Chamam-lhe crise da habitação. Gentrificação. Palavras elegantes, quase técnicas, que soam bem em conferências e relatórios. Isto não é ficção. É real!
Despertei
em Bellagio - Lago de Como - com uma sensação amarga, quase traiçoeira, como se
o próprio paraíso tivesse decidido expulsar-me com delicadeza. Havia em mim um
silêncio estranho, desses que não pedem companhia, porque já encontraram tudo o
que procuravam. Nunca, em lugar algum, tive tanto prazer na minha própria
presença. E isso, ironicamente, tornou a despedida ainda mais cruel.
Cumpri
o ritual de todas as manhãs com a mesma reverência de quem sabe que repete um
gesto condenado à extinção. O pequeno-almoço, sempre declinoso - não por falta
de qualidade, mas por excesso de consciência. Hoje, porém, recusei-me a
romantizar manteigas e cafés. Há momentos em que até o prazer se torna
redundante.
Carreguei
as malas com uma solenidade quase teatral, como se cada fecho de zíper fosse um
ponto final mal colocado. Despedi-me da Elettra. E como sempre - ou talvez como
nunca mais - ficámos presos naquele abraço prolongado, onde o tempo se dissolve
e o corpo diz o que a linguagem nunca alcança. Convidei-a, com um sorriso que
escondia mais do que revelava, a visitar Portugal. O Gerês, claro - esse nosso
pequeno segredo paradisíaco, tão semelhante ao Lago de Como, mas com a ousadia
de não pedir licença para ser belo.
Quando
entrei no carro, vi-a - imóvel - a contemplar o site do Agrinho Suites &
Spa Gerês Hotel. Havia naquele olhar uma geografia nova a formar-se, como se já
estivesse a viajar sem sair do lugar. Talvez sonhasse com outro paraíso. Talvez
estivesse apenas a tentar prolongar este.
Arranquei.
Pelo retrovisor, Elettra tornou-se uma imagem cada vez mais pequena, cada vez
mais irreal, até restar apenas o gesto - a mão a acenar - como um símbolo de
tudo o que não sabemos manter. A estrada até Zurique começou como um
prolongamento do adeus. As curvas suaves junto ao lago, ainda tingidas de um azul
quase indecente, foram-se transformando lentamente em linhas mais austeras,
mais europeias, mais disciplinadas. O tempo começou a arrefecer - não de forma
abrupta, mas com aquela elegância fria que só o norte domina. Abri ligeiramente
a janela e deixei o ar entrar. Tinha o sabor de mudança e uma ponta de solidão
bem temperada.
As
cores da natureza começaram a transitar - verdes profundos deram lugar a tons
mais contidos, com pinceladas de outono precoce, como se a paisagem também
estivesse a preparar-se para uma despedida. Pequenas aldeias surgiam pelo
caminho, como miniaturas perfeitas de uma vida que parece sempre mais simples
do lado de fora. Casas impecáveis, varandas com flores milimetricamente
cuidadas, telhados que parecem desenhados por alguém com obsessão pelo detalhe.
Tudo tão perfeito que chega a ser suspeito. Ninguém vive assim… ou será que
sim?
A
música no carro fazia o papel de cúmplice. Não era alta, nem invasiva - era
aquela presença discreta que se infiltra nos pensamentos e os reorganiza sem
pedir autorização. Cada nota parecia dialogar com a paisagem, como se houvesse
um acordo secreto entre o som e o mundo lá fora. Dei por mim a conduzir menos e
a existir mais.
Atravessar
a fronteira foi quase anticlimático - nenhuma epifania, nenhum sinal celestial.
Apenas uma transição subtil, onde até o ar parecia mais organizado. Parei para
tomar um café forte, desses que não pedem desculpa por acordar memórias.
Encostado ao balcão, observei o movimento contido à minha volta. Tudo
funcionava. Tudo fluía. E, no entanto, faltava aquele pequeno caos que dá sabor
às coisas.
Voltei
ao carro com a sensação de que a viagem não era apenas geográfica. Havia em mim
uma espécie de deslocamento interno — como se tivesse deixado uma versão de mim
em Bellagio e estivesse agora a negociar com a próxima. Uma versão menos
ingénua, talvez. Ou apenas mais cansada de fingir que o mundo é um postal.
Segui
caminho. E, no fundo, percebi: não é o paraíso que nos marca. É a forma como
aprendemos - ou não - a sair dele. Com a companhia da música, fiz “came back” à
memória e regressei à paisagem de poucos quilómetros antes. Pequenas aldeias
surgiam pelo caminho, como miniaturas perfeitas de uma vida que parece sempre
mais simples do lado de fora. Casas impecáveis, varandas com flores
milimetricamente cuidadas, telhados que parecem desenhados por alguém com tempo
- esse luxo invisível.
E
pensei: casas de alguém… alguém que vive feliz por as ter. Ou, pelo menos,
alguém que ainda pode pagar por essa felicidade. Porque há quem não tenha. E
lute. Lute com uma dignidade silenciosa que ninguém fotografa. Lute para
conseguir um abrigo - não um sonho, não um refúgio idílico com vista para o
lago - apenas quatro paredes que não desmoronem com a vida. E muitos não veem
luz nenhuma ao fundo do túnel. Nem túnel, sequer. Apenas um corredor estreito
de contas por pagar e dias por sobreviver.
Foi
então que comecei, quase involuntariamente, a costurar o pensamento - ponto a
ponto - sobre o flagelo social destes tempos que atravessamos. Chamam-lhe crise
da habitação. Gentrificação. Palavras elegantes, quase técnicas, que soam bem
em conferências e relatórios. Fenómenos, dizem. Como se fossem chuvas tropicais
ou eclipses raros. Mas não. Não são fenómenos naturais. São escolhas. Decisões
humanas com consequências desumanas.
É
um jogo financeiro - dos mais sofisticados, admita-se - onde os dados não são
números, são vidas. Um jogo jogado por consciências que, de tão afiadas para o
lucro, se tornaram rombas para a empatia. Egoístas, sim. Mas pior:
indiferentes. E a indiferença é sempre mais perigosa do que o egoísmo, porque
não grita - silencia.
Os
bairros transformam-se. “Enobrecem-se”, dizem. Como se a nobreza pudesse ser
comprada ao metro quadrado. Chega o investimento, chegam os novos moradores,
chegam os cafés minimalistas onde um expresso custa o equivalente a um almoço
de quem ali viveu a vida inteira. E, discretamente, sem alarde, os antigos
habitantes vão desaparecendo. Não por escolha. Por impossibilidade.
As
rendas sobem como marés descontroladas. E quem não sabe nadar - ou melhor, quem
nunca teve piscina - afoga-se. As cidades tornam-se luxuosamente vazias. Cheias
de luz, mas ocas de alma. Belas, sim. Mas frias. Perigosamente frias. Como uma
casa decorada por catálogo onde ninguém ri alto demais para não desalinhar a
estética.
E
o mais irónico - quase cómico, se não fosse trágico - é que se vende isto como
progresso. Como revitalização. Como evolução urbana. Evolução para quem? Para
os que chegam? Ou para os que são obrigados a partir? As cidades vão perdendo a
sua identidade cultural como quem perde memória. Lentamente. Primeiro as
mercearias antigas, depois os vizinhos que sabiam o nome uns dos outros, depois
as festas de bairro, depois o cheiro a comida caseira nas escadas. No fim,
sobra uma espécie de cenário. Bonito. Fotografável. E vazio de verdade.
Os
pobres são empurrados para o lado invisível da cidade - esse lugar que não
aparece nos guias turísticos nem nas campanhas institucionais. Onde as casas
são improvisadas, as condições são precárias e a dignidade é constantemente
posta à prova. Lugares que, por vezes, fazem lembrar estruturas de contenção
humana, onde se sobrevive mais do que se vive.
E
o mais perturbador? Isto acontece ao nosso lado. Mas há uma cortina invisível.
Sempre houve. Feita de distração, de conforto, de um certo “não me diz
respeito”. Uma esmola aqui, uma campanha solidária ali - pequenos gestos que
aliviam a consciência, mas não alteram a estrutura. Como colocar um penso rápido
numa ferida que precisa de cirurgia.
Isto
não é ficção. É real. Real aos olhos de quem vive bem - embora muitos escolham
não ver. E brutalmente real aos olhos de quem tem o poder para alterar a
situação…, mas prefere ajustar contas em folhas de Excel como se estivesse a
gerir abstrações e não destinos humanos. E, no entanto, bastava tão pouco - e
ao mesmo tempo tanto. Um desvio de prioridades. Uma decisão corajosa. Menos
investimento no supérfluo, mais no essencial. Menos estética, mais ética. Um
pequeno gesto, dirão alguns. Mas, para quem não tem onde regressar ao fim do
dia, esse gesto seria tudo.
Porque
há um privilégio que raramente reconhecemos como tal: chegar a casa. Abrir a
porta. Sentir o cheiro familiar. Ouvir vozes conhecidas. Saber que, por algumas
horas, o mundo lá fora não entra. Nem todos têm isso. E talvez seja aí que o
paraíso deixa de ser um lugar e passa a ser uma responsabilidade.
Parei
um pouco. Sufoquei. Limpei as lágrimas de impotência de não poder riscar a
folha de Excel. Voltei à estrada com
essa consciência a pesar mais do que qualquer bagagem. E percebi que não basta sair
do paraíso. É preciso perguntar quem nunca lá pôde entrar. E, sobretudo, o que
estamos dispostos a fazer para mudar isso. Porque um mundo que constrói casas
que as pessoas não podem habitar… não é um mundo evoluído. É apenas um mundo
bem decorado.
E,
com esse pensamento a ecoar como um sino grave dentro do peito, segui. A
estrada até Zurique parecia ter sido desenhada por alguém que acreditava que a
beleza podia redimir culpas. Curvas suaves abraçavam encostas salpicadas de
pequenas povoações, onde as casas de madeira repousavam como segredos antigos,
alinhadas com uma precisão quase irónica - como se até o caos tivesse sido
regulamentado. O verde, ainda resistente, começava a ceder ao frio que descia
lentamente, como um aviso sussurrado. As árvores, já menos confiantes, deixavam
cair folhas como quem desiste de argumentos. O ar tornava-se mais fino, mais
honesto, mais difícil de ignorar. Havia um silêncio curioso naquela paisagem -
não um silêncio vazio, mas um silêncio cheio de perguntas. E eu, pela primeira
vez em muito tempo, não tinha respostas.
Quando
cheguei a Zurique, a cidade recebeu-me com uma elegância contida, quase
distante, como alguém que não precisa de impressionar porque já sabe o seu
valor. Procurei o hotel, instalado junto à margem do rio Limmat, que
atravessava a cidade com a serenidade de quem conhece todos os seus segredos.
Nascido no lago e deslizando pelo centro histórico, o rio parecia carregar
histórias antigas, murmúrios de séculos, talvez até algumas verdades que
ninguém quis ouvir.
O
check-in foi eficiente, quase cirúrgico. O rececionista era afável, sim - mas
sem aquela teatralidade calorosa que os italianos transformam em arte. Aqui, a
simpatia vinha medida, como um bom vinho: equilibrada, mas sem excessos
emocionais. Subi ao quarto, deixei as malas, e desci para almoçar, já tarde,
como quem chega atrasado à própria vida.
O
restaurante nas redondezas do hotel era acolhedor de uma forma discreta - iluminação
suave, o tilintar contido dos talheres e conversas em tons baixos, como se ali
até o ruído fosse educado. Sentei-me, e pouco depois serviram-me o Zürcher
Geschnetzeltes que me haviam aconselhado. As tiras de vitela, tenras,
envolvidas num molho cremoso com cogumelos e vinho branco, pareciam ter sido
preparadas com um cuidado quase maternal. O Rösti, dourado e crocante, trazia
uma textura que contrastava com a suavidade do prato - uma dança perfeita entre
o conforto e a precisão.
Acompanhei
com um vinho suíço. E pensei, com um sorriso ligeiramente sarcástico, que um
país que produz vinho desta qualidade e ainda assim decide não o exportar em
grande escala… ou é muito seguro de si, ou simplesmente não quer partilhar o
segredo. Talvez ambas. A sobremesa chegou como um pequeno milagre doce -
delicada, equilibrada, suficiente para me lembrar que, apesar de tudo, ainda
havia coisas no mundo que funcionavam exatamente como deviam.
Depois,
deixei-me perder. Ou talvez encontrar. Zurique revelou-se à minha intuição, sem
mapas nem planos. Caminhei pela Bahnhofstrasse, onde o luxo se exibia com a
naturalidade de quem respira - vitrines impecáveis, relógios que custam mais do
que algumas vidas inteiras. Um lembrete silencioso de que o tempo, afinal, tem
preço - e não é baixo. Entrei nas ruelas da Altstadt, onde o passado se agarra
às paredes e se recusa a sair. Cada esquina parecia esconder uma história, cada
pedra parecia ter visto mais do que devia. Visitei igrejas que elevavam o olhar
e esmagavam o ego - vitrais que filtravam a luz como se Deus tivesse um
designer pessoal.
Do
Lindenhof, contemplei a cidade. E por um momento, tudo fez sentido… ou pelo
menos pareceu fazer. Terminei junto ao lago. A água, calma, refletia um céu já
rendido à noite. Havia algo de profundamente humano naquele instante - a
beleza, sim, mas também a solidão.
Quando
a escuridão se instalou e a bateria da minha energia começou a piscar,
regressei ao hotel. Fui direto ao bar. Sem fome. Só sede - daquela que não se
resolve com água. Pedi uma cerveja. Depois outra. E outra. Na terceira, uma
barmaid elegante aproximou-se. Sem perguntar, colocou diante de mim um Raclette
fumegante - o queijo derretido a escorrer sobre batatas e picles como um abraço
quente numa noite fria.
“Inglês?
Alemão? Francês?”, pensei. Mas não. Com um espanhol fluente e um sorriso que
escondia mais do que revelava, disse: “Para que la cerveza no se estropee. Yo
te cuido.” E foi-se embora. Assim. Sem tempo para agradecimentos. Sem
explicações. Como se tivesse cumprido uma missão secreta que eu nunca iria
compreender.
Quando
me levantei e me dirigi ao balcão, ela já não estava lá. Subi ao quarto. E aí,
o conforto envolveu-me como uma promessa cumprida: tecidos suaves, iluminação
quente, uma cama que parecia conspirar contra qualquer intenção de permanecer
acordado. A janela deixava entrar a cidade silenciosa, quase respeitosa.
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Coloquei
os fones. A música entrou devagar, como uma memória que não pede licença. E,
pela primeira vez naquele dia, deixei-me ir - sem resistência, sem perguntas.
Adormeci. Com um estranho equilíbrio entre tristeza e gratidão. Porque, no meio
desta viagem, entre estradas frias e pensamentos quentes, tenho encontrado
pessoas que, de forma quase invisível, me têm sustentado. Pequenos gestos,
palavras soltas, presenças inesperadas.
E
isso… isso tem-me ajudado a não sentir tanto a falta dos meus amigos em
Portugal. Ou pelo menos, a sentir de uma forma que dói…, mas já não destrói.
Diário de uma viagem – 128 dia








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