Calma, rapaz, ainda agora começámos...

 


Quando cheguei finalmente ao meu quarto… será que cheguei mesmo? Ainda hoje não tenho total certeza. Há chegadas que não se medem em chaves rodadas na fechadura, mas no peso suave do corpo quando a alma pousa. Adormeci embalado por uma música enamorada, dessas que entram diretamente no peito, e nesse limiar entre o sono e o sonho percebi uma verdade simples e cruel: algumas cidades não se visitam. Acontecem-nos. Como um acidente bonito. Como um amor mal explicado.

Despertei no mesmo sítio - ou talvez noutro muito parecido - junto ao Mar Tirreno. O mar estava ali, eterno e indecente na sua beleza, e Nápoles acordava comigo, complicada e apaixonante como só ela sabe ser. O sol nascia com aquele dourado preguiçoso, quase sarcástico, como se dissesse: calma, rapaz, ainda agora começámos. Eu, ainda meio dentro do sono, preparava-me para uma nova viagem rumo a Bari quando o telefone tocou.

A voz do outro lado era suave, filtrada, sensual - daquelas vozes que não falam, tocam. Como a música que sai do violino por entre dedos macios que sabem exatamente onde pressionar. Era Martina. “Buongiorno.” Só isso já bastava para melhorar qualquer dia. Mas ela continuou, generosa: “Tenho boas novidades para ti. Uma amiga em Bari disponível para te mostrar a cidade. Chama-se Francesca. Também, como eu, está ligada às artes. É atriz. Trabalha no grupo de teatro Kismet. Estivemos a falar em visitar Portugal um dia. Tem um coração enorme…, mas cuidado - é uma mulher linda e divorciada. (risos)


Desliguei o telefone e fiquei a olhar para o nada, com um sorriso estúpido. Wow. O dia mal tinha começado e já prometia histórias. Mas o tempo, esse velho impaciente, empurrou-me para a realidade. Um banho refrescante - sem pormenores, prometo - um café forte como um murro carinhoso, pão quente e estaladiço a flertar descaradamente com a manteiga. Malas no carro. Música ritmada, daquelas que acordam até as ideias adormecidas. E Nápoles ficou para trás, no retrovisor, a acenar com o seu caos elegante, como uma amante que sabe que vai ser lembrada.

A estrada abriu-se diante de mim como um poema longo. O dia estava agradável, algumas nuvens brincavam de esconder o sol, e a paisagem desenrolava-se com uma calma quase provocadora. Casas dispersas, pequenas povoações que pareciam cochichar histórias antigas quando eu passava. Varandas com roupa a secar como bandeiras domésticas, velhos sentados à sombra a discutir o mundo, oliveiras alinhadas como pensamentos persistentes. Conduzir ali era menos deslocação e mais contemplação - um exercício de presença.


Sob o sol cálido da Irpínia, onde o tempo parece sussurrar segredos entre as colinas, ergue-se Grottaminarda. Não é apenas uma cidade; é um convite aos sentidos. Um cenário onde o romantismo se funde com a pedra antiga, criando uma atmosfera que seduz antes mesmo do primeiro toque. Gostei da cidade à primeira vista, o que é raro - sou exigente, desconfiado e facilmente entediado, três qualidades pouco românticas, admito.

Caminhar por Grottaminarda é como percorrer as curvas de um corpo cheio de memórias. O olhar perde-se na imponência do Castello d’Aquino, cujas muralhas guardam a nobreza de outros séculos e convidam a momentos de partilha íntima sob a sombra da sua torre. A visita transforma-se em ritual na Igreja de Santa Maria Maggiore, onde a arte sacra e o silêncio oferecem o contraponto perfeito à vibração da vida moderna que corre nas ruas estreitas. Ali, o passado não está morto; respira. Quente. Vibrante. Um pouco vaidoso, como quem sabe que envelheceu bem.


Deixei-me depois guiar pelo instinto até um refúgio de modernidade e frescura. Um restaurante onde o staff jovem me recebeu com sorrisos abertos e uma energia contagiante, quase cúmplice. O cenário estava montado. E então veio o melhor da festa: uma carne deliciosa, selada com a precisão de uma amante experiente, que se desfaz na boca em explosões suculentas de sabor. Cada corte era uma carícia, cada garfada uma celebração da terra e da paciência. A acompanhar, uma cerveja sem álcool - disciplina é também uma forma de sedução - porque ainda havia estrada pela frente e eu queria manter a mente lúcida para saborear tudo.

E como nenhum encontro fica completo sem doçura, chegou a sobremesa. Um doce da casa, reinventado, leve como um beijo roubado numa tarde de verão. Nesse instante percebi que o verdadeiro luxo não mora em excessos, mas nessa combinação rara de um bom prato, um olhar profundo e a beleza eterna do sul de Itália.


Mas Grottaminarda não era o fim do capítulo. A estrada chamava novamente, e Bari esperava-me mais à frente. O percurso seguiu elegante, suave, quase respeitoso. A paisagem foi mudando aos poucos: casas coloridas surgiam como pinceladas soltas, flores salpicavam os campos e as bermas da estrada, como se alguém tivesse decidido que a beleza também precisava de exagerar um pouco. O céu começava a escurecer devagar, sem pressa, cúmplice.

Quando cheguei a Bari, o céu já estava estrelado, prenúncio claro de que o dia seguinte seria insolado, luminoso, promissor. O meu hotel - como sempre - ficava no “tacão da bota”, com vista para o Adriático. Abri a janela. O mar respirava lá em baixo. E eu também. Sabendo, com uma certeza quase mágica, que a viagem ainda agora estava a começar.

O hotel de charme, banhado pela brisa marítima, envolveu-me numa atmosfera de puro romance e serenidade, onde cada detalhe parecia ter sido desenhado para suspender o tempo e obrigá-lo a sentar-se calmamente num sofá de linho claro. A paleta de cores suaves da decoração - cremes, areia, marfim, apontamentos de azul lavado - harmonizava-se com a luz da Puglia, criando um ambiente etéreo, quase suspenso entre sonho e memória.


Mais do que a estética, destacava-se o staff. Não apenas eficiente - isso seria banal - mas portador de uma combinação rara de simpatia, charme e beleza natural, daquelas que não intimidam, apenas acolhem. Faziam-me sentir não cliente, mas um convidado antigo que tinha demorado demasiado tempo a regressar.

O meu quarto era um hino ao minimalismo luminoso. Grandes janelas convidavam a claridade a entrar. O espaço respirava tranquilidade e sofisticação, como um segredo sussurrado ao ouvido. O ar cheirava a algodão limpo, madeira clara e promessa.

Logo à chegada, um detalhe personalizou tudo: na receção aguardava-me um recado com o contacto da Francesca. Um convite imediato para desvendar os segredos da cidade - e, talvez, outros segredos que as cidades guardam dentro das pessoas.

Depois de um breve telefonema, Francesca - amiga da Martina, cujos gestos pareciam carregar sempre a elegância silenciosa de um palco invisível - encontrou-me para uma noite que rapidamente ganhou contornos de memória inevitável.


Francesca era elegante. Simples, mas de uma simplicidade rara - aquela que só nasce da segurança interior. Sensível no olhar, com uma voz doce e romântica, daquelas que parecem ter sido feitas para contar histórias- Falava devagar, como quem respeita o peso das palavras. E sorria com uma melancolia luminosa, como se soubesse que a felicidade é sempre um empréstimo temporário da vida.

Depois fomos por aí… entrámos para jantar num labirinto de pedra de Bari Vecchia, onde o tempo parece não ter pressa - talvez porque ali ninguém o obriga a correr atrás de ambições vazias ou reuniões inúteis. Sentámo-nos num pequeno refúgio.  A luz das velas dançava nas paredes de pedra antiga como se tentasse lembrar ao mundo que a eletricidade foi, afinal, um erro de cálculo romântico. No ar, uma melodia de jazz -  ou talvez música clássica italiana - criava o pano de fundo perfeito para uma conversa que fluiu sem esforço, entre confidências sobre o teatro, as tradições da Puglia… e outras coisas mais subtis, mais humanas.


Sobre a mesa, a protagonista foi uma carne deliciosa, preparada com a simplicidade magistral da culinária pugliese - aquela que sabe que a perfeição não precisa de enfeites. A acompanhar, um tinto italiano, servido com todo o rigor. Vivo. Cada gole parecia limpar a alma e confundir ligeiramente o juízo - o que, convenhamos, é muitas vezes o início das melhores conversas.

O tempo dilatava-se à medida que os copos se esvaziavam e as confidências aumentavam. Agradeci-lhe a gentileza com que se dispôs a acompanhar-me na descoberta da cidade. E foi aí que entrámos num território mais sério, mais humano, menos confortável: promessas. Nem sempre cumprimos o que prometemos. Muitas vezes as promessas não passam de encenações sociais - pequenas peças de teatro mal ensaiadas para manter aparências.


Hoje, cada vez mais, as pessoas prometem o que sabem, desde o primeiro segundo, que não vão cumprir. Prometem encontros que nunca acontecerão. Chamadas que nunca serão feitas. Apoios que evaporam ao primeiro incómodo. É como se a palavra tivesse perdido densidade, peso, honra. E isso dói.

Há uma tristeza silenciosa nesta desonestidade moderna. Uma vergonha disfarçada de normalidade. Uma falta de carácter mascarada de “vida corrida”. Nas reuniões de amigos, família, conhecidos - e nas redes sociais, esse grande palco de promessas cosméticas - tudo se tornou performativo. Diz-se “conta comigo” como quem diz “gosto da tua foto”. Promete-se presença como quem distribui folhetos publicitários: sem intenção real, apenas para parecer bem. As promessas tornaram-se moeda falsa. E o pior não é enganar os outros - é habituarmo-nos a viver assim.

Francesca escutava em silêncio. E naquele silêncio havia respeito, havia entendimento… havia uma espécie de tristeza partilhada, bonita na sua honestidade. O clímax romântico chegou com uma sobremesa quase divina: um semifreddo de amêndoa e um pasticciotto desconstruído com creme de limão - onde o equilíbrio perfeito entre doçura e frescura selou a cumplicidade da noite. Não foi apenas sobremesa. Foi assinatura emocional.


Depois, caminhámos sob as estrelas. O Lungomare Nazario Sauro abriu-se diante de nós como um poema longo e salgado. Caminhámos lado a lado. O Adriático batia ritmicamente nas rochas - como um coração antigo. O céu, generoso em estrelas, parecia demasiado grande para caber numa única vida. A brisa noturna trazia cheiro a sal, liberdade e promessas - dessas raras, que não precisam de ser ditas para serem verdadeiras.

Aquela cidade, com a sua mistura de história e mar, tinha acabado de se tornar eterna dentro de mim. Despedi-me de Francesca com a promessa de nos encontrarmos no dia seguinte para continuar na descoberta - e uma surpresa que ela tinha reservado para mim, dita com aquele sorriso enigmático que só os atores e as pessoas muito sensíveis sabem fazer.

Regressei ao hotel quando a cidade já dormia. O dia seguinte prometia ser surpreendente e emotivo. Coloquei os fones e escutei a música “palavras, palavras, palavras” que se deveria traduzir por “promessas, promessas, promessas” – promessas que nunca são para cumprir quando as palavras não tem conteúdo.

https://www.youtube.com/watch?v=FEWBWvHVcfg&list=RDFEWBWvHVcfg&start_radio=1

Adormeci com a certeza de que seria uma noite com significado e profundamente relaxante. O quarto envolvia-me como um spa invisível: lençóis frescos, luz quente, silêncio macio. O corpo rendia-se. A mente desacelerava. A alma… finalmente exalava.

E entre sonho e vigília, senti apenas isto: paz, calor, promessa de vida…e aquele conforto raro de quem, por algumas horas, pertence exatamente ao lugar onde está.

 

Diário de uma viagem – 108 dia – 11/10/2025

Mensagens populares deste blogue

Como é frágil a esperança humana quando tenta encontrar atalhos para a felicidade!

Descobrir os sentimentos de uma mulher com uma natureza apaixonada, intensa e misteriosa, é o mesmo que resolver o cubo Rubik!

Mas antes de conquistar Budva, eu precisava de ser conquistado…