Quando herói - esculpido em carne de vaca seca e testosterona - entrava no saloon.



Despertei em Marsala com a estranha sensação de que alguém me estava a desabitar por dentro. Não era dor. Era um vazio com malas feitas. Era o último dia na companhia de Nicole e da sua avó Claire - duas viajantes da vida que decidiram ficar uns dias naquela cidade dourada pelo sal e pelo vinho, hospedadas na casa da amiga Giulia, a professora de História que na noite anterior me encantara com narrativas tão vívidas que quase vi cartagineses a pedirem sobremesa.

Não me alongo sobre o pequeno-almoço. Há dias que exigem prioridade emocional, não croissants. O nosso ponto de encontro foi o Museo Archeologico Baglio Anselmi. Lá repousa um navio púnico do século III a.C., encontrado nas águas próximas - testemunha silenciosa de batalhas, rotas comerciais e, imagino eu, discussões marítimas sobre quem se esqueceu do remo. A madeira antiga exalava um odor leve a sal e eternidade. Os mosaicos romanos completavam o cenário, como se o próprio chão tivesse decidido candidatar-se a contador de histórias.


Quando elas chegaram, aconteceu o inevitável: aquele abraço onde a saudade começa antes da despedida. Nicole prendeu-se ao meu pescoço por um tempo que desafiou os relógios. Era um abraço de fusão, como se tentasse convencer a biologia de que dois corpos podem, por decreto afetivo, tornar-se um só. Depois, leu-me as costas com as palmas das mãos - devagar, concentrada - como se eu fosse um poema de amor em braille.

O toque nos lábios foi uma exploração suave e trémula, onde o tato substituiu o olhar e o paladar assinou uma promessa que o tempo fingirá esquecer, mas nunca apagará. A respiração tornou-se ofegante, descompassada, denunciando o pânico elegante da partida iminente. Uma lágrima deslizou - quente, silenciosa - traçando o mapa da saudade antes do adeus.

Então eu falei: “Calma, menina. Eu ainda estou aqui, pronto para descobrir a cidade contigo.” Ela fez uma pausa que caberia num romance inteiro e respondeu: “Tu és o mapa de uma viagem que termina no corpo, mas permanece na alma.” E lá fomos, braços enlaçados na cintura, passos por vezes desencontrados - a verdadeira amizade também tropeça, mas nunca cai.


Marsala é sinónimo de vinho. Seguindo Giulia, dirigimo-nos às históricas Cantine Florio, fundadas em 1833. As caves cobertas de tufo pareciam catedrais subterrâneas dedicadas a um deus âmbar. O aroma era denso, quente, quase táctil. O vinho Marsala evoluíra de simples bebida de exportação para néctar refinado - uma metáfora líquida sobre maturidade e tempo. Provei-o como quem aceita um segredo antigo na língua.

A sul da cidade, a Riserva Naturale Isole dello Stagnone di Marsala abriu-se diante de nós como um postal indecentemente perfeito. Almoçámos num restaurante de decoração vintage, calmo, aromático, com o silêncio cúmplice das coisas bem-feitas. Veio o couscous de peixe - herança árabe que dança com o Mediterrâneo - grão solto, impregnado de caldo marinho, perfume de especiarias que acordavam a memória. As arancine chegaram douradas, crocantes por fora, voluptuosas por dentro. E então o momento poético-gastronómico: um copo de Marsala servido com um cannolo siciliano.

O primeiro gole aqueceu-me o peito como um abraço líquido. A doçura complexa do vinho encontrou o crocante delicado da massa do cannolo; a ricotta cremosa dissolveu-se na boca como uma confissão. Era um diálogo entre açúcar e álcool, entre tradição e desejo. Nicole sorriu ao ouvir a minha descrição exageradamente dramática. Claire comentou que se as guerras fossem resolvidas à mesa, o mundo teria menos generais e mais chefs.


Falando em guerras - o tema regressou, inevitável, agora centrado no conflito entre EUA, Israel e Irão. Motivos oficiais, oficiosos, ou para tornar algo maior invisível. Escalada pelo Médio Oriente, para já. Uma coreografia perigosa que, para mim, lembrava os antigos filmes de cowboys passados no Texas.

Ah, o velho Texas cinematográfico: aquele lugar místico onde a areia entrava em todo o lado e a esperança de vida era mais curta que um pavio de dinamite. O guião era tão inovador que podias prever o próximo soco enquanto ias buscar mais pipocas.

O ritual era sagrado. O nosso herói - um tipo tão durão que parecia ter sido esculpido em carne de vaca seca e testosterona - entrava no saloon. O silêncio instalava-se, porque aparentemente ninguém no Texas tinha mais nada que fazer senão esperar que um estranho passasse pelas portas de vaivém. Ele chegava ao balcão, pedia um uísque que provavelmente servia para limpar carburadores, e havia sempre, sempre, um cavalheiro com higiene duvidosa sentado ao lado pronto para o desafiar.


O motivo da briga? Irrelevante. Podia ser um olhar de lado, a cor do chapéu, ou o facto de o herói não ter dito "com licença" ao esporar o cavalo. Mas a verdadeira magia acontecia dois minutos depois. Começava com dois valentões e, por uma espécie de osmose de estupidez coletiva, o bar inteiro decidia que era a altura ideal para praticar ortopedia caseira.

De repente, pessoas que nem se conheciam estavam a atirar cadeiras de pinho (que se partiam como se fossem feitas de bolachas de água e sal) e a disparar para o teto. O pianista, num exemplo máximo de profissionalismo ou puro terror, continuava a tocar enquanto garrafas voavam. No fim, o herói limpava um fio de sangue do canto da boca, ajustava o chapéu e saía, deixando para trás um rasto de destruição e uma conta de reparações que faria qualquer seguradora moderna entrar em colapso.

Nicole inclinava a cabeça para me ouvir melhor e ria, embora o tema fosse sério. O humor é a nossa trincheira portátil. Depois fomos às Saline Ettore e Infersa. Moinhos de vento históricos recortavam-se contra montanhas de sal. A água refletia tons cor-de-rosa e dourados; o pôr do sol parecia indeciso entre incendiar o céu ou beijá-lo. O ar cheirava a mineral e eternidade.


Seguimos para a Isola di Mozia, antigo sítio fenício acessível por pequenos barcos. Ali, as pedras falavam baixo. Terminámos no Parco Archeologico di Lilibeo. As ruínas da antiga cidade romana surgiam entre o azul e o vento como memórias petrificadas. O tempo ali não corria - pairava.

Claire estava cansada. No olhar dela havia a doçura de muitas caminhadas já vividas. E então chegou o momento mais difícil. As lágrimas de Nicole e Claire não eram de fim. Eram de pausa. No silêncio carregado senti a promessa de um “até já”. As despedidas são dramáticas, injustas, excessivas - porque quando o coração quer ficar, qualquer separação parece erro de cálculo do universo. Mas a amizade verdadeira não se despede. Apenas muda de cenário. Respira na ausência. Cresce no intervalo. Fortalece-se na saudade.


Regressei ao hotel sem vontade de jantar. No quarto, larguei a roupa como quem abandona o peso do dia. O banho foi fresco, aromático; a água levou a melancolia pelo ralo com uma eficiência que a diplomacia internacional invejaria.

https://www.youtube.com/watch?v=hTRFFpH0glg&list=RDhTRFFpH0glg&start_radio=1

Coloquei os fones e deixei que esta musica me embalasse. Afinal os motivos das Guerras é mais mentira menos mentira. Mas estas notas era uma esperança de paz.

A próxima viagem - até Tropea - já começava ali, no escuro do quarto, onde o coração, apesar de tudo, nunca aprende a ficar parado.

 

Diário de uma viagem – 117

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