Estamos tão cheios de nós… que não sobra espaço para o peso dos outros.
Despertei
em Bari com a certeza absoluta - daquelas que não pedem provas - de que o dia
seria surpreendente. Havia uma ansiedade boa a borbulhar-me por dentro, não
minto. Uma ansiedade elegante, de filme italiano, porque eu sabia: Francesca
não improvisava surpresas, ela encenava momentos.
Cumpri
o ritual como quem respeita um feitiço antigo. Banho relaxante, água morna a
lavar restos de sonhos. Café forte, negro como pecados bem guardados. Pão
quente e estaladiço, preparado para o sacrifício inevitável de derreter
manteiga sem remorsos. A felicidade, às vezes, começa assim: simples, crocante
e um pouco gordurosa.
Na
receção, peguei no mapa da cidade. Olhei-o com atenção fingida - aquele teatro
inútil que fazemos quando queremos parecer distraídos. Depois olhei para o
fundo da sala e… disfarcei. Voltei a colocar o mapa exatamente no mesmo sítio,
como se fosse parte da mobília, e caminhei na direção de Francesca.
Ela
esperava-me com um sorriso sarcástico. E então… wow. Olhei para o lado. Voltei
a olhar para ela. Estava linda. Ela é. É verdade, mas naquele dia havia algo
diferente. Um toque sensual, talvez provocador. Ou melhor: mais desportiva,
mais colorida, mais viva - como se Bari tivesse decidido vestir-se nela.
Mal
cheguei, ela lançou: “Então? Parece que viste a Monica Bellucci.” Olhei-a de
baixo acima - ou seja, olhei-a toda - e respondi: “Estás pronta para derreter
corações nas ruas de Bari.” (risos) . “È colpa dei tuoi occhi!”, disse ela,
rindo-se também, como quem se absolve de um crime delicioso. Depois pegou-me na
mão. Um gesto simples. Definitivo. “Andare.” E fomos.
Enquanto
caminhávamos, Francesca começou a revelar a cidade como quem conta segredos a
um cúmplice escolhido. Em Bari, disse ela, o amor flutua leve como balões
coloridos sobre o azul intenso do Adriático. A cidade convida os apaixonados a
perderem-se sem culpa nas ruelas labirínticas de Bari Vecchia, onde o cheiro da
focaccia acabada de sair do forno se mistura com o som ritmado das nonnas a
moldarem orecchiette na famosa Strada delle Orecchiette. Uma banda sonora
imperfeita, humana, verdadeira.
Aqui,
continuou ela, repousam as relíquias de São Nicolau - o homem real que,
ironicamente, deu origem ao Pai Natal. A Basílica de San Nicola guarda fé,
mistério e uma estranha sensação de que até os milagres precisam de arquitetura
bonita.
E
para os românticos incuráveis - aqueles que fingem não ser, mas são - nada
supera o pôr do sol no Lungomare Nazario Sauro. Um dos passeios marítimos mais
longos e belos da Europa, onde os candeeiros antigos acendem devagar, como
estrelas cansadas a refletirem-se na água. Eu ouvi tudo. Ou quase tudo. Porque,
algures entre as palavras e o som do mar, senti algo a ceder dentro de mim. “Hum…
estou a apaixonar-me” - confessei, meio a sério, meio em queda livre. “Por mim”,
disse Francesca, com um brilho nos olhos e um sorriso perigosamente confiante. “Não…
sim… também”. respondi eu, com as ideias misturadas, o coração desalinhado e a
certeza desconcertante de que aquele dia, afinal, não seria apenas
surpreendente. Seria inesquecível.
Continuamos
a caminhar lado a lado por Bari como duas notas teimosas numa mesma melodia -
às vezes afastadas pelo capricho do vento salgado do Adriático, outras vezes
colados, ancorados na realidade… ou no delírio. Quando chegamos á Estrada das
Orelhinhas, o tempo parecia ter tirado férias e decidido nunca mais voltar. As
mulheres moldavam a massa com dedos sábios, rápidos, quase mágicos - pequenas
conchas de trigo que pareciam guardar segredos familiares, receitas e talvez
fofocas de três gerações. O som dos dedos a bater na madeira era um metrónomo
antigo. Eu pensei que, se algum dia o mundo acabasse, alguém ainda estaria ali,
a fazer orelhinhas e a comentar o clima.
Depois,
seguimos até ao Teatro Margherita, flutuando sobre o mar como uma ideia rebelde
que se recusou a obedecer a uma lei antiga. Achei profundamente romântico -
construir arte sobre água só para contrariar burocratas mortos há séculos.
Pensei que talvez o amor também fosse isso: um edifício improvável, construído
sobre algo instável, e ainda assim absolutamente real.
Depois,
a Catedral de San Sabino. Pedra quente, silêncio antigo, ecos de passos que já
não existem. Ali, senti algo quase sagrado - não religioso, mas humano. Como se
cada parede dissesse: “Tudo passa…, mas alguns momentos insistem em ficar”. O
Castello Svevo observava tudo, imponente, como um avô severo que sabe todos os
segredos da família, mas decide ficar calado por elegância.
Quando
chegámos à Piazza Mercantile, o mundo voltou a ser barulho, copos, gargalhadas
e vida. Sentámo-nos no restaurante conhecido de Francesca - e veio a lendária
Spaghetti all’Assassina. Picante. Queimada. Imperfeita. Perfeita. O molho de
tomate agarrava-se à massa como memória teimosa. A cerveja gelada, dourada,
descia pela garganta como uma promessa simples: a vida ainda vale a pena.
Mas
eu… Eu só pensava na surpresa. O silêncio de Francesca era um labirinto. E eu,
péssimo em labirintos. Sempre fui mais de mapas, horários e listas de
supermercado emocional. Respirei fundo, vesti-me de coragem - que em mim costuma
parecer arrogância educada - e perguntei. E ela riu. Pegou na minha mão como
quem segura um segredo vivo e disse: “Calma… a noite ainda não começou.” E
naquele instante, confesso: O meu cérebro entrou em modo “gato dentro de caixa
misteriosa”.
Mais
uma cerveja. Mais curiosidade. Mais aquela luta interna entre o homem sereno
que acha que a paciência é uma virtude… e o homem que quer saber tudo agora e
que secretamente acha que surpresas são invenções de pessoas sádicas com agenda
organizada.
E
então percebi a ironia deliciosa: eu, que não tolero a impaciência nos outros,
estava ali a tropeçar na minha própria ansiedade como um turista emocional sem
Google Maps. Essa epidemia silenciosa que já não é só temperamento - é clima, é
atmosfera, é quase gravidade social.
Vivemos
numa era onde o tempo corre como se tivesse medo de nós. Onde o digital nos
treinou a acreditar que esperar é falhar. Onde um carregamento de três segundos
parece uma crise existencial. Onde sentimos emoções como quem troca de música -
próxima faixa, próxima sensação, próximo escape.
E,
no entanto, os sentimentos… esses são analógicos. Têm cheiro, têm atraso, têm
eco. Não obedecem ao clique. Nas relações, criámos a fantasia perigosa de que o
coração devia funcionar como Wi-Fi - ligação instantânea, sinal forte, sem
interferências emocionais. Mas não. O amor às vezes entra em modo avião. A dor
faz buffering. E a saudade… essa nunca aceita atualização. Essa pressa
emocional faz com que muitos tentem resolver o mal-estar como quem fecha
notificações: ignorar, silenciar, apagar. Mas emoções ignoradas são como cartas
não abertas - continuam a existir, só ficam mais pesadas.
Na
educação, a impaciência tornou-se um dos grandes fantasmas modernos. Porque
aprender tem o ritmo das raízes, não dos downloads. Educar exige presença,
repetição, falhas, respirações longas. E ninguém avisa que ensinar alguém é, na
prática, aceitar andar ao passo de quem ainda está a descobrir como andar. E eu
sei - muitas vezes não é falta de amor. É cansaço. É a mente em modo
sobrevivência. Pais e educadores carregam expectativas, contas, noites mal
dormidas e memórias de infâncias que ainda sussurram dentro deles. Às vezes a
impaciência não é dureza. É exaustão disfarçada de voz alta.
E
depois existe o território mais cruel: A impaciência no cuidar. Cuidar de um
idoso é aprender que o tempo pode tornar-se viscoso. Que cada gesto demora. Que
cada repetição tem história. Que o silêncio também comunica. Mas há uma carga
invisível: isolamento, peso financeiro, noites fragmentadas, o esquecimento das
próprias necessidades. E quando o corpo e a mente já não aguentam mais, a
paciência evapora - não por falta de amor, mas por excesso de desgaste.
E
quando chega a hora de escutar… Ah. Aí estamos todos na mesma fila. Alguém
fala, e nós… esperamos a nossa vez de falar. Ou pior: esperamos que termine. O
clássico cenário humano. Alguém começa a desfiar um problema e o nosso cérebro
já está a ensaiar respostas, a verificar relógios invisíveis, a procurar
atalhos narrativos. Sentimos aquela comichão social: “Pois, eu sei.” “Comigo
foi pior.” Como se a dor do outro fosse um obstáculo entre nós e o próximo
compromisso. A escuta verdadeira exige algo que hoje parece revolucionário:
Silêncio. Dez minutos de atenção plena, hoje, parecem uma maratona emocional. Mas
o desabafo do outro não é erro de sistema. É onde a humanidade acontece. A
nossa impaciência revela, às vezes, algo triste: estamos tão cheios de nós… que
não sobra espaço para o peso dos outros.
E
foi depois disso tudo que olhei para Francesca. Os olhos dela brilhavam - não
com luz, mas com água contida. Talvez uma lágrima suspensa, como se o universo
tivesse carregado “pausa”. Abraçou-me com uma eternidade. E há abraços que não
apertam - traduzem.
Segurou-me
a cabeça com uma delicadeza que parecia magia antiga e segredou: “Esta noite
vais comigo ao ensaio no Teatro Kismet.” Retribui o seu abraço, com outro. Talvez
um beijo molhado, numa cumplicidade com o seu olhar. Não sei bem. Já estava
escuro … Depois caminhámos devagar, como quem decide desobedecer ao tempo. Parámos
num quiosque de rua e roubámos ao mundo qualquer coisa quente, salgada,
imperfeitamente deliciosa - como a vida devia ser.
E
depois… magia. Afundei-me numa cadeira ao lado de um convidado especial e
deixei-me perder na arte de fingir verdades até elas se tornarem reais. Francesca
atravessou o palco e deixou de ser quem tinha caminhado comigo o dia inteiro. Mas
manteve tudo o que era perigoso: A elegância. A beleza. A sensualidade suave -
aquela que não grita, só respira. E acrescentou algo imprevisível: talento em
estado selvagem.
Quando
terminou, correu até mim com aquele sorriso de quem acabou de atravessar outro
universo. “Gostaste?”, “Adorei. Estou apaixonado.” Ela inclinou a cabeça, meio
séria, meia brincadeira: “Por mim?” Sorri. Abraço demorado. Respiração
sincronizada. “Pelas duas.”
Depois
veio a parte que ninguém ensina a fazer bem: A despedida. O inevitável teatro
do “fica bem”, “manda mensagem”, “vemo-nos”. O bla, bla, bla, que tenta
domesticar o que nunca será simples.
Cheguei
ao hotel com a sensação estranha de que aquele dia já era memória importante. Daquelas
que um dia vão ser contadas com vinho, nostalgia e exageros honestos. A noite
já era adulta. Densa. Cúmplice. E, no dia seguinte, esperava-me outra viagem.
Coloquei os fones como sempre e escutei esta musica incrível;
https://www.youtube.com/watch?v=_SbpIOz6H8g&list=RD_SbpIOz6H8g&start_radio=1
Lecce
chamava - com ruas de pedra, segredos solares e histórias que ainda não sabiam
que me iam encontrar. E eu adormeci com uma certeza estranhamente tranquila: talvez
a paciência não seja esperar. Talvez seja… ficar. Mesmo quando tudo dentro de
nós quer correr.
Diário
de uma viagem – 109 dia – 12/10/2025









Contigo, em cada cidade, aprendemos muito mais do que história. Não ficas apenas pelos nomes dos reis ou pelas datas das batalhas; tu falas-nos da vida que resiste no detalhe, do modo como o vento sopra numa ruela estreita ou do brilho nos olhos de quem nos recebe. Ensinas-me que viajar é, acima de tudo, um exercício de sensibilidade e de humanidade.
ResponderEliminarMais um texto absolutamente fascinante, Maurício! Os teus textos não são meros relatos de viagens, são um convite a sentir, a abrandar e a ficar. Gosto muito!
ResponderEliminar