O amor verdadeiro não joga xadrez!
Levantei-me
devagar e fui à janela despedir-me do mar. O mesmo mar que parecia respirar
comigo. Ali estavam guardadas algumas das melhores recordações desta viagem -
porque há momentos e há lugares que nos fazem compreender melhor os motivos da
vida e a importância da paz. O mar, naquele instante, não era apenas água. Era
silêncio, memória, promessa. O azul estendia-se até onde a imaginação ousava
ir, e o sol começava a dourar a superfície como se alguém estivesse a acender
lentamente uma lâmpada divina.
Um
banho refrescante quase que me alimentou. Quase. Porque o habitual café forte -
escuro - e o pão generosamente babado pela manteiga continuam a ser a minha
perdição. Ainda assim, segui o conselho de Antonella e substituí o pão branco
por pão de centeio. Admito: mais saboroso… e com menos calorias. Um pequeno
gesto de disciplina numa vida que, confesso, gosto de viver com alguma
indulgência.
Não
perdi muito tempo. Passei pela receção para fazer o check-out e despedir-me de
Antonella. Quando me viu, saiu de trás do balcão com um saco nas mãos, fechado
com um laço vermelho; “É para comeres pelo caminho”, disse com aquele sorriso
que parecia ter sempre um pouco de sol dentro. Depois acrescentou, com um
brilho curioso no olhar: “Quando regressares a Portugal diz-me. Quero planear passar
uns dias contigo no Gerês.”
Aquela
frase ficou suspensa no ar como uma promessa inesperada. O abraço que se seguiu
foi apertado, prolongado, carregado de sentimentos que não precisavam de
tradução. Há abraços que são apenas gestos. Outros são capítulos inteiros de
uma história.
Saí
para a estrada com esse capítulo ainda quente no coração. Segui em direção a
Latina, com paragem prevista em Salerno para almoçar. A estrada serpenteava
pela paisagem da Campânia como uma fita de seda entre colinas verdes e aldeias
adormecidas pelo sol. À esquerda, o mar aparecia e desaparecia entre falésias
dramáticas. À direita, campos de oliveiras desenhavam padrões antigos na terra.
O
sol brilhava com aquela luz italiana que parece ter sido inventada para
pintores e amantes. Passei por pequenas aldeias onde a vida se desenrolava sem
pressa. Homens com chapéus de palha tratavam das vinhas. Mulheres varriam as portas
de casa enquanto conversavam entre si como se o tempo fosse infinito. Um velho
mecânico trabalhava à porta da oficina com uma calma quase filosófica.
No
carro tocava música romântica italiana, daquelas que parecem ter sido escritas
para acompanhar estradas longas e pensamentos profundos. A melodia misturava-se
com o ronronar do motor e com o cheiro salgado que entrava pela janela
entreaberta. Viajar assim é uma forma de meditação.
Quando
cheguei a Salerno, senti imediatamente o encanto tranquilo da cidade. Menos
exuberante que os destinos famosos da costa, mas talvez por isso mesmo mais
verdadeira. Caminhei pelo centro histórico, entre ruas estreitas e
labirínticas, pavimentadas com pedras de origem vulcânica que guardavam séculos
de passos e histórias.
O
aroma da carne grelhada foi o meu guia. Segui aquele perfume irresistível até
um restaurante pequeno e simpático. Tinha cozinha aberta, o que permitia ver o
espetáculo culinário acontecer em tempo real. Mesas simples de madeira, toalhas
claras, copos de vinho que refletiam a luz da tarde.
E
então reparei nela. A cozinheira. Improvável, absolutamente improvável para
aquele papel… mas digna de uma fotografia de capa de revista. Alta, elegante,
com um avental branco que parecia mais um detalhe de estilo do que um uniforme.
Movia-se com a segurança de quem conhece profundamente a arte que pratica. Sorridente,
estava atenta a todos os clientes. Observava quem provava os pratos,
aproximava-se das mesas, perguntava com genuína curiosidade se tudo estava do
agrado.
Não
era apenas cozinheira. Era claramente a alma do restaurante. E percebia-se, sem
esforço, que também era responsável pela estratégia de marketing da casa.
Porque ninguém vendia melhor aquela experiência do que ela própria. Quando chegou
à minha mesa, sugeriu-me - com um sorriso luminoso - um vinho tinto diferente
do que eu tinha pedido. E com uma voz aveludada disse: “Para a carne que está
quase pronta… este é mais adequado.” Foi nesse momento que reparei verdadeiramente
nos seus olhos. Lindos. Penetrantes. De um azul profundo e calmo, como um lago
alpino ao amanhecer. Havia neles uma serenidade quase celestial, mas também uma
centelha de mistério.
Chamava-se
Elena. O prato chegou pouco depois. Uma generosa bistecca grelhada no ponto
perfeito, com aquela crosta dourada que guarda os sucos no interior. O aroma
era quase hipnótico. Acompanhada por batatas assadas com alecrim, um fio de
azeite novo e um leve toque de sal marinho. O vinho - um robusto Aglianico da
Campânia - tinha corpo, carácter e notas profundas de frutos negros e madeira.
A cada gole parecia contar uma história antiga de vinhas ao sol. Para
sobremesa, Elena trouxe algo que chamou de “receita conventual”. Uma delicada
torta de amêndoa e limão, leve, perfumada, com uma textura que parecia
dissolver-se lentamente na boca.
Ali
fiquei eu, no meio daqueles sabores, degustando cada pormenor. E, de vez em
quando, sentia o olhar atento de Elena - a cozinheira mistério. Foi então que
os meus pensamentos começaram a voar. Nessa manhã tinha recebido uma chamada de
um amigo do coração. Uma conversa que me deixou a pensar como a vida é
realmente uma caixinha de surpresas. Às vezes bela, às vezes desconcertante. Principalmente
quando falamos de relações humanas.
Há
relações que, sem que se perceba bem como, acabam transformadas num tabuleiro
de xadrez. Cada gesto calculado. Cada palavra medida. Cada silêncio uma jogada.
Pode haver xeque-mate. Mas a verdade é que nesse jogo ninguém ganha
verdadeiramente. Ou melhor… ganha apenas quem já não quer ganhar. Porque o amor
- o verdadeiro amor - não joga xadrez. Não calcula movimentos. Não planeia
derrotas nem vitórias.
É
curioso: diz-se muitas vezes que o amor é cego. Mas na realidade ele é cego
apenas de um lado. Do outro lado há sempre alguém que vê tudo à lupa. Que
analisa, que mede, que pesa vantagens. E que, com uma certa habilidade de
cintura, aprende a separar o trigo do joio - o amor dos interesses pessoais, os
sentimentos das estratégias.
Quando
isso acontece, o amor deixa de ser um encontro para se tornar num projeto. E os
projetos têm objetivos, prazos, resultados. É aí que começam os problemas. Quando
as relações deixam de ser claras. Quando uma das partes começa a trocar os
nomes às coisas - chama amor ao que é conveniência, chama cuidado ao que é
controlo, chama futuro ao que é apenas medo de ficar sozinho.
E,
muitas vezes, faz isso convencida de que é por uma boa causa. Sem ouvir o outro
lado. Sem partilhar o verdadeiro plano. Sem admitir as verdadeiras intenções. Disfarçadamente.
Passo a passo. Até que, sem se perceber exatamente quando, se entra num abismo
silencioso de desilusão e vergonha. Um lugar onde as pessoas acabam por dizer
frases que se repetem como um eco moderno: “Já não posso mais.” “Não existe
futuro.”
Talvez
por isso existam milhões de divórcios. Não por falta de amor no início - muitas
vezes houve amor, e até muito ou não. Mas porque em algum momento alguém
começou a usar o amor como instrumento, como moeda de troca, como argumento. E
o amor não aceita esse papel. O amor é livre. É um sentimento sublime, quase
selvagem na sua pureza. Não admite cobranças que não sejam pagas na mesma
moeda. Amor. Nada mais. Nada menos. Talvez por isso, enquanto terminava o
último gole de vinho e levantava os olhos para Elena - que sorria discretamente
da cozinha - pensei que a vida é feita destas duas dimensões: a beleza simples
de um prato bem preparado… e a complexidade infinita do coração humano.
Quando
me levantei da mesa, não foi apenas o corpo que se ergueu - foi também aquela
inquietação antiga que me empurra sempre para a estrada antes que o coração se
acomode demasiado ao lugar. Saí devagar, com o sabor do jantar ainda a vaguear
na memória, e fui caminhar pelo Lungomare Trieste, um dos passeios marítimos
mais bonitos do sul da Itália, desses que parecem ter sido desenhados não para
turistas, mas para amantes, poetas e gente que gosta de pensar enquanto o mar
respira ao lado.
O
sol brilhante com aquele exagero cromático típico do Mediterrâneo - dourados,
rosas e um laranja quase teatral. O mar devolvia a luz como um espelho cansado,
e as palmeiras alinhadas ao longo do passeio pareciam cúmplices silenciosas de
quem passa devagar. Havia casais de mãos dadas, idosos que caminhavam com a
serenidade de quem já viu todos os pores do sol possíveis, e jovens que riam
alto como se o dia fosse uma promessa eterna.
Ainda
tinha algumas horas de condução pela frente até Latina. Mas antes de partir,
fiquei a saber - porque alguém me disse, como tantas vezes acontece nas viagens
- que aquela cidade guarda um orgulho antigo: foi o berço da Schola Medica
Salernitana, considerada a primeira universidade médica da Europa. Imaginei
médicos medievais caminhando por aquelas mesmas ruas, debatendo ervas, anatomia
e mistérios do corpo humano, enquanto o porto - já importante desde os tempos
romanos - recebia mercadores, histórias e doenças vindas de todos os cantos do
mundo.
Tempo,
porém, era coisa que me faltava. E isso deixou-me aquela pequena tristeza que
só os viajantes conhecem. Ficaram por ver a Catedral de Salerno, famosa pela
sua arquitetura impressionante, com o átrio bizantino e as marcas profundas das
influências normandas e lombardas. Ficou por subir ao Castelo Arechi, lá no
alto da montanha, de onde dizem que a vista sobre o golfo é capaz de fazer
qualquer pessoa reconsiderar a sua vida.
Mas
o que mais me entristeceu não pisar foi o Giardino della Minerva. Um jardim
botânico histórico, ligado à antiga escola médica, onde durante séculos se
estudaram plantas medicinais. Imagino-o cheio de aromas discretos e sabedoria
antiga, como se cada folha guardasse um segredo que ainda não aprendemos a
ouvir.
Prometi
a mim mesmo voltar. Promessas de viajante raramente são prudentes, mas são
sempre sinceras. Depois foi estrada. A noite começou a cair lentamente enquanto
o carro deixava para trás o brilho de Salerno. A autoestrada serpenteava pela
Campânia e depois pelo Lácio, e a paisagem mudava com uma naturalidade quase
cinematográfica. De um lado surgiam colinas escuras, desenhadas contra um céu
cada vez mais profundo; do outro, campos largos onde as luzes isoladas das
quintas piscavam como pequenas constelações terrestres.
Havia
trechos silenciosos onde apenas o motor quebrava a noite, e outros onde o
cheiro da terra húmida entrava pelo vidro entreaberto. Oliveiras antigas,
vinhas adormecidas, pequenas aldeias com torres iluminadas que pareciam guardar
segredos de séculos. A estrada, como sempre, tem essa magia: quanto mais
avançamos, mais sentimos que estamos a atravessar não apenas quilómetros, mas
também histórias invisíveis.
Quando
cheguei a Latina, o céu estava completamente estrelado. Latina é uma cidade curiosa.
Jovem, para os padrões italianos. Foi fundada na década de 1930 com o nome de
Littoria, durante o período fascista, como parte do grande projeto de drenagem
da planície Pontina. A arquitetura racionalista ainda marca a cidade - linhas
geométricas, praças amplas, edifícios que parecem desenhados com régua e
convicção.
Hoje
é a capital da província de Latina, situada entre a planície fértil e o mar
Tirreno. Um lugar onde a história recente convive com agricultura, praias
próximas e um ritmo de vida surpreendentemente leve. O meu hotel ficava numa praça
perto do centro histórico. A praça era larga, iluminada por candeeiros que
espalhavam uma luz dourada e tranquila. Cafés ainda abertos, algumas mesas
ocupadas, gente a conversar com aquela musicalidade italiana que transforma
qualquer conversa banal num pequeno espetáculo.
O
centro histórico de Latina é organizado, quase elegante na sua simplicidade:
ruas retas, edifícios claros, varandas discretas e árvores bem alinhadas. Não
tem a teatralidade barroca de outras cidades italianas, mas tem uma honestidade
urbana curiosamente agradável.
O
hotel foi uma surpresa. Pequeno, recente, discreto por fora, mas confortável
por dentro. Daqueles lugares que não tentam impressionar - simplesmente fazem
tudo bem. Quarto moderno, cama generosa, silêncio suficiente para qualquer
viajante cansado. Na receção deram-me um mapa da cidade e algumas dicas de
restaurantes. A forma como os italianos falam de comida devia ser estudada pela
ciência. Há entusiasmo, há orgulho, há quase uma responsabilidade cultural.
Depois
saí novamente. Já noite fechada, fui descobrir a cidade noturna. Caminhar sem
destino é uma das formas mais honestas de conhecer um lugar. Acabei por entrar
num restaurante típico, daqueles que não sabemos bem se é restaurante ou bar.
Mas isso também não importa nada. Em Itália, muitas vezes são exatamente esses
os melhores.
Música
italiana antiga, misturada com o som das conversas e do tilintar de copos. O
ambiente era quente, cheio de vida. Mesas de madeira gastas, garrafas alinhadas
atrás do balcão, fotografias antigas nas paredes. Um grupo de amigos discutia
futebol com a intensidade de quem debate política internacional. Um casal jovem
partilhava uma pizza e olhava-se como se o mundo tivesse sido inventado naquela
noite.
A
comida era tipicamente italiana e boa - simples, mas cheia de sabor. Massa
fresca, molho de tomate que claramente tinha visto tomates de verdade, azeite
que parecia ter acabado de nascer. O ambiente era jovem. O staff supersimpático,
daqueles que interagem com facilidade, principalmente quando percebem que têm
ali um estrangeiro curioso. Houve perguntas, risos, sugestões de pratos e
aquela hospitalidade espontânea que não se aprende em cursos de hotelaria.
À
minha volta, as pessoas falavam alto, gesticulavam, brindavam. Havia vida,
havia alegria, havia aquela desordem organizada que faz parte do charme
italiano. Quando saí, a cidade estava mais silenciosa. Regressei ao hotel com a
sensação agradável de missão cumprida.
No bar sentei-me a fazer as minhas anotações. É um pequeno ritual de viagem - escrever antes que as memórias se dissolvam no cansaço. Depois subi. E terminei a noite no lugar que mais gosto. Aquele retângulo confortável que se chama cama. Depois de desfazer-me da roupa colada pelo dia longo, mergulhei num banho perfumado que lavou o pó da estrada e os pensamentos acumulados.
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Deitei-me,
coloquei os fones e deixei-me adormecer com uma música maravilhosa a envolver
lentamente o silêncio do quarto. Lá fora, Latina dormia. Mas havia qualquer
coisa no ar - talvez a promessa das ruas ainda por descobrir, talvez o sussurro
distante do mar Tirreno, talvez apenas aquela intuição estranha que às vezes me
acompanha. A sensação de que o dia seguinte não seria apenas mais um dia. Seria
uma história.











Ao ler este texto senti aquela verdade crua e luminosa que tantas vezes encontro nas páginas de Miguel Torga. Não pela forma cada voz tem a sua mas pela alma que o atravessa. Há aqui o mesmo olhar inquieto sobre o mundo, essa maneira profundamente humana de viajar pelas paisagens enquanto se escuta o que se move por dentro.
ResponderEliminarEntre Tropea, Salerno e Latina sente-se mais do que um viajante: sente-se alguém que caminha pelo mundo com lucidez, sensibilidade e verdade. E isso, hoje em dia, é literatura rara.
Maurício, confesso: ler-te não é apenas um prazer é daqueles momentos em que sentimos que ainda vale a pena parar e escutar as palavras. Obrigada