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A mostrar mensagens de abril, 2026

Para onde os vamos arrumar?

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  Não há solução sem escolha. E escolher implica perder alguma coisa. Implica dizer “não” a interesses que gritam mais alto do que as necessidades. Acordei em Zurique como adormeci: suspenso nesse fio invisível que separa a tristeza da gratidão - como se o coração, indeciso, recusasse escolher um lado e preferisse ficar ali, em equilíbrio instável, mas estranhamente honesto. Há algo de profundamente humano nesse estado intermédio, quase como um cais onde atracam sentimentos que não sabem ainda se partem ou se ficam. Porque, no meio desta viagem - entre estradas frias e pensamentos quentes, entre o silêncio das montanhas e o ruído íntimo de quem pensa demais - tenho encontrado pessoas que não pedem protagonismo, mas deixam marcas. Pequenos gestos, palavras soltas, presenças inesperadas. Como migalhas de humanidade num mundo que tantas vezes se esquece de ser humano. E talvez seja isso que nos sustenta: não os grandes acontecimentos, mas os detalhes quase invisíveis que nos imped...

Chamam-lhe crise da habitação. Gentrificação. Palavras elegantes, quase técnicas, que soam bem em conferências e relatórios. Isto não é ficção. É real!

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Despertei em Bellagio - Lago de Como - com uma sensação amarga, quase traiçoeira, como se o próprio paraíso tivesse decidido expulsar-me com delicadeza. Havia em mim um silêncio estranho, desses que não pedem companhia, porque já encontraram tudo o que procuravam. Nunca, em lugar algum, tive tanto prazer na minha própria presença. E isso, ironicamente, tornou a despedida ainda mais cruel. Cumpri o ritual de todas as manhãs com a mesma reverência de quem sabe que repete um gesto condenado à extinção. O pequeno-almoço, sempre declinoso - não por falta de qualidade, mas por excesso de consciência. Hoje, porém, recusei-me a romantizar manteigas e cafés. Há momentos em que até o prazer se torna redundante. Carreguei as malas com uma solenidade quase teatral, como se cada fecho de zíper fosse um ponto final mal colocado. Despedi-me da Elettra. E como sempre - ou talvez como nunca mais - ficámos presos naquele abraço prolongado, onde o tempo se dissolve e o corpo diz o que a linguagem nun...