Quando eu percebi que era um degrau e não um destino, a minha vida mudou.


Despertei em Marsala com melancolia. Não aquela melancolia banal, que se resolve com um café forte e um olhar distraído pela janela. Não. Esta era uma melancolia que entra no quarto como uma personagem misteriosa, puxam a cadeira ao lado da cama e ficam ali, a observar-te com um sorriso irónico. Cobriu-me inteiro como um manto enigmático e romântico, roubando-me a vontade de sair da cama e mantendo-me prisioneiro entre o sono e uma vigília dolorosa.

Quando a saudade bate no peito, ela não pede licença. Não bate à porta - arromba-a. E dói. Não é metáfora literária; é quase fisiologia. Uma dor física, um eco de algo intenso que se foi, mas que teima em habitar o presente como um fantasma educado que nunca aprendeu a despedir-se.

Mesmo com a saudade da presença de Nicole - a viajante de olhos fechados e sentidos abertos - e da sua tia Claire, que ficaram em Marsala depois daqueles dias improváveis de companheirismo, levantei-me finalmente. Tomei um banho refrescante, como quem tenta convencer o corpo de que ainda pertence ao mundo dos vivos, segui o aroma do café da manhã - esse ritual quase religioso que salva civilizações inteiras de colapsos emocionais - e preparei-me para a viagem até Tropea.


Parti. A estrada começou a desenrolar-se ao lado do Mar Tirreno como uma fita de prata. O mar estava calmo, com aquele azul profundo que parece esconder séculos de segredos e alguns marinheiros excessivamente confiantes. No carro, a música tocava quase em silêncio - jazz antigo. Apenas um sussurro sonoro, suficiente para dar ritmo aos pensamentos, mas não para os distrair.

E os meus pensamentos estavam carregados de saudade. A estrada costeira oferecia paisagens que pareciam pintadas por um artista generoso: falésias douradas mergulhando no mar, pequenas aldeias empoleiradas nas colinas como se estivessem ali apenas para provar que a gravidade também aprecia beleza, barcos de pesca balançando lentamente como velhos filósofos a pensar na vida.

Mas a beleza, por mais deslumbrante que seja, não impede a memória de trabalhar. Há encontros que não acontecem no tempo. Acontecem na fenda entre os segundos.  Naquelas viagens improváveis onde o destino, cansado de seguir o mapa, decide perder-se connosco. Nicole e Claire foram esse desvio. Alguém que cruza o meu caminho num comboio sem destino ou numa receção dum hotel e, sem aviso, transforma-se na amizade mais verdadeira - aquela que não se explica, apenas se reconhece.


Reconhece-se pelo cheiro. Pelo tom de voz. Pelo silêncio partilhado. Pelo toque invisível de conversas que atravessam a madrugada. Pelo sabor a maresia de um adeus que nunca foi dito. Pelo som de um riso que continua a ecoar num corredor vazio da memória. Momentos românticos, livres de posses, despido de intenções. Um romantismo raro, daqueles que não aparecem em novelas porque não gera drama suficiente para a televisão.

Mas depois da partida… fica a saudade. E ela dói. Mas com uma textura diferente na alma. Sim, porque eu já vivi a dor que rasga - a da traição - que sabe a metal e a terra seca. Eu já vivi a dor da exploração - que drena as cores do mundo. Eu já vivi a dor do jogo de interesses, esse xadrez frio onde as pessoas são peças e o afeto apenas moeda de troca. Essas dores são cinzentas. Pesadas. Fecham as janelas do peito. Deixam um travo amargo de desconfiança.

Na passagem por esta vida, cruzamo-nos com sombras que nos ensinam o que não queremos ser. Mas, de vez em quando - raramente, quase como um erro do universo - cruzamo-nos também com o enigma decifrado. O amor em forma de amizade. A prova silenciosa de que a beleza ainda sobrevive aos naufrágios. Essa saudade não me diminui. Expande-me. É o eco de um riso partilhado num comboio que já partiu, mas cujo som continua a embalar o presente.


Recorda-me também - porque infelizmente a memória não tem “off” - de todos os momentos em que o silêncio não era de paz, mas de cálculo. Lembro-me de estar sentado em frente a alguém que me chamava “amor”. Mas o ar estava saturado com o peso das intenções não ditas. Sentia-se o cheiro frio do oportunismo - semelhante ao metal de uma moeda esquecida no bolso. A conversa era um jogo de xadrez: cada palavra pesada não pelo seu valor emocional, mas pela utilidade que poderia ter.

Foi ali que aprendi a dor da descartabilidade. Percebi que era um degrau, não um destino. Essa frieza ensinou-me a ler entrelinhas e a proteger a minha própria luz. Porque o amor sem honestidade não passa de um contrato vazio de alma. Agora recordo aquela curta viagem improvável com Nicole. No meio do cansaço, da estrada e do desconhecido, encontrei o olhar de alguém que nada queria de mim - a não ser a minha presença.

Não havia favores a cobrar. Nem estatutos a preservar. Talvez tenha sido apenas um riso partilhado num lugar estranho ou um silêncio cúmplice diante de uma paisagem nova. Mas ali, a honestidade era oxigénio. Senti a liberdade de ser eu - sem máscaras, sem cálculos - porque sabia que aquele encontro era um fim em si mesmo. A saudade que ficou desse momento é doce. Porque é gratuita.


Ensinou-me que a verdadeira riqueza não reside no que os outros nos podem dar, mas na pureza do que podemos ser juntos. Esses dois momentos - vividos em lugares diferentes - tornaram-se os meus grandes mestres. Um ensinou-me discernimento. O outro ensinou-me gratidão. Nicole fez-me reviver o passado onde caminhei por tabuleiros de vidro, onde os abraços tinham preço e os risos, validade. Aprendi a dor do cálculo, o frio da utilidade, e as cicatrizes que a exploração desenha na alma, como sulcos numa terra que espera pela chuva.

Com esses pensamentos - e com a música ainda sussurrando no carro - cheguei a Capo d'Orlando. A cidade surgiu brilhante diante do mar. Capo d’Orlando é dessas cidades costeiras que parecem ter sido desenhadas com entusiasmo. Praias de areia fina estendiam-se ao longo da costa, enquanto no horizonte surgiam as silhuetas quase míticas das Ilhas Eólias, flutuando no mar.

A história respira ali. Desde os gregos até aos romanos que escolheram aquele lugar como refúgio elegante para escapar ao barulho do império - uma decisão extremamente sensata, convenhamos. Lá no alto da colina, o Santuário de Maria Santíssima de Capo d'Orlando observa o mar há séculos, como um velho guardião espiritual. E não muito longe repousa a elegante Villa Piccolo, testemunha silenciosa de tempos aristocráticos.


Mas naquele momento, confesso, a história competia com algo mais urgente. Foi o aroma que decidiu por mim. Um restaurante pequeno, simpático, com mesas viradas para o mar. O tipo de lugar onde os empregados falam com gestos largos e os pratos chegam à mesa como obras de arte com sotaque siciliano.

Sentei-me. O ar estava carregado de cheiros magníficos: azeite quente, alho dourado, limão fresco e aquele perfume inconfundível do peixe acabado de sair do mar - um aroma que tem a honestidade brutal das coisas simples. Pedi peixe. Minutos depois chegou à mesa um esplêndido peixe grelhado - provavelmente capturado poucas horas antes por algum pescador que, naquele momento, devia estar a discutir filosofia marítima com uma gaivota.

A pele dourada e estaladiça brilhava com azeite. Limão fresco cortado ao lado. Batatas assadas lentamente com alecrim. Tomates maduros, doces como sol de verão. A primeira garfada foi quase um momento espiritual. O sabor era puro, salgado, vivo, como se o próprio mar tivesse decidido participar no almoço.


Acompanhado por um copo de vinho branco siciliano frio, o mundo parecia subitamente mais compreensível. Ou pelo menos mais saboroso, que já é um progresso considerável. Enquanto comia, o mar brilhava diante de mim. E percebi uma coisa curiosa sobre a saudade. Ela não desaparece. Mas aprende a sentar-se connosco à mesa.

Depois do almoço em Capo d'Orlando, segui viagem até Tropea, o meu destino. A estrada parecia ter sido desenhada por um pintor paciente, daqueles que não têm pressa em terminar a obra. Deslizava entre colinas suaves e vales silenciosos, serpenteando como uma promessa ainda por cumprir. A paisagem tinha cores que pareciam respirar: verdes profundos de oliveiras antigas, manchas ocres de terra aquecida pelo sol e, ao longe, o azul quase impossível do Mar Tirreno.

O tempo estava fresco, quase delicado, como uma brisa que acaricia em vez de empurrar. O céu era de um azul limpo, sem uma única nuvem, como se alguém tivesse decidido apagar qualquer distração do horizonte. Pelo caminho surgiam pequenas aldeias italianas, adormecidas no seu próprio ritmo: casas de pedra com varandas cheias de flores, roupa a secar preguiçosamente ao vento, igrejas antigas com sinos silenciosos àquela hora da tarde. Em algumas praças via-se um velho sentado a observar o mundo passar - talvez ali sentado desde sempre, talvez apenas naquele momento.


Conduzir ali não era apenas deslocar-se; era atravessar um quadro vivo. Quando finalmente cheguei a Tropea, a cidade recebeu-me como quem já sabia que eu vinha. O céu da noite ainda estava pouco pintado de estrelas luminosas, mas o suficiente para dar à cidade um brilho discreto, quase cúmplice.

O hotel foi uma verdadeira surpresa. Erguia-se mesmo em frente ao Mar Tirreno, como se tivesse sido construído para contemplá-lo eternamente. Em baixo, uma praia de areia dourada parecia estender-se como um tapete silencioso até às águas cristalinas. Tropea não carrega por acaso o título de “Pérola do Tirreno”. Situada na lendária Costa degli Dei - a Costa dos Deuses - a cidade possui algumas das praias mais belas não só de Itália, mas de toda a Europa. As águas de tom azul-turquesa abraçam areias claras enquanto, acima delas, as falésias sustentam o centro histórico como um palco dramático suspenso entre céu e mar.

Era um cenário quase teatral. Eu estava curioso. E ansioso. Quando entrei no hotel fui recebido com uma simpatia invulgar. A receção tinha um perfume leve de limão e madeira polida. Ofereceram-me uma bebida aromática, refrescante… mas terrivelmente alcoólica. O primeiro gole despertou todos os sentidos ao mesmo tempo.


E depois houve o sorriso. Antonella - era assim que dizia o crachá preso ao vestido elegante da rececionista. Um sorriso luminoso, daqueles que parecem nascer antes mesmo de serem oferecidos. Depois de deixar as malas no quarto e refrescar o corpo, saí para descobrir a cidade noturna. Caminhei até à Piazza Ercole, no coração do Centro Storico di Tropea. Ali, as ruelas estreitas pareciam labirintos de pedra antiga. Edifícios seculares inclinavam-se ligeiramente uns sobre os outros como velhos amigos que partilham segredos há séculos. Entre eles surgiam palácios nobres - palazzi silenciosos com varandas de ferro forjado - e, de repente, aberturas inesperadas revelavam vistas vertiginosas sobre as falésias e o mar escuro lá em baixo.

Tropea à noite não se revela totalmente. Sussurra. Foi numa rua lateral que encontrei um pequeno bar sossegado. Tinha luzes amareladas penduradas como pequenas luas. No interior, prateleiras com garrafas antigas refletiam uma luz quente. Um ventilador lento rodava no teto enquanto um rádio antigo murmurava uma canção italiana dos anos 60. O dono, de bigode respeitável e olhar tranquilo, serviu-me um petisco simples: pão rústico, azeite intenso e algumas fatias de queijo local. Nada extravagante - e talvez por isso mesmo perfeito.


Com pouca carga já na bateria do corpo, resolvi terminar a noite no bar do hotel. O espaço abria-se para um jardim interior que parecia saído de um sonho mediterrânico. Árvores pequenas, plantas aromáticas e caminhos de pedra eram iluminados por lanternas suaves que transformavam o jardim num pequeno paraíso secreto. Pedi uma cerveja gelada acompanhada de alguns aperitivos e sentei-me a escutar a música ao vivo que vinha do fundo da sala.

A voz era sedosa. Daquelas que não se impõem - envolvem. Levantei-me ligeiramente para ver a cantora. E fiquei surpreendido. Era Antonella. A linda rececionista que me tinha recebido com aquele sorriso dourado. Afinal, ela não tinha apenas um sorriso; tinha também uma voz maravilhosa, capaz de acalmar qualquer mente humana. No bar não havia muita gente, e era fácil para ela perceber que eu estava ali, atento, absorvido na música.

De vez em quando, quando pensava que eu estava distraído, os nossos olhares cruzavam-se. E ela sorria - um sorriso ligeiramente envergonhado, quase cúmplice. Quando o pequeno espetáculo terminou, Antonella pousou o microfone, trocou algumas palavras com o músico que a acompanhava e, antes de sair, veio ao meu encontro.


Perguntou se eu estava a gostar da cidade. Falámos por alguns minutos. Disse-me alguns lugares que eu deveria visitar no dia seguinte - pequenas praias escondidas, miradouros secretos, ruas onde o tempo parecia ter parado. Havia no modo como falava uma intimidade com a cidade que me fez perceber que Tropea não era apenas bonita. Era viva.

Quando finalmente regressei ao quarto, encontrei um espaço que parecia mais um pequeno spa aromático do que um simples quarto de hotel. A iluminação suave refletia-se em paredes claras, o ar tinha um perfume leve de lavanda e sal marinho, e a varanda deixava entrar o som distante das ondas.

Coloquei os meus fones. Procurei uma música suave, parecida com aquela que tinha escutado no bar pela voz de Antonella. Deitado na cama confortável, deixei que os pensamentos se dissolvessem lentamente.

https://www.youtube.com/watch?v=R7f189Z0v0Y&list=RDR7f189Z0v0Y&start_radio=1

Adormeci com a sensação de que algo naquela cidade ainda estava por revelar. O dia seguinte prometia. Porque Tropea tinha aquele tipo raro de mistério que não se explica - apenas se descobre.

Diário de uma viagem – 118 dia 

Comentários

  1. Há uma serenidade muito bonita nesta página.A viagem e os pensamentos misturam-se numa atmosfera contemplativa, quase poética.
    Lê-se devagar, como quem olha o mar ao entardecer. Há algo de discretamente romântico nessa forma de olhar o caminho e os encontros da vida.
    Gosto sempre de ler cada novo capítulo.
    Maurício

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