas impossível de ignorar, um piano deixava
escapar notas lentas, melancólicas, como se alguém tocasse não para os outros,
mas para si próprio - um exercício de memória ou talvez de saudade. A música
não preenchia o espaço; insinuava-se nele, como um segredo partilhado apenas
com quem estivesse disposto a escutar.
O
aroma do café forte e do pão estaladiço acabado de cozer fazia-me água na boca.
Era um convite primitivo. Mas parei. Olhei. E senti-me inesperadamente atraído
pela sensualidade da manteiga a derreter-se lentamente sobre o pão quente - um
espetáculo silencioso, quase indecente na sua delicadeza. Deslizava como dois
amantes convencidos de que o mundo pode esperar. E talvez possa, pensei, se
soubermos olhar.
Foi
então que Mariana apareceu. A musa rececionista - porque havia nela algo de
irreal, como se tivesse sido desenhada por um escritor com demasiado tempo e
imaginação - aproximou-se com a naturalidade de quem sabe exatamente o efeito
que causa, mas escolhe fingir que não. Trouxe-me de volta ao mundo prático: “Já
tens na receção um mapa com algumas notas… para não te perderes.”
Sorri.
Ela também. Mas o sorriso dela tinha subtítulo. Dizia, sem dizer: se te
perderes, chama por mim. E isso, convenhamos, é um tipo de convite que nenhum
mapa resolve. “Não te demores muito - acrescentou - porque estou a terminar o
meu turno.” Hum. Há pessoas que falam por palavras, outras por gestos… e depois
há aquelas que dominam a arte rara da insinuação. Mariana claramente pertencia
à terceira categoria - uma espécie em vias de extinção ou evolução, ainda não
decidi.
Finalmente,
estava pronto para a descoberta da cidade. Passei pela receção. Mariana
entregou-me o mapa com as anotações, como quem entrega mais do que direções -
talvez pequenas pistas, talvez distrações estratégicas. Voltou a sorrir. E
depois… silêncio. Um desses silêncios densos, onde um olhar pode dizer mais do
que um discurso inteiro. Quebrei-o, como quem arrisca estragar algo bonito: “Ok…
a que horas nos encontramos e onde?” Ela sorriu de novo, dessa vez com uma leve
demora, como quem decide quanto revelar. “Eu ligo-te… provavelmente depois do
almoço.” Claro que sim. Mistério suficiente para me manter interessado, mas não
o bastante para me deixar fugir. Estratégia impecável.
Saí.
Lausanne é uma cidade que não se mostra - sugere-se. Sussurra segredos aos
distraídos e revela-se aos atentos. Equilibra-se com uma elegância quase
arrogante entre as colinas do cantão de Vaud e as águas profundas do Lago
Léman. Há nela uma sofisticação discreta, como alguém que não precisa de provar
nada a ninguém. O tempo aqui não abranda - ele é persuadido a ir mais devagar.
Caminhei
por ruas estreitas, empedradas, onde cada esquina parecia guardar uma memória
que não me pertencia, mas que, estranhamente, reconhecia. Havia algo de
familiar no desconhecido - talvez seja isso que chamamos de encanto, ou talvez
seja apenas a nossa tendência irritante de romantizar tudo o que não
compreendemos.
Até
que cheguei à Catedral de Lausanne. Majestosa, inevitável, quase intimidante.
Erguia-se no coração da “Cité” como uma afirmação - não de poder, mas de
permanência. A sua arquitetura gótica não pedia atenção; exigia contemplação.
Parei. Por minutos - ou talvez mais, porque ali o tempo deixa de ser uma
unidade confiável.
Entrei.
E imediatamente senti o peso do silêncio. Não um silêncio vazio, mas carregado
- de fé, de dúvidas, de pedidos nunca respondidos e de respostas nunca
compreendidas. Não era apenas a ausência de som - era uma presença. Densa,
quase palpável, como se o próprio ar tivesse memória e respirasse em compasso
com algo maior do que eu. Parei no meio da nave, antes de me aproximar do
altar, como quem hesita diante de um limiar invisível. Olhei ao meu redor: as
paredes antigas guardavam segredos, os bancos vazios pareciam esperar
histórias, e a luz filtrada pelos vitrais dançava lentamente, como se o tempo
ali tivesse aprendido a abrandar.
Depois
fechei os olhos… e olhei para dentro de mim. E foi aí que O senti. Não como uma
voz, nem como uma forma - mas como uma certeza. Uma presença silenciosa que não
exige, apenas acolhe. Senti Deus dentro de mim. Não distante, não inacessível,
mas íntimo, como um sussurro que sempre esteve ali, à espera que eu o
escutasse. Dizem que a nossa consciência é o nosso Deus… talvez seja verdade.
Mas só o é quando temos coragem de descer até ao mais fundo de nós e encontrar,
nesse abismo tranquilo, algo que não é só nosso - algo que nos transcende e,
ainda assim, nos habita.
Abri
os olhos por um instante… e o silêncio parecia ainda mais profundo, mais vasto,
como um oceano sem margens. Fechei-os novamente, rendendo-me àquele encontro
invisível. E falei. Falei não com palavras perfeitas, mas com verdade. E Ele
escutou-me - não pelos meus lábios, mas pela minha fé. “Sinto-Te nos mais
pequenos gestos… sinto-Te quando uma mão invisível me ampara e não me deixa
cair. Sinto-Te naquilo que não compreendo, mas que, ainda assim, me sustenta.
Escutas-me quando Te falo de mim - das minhas fragilidades, das minhas dúvidas,
dos meus silêncios. Escutas-me quando Te confio a minha família, os meus
amigos… quando Te entrego os rostos que amo e aqueles que nem conheço.
Escutas-me quando Te falo da multidão - dos homens, das mulheres, das crianças
que neste momento sofrem, choram, esperam… e resistem.”
E,
nesse diálogo sem som, compreendi que a fé não é certeza - é entrega. É
acreditar mesmo quando não vemos. É caminhar mesmo quando o caminho desaparece.
É amar sem garantias. É confiar que, no meio da dor do mundo, há um sentido que
não se revela de imediato, mas que existe. A fé é um gesto humilde: o de
reconhecer que não somos tudo, mas também não estamos sós.
É
no silêncio que ela cresce. Não no silêncio vazio, mas naquele que escuta, que
acolhe, que transforma. A fé não grita, não impõe - ela floresce devagar, como
uma luz que se acende dentro de nós sem que saibamos exatamente quando começou
a brilhar. E talvez seja isso Deus: essa luz que não cega, mas ilumina. Esse
amor que não prende, mas liberta. Essa presença que não se impõe, mas
permanece.
Quando
saí da Catedral, o mundo parecia outro - ou talvez fosse eu que já não era o
mesmo. O ar parecia mais leve, como se tivesse sido lavado por uma serenidade
invisível. O sol brilhava com uma intensidade nova, não mais forte, mas mais
verdadeira. As pessoas passavam por mim em câmara lenta, como se cada gesto
carregasse agora um significado oculto, uma história silenciosa. E eu caminhava
entre elas com uma certeza tranquila: todos nós, de alguma forma, carregamos
esse sagrado dentro de nós. Uns sabem. Outros procuram. Outros esquecem. Mas
Ele permanece. À espera de ser sentido… no silêncio.
Depois,
olhei para o relógio e pensei que o tempo passou voando e a fome chegou a horas
- como sempre chega, discreta, mas inegociável. Caminhei mais um pouco, não por
saber para onde ia, mas porque o corpo, quando deixado em paz, sabe sempre mais
do que a cabeça. Segui o meu sexto sentido, esse guia silencioso que nunca pede
mapas nem justificações. Para dizer a verdade, já não sabia onde estava - e
talvez por isso mesmo não me senti perdido. Há uma liberdade estranha em não
pertencer a lugar nenhum por instantes.
Foi
então que entrei, quase sem perceber, num lugar que parecia ter sido esquecido
por algum movimento artístico que ousou demasiado para o seu tempo. Agora,
transformado em restaurante, conservava ainda esse ar de manifesto inacabado:
paredes com texturas irregulares, luz filtrada como se tivesse medo de ser
direta, objetos que não pediam explicação - exigiam interpretação. O staff
movia-se como se coreografado pelo silêncio, e isso, por si só, já era um luxo.
A
comida… ah, a comida. Delicada sem ser pretensiosa, intensa sem precisar de se
impor. E o vinho branco suíço de Valais - esse merecia uma pausa. Havia ali
qualquer coisa de mineral e solar ao mesmo tempo, como se cada gole trouxesse o
eco do vale do Ródano, com o seu clima seco e luminoso. Um vinho que não
tentava seduzir - simplesmente acontecia. Pensei no Pinot Noir, nas uvas raras
como a Petite Arvine, e sorri com a ideia de que há lugares no mundo que
insistem em ser excecionais sem fazer alarde. Uma lição que poucos humanos
aprendem.
Quando
chegou a sobremesa, o tempo abrandou - como se tivesse finalmente decidido
cooperar. Era uma composição quase indecente de texturas: uma base quente de
massa fina e crocante, sobre a qual repousava um creme leve de baunilha com
notas de limão, equilibrado por frutos vermelhos ligeiramente ácidos, ainda
brilhantes como se tivessem sido colhidos minutos antes. Por cima, um fio de
caramelo salgado desenhava caminhos imprevisíveis, e uma bola de gelado -
talvez de amêndoa tostada - começava lentamente a render-se ao calor. Era daquelas
sobremesas que não se comem: exploram-se.
E
foi nesse exato momento que chegou a chamada de Mariana. A voz dela vinha ofegante,
carregada de urgência - não de quem tem pressa, mas de quem não quer perder
tempo. “Onde estás?” Comecei a descrever o lugar, ainda com o sabor do caramelo
na boca, mas ela não me deixou terminar. “Conheço muito bem. Estou a 10 minutos
daí.” Desligou com a confiança de quem não pede permissão para entrar na nossa
narrativa.
E
chegou. Direta à minha mesa, como se o espaço lhe tivesse sido reservado desde sempre.
Tem bom ouvido, pensei - ou então eu nunca fui muito discreto a sentir. O
coração, esse traidor elegante, decidiu marcar presença. Sentou-se, pediu outro
prato - para partilharmos a sobremesa - e lançou, quase como quem deixa cair um
detalhe irrelevante: “Desculpa, costumo almoçar sempre com o meu filho.” Havia
ali uma vida inteira resumida numa frase. E, curiosamente, não pesava.
Depois,
como se o dia ainda tivesse capítulos guardados, fomos guiados por lugares que
pareciam saídos de uma memória que ainda não vivemos. Na Place de la Palud, o
tempo brincava com o presente através do relógio animado, e o passado
espreitava pelas paredes do Hotel de Ville, onde um jovem Mozart já tinha
deixado a sua marca. Sentámo-nos para um café, rodeados por fachadas coloridas
e pela fonte da justiça, que ironicamente parecia mais estável do que muitas
decisões humanas.
Subimos
à Torre de Sauvabelin, num silêncio cúmplice. A madeira rangia sob os nossos
passos, como se comentasse a subida. Lá em cima, a vista de 360 graus não era
apenas paisagem - era perspectiva. A cidade, a floresta, as montanhas… tudo
coexistia sem competição. Uma raridade. Nas Escadas do
Mercado,
o tempo fez-se lento. A madeira, o som abafado dos passos, as pequenas
boutiques - tudo conspirava para nos lembrar que a pressa é uma invenção
moderna e profundamente sobrevalorizada. No Parque da Fondation de l’Hermitage,
encontrámos um daqueles silêncios que não incomodam - envolvem. Ficámos ali,
sem necessidade de preencher o espaço com palavras. Porque há momentos em que
falar seria quase uma falta de respeito.
E
depois, Ouchy. À beira do lago, o mundo parecia ter decidido ser gentil. Os
jardins floridos, os barcos brancos deslizando com uma elegância desnecessária
- como tudo o que é verdadeiramente belo - e os Alpes franceses tingidos de
rosa ao longe. Havia ali uma poesia que não precisava de metáforas.
Jantámos
num restaurante à luz de velas, onde a música parecia saber exatamente quando
aparecer e quando desaparecer. As sombras dançavam nas paredes, e o vinho -
outro, mas igualmente honesto - fez aquilo que os bons vinhos fazem: não nos
embriagou, abriu-nos. Falámos das mágoas, como quem desarruma uma gaveta
antiga, e dos momentos felizes, como quem encontra fotografias esquecidas.
Rimos. Houve ironia, alguma verdade desconfortável, e aquele tipo de
proximidade que não se força - acontece.
Acabámos
a noite numa esplanada, com música suficiente para nos acompanhar, mas não para
nos interromper. O lago diante de nós parecia guardar segredos que nunca seriam
nossos - e talvez por isso fosse tão fascinante. Falámos do futuro como quem
fala de um rumor. Talvez Portugal. Talvez o Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Talvez um convite - não inocente - para ficar no Agrinho Suites & Spa
Hotel. Talvez.
E
depois, a despedida. Um abraço que começou civilizado e terminou necessário.
Mais apertado do que o protocolo recomenda. Uma lágrima - talvez duas - que
ninguém tentou justificar. Porque há despedidas que não são tristes, são
apenas… incompletas.
Quando
cheguei ao hotel, o dia já tinha sido mais do que suficiente. Nem tive tempo de
apreciar a decoração romântica do quarto - ironicamente preparada para um
estado de espírito que já tinha sido vivido noutro lugar. Larguei a roupa,
tomei um banho refrescante, como quem tenta reorganizar o corpo depois de um
excesso de sensações.
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Coloquei
os fones. A música entrou devagar, como se respeitasse o cansaço. E adormeci.
Precisava de dormir depressa. O dia seguinte reservava-me uma viagem até Lyon.
E, como já tinha aprendido, o tempo esse velho cúmplice - não espera por
ninguém.
Diário de uma viagem – 131 dia







