Quero ver com os teus olhos.

 


Adormeci em Crotone com uma estranha sensação de que a vida - crítica, severa, exigente como uma professora de latim mal-amada - me tinha observado da plateia e, por uma vez, aplaudido de pé. Eu, que tantas vezes tropecei nos próprios argumentos, senti-me absolvido sem julgamento, condenado apenas a continuar. Porque às vezes a maior aventura não é atravessar países, nem colecionar carimbos no passaporte como quem coleciona desculpas. Às vezes, a maior aventura é permitir que alguém nos ensine a ver. E quando abri os olhos, o mundo parecia a minha fome: colorido, intenso, com apetite de viver - e eu disposto a ser devorado.

Depois, o ritual de sempre. Abri a janela. Espreitei o mar. E o mar, insolente, respondeu com uma bafada de ar quente que me empurrou para trás como se dissesse: “Hoje não filosofas, hoje é dia de praia.” Um banho rápido - quase penitência - e segui o aroma do café forte, aquele cheiro que não acorda apenas o corpo, mas também os pecados.

A sala de pequenos-almoços era um palco discreto de elegância improvisada. Mesas alinhadas com toalhas claras, jarros de flores que pareciam ter acordado antes de nós, e a luz da manhã a entrar pelas janelas como se tivesse comprado bilhete VIP. O staff movia-se com uma coreografia quase indecente: passos leves, bandejas equilibradas com a altivez de modelos numa passarela improvisada. Se houvesse aplausos, seriam para eles - deslizavam entre mesas como se o chão fosse feito de cetim e ambição.


E então, o pequeno-almoço. Café escuro e forte. Croissants ainda mornos, a desfazerem-se em camadas frágeis como promessas feitas à beira-mar. Fruta cortada com precisão cirúrgica, exibindo cores que fariam inveja a um pintor renascentista. Queijos suaves, presunto delicado, compotas que brilhavam como joias comestíveis. E eu ali, dividido entre a sofisticação e a gula mais primitiva - porque a honestidade começa no prato.

Mas desta vez não estava sozinho. Nicole sentou-se à minha frente com aquele sorriso que mistura desafio e ternura. Ao lado, a avó Claire - lúcida como um farol antigo, atenta a tudo, inclusive aos silêncios. Nicole mergulhava o croissant no café com uma irreverência quase revolucionária. A avó Claire erguia a sobrancelha com uma elegância crítica: “Isso não se faz, menina.” - “Faz-se sim, avó. É a evolução.”

Eu assistia, cúmplice, enquanto o staff desfilava atrás dela como se estivesse num casting. Um empregado girou sobre si mesmo para evitar uma cadeira mal colocada. Se aquilo não era arte contemporânea, andávamos todos enganados.

Depois, mochila às costas - essa extensão do espírito aventureiro - e lá fomos nós, cidade adentro, em passo lento. Porque viajar com a avó Claire era aceitar que o tempo não é inimigo; é apenas mais velho e merece respeito. Procurámos transportes públicos quando as ruas se tornavam exigentes demais para os seus passos. E havia nisso uma beleza severa: adaptar o ritmo ao amor.


Num desses momentos, Nicole pegou-me na mão com uma naturalidade de proteção que me desarmou. Não foi pedido, não foi anunciado. Foi instinto. A avó Claire observou, afiada como sempre: “Hum… trocaste a minha mão.” Risos. Aqueles risos que não ecoam só na rua, mas dentro do peito.

Nicole estava feliz. Livre. Desportiva na sua simplicidade luminosa: T-shirt branca, calças de ganga rotas, sapatilhas gastas que já tinham visto mais mundo do que muitos diplomatas. Havia nela uma energia crua, quase elétrica, como se o dia tivesse sido inventado apenas para acompanhar o seu passo.

Por um momento suspendemos os passos. O mundo fez o mesmo. Os carros abrandaram o rumor, as árvores inclinaram-se num silêncio cúmplice, e até o vento pareceu esperar instruções. Segurei-lhe a mão. A sua pele tinha o calor exato de quem vive sem pedir desculpa por existir.

Pedi-lhe, num sussurro que era mais desejo do que som, que retirasse os óculos escuros. Queria ver os seus olhos à luz do dia - como se a luz pudesse revelar um segredo que o coração já suspeitava. Ela sorriu. Um sorriso que começava nos lábios e terminava em qualquer lugar infinito dentro dela. “Vais apaixonar-te” - disse, entre risos leves, quase musicais. E então, com um gesto simples, retirou os óculos. Foi como se alguém tivesse aberto uma janela no centro do universo.


Os seus olhos… Não eram apenas azuis. Eram azul-turquesa como mares que nunca foram navegados, como pedras preciosas esquecidas no fundo do tempo. Tinham um brilho que não vinha da visão, mas da alma - uma claridade líquida, profunda, impossível de conter em palavras comuns. Não refletiam o mundo: criavam-no.

Fiquei sem respiração. Literalmente. Como se o ar tivesse decidido fazer uma pausa para também contemplar. Senti um corte doce no peito, um rasgo delicado que não doía - expandia. Naquele instante compreendi algo que ninguém me ensinara: ela não precisava de ver para iluminar. Havia nos seus olhos uma luz que não dependia do sol. Uma luz que nascia de dentro, que atravessava a pele, o tempo, as defesas.

Olhar para ela era como cair em água morna depois de uma vida inteira a atravessar desertos. E ali, parado, com a mão ainda na dela, percebi que quem estava a aprender a ver era eu. Sim, era eu … eu que caminhava entre duas gerações de coragem feminina, tentando fingir que não estava a aprender tudo outra vez. A ver melhor. A sentir melhor. A ser menos crítico e mais inteiro.

Depois, bora… lá fomos nós - três silhuetas imperfeitas contra a luz quente de Crotone - à descoberta de ruas que não precisavam de mapa, apenas de disponibilidade. A cidade abria-se como um livro antigo com páginas salgadas, onde a história da Grécia Antiga se funde, com o azul insolente do Mar Jónico.


Ali, por volta de 530 a.C., instalou-se esse homem que ousou dizer ao mundo que os números cantam e que o universo tem ritmo. Fundou a sua escola e ensinou que a matemática podia ser música, que a política podia ser ética, e que a filosofia, quando bem temperada, é uma forma de amar o invisível. Imagino-o a olhar para nós com ar severo: “Três viajantes sem rumo? Excelente. O teorema da vida começa sempre com um passo mal medido.”

Na Antiguidade, Crotone era célebre pela força dos seus habitantes. O mais famoso foi Milo de Crotona, vencedor de seis Olimpíadas consecutivas. Dizem que carregava um touro às costas; eu, naquele momento, mal conseguia carregar o peso doce da mão de Nicole apertando a minha - como quem agradece a partilha, como quem segura um segredo.

No promontório de Capo Colonna, resta apenas uma coluna dórica do majestoso Templo de Hera Lacinia. Uma entre quarenta e oito. A solidão daquela coluna ensinava mais do que qualquer ruína completa: às vezes, basta permanecer para ser eterno. O vento falava em dialeto - esse idioma que em tantas partes da cidade ainda é primeira língua do coração, enquanto o italiano é quase uma cortesia institucional.


Nicole apertava-me a mão como se agradecesse não a cidade, mas o tempo. E eu, com humor sarcástico para esconder o excesso de sentimento, pensei: “Se Pitágoras nos visse agora, talvez acrescentasse uma variável ao teorema - três corpos, uma tarde e infinitas possibilidades.”

Visitámos o Castelo de Carlos V, fortaleza medieval reconstruída no século XVI para proteger a cidade de invasões marítimas. As muralhas grossas tinham a arrogância das coisas que já sobreviveram a quase tudo. Lá de cima, o mar parecia fingir inocência. Severamente azul. Criticamente belo.

Demorámos mais tempo no Museu Arqueológico Nacional de Crotone. Entre os tesouros da Magna Grécia repousava o “Tesouro de Hera” - ouro e bronze arrancados ao tempo, encontrados em Capo Colonna. Havia algo de irónico naquele brilho antigo: as civilizações passam, mas o desejo de permanecer cintila sempre.

Finalmente, chegou a hora de almoçar. Seguimos a intuição até um restaurante em frente a Le Castella, aquela fortaleza fotogénica plantada numa pequena ilha ligada à costa por uma estreita faixa de terra, como se o mar lhe tivesse concedido um perdão provisório.


O almoço foi simples - e perfeito. Peixe grelhado acabado de sair da brasa, pele estaladiça, carne branca e húmida a desfazer-se sob o toque do garfo. Um fio de azeite, limão espremido com a convicção de quem abençoa. A cerveja italiana, dourada e fresca, escorria pelo copo como um pôr do sol líquido. Rimos. Falámos alto demais. A sobremesa - doce de amêndoas - tinha a textura delicada de uma memória que não quer ir embora. Houve um momento em que o mundo coube inteiro numa mesa de madeira.

À tarde, a praia estendia-se quase em frente ao hotel - um areal vasto, sedutor e tranquilo. O mar estava calmo, com aquele azul que não grita, apenas convida. Era um lugar que não exigia nada, apenas presença. A areia morna envolvia os pés como se reconhecesse cada passo.

Claire sentou-me num banco junto ao areal e tirou o seu livro da bolsa, fiel ao ritual de relaxar lendo como quem respira melhor assim. Nicole resolveu mergulhar. Entrou no mar com coragem e prudência, mas mantinha sempre a minha voz como farol invisível. “Estou aqui”, eu dizia, e o mar, surpreendentemente, respeitava.


Depois caminhámos lado a lado pelo extenso areal, partilhando as nossas histórias de vida. Falei-lhe do meu amor eterno que me acompanhava dentro de uma concha do mar. Ela riu. Não queria acreditar. E eu pensei: realmente é uma história enigmática, que só um coração apaixonado pode entender.

A curiosidade dela cresceu como maré cheia. Insistiu na história da concha. Eu procurava palavras credíveis para uma narrativa que nasceu do impossível. Falei-lhe da carta de amor que lancei ao mar, engarrafada em Constança, à procura de encontrar o destinatário - porque o amor, quando é verdadeiro, não precisa de endereço, precisa de destino.

Ela virou-se para o mar e escutou o som das ondas como quem tenta decifrar uma resposta. Falámos da possibilidade de viajarem comigo no dia seguinte para Catânia. “O nosso destino é Marsala, onde temos uma amiga que nos espera… mas ela pode esperar mais um dia por uma boa causa.” Risos. Aqueles risos que criam cumplicidade mais depressa do que qualquer promessa.


Ao regressarmos ao hotel, jantámos umas sandes no bar - simples, despretensiosas, quase cómicas depois do banquete do meio-dia. A avó Claire precisou de ir descansar. “Hoje não vou tocar, o espetáculo foi ontem e não recebi caché.” – disse Nicole com um sorriso. “Hoje quero dançar… se me levares e colares o teu corpo ao meu. Não sei dançar doutro jeito”. Rui-se colocando a mão no meu ombro.

E dançámos. Sem palco, sem plateia, sem lógica. Apenas o encaixe natural de dois corpos que se reconhecem. As mãos encontravam caminhos que não estavam no mapa. O perfume dela misturava-se com o sal ainda preso à pele. Havia uma eletricidade leve, uma tensão doce, um magnetismo inevitável. O mundo reduziu-se ao compasso dos nossos passos. A dança não era movimento - era confissão.

https://www.youtube.com/watch?v=li1Rz_Z6S_Q&list=RDli1Rz_Z6S_Q&start_radio=1

Quando cheguei ao quarto, só via um retângulo chamado cama. Caí nele como quem regressa de uma expedição ao coração do mistério. Coloquei os fones e deixei que a música me atravessasse como um sedativo luminoso. Cada nota dissolvia o cansaço, cada acorde guardava o dia num lugar seguro da memória.

 

Diário de uma viagem – 113 dia – 16/10/2025

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