Hoje falam de paz com a boca cheia de pólvora!

 


Quando despertei em Catânia, a cama ainda parecia suspensa entre sonho e despedida - como se o colchão tivesse decidido conspirar contra a gravidade só para me lembrar que há instantes que não querem tocar o chão. Ainda sentia o perfume de Nicole - uma mistura indecifrável de sal, vento e alguma coisa perigosamente doce - e a pressão suave da sua mão no meu braço. Aquele gesto mínimo que, sem saber, me ofereceu coragem. Ou talvez tenha sido só a forma elegante de me dizer “não fujas ainda”.

Era o penúltimo dia em que degustava a sua companhia na viagem até Marsala. Degustava - porque certas presenças não se vivem, saboreiam-se. Mas não quero pensar nisso agora. Ainda faltam algumas horas. E eu, especialista em ironias emocionais, decidi fingir que o tempo é elástico.

O pequeno-almoço foi um ritual de sorrisos e momentos de magia. Nicole e a avó Claire moviam-se pela sala com aquela coreografia silenciosa que só as mulheres sábias dominam. Rimos. Talvez demais. Rimos como se o riso pudesse atrasar relógios.

Depois veio a última viagem na companhia delas. A estrada desenrolava-se diante de nós como uma fita líquida sob uma chuva fraca, quase tímida, que não molhava - insinuava-se. O céu estava pintado num cinzento rendilhado, e a paisagem explodia em cores saturadas: verdes profundos das vinhas, amarelos terrosos das colinas, o vermelho queimado das terras férteis. As casas surgiam nas encostas como pinceladas de ocre, terracota e rosa antigo, com varandas de ferro trabalhado e roupa pendurada que dançava ao vento, desafiando a meteorologia e o bom senso.


As aldeias pareciam cenários de um filme antigo: portas azul-cobalto, janelas verde-água, fachadas descascadas que guardavam histórias na tinta gasta. Cada curva da estrada revelava um novo quadro - e eu sentia que, se piscasse os olhos, perderia um capítulo.

Paramos em Agrigento para almoçar. Mas não foi por acaso. Nada ali era por acaso. Agrigento é famosa pelo Vale dos Templos, o maior sítio arqueológico do mundo, com 1.300 hectares de silêncio monumental, Património Mundial da UNESCO. Curiosamente, fica numa encosta e não num vale - talvez porque a grandeza prefere inclinar-se ao céu. Fundada em 581 a.C. por gregos vindos de Rodes e Creta, a antiga Akragas tornou-se uma das cidades mais poderosas do Mediterrâneo - um pedaço da Grécia Antiga plantado em solo italiano. E, ironicamente, Capital Italiana da Cultura em 2025. Nada mal para quem já viu séculos passarem como tempestades.

Ali erguem-se alguns dos templos dóricos mais bem preservados do mundo, incluindo o majestoso Templo da Concórdia, que resistiu ao tempo, aos sismos e à estupidez humana - uma façanha superior a muitos impérios. As colunas não são perfeitamente retas. Têm uma ligeira inclinação e curvatura para criar a ilusão ótica de perfeição quando vistas de longe. Ou seja: até os gregos sabiam que a perfeição precisa de truques. Uma lição útil para relacionamentos e para selfies.


Dentro do templo, repousa uma escultura moderna de Ícaro, deitado - não em voo, mas na queda. Um símbolo cruel e belo da ambição humana. Olhei para Nicole. Pensei que todos nós temos asas frágeis demais para o sol errado. Recentemente, a cidade decidiu banir a venda de souvenirs temáticos da máfia, escolhendo valorizar a sua herança cultural verdadeira. Finalmente alguém percebeu que o romantismo do crime é apenas ignorância com marketing.

Foi nesse museu a céu aberto que escolhemos um restaurante por pura intuição - e pelo aroma que nos puxou como um feitiço. Ficava numa rua estreita da zona histórica, onde as pedras do chão eram irregulares e cúmplices. A fachada era discreta, quase tímida, com uma porta de madeira envelhecida e um letreiro simples. Lá dentro, paredes de cal branca, vigas expostas, garrafas alinhadas como soldados pacíficos e mesas pequenas demais para grandes despedidas.

O menu era uma ode ao mar italiano: antipasti de polvo macio com limão siciliano e azeite verde-esmeralda; carpaccio de atum fresco quase translúcido; spaghetti alle vongole onde as amêijoas sussurravam histórias salgadas; peixe-espada grelhado com ervas selvagens; e uma cassata delicada que parecia arquitetada por um engenheiro sentimental. Cada prato era um manifesto contra a pressa.


Durante o almoço, falámos de história. E de guerras. Guerras entre povos, guerras entre ideias, guerras interiores. Perguntámo-nos se alguma guerra é justa ou se é sempre a última forma - e a mais pobre - de resolver um conflito. A verdade é que, até hoje, elas nunca terminaram. Mudam de nome, de justificação moral. Mas continuam a semear a morte.

Nicole defendia que a humanidade aprende lentamente. Eu, com o meu humor sarcástico, disse que talvez sejamos uma espécie brilhante com tendências autodestrutivas - como Ícaro, mas com acesso à internet. Ela riu. Depois ficou séria. Disse que mesmo assim ainda acredita.

As guerras começaram antes de haver mapas. Antes de fronteiras, antes de bandeiras, antes de hinos. Começaram quando dois olhos se fixaram no mesmo pedaço de terra fértil, quando duas mãos se estenderam para a mesma presa ainda quente, quando o medo soprou no ouvido do homem a palavra escassez.

A verdadeira causa? Não é a bandeira. Não é o discurso. Não é o Deus invocado no campo de batalha. A verdadeira causa é mais antiga, mais crua, mais invisível: o medo de perder e o desejo de dominar. No início, era a sobrevivência. Depois, foi o território. Depois, o poder. Depois, a honra. Depois, o ouro. Depois, o petróleo. Depois, a ideologia. Depois, Deus. Mas no fundo - sempre o mesmo abismo.


O ser humano teme ser pequeno. E quando teme, arma-se. Quando se arma, compara-se. Quando se compara, compete. Quando compete, desumaniza. E quando desumaniza, mata sem olhar nos olhos. Hoje, os países não são medidos pela sabedoria, pela compaixão ou pela justiça. São medidos pelo alcance dos seus mísseis, pelo poder das suas alianças, pela frieza dos seus arsenais. O mundo admira quem pode destruir mais rápido. Respeita quem pode esmagar. Teme quem não hesita.

Os chefes dos povos falam de paz com a boca cheia de pólvora. Apregoam estabilidade enquanto assinam contratos de armas. Dizem “segurança”, mas querem supremacia. Dizem “defesa”, mas planeiam avanço. Dizem “ordem”, mas cultivam o caos que os mantém indispensáveis.

É a ditadura do “eu quero, posso e mando”. E o povo? O povo é estatística. É número. É carne. É engrenagem. Marcha, trabalha, paga, morre. A guerra é apresentada como necessária. A paz é apresentada como vitória. Em ambas, os mesmos rostos ocupam os palanques. Em ambas, os mesmos homens são chamados de heróis. Em ambas, os verdadeiros mortos não falam.


Faz-se a guerra. Depois faz-se a paz. Mas a paz nunca é inocente - é apenas o intervalo estratégico da próxima guerra. Toda guerra tem um pretexto dentro de um contexto. O pretexto é moral. O contexto é material. O pretexto fala de valores. O contexto fala de interesses.

Quando o argumento enfraquece, invoca-se Deus. Guerras santas. Cruzadas. Jihads. Missões divinas. Purificações. Mata-se em nome da luz. Tortura-se em nome da verdade. Conquista-se em nome do sagrado. Mas Deus não precisa de exércitos. Quem precisa são os homens.

Invocar o divino é a forma mais sofisticada de tornar o massacre intocável. Se Deus está do meu lado, quem ousará discordar? Se o inimigo é infiel, herege ou impuro, deixa de ser humano. E quando deixa de ser humano, pode ser eliminado sem culpa.

O mecanismo é antigo e perfeito. Primeiro, cria-se a ameaça. Depois, cria-se o medo. Depois, oferece-se a proteção. Depois, exige-se obediência. E assim o poder cresce, duro, ambicioso, miserável. A verdadeira causa da guerra talvez não seja apenas o medo ou a ambição. Talvez seja algo mais sombrio: a incapacidade humana de aceitar a própria fragilidade. O homem quer ser eterno num mundo onde tudo morre. Quer ser absoluto num mundo de limites. Quer ser Deus sem deixar de ser homem.


E para isso, constrói impérios. E para isso, ergue exércitos. E para isso, escreve narrativas onde é sempre o herói. A guerra dá sentido aos vaidosos. Dá palco aos prepotentes. Dá glória aos que comandam. É uma fábrica de mitos e uma trituradora de vidas. No fim, as ruínas ficam. As mães enterram filhos. As cidades ardem. Os livros reescrevem os factos. E os donos disto tudo continuam donos.

Se é para entender, talvez seja preciso ir ali e voltar já - ao princípio. Olhar para o primeiro homem que ergueu uma pedra contra outro. Não como monstro, mas como espelho. Porque a guerra não é apenas um evento histórico. É uma possibilidade permanente dentro de cada ser humano.

Enquanto houver medo sem consciência, poder sem limite e fé sem humildade, haverá guerra. A causa verdadeira não está nos mapas. Está na natureza humana não domada. E talvez a pergunta mais inquietante não seja “porque há guerras?”, mas sim: porque precisamos delas?

E foi nesse instante - entre um gole de vinho de Marsala e o eco de colunas antigas que percebi: talvez o verdadeiro milagre não seja a ausência de guerra, mas a persistência do amor. Mesmo frágil. Mesmo inclinado. Como as colunas dóricas. Imperfeito de perto. Magnífico à distância.


Despedi-me de  Agrigento num abraço, com o sol a dar um ar da sua graça - aquele brilho que faz qualquer fotógrafo suspirar e qualquer turista questionar as suas escolhas. Depois o céu voltou a ficar cinzento. A chuva caía fininha, quase tímida, como se tivesse medo de estragar a paisagem. Seguíamos em direção a Marsala, e a estrada parecia desenhar-se entre vinhas silenciosas e campos húmidos, onde o vento soprava histórias antigas.

Ao longe, na lagoa, surgiam as silhuetas delicadas da Ilha de Motya, guardando ruínas fenícias como quem protege um segredo milenar. E a Lagoa de Stagnone - ah, essa lagoa - mesmo sob o céu nublado, tinha um brilho misterioso, prometendo um pôr do sol que, diziam, era capaz de reconciliar qualquer coração descrente com a vida.

Chegámos já de noite a Marsala. A cidade estava iluminada como uma joia esquecida no fundo do mar. As luzes refletiam-se na água, douradas e trémulas, e havia qualquer coisa de teatral na cidade - como se soubesse que estava a ser observada e quisesse impressionar. O meu hotel ficava junto às famosas salinas, onde os moinhos de vento antigos recortavam o horizonte com elegância. Eram guardiões silenciosos, outrora essenciais para bombear água e moer o sal, agora modelos fotográficos involuntários.

O hotel era um refúgio romântico: paredes claras, tecidos leves, cheiro a maresia misturado com lavanda. O staff recebeu-nos com um sorriso tão genuíno que quase pensei que fôssemos da realeza - ou pelo menos bons consumidores de vinho. Houve palavras doces, recomendações sinceras e aquele toque italiano que transforma hospitalidade em arte.


Mal pousei as minhas malas, seguimos para casa da Giulia, a amiga de Nicole. Giulia era uma explosão de simpatia. Falava com a boca, com os olhos, com as mãos - uma coreografia espontânea que dispensava legendas. Professora de História, tinha o dom raro de transformar datas em aventuras e factos em paixões.

Entre beijinhos, abraços e risos - aquele reencontro típico onde ninguém sabe se fala ou se aperta mais - começámos a caminhar. E, como qualquer noite respeitável em Itália, começámos a falar de vinho. Fiquei a saber que o vinho Marsala foi criado em 1773 por John Woodhouse, um mercante inglês que decidiu adicionar aguardente ao vinho local para que sobrevivesse à viagem até Inglaterra. No século XIX, era vendido como tónico medicinal nas farmácias. Sempre soube que o vinho era um bom medicamento - finalmente, validação histórica! (risos)

Giulia contou-nos que o nome da cidade vem do árabe Marsa Allah, “Porto de Deus”. E eu pensei: faz sentido. Há lugares onde até os céus parecem ter atracado. Foi também ali que, a 11 de maio de 1860, Giuseppe Garibaldi e os seus “Mil” desembarcaram, iniciando o processo de unificação italiana. Caminhávamos por ruas onde a História não é apenas passado - é presença.

A paisagem respirava vinho e boa comida. A cor “Marsala”, aquele tom bordô profundo, nasceu da intensidade deste vinho siciliano. Tradicionalmente servido como aperitivo com queijos fortes, e amplamente utilizado na culinária - o tipo “Fino” é o mais comum para cozinhar - ele é versátil, elegante e perigosamente sedutor.


Quando a fome começou a falar mais alto (e a falar italiano), Giulia levou-nos a um restaurante típico. Mesas de madeira, toalhas simples, cheiro a mar. Vieram pratos de peixe fresco, marisco acabado de sair da água, camarões suculentos, lulas macias, um prato de massa com frutos do mar que parecia ter sido abençoado por Netuno em pessoa. O vinho branco italiano era fresco, mineral, perfeito - cada gole era uma carícia líquida. Terminámos com uma sobremesa doce e delicada. Um cannolo crocante e uma cassata sedosa - o tipo de doce que nos faz prometer começar dieta “na próxima semana”. Que, como sabemos, é uma entidade mitológica.

Para desgastar o jantar (ou pelo menos fingir), caminhámos até à Piazza della Repubblica, o coração pulsante da cidade. Ali ergue-se a Catedral de San Tommaso di Canterbury e o histórico Palazzo VII Aprile. As fachadas douradas pela luz da tarde tinham uma dignidade tranquila.

Depois regressei ao hotel com a energia esgotada. Prometi voltar no dia seguinte para aproveitar todos os momentos antes de me despedir de Nicole e Claire. Naquele momento precisava apenas de silêncio. No quarto, larguei a roupa como quem abandona o cansaço, tomei um banho refrescante e aromático, deixei que a água levasse a melancolia do dia.

https://www.youtube.com/watch?v=5kX_f_Z3Zrs&list=RD5kX_f_Z3Zrs&start_radio=1

Coloquei os fones. E adormeci com esta música maravilhosa - como se cada nota fosse uma promessa suave para um novo dia.

 

Diário de uma viagem – 116 dia 


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Como é frágil a esperança humana quando tenta encontrar atalhos para a felicidade!

Descobrir os sentimentos de uma mulher com uma natureza apaixonada, intensa e misteriosa, é o mesmo que resolver o cubo Rubik!

Mas antes de conquistar Budva, eu precisava de ser conquistado…