Vivemos num mundo tragicómico que constrói guerras e depois escreve poemas sobre a paz.

 


Acordar em Bari foi uma sensação estranha. Não estranha como um sapato novo que aperta, mas como um sonho antigo que insiste em acordar connosco. Senti-me suspenso entre o passado que me ensinou, o presente que me abraçava e um futuro que me piscava o olho com ar de cúmplice. No dia anterior apreendi o que realmente importa - e, mais importante ainda, o que nunca deveríamos ter dado importância. Wow. Às vezes acordo com as ideias valorizadas; é o sintoma inequívoco de que estou a crescer.

Depois de espreitar o mar Adriático e sentir a água fresca e o aroma dos amnisties no meu corpo, comecei a sentir o cheiro do café forte e o pão quente e estaladiço a enamorar a manteiga. E eu sorria com a serenidade de quem acha que finalmente percebeu o sentido das coisas - ou pelo menos uma parte razoável delas - quando uma voz soou atrás de mim. Soou suave. Melódica. Sensual. A voz de Francesca.


“Não resisti em vir tomar o pequeno-almoço contigo. Para me despedir. De manhã ainda sentia o teu aroma na minha pele e a tua voz no meu ouvido. Também te vim dar alguns conselhos sobre Lecce.” Virei-me devagar, como se o tempo merecesse respeito. Havia nos seus olhos aquela mistura perigosa de ternura e coragem - a coragem de quem sabe que partir também é um ato de amor. E começou a falar, com o entusiasmo sereno de quem guarda histórias nas mãos:

“A cidade é um museu a céu aberto, sem ter sido bombardeada na Segunda Guerra. Preserva um Anfiteatro Romano e um teatro menor, como dois corações antigos a bater sob o sol. Curiosamente, os seus monumentos foram ‘lavados’ com leite para proteção - imagina, uma cidade alimentada como um filho precioso. E é famosa pelo doce pasticciotto e pelo café leccese. Mas também tem roupa a secar nas varandas. Não te digo mais nada. Quero que descubras. Se te perderes, tens o meu contacto.” Disse aquilo com um sorriso que era metade promessa, metade desafio.


Depois veio o habitual de uma despedida. Mas nenhuma despedida é realmente habitual. Há sempre um segundo a mais no abraço. Um silêncio que pesa como se contivesse todas as palavras que não ousámos dizer. Olhei-a como se quisesse gravar cada detalhe - o brilho da pele, o modo como o vento lhe tocava o cabelo, a forma como respirava fundo antes de ser forte.

“Que mantenhas o teu talento intacto”, disse-lhe, com a honestidade crua de quem sabe que o mundo nem sempre recompensa o que é verdadeiro. “E que ele seja acompanhado de sucesso. Porque num mundo onde a arte e a cultura são cada vez mais ultrapassadas por valores barulhentos e vazios, precisamos de pessoas como tu. Que criem. Que sintam. Que resistam.” Ela riu-se - aquele riso que começa doce e termina irónico - e respondeu: “Então promete-me que também não vais deixar de escrever o mundo à tua maneira." Prometi. Porque há promessas que não se fazem com a boca, mas com o olhar. Não sabíamos se era um “até breve” ou um “até sempre”. E talvez essa incerteza seja a forma mais honesta de amor. Beijei-a com uma reverência quase antiga, como se estivesse diante de uma obra-prima prestes a ser levada para outra galeria do destino.


Malas no carro - porque essas não podem ficar, mesmo quando o coração implora - e comecei a ver Bari a distanciar-se de mim. As ruas tornaram-se linhas, as varandas pontos, o mar um traço azul no retrovisor. E com ela afastavam-se os momentos mágicos que guardarei como quem guarda cartas dentro do peito.

Conduzi com aquele nó doce na garganta, essa mistura de lágrima e riso que nos faz sentir vivos. Crescer dói um pouco. Amar também. Mas é um tipo de dor luminosa, quase colorida - como um quadro pintado com tons de saudade, sal, café e esperança. E enquanto a estrada me levava em direção a Lecce, na busca de novas histórias, percebi que não estava perdido entre o passado, o presente e o futuro. Estava exatamente onde devia estar: no meio deles. Vivo.

A paisagem não era apenas asfalto - era um lençol estendido pela Puglia, bordado a verde-oliva, dourado-trigo e vermelho-terra. O céu, num azul paciente, deixava passar algumas nuvens preguiçosas que flutuavam como pensamentos indecisos. O ar era ameno, acariciava a pele como quem pede para ficar. As casas surgiam ao longe, caiadas, cuidadas, com vasos floridos nas janelas e roupa branca ondulando como bandeiras de rendição à beleza simples. Outras vezes aldeias que respiravam história e me obrigavam a parar para contemplar por momentos que me ficavam na memoria.


Os campos, meticulosamente organizados, pareciam partituras agrícolas: fileiras de oliveiras ancestrais, vinhas disciplinadas, hortas geométricas onde tomates rubros explodiam de maturidade. Tudo tinha ordem, mas uma ordem viva - não a ordem fria dos escritórios, mas a ordem sábia da terra. Confesso que senti inveja daquela serenidade rural. Se o mundo fosse um campo na Puglia, talvez discutíssemos menos e cultivássemos mais. Mas isso seria exigir coerência da humanidade - esse ser tragicómico que constrói guerras e depois escreve poemas sobre a paz.

Foi então que parei em Brindisi, muitas vezes vista apenas como porta de entrada para a região, revelou-se aos meus olhos como um segredo sussurrado pelo mar Adriático. A magia começou na orla, onde as palmeiras dançam ao ritmo da brisa marítima com uma elegância que nenhum coreógrafo conseguiria ensaiar. Ali, a imponente Escadaria Virgiliana, coroada pelas colunas romanas, marca o fim da histórica Via Appia com uma solenidade poética. Subi os degraus devagar, como quem sobe capítulos de um romance antigo. A luz dourada refletia nas águas do porto e devolvia à cidade um brilho de cinema clássico italiano - faltava apenas uma câmara invisível e um beijo roubado numa ruela. O centro histórico era um labirinto de pedra quente, varandas floridas e portas entreabertas que pareciam guardar histórias de marinheiros, amores clandestinos e avós que ainda sabem fazer massa à mão melhor do que qualquer chef premiado.


Foi nesse ambiente de dolce vita - essa arte italiana - que a gastronomia me conquistou de forma irremediável. Antes de seguir viagem rumo ao barroco de Lecce, permiti-me uma última pausa sensorial no restaurante. E que pausa… escolhi o peixe fresco do dia - pescato del giorno - grelhado na perfeição. Cada garfada era um diálogo íntimo entre o mar e a terra. Para acompanhar, uma cerveja sem álcool, gelada, refrescante, que limpava o paladar com a delicadeza de quem sabe que protagonismo excessivo arruína qualquer história - inclusive a de um almoço.

Ali, entre o sabor do sal e a hospitalidade italiana, senti-me absurdamente humano. Vulnerável à beleza. Ridiculamente feliz. E um pouco emocionado - talvez pela consciência de que a felicidade às vezes se esconde em coisas simples: um peixe bem grelhado, uma brisa marinha, uma pausa sem culpa. Deixei Brindisi com o coração levemente inclinado para trás, como quem sai de um abraço que queria prolongar.


A estrada retomou o seu tapete suave, ladeada por vegetação colorida que parecia ter sido pintada à mão. Liguei uma música serena - dessas que não se impõem, apenas acompanham - e deixei que o volante fosse extensão do meu pensamento. Foi então que Bari regressou à minha mente, com as suas ruas vivas, e a peça de teatro que Francesca ensaiava com a coragem de quem ainda acredita na arte como necessidade vital e não como luxo dispensável.

E comecei a costurar os motivos. Ponto por ponto, como quem remenda um tecido antigo herdado de uma avó que sabia bordar silêncios. Enquanto conduzia em direção a Lecce - essa promessa barroca de pedra dourada que arde ao sol como se tivesse sido talhada no próprio mel da tarde - pensava na cultura, essa entidade frágil e resistente ao mesmo tempo, espécie rara que sobrevive a incêndios, ditaduras e modas, mas tropeça perigosamente na indiferença.

Há qualquer coisa de profundamente sensual numa cidade antiga. Não falo de corpos expostos, mas da pele das fachadas, das curvas excessivas do barroco que se insinuam como ombros nus sob a luz oblíqua. A cultura também é assim: não grita, insinua. Não implora, sugere. E, no entanto, em quase todo o mundo - salvo raras exceções que ainda sabem o valor de um palco aceso - ela anda pelas ruas da amargura, tratada como ornamento supérfluo num tempo obcecado por números e lucros.


Cortam-se verbas como quem poda uma árvore achando que ela voltará a florescer por milagre. Silenciam-se vozes como se o silêncio fosse sinónimo de paz. E depois perguntam, com ar genuinamente surpreendido, por que razão as cidades parecem vazias. Vazias de quê? De lojas estão cheias. De ecrãs, saturadas. Mas vazias de eco, de reflexão, de espelho. Talvez porque sem cultura não há espelho. E sem espelho não há consciência. E sem consciência… bem, já sabemos onde isso nos leva - a um mundo muito eficiente na contabilidade e miserável na alma.

Que mundo louco, este, sem valores, sem equilíbrio, onde “cultura” virou título honorífico de perfil digital. Uma palavra que todos querem vestir como casaco de gala: “eu sou culto”, “eu distingo-me”, “eu elevo-me”. Mas que cultura? A que exige silêncio e atenção? A que obriga a pensar antes de falar? Essa senhora outrora dignificada hoje rasteja pelas ruas da amargura, pedindo licença para existir entre um anúncio e outro.

Que geração é esta que desaprendeu o ritual de abrir um livro como quem abre uma janela? Que trocou o cheiro do papel pela vertigem de deslizar o dedo numa tela? Cada vez somos menos nas bibliotecas - templos discretos onde o pó é sagrado - e cada vez mais nas vitrinas digitais, postando imagens sem legenda, onde as curvas do corpo definem a biografia e os valores se medem em “gostos”.


Diz-se que uma imagem vale por mil palavras. Talvez. Mas o que vejo, demasiadas vezes, são imagens que não valem uma palavra sequer - porque não contam história, não guardam memória, não provocam pergunta. Apenas exibem. E a exibição, por si só, é um monólogo aborrecido.

É triste viver num mundo onde a forma eclipsa a inteligência, onde a embalagem ganhou estatuto de essência. E digo-o com uma pontada de humor sarcástico, porque se não rirmos da nossa própria superficialidade acabamos por afogar-nos nela. Tornámo-nos especialistas em filtros e amadores em pensamento crítico.

E no entanto - aqui está o lado mágico, teimoso, quase infantil da esperança - a cultura continua viva. Sobrevive na pequena sala de teatro onde meia dúzia de espectadores respiram em uníssono. Na livraria escondida que resiste entre duas franquias reluzentes. No museu onde um quadro antigo ainda é capaz de fazer alguém chorar em silêncio. Na rua, sim na rua ela também não desiste. Ela é severa, sim. Exige tempo, entrega, humildade. Não se deixa consumir em quinze segundos. Talvez por isso incomode. Talvez por isso seja tão necessária.


Enquanto a estrada se estendia diante de mim, dourada como a pedra de Lecce, percebi que costurar os motivos era isso: unir indignação e ternura, crítica e encanto, lucidez e desejo. Porque a cultura não é luxo - é pele. Não é ornamento - é osso. Não é vaidade - é consciência.

E se às vezes me aproximo do abismo da crítica mais feroz, é apenas porque amo demais aquilo que vejo ser negligenciado. Não desenvolvo mais o tema - não por falta de argumentos, mas para não escorregar na lama da repetição amarga.

Prefiro ficar com esta imagem: uma cidade dourada ao entardecer, respirando história. E alguém, ao volante, ainda a acreditar que enquanto houver quem leia, quem questione, quem sinta - a cultura não rasteja. Levanta-se. E caminha. Mesmo que seja de saltos altos, com dignidade barroca e um sorriso ligeiramente irónico nos lábios.

Com os meus pensamentos à flor da pele - essa pele que às vezes pensa mais do que eu - cheguei a Lecce já depois de o sol se ter deitado, como um ator veterano que abandona o palco sem aplauso, mas com dignidade. A noite envolvia a cidade num véu morno, dourado-escuro, como se alguém tivesse esquecido acesas as luzes de um cenário antigo. Não foi difícil encontrar o meu hotel, aninhado em pleno centro histórico, respirando séculos por entre pedras cor de mel.


Riquíssima, excessiva, quase indecente na sua beleza, conhecida como a “Florença do Sul”, famosa pela sua arquitetura barroca que parece ter sido esculpida por anjos vaidosos com demasiado tempo livre. Cada fachada era uma promessa; cada varanda, um segredo; cada sombra, um convite ao pecado - ou, no mínimo, a um bom copo de vinho.

O hotel era um cenário arrancado diretamente da era de ouro do cinema italiano - essa que brilhou entre o pós-guerra e o final dos anos 70 - como se a qualquer momento fosse surgir Marcello Mastroianni a acender um cigarro com melancolia estudada, ou Sophia Loren a atravessar o átrio com aquele olhar que desmonta impérios e homens inseguros. Havia um charme gasto, autêntico, quase insolente. Nada ali gritava luxo; tudo sussurrava história.

Fui recebido com uma delicadeza quase coreografada. O staff - gentil, afável, perigosamente eficiente - brindou comigo como se celebrasse o meu regresso a casa, mesmo sem nunca me ter visto antes. Referenciaram restaurantes, trattorias, lugares onde poderia jantar ou apenas petiscar qualquer coisa. Falavam de comida como quem fala de amores antigos: com respeito e um leve arrependimento.


Subi ao quarto. Coloquei as malas no chão com o gesto simbólico de quem pousa também as inquietações - embora as minhas tenham o hábito irritante de permanecer de pé. O quarto pareceu-me estranhamente familiar, como se já tivesse sonhado com ele noutra vida, ou noutra versão de mim. Havia ali uma luz morna, uma respiração antiga nas paredes, um silêncio cúmplice. Toquei nos lençóis como quem testa a sinceridade de uma promessa.

Mas a cidade chamava. Saí para caminhar. O apetite não era muito - às vezes a fome é mais de mundo do que de comida. Petisquei qualquer coisa sem compromisso, um gesto quase protocolar para enganar o estômago, enquanto os olhos devoravam fachadas, ruelas, igrejas que se erguiam como esculturas dramáticas sob a iluminação noturna. Basilica di Santa Croce parecia observar-me com ironia barroca, excessiva, quase teatral - como se dissesse: “Ainda pensas que já viste tudo?”

Reparei que a cidade tem muito para descobrir. E não falo apenas de monumentos. Falo de silêncios escondidos entre portas entreabertas, de risos que ecoam em pátios interiores, de histórias que se infiltram sob a pele como um perfume persistente. Lecce não se revela; insinua-se. Não se oferece; provoca.


Caminhei até sentir as energias no término - esse limite honesto entre o entusiasmo e o cansaço, onde o corpo pede pausa, mas o coração ainda insiste em mais um passo. Sentei-me num banco de pedra, frio e paciente, ao lado de um pintor de rua que arrumava o seu mundo com gestos lentos. Recolhia as telas ainda húmidas, alinhava os pincéis de cerdas gastas, limpava a paleta manchada de ocres e azuis, fechava com cuidado as bisnagas de tinta a óleo e acrílica, dobrava o cavalete de madeira riscado pelo tempo. Guardava os lápis de carvão, os pastéis macios, a espátula ainda marcada de cor, o frasco de aguarrás, o copo de vidro turvo onde repousavam pincéis mergulhados, os panos manchados, a caixa de madeira onde cabia a sua vida inteira em pigmentos.

No chão, espalhados como janelas abertas, estavam os seus quadros da cidade - igrejas rendilhadas em pedra, varandas suspensas no ar quente, ruas estreitas onde a luz parecia rezar. Espreitei-os com delicadeza, quase em segredo, como quem folheia memórias alheias. Um deles suspendeu a minha respiração. Ele olhou-me como se eu fosse um potencial comprador. Eu olhei-o como quem encontra uma história naquele quadro.

Falou-me do seu percurso sem pressa. Disse que nascera ali e que ali morreria, na mesma cidade que o vira dar os primeiros passos e onde aprendera a misturar cores antes mesmo de entender as palavras. Falou dos filhos que estavam nos Estados Unidos da América, da distância que não se mede em quilómetros, mas em ausências nas mesas de jantar. Disse outras coisas também - pequenas confidências.


Havia no seu rosto a serenidade de quem aceita o próprio destino como se aceita a mudança das estações. E, ainda assim, quando mencionava os filhos, um quase impercetível tremor atravessava-lhe a voz, como um traço fino que escapa ao controlo da mão.

Prometi voltar no dia seguinte para levar o quadro e com ele a história, talvez a mesma que me acompanha nesta viagem. Mas tambem, porque senti que ele também estava cansado, e que às vezes o maior gesto de amor entre dois desconhecidos é oferecer continuidade. Um amanhã. Ele sorriu na despedida com um brilho nos olhos que não vinha apenas da claridade da noite. Agradeceu com simplicidade, como quem recebe mais do que uma promessa: recebe companhia.

Levantei-me do banco de pedra levando comigo o peso leve daquela conversa. Caminhei de volta já sem pressa. E percebi que, naquele limite entre entusiasmo e cansaço, havia encontrado algo raro - não uma obra para pendurar na parede, mas um instante para guardar dentro do peito, onde a arte e a vida se tocam e se reconhecem.

Regressei ao hotel com o passo lento de quem guarda mistério no bolso. A noite tinha uma cor azul-profunda com reflexos de âmbar, como se alguém tivesse misturado saudade com desejo. Havia magia no ar - não a magia ingénua dos contos, mas aquela mais rara, que nasce quando o viajante reconhece em terras estrangeiras um fragmento íntimo de si mesmo.

Deitei-me com a janela entreaberta. Coloquei os fones para escutar esta musica maravilhosa. A cidade respirava lá fora, quente, enigmática, viva. Sorri sozinho - esse gesto ligeiramente ridículo e absolutamente necessário.

https://www.youtube.com/watch?v=IO0A_JjcJ5w&list=RDIO0A_JjcJ5w&start_radio=1

Amanhã, prometi a mim mesmo, começaria a verdadeira aventura. E conhecendo-me, provavelmente apaixonar-me-ia. Pela cidade, claro. Ou pelo que ela decidisse revelar.

 

Diário de uma viagem – 110 dia – 13/10/2025

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