Sim, gosto dessas conversas. São honestas, diretas e raramente interrompidas.

 


Acordei em Tropea com a sensação nítida de que aquela cidade guardava um segredo. Não um segredo pequeno, daqueles que se revelam numa esquina qualquer, mas um daqueles mistérios antigos que parecem esperar pacientemente pela pessoa certa. Talvez fosse arrogância minha pensar que podia ser eu. Talvez fosse apenas o efeito do sol italiano logo pela manhã. Ainda assim, o dia prometia. Tropea tem esse tipo raro de encanto que não se explica - apenas se descobre.

Abri a janela e ali estava o Mar Tirreno, sereno, luminoso, quase teatral sob um céu absurdamente azul. O Tirreno respirava devagar, como se soubesse algo que ainda não me queria contar. Uma brisa morna entrou no quarto trazendo consigo o aroma do café acabado de fazer. Restabeleci as minhas energias com café forte e pão torrado com manteiga que se derretia lentamente, deslizando sobre a superfície quente com uma elegância quase provocadora.

Mas não podia perder tempo com gulosices, embora… devo admitir… esses pequenos prazeres dão sabor à vida. Descobrir Tropea era uma prioridade. Mochila às costas, desci para a cidade. Diz a lenda que Tropea foi fundada por Hércules quando regressava dos seus famosos trabalhos, um presente do próprio Zeus. Confesso que não sei se a história é verdadeira, mas olhando para aquela cidade suspensa entre falésias e mar, percebo perfeitamente porque os deuses a escolheriam.


Caminhei pelas ruas estreitas onde a pedra parece guardar memórias de séculos. Em muitas lojas e bancas vi algo curioso: montes de cebolas roxas, brilhantes como pequenas joias agrícolas. A famosa Cipolla Rossa di Tropea. Chamam-lhe o “ouro roxo” da Calábria. Dizem que é doce como poucas no mundo. Vi-as transformadas em tudo: compotas, molhos, gelados… até souvenirs. Uma cebola que virou embaixadora cultural - o que, convenhamos, é uma carreira improvável.

Continuei a caminhar até ao lugar que domina todas as fotografias da cidade: o Santuário de Santa Maria dell’Isola. Ergue-se sobre uma rocha à beira do mar como se tivesse sido colocado ali por mãos divinas ou por um arquiteto com ambições mitológicas. O antigo mosteiro beneditino parece crescer da própria pedra. Subi devagar, degrau a degrau, e quando cheguei ao topo percebi porquê: dali vê-se o mundo inteiro. Ou pelo menos parece.

O mar infinito de um lado. A cidade agarrada à falésia do outro. E o vento a contar histórias. Tropea foi construída estrategicamente no alto das falésias para se defender de invasores. Durante séculos esteve protegida por muralhas e tinha apenas duas entradas. Uma delas era a Porta del Mare, que ligava o topo da falésia à zona dos pescadores. Imagino soldados ali de vigia, barcos aproximando-se no horizonte, decisões importantes tomadas ao som das ondas. Hoje, porém, a cidade vive num ritmo completamente diferente.


Aqui o tempo abranda. As conversas prolongam-se. O pôr-do-sol é quase um ritual sagrado. E o verão vibra em cada rua com aquele tipo de alegria tranquila que só o sul da Itália sabe produzir. Pelo meio almocei qualquer coisa leve. Nada memorável. Um pedaço de pão, um pouco de queijo, um copo de vinho. A verdade é que estava demasiado ocupado a caminhar… e a conversar comigo mesmo.

Sim, gosto dessas conversas. São honestas, diretas e raramente interrompidas. Caminhei sozinho pelas ruas de Tropea, como quem abre um livro antigo sem saber ao certo que história vai encontrar. As pedras gastas das ruas guardam passos de séculos e, por momentos, parece-me que cada passo meu desperta um sussurro do passado. O mar lá em baixo respira lentamente, azul profundo, como se fosse o coração da própria cidade.

Há algo de misterioso em caminhar sozinho. A solidão, quando não é ausência, torna-se conversa. Penso no que nunca pensei antes. Pergunto-me coisas que durante anos ficaram escondidas entre as urgências da vida. Perguntas simples, quase infantis - mas difíceis como o silêncio. Nem sempre obtenho respostas. Na verdade, quase nunca. Ainda assim, continuo a perguntar. Porque perguntar é uma forma de continuar vivo.


Falo comigo. Falo com estranhos. Falo com o vento que sobe das falésias. Um homem sorri ao passar, uma senhora arruma cebolas numa pequena banca, o cheiro de café escapa de uma porta entreaberta. Há qualquer coisa profundamente humana nestes pequenos gestos que se repetem em todas as cidades do mundo. Em cada rosto encontro uma história invisível - batalhas silenciosas, sonhos adiados, amores guardados em gavetas da memória.

Os meus olhos observam tudo. A beleza das casas antigas, com varandas cheias de flores. A beleza das pessoas que caminham sem saber que também são paisagem. Outras sentadas à espera do nada. A beleza dos sabores - um pedaço de pão quente, o sal do mar no ar, a simplicidade que tantas vezes esquecemos. E, no meio de tudo isto, aprendo a vida.

Penso nos erros que cometi. Não como acusações, mas como páginas necessárias. Penso nas decisões que doeram, nas palavras que chegaram tarde demais, nos caminhos que abandonei por medo ou cansaço. Mas também penso no que fiz bem - nos gestos pequenos que talvez tenham mudado o dia de alguém, nas escolhas corajosas que, mesmo tremendo, tive a ousadia de fazer.

Percebo então uma verdade silenciosa: os momentos felizes não apagam os difíceis - mas dão-lhes sentido. São como pequenas lanternas acesas na memória. Porque a vida não é feita apenas de vitórias. A vida é feita de continuar. E continuar é talvez o maior ato de coragem que existe. Penso em todos os homens e mulheres do mundo que, como eu, caminham - às vezes perdidos, às vezes cansados, mas sempre de alguma forma em frente. Os resilientes. Os que caem e voltam a levantar-se. Os que acreditam, mesmo quando as provas parecem contrariar essa fé silenciosa.


Talvez todos estejamos aqui para aprender. Não grandes segredos cósmicos ou verdades absolutas. Talvez apenas isto: aprender a olhar. Aprender a escutar. Aprender a amar apesar das imperfeições. Porque sabemos muito pouco da nossa verdadeira missão.

Caminho mais um pouco. O sol inclina-se lentamente sobre o mar e pinta a cidade de ouro antigo. Nesse instante compreendo que talvez o mistério da vida não esteja nas respostas que procuramos, mas na coragem de continuar a fazer perguntas. E enquanto caminho por Tropea, entre vozes desconhecidas e pensamentos íntimos, sinto algo surpreendentemente simples: estamos todos, sem exceção, numa longa viagem de aprendizagem. Alguns chamam-lhe destino. Outros chamam-lhe acaso. Eu, neste momento, chamo-lhe apenas… viver. Naquele momento aprendi que, numa cidade suspensa num penhasco, como na nossa vida, a única coisa que nos impede de cair é o fio que nos liga aos outros, mesmo aos que já partiram.

Quando a noite chegou, Tropea transformou-se. As ruas ganharam música, as esplanadas iluminaram-se e o ar ficou mais suave. Cansado, regressei ao hotel. Pedi uma sandes mista no bar do hotel, e uma cerveja gelada. Talvez duas… foi então que ouvi a voz. Antonella. Não a vi primeiro - ouvi-a. Uma voz quente, suave, com aquela melancolia luminosa das canções italianas.

Quando finalmente levantei os olhos vi o sorriso dela. Era daqueles sorrisos que parecem conhecer o mundo inteiro, mas que ainda assim continuam curiosos. Cantava olhando para as pessoas como se cada canção fosse uma pequena história partilhada.

Quando o espetáculo terminou Antonella veio ao meu encontro com aquele tipo de sorriso simples que diz: “podemos conversar?” E conversámos. Primeiro sobre o meu dia em Tropea. Depois sobre música. Depois sobre viagens. Depois sobre os nossos países. Ela contou-me sobre a sua vida e eu falei-lhe sobre a minha, das minhas tentativas meio falhadas de entender o mundo.

O bar foi ficando vazio. A música transformou-se num fundo distante. As luzes tornaram-se mais suaves. E a conversa ganhou aquele ritmo raro em que duas pessoas deixam de medir o tempo. Por vezes ela inclinava-se ligeiramente para a frente quando contava algo mais pessoal, e o perfume dela misturava-se com o cheiro do mar que entrava pela porta aberta.

Era um momento simples. Mas tinha qualquer coisa de mágico. Quando demos por nós, a noite já tinha avançado muito mais do que o razoável para alguém que tinha passado o dia inteiro a caminhar. Mas ela estendeu-me a mão e falou: “vem, vamos caminhar um pouco junto ao mar aqui em frente” Saímos do bar.


A praia estava silenciosa. A água refletia a luz da lua e ao longe ouvia-se o mar a bater nas falésias. Caminhámos um pouco sem dizer nada, com as mãos coladas. Às vezes o silêncio também é uma conversa. E naquele momento tive a sensação clara de que Tropea tinha finalmente revelado uma parte do seu mistério.

Não nas ruínas. Nem nas lendas. Nem nas cebolas roxas. Mas naquele encontro inesperado que a noite, o mar e a música decidiram escrever. E confesso: foi uma das melhores descobertas do dia.

Quando cheguei finalmente ao meu quarto, senti a necessidade de dormir depressa, porque faltavam poucas horas para partir para Latina. Era uma longa viagem.

https://www.youtube.com/watch?v=3bO9wSqETG0&list=RD3bO9wSqETG0&start_radio=1

Coloquei os meus fones e deixei que esta musica me adormecesse.

 

Diário de uma viagem – 119 dia – 22/10/2025 

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